A TRAIÇÃO QUE TIROU ROMÁRIO DA COPA DE 2002

A TRAIÇÃO QUE TIROU ROMÁRIO DA COPA DE 2002

Romário, o baixinho, um dos maiores artilheiros que o futebol mundial já viu. O gênio das pernas curtas que decidia jogos com faro de gol insano, herói da Copa de 1994, bola de ouro, artilheiro implacável no Barcelona, no PSV, no Flamengo, no Vasco. Um monstro dentro da área que fazia o Brasil inteiro sonhar.

 E esse mesmo ídolo foi barrado da Copa do Mundo de 2002 de forma brutal. A seleção campeã do mundo, o pentacampeonato sem Romário. O que o Brasil inteiro viu como uma injustiça esportiva escondeu, na verdade a maior traição do futebol brasileiro moderno. Hoje você vai descobrir o que realmente aconteceu nos bastidores daquela convocação.

 As promessas quebradas, os telefonemas que nunca foram atendidos e a facada pelas costas que o baixinho nunca perdoou. Mas antes, irmão, você precisa entender o tamanho do monstro que estava sendo deixado de fora. Romário de Souza Faria. Nascido no dia 29 de janeiro de 1966, numa casa humilde do bairro da Penha, zona norte do Rio de Janeiro.

 Filho de Edevair de Souza Faria, operário da Light, e de Berenice de Souza Faria, dona de casa. Família simples, católica, trabalhadora. O pai Edevair saía de casa 6 da manhã. Todos os dias trabalhava na manutenção elétrica da companhia de luz. Voltava 8 da noite, ganhava um salário mínimo e meio.

 Não dava para alimentar quatro filhos, mas o Edever era homem de não se entregar. Fazia bico de eletricista nos fins de semana. Consertava geladeira, instalava chuveiro, trocava fiação de casa de vizinho. O dinheiro extra pagava o arroz, o feijão e o pão francês da semana. O pequeno Romário, desde os 5 anos, jogava bola descalço nas ruas de terra batida da Penha.

 Era magrelo, baixinho, mais franzino que os outros meninos do bairro, mas tinha uma coisa que ninguém mais tinha, um instinto assassino dentro da área. Pegava a bola de meia que os moleques faziam com jornal velho enrolado em barbante e finalizava com violência. chutava com as duas pernas, esperava o goleiro se mexer, dava um toque seco e comemorava igual adulto.

 Aos 7 anos, já era artilheiro dos rachões do fim de semana. Aos entrou nas categorias de base do Olaria Atlético Clube, time pequeno da zona norte carioca. Aos 11 já estava no juvenil, aos 15 estreou no profissional. 16 de maio de 1983, Romário tinha 17 anos, fez gol no primeiro jogo, fez gol no segundo, no terceiro, no quarto.

 Terminou o ano de 1983 com 21 gols pelo Olaria. Em 1984, foi vendido para o Vasco da Gama. Valor da transferência, o equivalente a 20.000 cruzeiros da época. Uma mixaria, viu? Mas mudou a vida do Garoto da Penha para sempre. No Vasco, Romário explodiu. Em [música] 1985, aos 19 anos, foi artilheiro do campeonato carioca com 19 gols.

 Em 1986, artilheiro de novo com 21. Em Nintendin 87, campeão carioca e artilheiro com 25 gols. A torcida vascaína enlouqueceu com aquele menino baixinho de 1,67 cm, que driblava zagueiro como coni e metia a bola no ângulo com uma frieza de veterano. O Brasil inteiro começou a conhecer o baixim. Em 1988, o PS PIM Andhoven da Holanda comprou Romário por 15 milhão e de dólares.

 Na época foi uma das maiores transferências de um jogador brasileiro. Romário se mudou para Europa, deixou o Rio, a família, os amigos, levou só uma foto do pai Edevair, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e a camisa número 11 do Vasco, a mesma que tinha usado para marcar 100 gols pelo clube. PSV.

 Romário virou lenda europeia. Temporada 1988 e 1989, 32 gols. Temporada 1989 e 1990, 23 gols. Temporada 1990 e 1991, 26 gols. Campeão holandês três vezes seguidas. artilheiro do campeonato duas vezes. A imprensa holandesa o chamava de pequeno demônio. Os zagueiros tinham medo dele. Os goleiros suavam frio quando viam aquele corpo baixo, aquela explosão, aquele drible de corpo.

 E em 1993, o Barcelona pagou 6 milhões de dólares para tirar Romário do PSV. foi a maior transferência de um brasileiro até aquele momento. Romário chegou ao Campinou em julho de 1993. Johan Cruff, o técnico lendário do Barcelona, botou ele de titular na primeira rodada do Campeonato Espanhol. Romário fez gol, na segunda rodada fez dois, na terceira mais um.

 Terminou a temporada 1993 e 1994 com 30 gols, campeão espanhol, eleito o melhor jogador da La Liga. Mas o que marcou Romário naquele ano de 1994 não foi o Barcelona, foi a Copa do Mundo dos Estados Unidos. Seleção brasileira comandada por Carlos Alberto Parreira. Escalação com Tafarel no gol, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Branco na defesa.

 Dunga, Mauro Silva, Izinho no meio, Romário e Bebeto no ataque. Guarda esse dado, irmão, porque essa dupla Romário e Bebeto foi a alma daquela Copa de 94. Primeiro jogo, Brasil 1, Rússia 0, gol do Romário. Segundo jogo, Brasil 3, Camarões 0, um gol do Romário. Terceiro jogo, Brasil 1, Suécia 1. Romário não marcou, mas deu assistência. Oitavas de final, Brasil 1, Estados Unidos 0.

 Gol do Bebeto, mas Romário criou a jogada. Quartas de final, Brasil 3, Holanda 2. Romário fez dois gols, um deles com uma finalização de primeira que entrou no ângulo, impossível para o goleiro. Semifinal, Brasil 1, Suécia 0. Gol do Romário aos 79 minutos do segundo tempo. Final Brasil 0, Itália 0. Jogo empatado foi para os pênaltis.

 Brasil campeão do mundo. Romário, eleito o melhor jogador da copa. Bola de ouro da FIFA naquele mesmo ano, artilheiro do torneio com cinco gols. O baixinho virou Deus no Brasil. A imprensa brasileira fez matéria de capa. A Globo transmitiu a final para 67 milhões de brasileiros. Quando Romário levantou a taça no estádio Rose Bazadena, Califórnia, o Brasil inteiro parou.

 O pai Evair, no bairro da Penha, a assistiu pela televisão e chorou durante 20 minutos. A mãe Berenice acendeu uma vela para Nossa Senhora. Romário voltou ao Brasil como herói nacional. Foi recebido no aeroporto por mais de 20.000 pessoas. O Vasco organizou uma festa no estádio São Januário. 60.000 1 torcedores foram ver o baixinho dar a volta olímpica com a taça.

 Aquele foi o auge da carreira dele. Mas guarda esse dado também, irmão, porque 8 anos depois esse mesmo ídolo ia viver a maior humilhação da vida. Romário voltou para o Barcelona depois da Copa de Nin 4, mas a relação com o técnico Johan Cruff começou a rachar. Romário não gostava de treinar forte, chegava atrasado nos treinos, saía para a balada, ia para a praia, faltava compromisso do clube.

 Cruff, um perfeccionista, um técnico disciplinador, não aceitava aquilo. As brigas começaram em 1995. Romário foi vendido para o Flamengo. Valor da transferência 4 milhões e meio de dólares. Foi uma volta para casa. Romário tinha saído do Vasco, mas agora chegava ao maior rival. A torcida vascaína se sentiu traída, mas a torcida rubro negra recebeu ele como rei.

 No Flamengo, Romário fez 99 gols em três temporadas. foi campeão carioca em 1996, artilheiro do Brasileirão, ídolo absoluto da Gávia, mas em Nintendo 99, aos 33 anos, decidiu voltar para o Vasco. Foi uma transferência polêmica. Torcida do Flamengo xingou ele de traidor, mas o Vasco pagou 3 milhões de dólares e o Romário vestiu de novo a camisa cruzmaltina.

 No Vasco, de 1999 a 2002, Romário voltou a ser artilheiro. Temporada 2000 marcou 52 gols. Temporada 2001 marcou 43. Aos 35 anos, o baixinho ainda era mortal. Esperava o zagueiro vacilar, dava um toque de corpo, finalizava com categoria. A torcida vascaína enlouquecia. A imprensa brasileira começou a falar que o Romário merecia estar na Copa de 2002, a Copa da Coreia do Sul e do Japão.

 O Brasil tinha acabado de contratar Luís Felipes Colari, o Felipão, como técnico da seleção. Felipão era gaúcho, direto, objetivo, conhecia futebol de verdade. Tinha comandado o Grêmio, a seleção do Kuwait, o júbilo e o ata do Japão. Era respeitado no Brasil inteiro. E quando assumiu a seleção em junho de 2001, um dos primeiros nomes que a imprensa perguntou foi o do Romário.

 Felipão respondeu numa entrevista coletiva do dia 12 de junho de 2001 na sede da CBF no Rio de Janeiro. Disse literalmente com aquela voz grossa dele, olhando direto para as câmeras. Romário é um grande jogador. Eu vou observar ele. Vou dar chance para quem estiver bem. Se ele mantiver o ritmo, ele entra nos meus planos.

 Guarda essa frase, irmão, porque ela foi a primeira promessa pública que Felipão fez para o Romário. O baixinho, naquela mesma semana deu uma entrevista para o jornal Lance, dizendo que confiava no Felipão, que ia trabalhar duro e que queria muito vestir a amarelinha de novo numa Copa do Mundo. Romário tinha jogado a Copa de 94 e de 98, mas em 98 na França tinha sido um desastre.

 O Brasil perdeu a final para a França por 3 a 0. Ronaldo passou mal antes da final. A seleção desabou. Romário jogou mal o torneio todo, voltou para o Brasil frustrado e agora em 2002, com 36 anos, ele queria se redimir, queria jogar uma última copa, queria se despedir da seleção como herói. Durante o segundo semestre de 2001 e o primeiro trimestre of2, Romário fez de tudo para chamar atenção.

Marcou gol atrás de gol pelo Vasco. No Campeonato Brasileiro de 2001, fez 21 gols. No campeonato carioca de 2002, foi artilheiro com 15 gols. A torcida vascaína gritava o nome dele. A imprensa cobrava a convocação. Mas Felipão, nas convocações amistosas de 2001 e início de 2002, não chamava o Romário.

 Chamava Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Edilson, mas não o baixinho. A frustração do Romário começou a crescer. Ele dava entrevista, falava que estava pronto, que merecia uma chance, mas a resposta de Felipão era sempre a mesma: técnica, fria, calculada. Dizia que estava observando, que ia decidir na hora certa. Março de 2002.

 Faltavam dois meses para a convocação final. Romário ligou direto para o Felipão. Conseguiu o número do celular dele através de um dirigente da CBF. A conversa durou 15 minutos. O que foi dito naquele telefonema, só os dois sabem. Mas uma semana depois, numa entrevista para a TV Globo, Romário falou com um sorriso no rosto, meio aliviado, que tinha conversado com o Felipão e que estava confiante.

 Falou literalmente. Conversei com ele, ele me ouviu. Estou tranquilo. Vou continuar fazendo meu trabalho no Vasco e esperar a decisão dele. A família do Romário naquele momento estava esperançosa. Esposa Mônica Santoro, com quem Romário tinha se casado em 2000, disse numa entrevista posterior que o marido tinha voltado daquela conversa animado, que tinha comentado em casa que o Felipão prometeu dar uma chance.

 “Guarda esse dado, irmão. Prometeu dar uma chance.” Essa frase foi repetida pelo Romário várias vezes nos anos seguintes. Ele dizia que o Felipão naquela conversa de março teria dito algo parecido com: “Fica tranquilo, Romário. Você está nos meus planos. Só preciso ver umas coisas antes de bater o martelo. O Romário interpretou aquilo como uma promessa.

Voltou para o Vasco com confiança renovada. No mês de abril de 2002, marcou sete gols em cinco jogos. A torcida vascaína enlouquecia. O estádio São Januário lotava. A imprensa esportiva botava o Romário como favorito para ser convocado. Mas nos bastidores uma outra história estava sendo armada. Uma história que o Romário só ia descobrir duas semanas depois, quando a lista final fosse divulgada.

 Abril de 2002, sede da CBF, no bairro da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Felipão reuniu a comissão técnica. Estavam presentes o auxiliar técnico Flávio Murtosa, o preparador físico Paulo Paixão, o médico José Luiz Runco e o coordenador técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, campeão do mundo como técnico em 1994.

 A reunião durou 3 hours. O tema principal era a convocação final para a Copa do Mundo. A lista tinha que ter 23 jogadores, três goleiros, sete defensores, sete meio-campistas e seis atacantes. A dúvida estava justamente no ataque. Ronaldo era titular absoluto, Rivaldo também. Ronaldinho Gaúcho estava confirmado. Edilson era opção.

 Luizão estava bem no Erta Berlim da Alemanha. e sobrava uma última vaga, a vaga que teoricamente seria do Romário. Mas naquela reunião de abril, segundo relatos que vazaram anos depois, Felipão teria dito para a comissão técnica uma frase que mudou tudo. A frase foi: “Romário é craque, mas eu não posso levar ele.

 Ele vai dar problema no grupo, ele não aceita banco. Ele vai desestabilizar o vestiário se não for titular. E eu preciso de um grupo forte, unido, sem estrela, que se ache maior que o time. Guarda essa frase, irmão, porque ela foi a sentença de morte da Copa de 2002 para o Romário. E o mais doloroso é que a decisão não foi técnica, foi política, foi uma escolha de gestão de grupo.

 Felipão tinha medo de que o Romário, com aquele temperamento forte, aquela personalidade explosiva, virasse um problema se ficasse no banco. preferiu deixar ele fora. A comissão técnica concordou. Carlos Alberto Parreira, que tinha sido técnico campeão com o Romário em 1994, também concordou. Anos depois, em 2010, numa entrevista para o programa Roda Viva da TV Cultura, Parreira foi perguntado sobre aquela decisão.

 Ele disse literalmente: “Foi uma decisão difícil. Romário era um grande jogador”. Mas naquele momento o Felipão achou que para a montagem do grupo era melhor não levar e eu concordei com ele. Tinha que respeitar a decisão do treinador. Parreira não falou nada sobre promessa, não falou nada sobre a conversa do Felipão com o Romário em março, mas a sensação que ficou foi clara.

 O Romário tinha sido enrolado. 8 de maio de 2002, quarta-feira, 10 horas da manhã, a CBF convocou uma entrevista coletiva na sede, na Barra da Tijuca. Felipão ia anunciar a lista dos 23 convocados para a Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. A imprensa brasileira inteira estava presente. Mais de 100 jornalistas, câmeras da Globo, da Record, da Bandeirantes, do Sport TV, repórteres de rádio, de jornal impresso, de internet, todo mundo esperando ouvir os nomes.

 Felipão entrou na sala de imprensa com a lista na mão, sentou na mesa principal, pegou o microfone e começou a ler os nomes. Iros Marcos, Dida, Rogério Ceni, Defensores Cafu, Lúcio, Edmilson, Roque Júnior, Anderson Polga, Luizão, Roberto Carlos. Meio-campistas: Gilberto Silva, Cléberson, Ricardinho, Juninho Paulista, Vampeta, Denilson, Kaká, Atacantes, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Edilson, Luizão.

 O nome do Romário não foi lido. A sala de imprensa ficou em silêncio por 3 segundos, depois explodiu em burburinho. Os jornalistas começaram a gritar perguntas. Felipão, por que o Romário ficou fora? Ele não estava nos seus planos. Você conversou com ele antes?” Felipão respondeu com voz firme, olhando para as câmeras sem demonstrar emoção.

 Disse literalmente: “A decisão é técnica. Eu escolhi os jogadores que eu acho que vão me dar o melhor rendimento. O Romário é um grande jogador, mas neste momento eu optei por outros nomes. A entrevista durou mais 20 minutos. Felipão não deu mais detalhes, não falou da conversa de março, não falou das promessas, não falou de gestão de grupo, disse apenas que a decisão era técnica e encerrou a coletiva.

 Naquele mesmo dia, 8 de maio, 3 horas da tarde, o Romário estava em casa, em São Conrado, zona sul do Rio de Janeiro. Tinha assistido a convocação pela televisão. quando ouviu a lista completa, sem o nome dele, levantou do sofá, foi até o quarto, trancou a porta e ficou sozinho durante quase 2 horas. A esposa Mônica, contou numa entrevista, anos depois, que nunca tinha visto o marido chorar daquele jeito.

 Ele não gritou, não quebrou nada, só chorou em silêncio, sentado na beirada da cama com a cabeça entre as mãos. Quando saiu do quarto, ligou para um amigo jornalista e falou uma única frase. A frase foi: “Eu fui enganado”. Aquela frase vazou para a imprensa na mesma noite. No dia seguinte, 9 de maio, os jornais brasileiros estamparam manchete.

 O Globo, Romário, se sente traído por Felipão. O lance, baixinho diz que foi enganado. A Folha de São Paulo. Romário não aceita exclusão e acusa técnico. No dia 10 de maio, sexta-feira, o Romário deu a primeira entrevista pública depois da convocação. foi para o programa Bom Dia Brasil da Rede Globo. A entrevista foi ao vivo, direto do estúdio do Rio de Janeiro.

 O repórter Tino Marcos fez a primeira pergunta. Romário, como você se sentiu ao ver que não foi convocado? O Romário respirou fundo, olhou direto para a câmera e respondeu com voz calma, mas firme. Disse literalmente: “Eu me senti traído. O Felipão conversou comigo em março, me disse que eu estava nos planos dele, pediu para eu continuar trabalhando, que ele ia me dar uma chance.

 Eu acreditei, trabalhei duro, fiz gol atrás de gol e na hora H ele me deixou de fora. Isso não é decisão técnica, isso é sacanagem. A palavra sacanagem ecoou no Brasil inteiro. A entrevista foi repercutida em todos os jornais, em todas as rádios, em todos os programas esportivos. A torcida brasileira se dividiu. Metade apoiava o Romário.

 Dizia que ele tinha razão, que merecia estar na copa, que Felipão tinha enganado ele. A outra metade apoiava o Felipão. Dizia que o técnico tinha autoridade para escolher quem quisesse, que Romário era velho, que não aguentava mais o ritmo de uma Copa do Mundo. Mas o que ninguém sabia naquele momento, o que só ia ser revelado anos depois, é que por trás daquela exclusão existia uma articulação muito maior.

 Uma articulação que envolvia jogadores do elenco, dirigentes da CBF e interesses comerciais. Guarda esse dado, irmão, porque essa parte da história é a mais suja. Em 2009, 7 anos depois da Copa de 2002, o jornalista Juca Kifuri publicou no jornal O Estado de São Paulo uma matéria investigativa sobre os bastidores da convocação de 2002.

 Na matéria, Kifuri revelou que alguns jogadores da seleção tinham conversado com Felipão antes da convocação final, pedindo para que o Romário não fosse levado. Os nomes desses jogadores nunca foram oficialmente confirmados, mas fontes próximas ao elenco que falaram com Kifuri sob anonimato, disseram que pelo menos três atletas tinham medo de que o Romário virasse um problema no vestiário.

 Diziam que ele era indisciplinado, que não respeitava a autoridade, que ia questionar o Felipão se ficasse no banco e que isso podia desestabilizar o grupo. Que FUR também revelou que dirigentes da CBF, principalmente o então vice-presidente de futebol, Marco Antônio Teixeira, tinha um interesse comercial em manter o Romário fora.

 O Romário tinha fama de não cumprir a agenda de patrocinador, de faltar evento, de não fazer entrevista para a mídia parceira da CBF. Isso incomodava os dirigentes. Eles preferiam jogadores mais controláveis, mais dóceis, que aceitassem as regras do jogo comercial. E o Romário nunca foi isso. Ele sempre foi rebelde, sempre falou o que pensava, sempre cagou para patrocinador.

 Isso fazia dele um ativo de risco para CBF. E na hora de montar o elenco, esse fator pesou. Mas tem mais, irmão. Em 2014, numa entrevista para o canal ESPN Brasil, o ex-jogador Edmundo, que era amigo pessoal do Romário, revelou uma conversa que teve com Felipão em 2003, um ano depois da Copa. Edmundo contou que perguntou direto para o técnico porque o Romário tinha ficado de fora.

 E Felipão, segundo Edmundo, teria respondido com uma frase que confirmava tudo. A frase foi: “Edmundo, eu não levei o Romário porque eu sabia que se ele ficasse no banco, ele ia explodir e eu não podia correr esse risco numa Copa do Mundo.” Então, a decisão foi política, não foi técnica, foi gestão de grupo, foi cálculo, foi medo de perder controle.

 Se você está gostando deste vídeo, se inscreva no canal para não perder nada do que vem por aí. O Romário, depois daquela entrevista para o Bom Dia Brasil, em maio de 2002, continuou jogando pelo Vasco, mas carregava uma ferida aberta. Durante todo o mês de junho, enquanto a seleção brasileira jogava a Copa do Mundo na Coreia do Sul e no Japão, o Romário assistia pela televisão, em casa, sozinho, sem comentar nada com ninguém.

 A esposa Mônica contou que ele não queria conversar sobre o assunto. Não atendia ligação de amigo, não dava entrevista, só assistia aos jogos em silêncio. Brasil 3, Turquia zero na estreia. Brasil 4, China zero na segunda rodada. Brasil 5, Costa Rica 2 na terceira. O Brasil passou em primeiro no grupo. Oitavas de final, Brasil 2, Bélgica 0.

 Quartas de final, Brasil 2, Inglaterra 1, com gol do Ronaldinho Gaúcho de falta. Semifinal, Brasil 1, Turquia 0, gol do Ronaldo. E no dia 30 de junho de 2002, domingo, a final contra a Alemanha. O Romário assistiu à final sozinho na sala de casa. A família inteira tinha ido para a casa de uma tia em Jacaré Paguá para assistir junto com outros parentes.

 Mas o Romário não quis ir, ficou em casa, sentou no sofá, ligou a televisão. Brasil 2, Alemanha zer. Dois gols do Ronaldo, penta campeonato mundial. O Brasil inteiro explodiu em festa. 70 milhões de brasileiros comemoraram nas ruas. O Cristo Redentor foi iluminado de verde e amarelo. A praia de Copacabana encheu de gente. O Romário, na sala de casa assistiu tudo sozinho.

 Não comemorou, não chorou, não fez nada. só desligou a televisão quando o jogo acabou, levantou do sofá e foi para o quarto dormir. A esposa Mônica voltou para casa meia-noite e meia, encontrou ele deitado na cama, acordado, olhando para o teto. Ela perguntou se ele estava bem, ele só respondeu: “Estou” e virou para o lado. Nos meses seguintes, o Romário voltou a jogar pelo Vasco, mas a relação dele com a seleção brasileira tinha acabado.

 Ele nunca mais foi convocado. Felipão continuou como técnico até 2002, depois saiu. Veio Carlos Alberto Parreira em 2003, veio Dunga em 2006, veio Mano Menezes em 2010. Nenhum deles chamou o Romário. A carreira dele na seleção terminou em 2005, aos 39 anos, sem ter jogado mais nenhum jogo oficial. Ele se aposentou dos gramados em 2008, aos 42 anos, com 1094 gols na carreira.

 Segundo a contagem oficial da FIFA, foi eleito em 2004 um dos 125 melhores jogadores vivos pela FIFA numa lista feita por Pelé. Mas o penta campeonato de 2002 nunca foi dele. Ele assistiu de fora, carregou aquela dor até o fim da carreira. Mas a história não termina aí, irmão, porque anos depois, quando o Romário já estava aposentado e tinha virado político, eleito deputado federal em 2010 pelo Rio de Janeiro, ele voltou a falar sobre aquela exclusão.

 Em 2013, numa entrevista para o programa do Jô Soares na Rede Globo, o Jô perguntou diretamente: “Romário, você perdoou o Felipão?” O Romário olhou para o apresentador, deu uma risada curta, amarga e respondeu: “Não, não perdoei e não vou perdoar.” Ele me olhou no olho, me prometeu uma coisa e fez outra. Isso na minha família a gente chama de traição. E traição eu não perdoo.

 A plateia do programa ficou em silêncio. O Jô Soares tentou aliviar, fez uma piada, mudou de assunto, mas a frase ficou. E até hoje, em 2025, 23 anos depois daquela Copa de 2002, o Romário nunca voltou atrás. Ele e o Felipão se cruzaram algumas vezes em eventos públicos, em premiações de futebol, em homenagens, mas nunca conversaram de verdade, nunca sentaram para resolver aquilo.

 A ferida ficou aberta e, pelo jeito, vai ficar aberta para sempre. Mas tem uma parte dessa história que pouca gente conhece, irmão. Uma parte que foi revelada em 2016 numa entrevista que o Romário deu para o jornalista André Rizek do canal Esport TV. Naquela entrevista, o Romário contou um detalhe que nunca tinha falado antes.

 Disse que uma semana antes da convocação final, no começo de maio de 2002, recebeu um telefonema de um jogador do elenco da seleção, um jogador que ele não quis revelar o nome. Esse jogador, segundo o Romário, teria ligado para avisar que os bastidores estavam ruins, que tinha gente trabalhando para deixar ele de fora e que o Felipão estava sendo pressionado por dirigentes da CBF e por outros jogadores.

 O Romário disse na entrevista que perguntou para esse jogador quem eram as pessoas que estavam trabalhando contra ele. O jogador não deu nomes, só disse: “Romário, tem gente aqui que tem medo de você. Tem gente que acha que você vai desestabilizar o grupo e tem dirigente da CBF que não quer você no elenco. Fica esperto.

 O Romário contou que depois daquele telefonema, tentou ligar para o Felipão várias vezes, mas o técnico não atendia. Mandava mensagem pelo empresário dizendo que estava ocupado, que ia ligar de volta, mas nunca ligava. E aí, no dia 8 de maio, veio a lista sem o nome dele. Essa revelação do Romário em 2016 causou um novo burburinho na imprensa esportiva.

 Os jornalistas começaram a especular quem era o jogador que tinha ligado para ele. Alguns falavam que era o Ronaldo, outros falavam que era o Cafu, outros diziam que era o Roberto Carlos, mas ninguém confirmou nada. O Romário até hoje não revelou o nome e provavelmente nunca vai revelar. Mas o fato é que aquele telefonema confirmou o que ele já desconfiava.

 A exclusão dele não foi técnica, foi política, foi uma articulação, foi uma conspiração. E tem mais uma peça nesse quebra-cabeça, irmão. Em 2018, o jornalista Mauro César Pereira, em seu canal no YouTube, fez uma live falando sobre os bastidores da Copa de 2002 e revelou uma informação que ele disse ter recebido de uma fonte da comissão técnica daquela época.

Segundo essa fonte, numa reunião fechada entre Felipão e os dirigentes da CBF, no início de abril de 2002, o presidente da CBF na época, Ricardo Teixeira, teria dito literalmente para Felipão: “Eu não quero o Romário nessa Copa. Ele dá muito problema. Não cumpre a agenda de patrocinador, não respeita a CBF.

 Você escolhe outro atacante. Mauro César disse que a Fonte afirmou que Felipão ficou incomodado com aquela pressão, mas no final aceitou porque Ricardo Teixeira era o presidente da CBF, era o homem mais poderoso do futebol brasileiro. Era ele quem pagava o salário do Felipão. Era ele quem decidia quem continuava e quem saía.

 E o Felipão, como qualquer funcionário, obedeceu, escolheu outro atacante, deixou o Romário de fora e inventou a narrativa de que foi decisão técnica. Essa revelação nunca foi confirmada oficialmente. Ricardo Teixeira, que saiu da presidência da CBF em 2012, envolvido em escândalos de corrupção, nunca comentou sobre isso. Felipão também nunca confirmou.

 Mas faz sentido, não faz, irmão? Faz sentido quando você junta todas as peças? A promessa quebrada, o telefonema não atendido, a pressão dos dirigentes, o medo de desestabilizar o grupo, a gestão comercial. Tudo isso junto forma uma imagem clara. O Romário não foi deixado de fora por questão técnica, foi deixado de fora por questão política, comercial e de gestão de poder.

 E o mais doloroso disso tudo, irmão, é que o Romário até hoje carrega essa ferida. Ele nunca mais falou com o Felipão, nunca mais confiou na CBF. Quando virou deputado federal, uma das primeiras bandeiras dele foi investigar corrupção no futebol brasileiro. Ele abriu uma CPI do futebol em 2015, chamou dirigentes para depor, investigou contratos suspeitos, denunciou irregularidades e muita gente acredita que parte daquele trabalho era motivado pela mágoa da Copa de 2002.

 Era uma forma de ele se vingar da CBF que o deixou de fora do maior sonho da vida dele. Hoje, em 2025, o Romário tem 59 anos, está aposentado do futebol há 17 anos, continua sendo deputado federal, continua sendo ídolo do Vasco, do Flamengo, da seleção brasileira, continua sendo lembrado como um dos maiores artilheiros da história do futebol.

 Mas quando alguém pergunta para ele sobre a Copa de 2002, a resposta é sempre a mesma: Olhar sério, voz firme, sem rodeios. Eu fui traído. E essa frase, irmão, resume tudo, porque a traição que tirou o Romário da Copa de 2002 não foi só uma exclusão esportiva, foi uma facada pelas costas, foi uma promessa quebrada, foi um sonho roubado.

E o pior de tudo é que aquela Copa foi vencida. O Brasil foi penta campeão. O Ronaldo foi artilheiro com oito gols. O Rivaldo fez gol na semifinal. O Ronaldinho Gaúcho deu show. O Cafu levantou a taça, mas o Romário não estava lá. Ele assistiu tudo de casa, sozinho, em silêncio, carregando uma dor que nunca sarou.

 Mas tem uma coisa que você ainda não sabe, irmão. Uma coisa que só foi revelada anos depois e que mostra o quanto aquela exclusão mexeu com o Romário de uma forma profunda, muito além do futebol, uma coisa que envolve a relação dele com a família, com os filhos, com a esposa e até com a forma como ele passou a enxergar o mundo depois daquela traição.

 Porque a ferida que ficou não foi só esportiva, foi emocional, foi psicológica e mudou o Romário para sempre. No dia seguinte, a final da Copa de 2002, 1 de julho de 2002, segunda-feira, o Romário acordou cedo na casa de São Conrado, não tinha dormido direito. Levantou 6 da manhã, foi para a varanda, sentou numa cadeira de plástico branca e ficou olhando para o mar.

 A esposa Mônica acordou meia hora depois. Encontrou ele ainda na varanda quieto, com uma xícara de café frio na mão. Ela sentou do lado dele, não falou nada. Ficou ali uns 10 minutos em silêncio, até que o Romário virou para ela e falou uma frase que ela só revelou numa entrevista em 2017, 15 anos depois. A frase foi: “Eu trabalhei a vida inteira para estar naquela final e me tiraram isso.

 Me roubaram”. A Mônica contou naquela entrevista que foi para o site UOL Sport que nunca tinha visto o marido tão abalado. Disse que o Romário nos dias seguintes ficou mais quieto, mais introspectivo. Parou de atender telefone de amigo, parou de sair para jantar, parou de fazer as coisas que gostava. Ficava em casa, treinava sozinho na academia do condomínio, voltava para o quarto e ficava deitado olhando para o teto.

 A filha mais velha, Daniele Favato, que tinha 15 anos na época, percebeu a mudança do pai. Ela contou numa entrevista em 2019 para o programa Esporte Espetacular da Globo, que o pai ficou diferente depois da Copa de 2002. disse literalmente. Ele ficou mais sério, mais fechado. A gente percebia que tinha uma tristeza nele, que não passava.

 Mas o que ninguém da família sabia naquele momento, o que só o Romário guardava dentro dele, era que aquela exclusão tinha reaberto uma ferida muito mais antiga, uma ferida da infância, uma ferida que tinha a ver com o pai Evair. Guarda esse dado, irmão, porque essa parte é fundamental para entender o tamanho da dor que o Romário sentiu.

 O pai Edevair sempre foi um homem honesto, trabalhador de palavra. E ele dizia para os filhos, desde pequenos, que um homem sem palavra não vale nada, que promessa se cumpre, que mentira é coisa de gente fraca. E o Romário cresceu com isso na cabeça. Cresceu acreditando que quando um homem olha no seu olho e faz uma promessa, aquela promessa vale.

 Aquela promessa é sagrada. E quando o Felipão conversou com ele em março of2, olhou no olho dele e disse que ele estava nos planos, o Romário acreditou porque tinha sido criado para acreditar, tinha sido criado para confiar na palavra de um homem. E quando a convocação saiu sem o nome dele, não foi só a copa que o Romário perdeu, foi a crença dele de que homem de palavra ainda existia.

 foi a confiança dele em promessa e isso mexeu com ele de uma forma muito mais profunda do que qualquer derrota esportiva. Em agosto de 2002, dois meses depois da Copa, o Romário voltou a jogar pelo Vasco. O time estava no meio do Campeonato Brasileiro. A torcida vascaína recebeu ele com uma festa no estádio São Januário. Mais de 20.

000 1 torcedores foram ver o primeiro jogo dele depois da Copa. Fizeram uma faixa enorme escrita: “Romário, você é nosso penta campeão”. O Romário entrou em campo emocionado, chorou quando viu a faixa, agradeceu para a torcida com palmas e nos minutos finais do primeiro tempo recebeu a bola dentro da área, girou o corpo, driblou o zagueiro e finalizou no canto.

 Gol! A torcida explodiu. O Romário comemorou com os braços abertos. olhando para o céu e depois do jogo deu uma entrevista curta para a TV Globo. O repórter Cléber Machado perguntou: “Romário, como foi fazer esse gol depois de tudo que aconteceu?” O Romário olhou para a câmera, respirou fundo e respondeu: “Esse gol foi para quem acreditou em mim quando ninguém mais acreditava”.

 Aquela frase foi interpretada de várias formas. Alguns acharam que era uma mensagem para a torcida vascaína, outros acharam que era uma indireta para o Felipão. Mas quem conhecia o Romário de perto sabia que era uma frase de desabafo. Era uma forma dele dizer que tinha conseguido seguir em frente, que não tinha se entregado, que continuava sendo artilheiro, que continuava sendo Romário.

 E durante o segundo semestre de 2002, ele provou isso. Marcou 17 gols em 21 jogos pelo Vasco. foi artilheiro do time na temporada, ajudou o Vasco a terminar o Brasileirão em sexto lugar, mas por dentro a ferida continuava aberta. No final de 2002, em dezembro, o Romário deu uma entrevista longa para a revista Placar.

 Foi uma entrevista de quatro páginas com fotos dele em casa, com a família, no estádio. O repórter Celson Zelt fez várias perguntas sobre a carreira, sobre os gols, sobre a seleção e numa das últimas perguntas perguntou diretamente: “Romário, você consegue perdoar o que aconteceu em 2002?” O Romário ficou em silêncio por uns 10 segundos.

 O repórter esperou e então o Romário respondeu com uma frase que ficou marcada. Disse literalmente: “Perdoar é uma coisa, esquecer é outra. Eu posso perdoar um dia, mas esquecer nunca. Porque o que fizeram comigo não foi só me tirar de uma copa, foi me tirar de um sonho. E sonho roubado não se esquece”. Aquela frase virou capa da revista Placar e repercutiu em todo o Brasil.

 A imprensa esportiva discutiu durante semanas. Uns diziam que o Romário estava sendo dramático, outros diziam que ele tinha razão, que tinha sido injustiçado mesmo. Mas o que importa, irmão, é que aquela frase mostrava o tamanho da dor. Mostrava que não era só uma questão de ego ferido, era uma questão de identidade. O Romário tinha construído a vida inteira dele em cima de uma narrativa.

 narrativa do menino pobre da Penha que virou craque, do garoto que ninguém dava nada e que conquistou o mundo, do artilheiro que nunca desistia. E a Copa de 2002 quebrou essa narrativa porque pela primeira vez na vida, o Romário trabalhou duro, fez tudo certo e mesmo assim não conseguiu. E isso mexeu com a cabeça dele.

 Em 2003, o Romário continuou jogando pelo Vasco, fez mais 23 gols na temporada, foi artilheiro do campeonato carioca, mas a relação dele com a seleção brasileira tinha acabado de vez. Carlos Alberto Parreira tinha assumido como técnico da seleção em janeiro ofrea das primeiras entrevistas, um jornalista perguntou se ele ia convocar o Romário.

Parreira respondeu de forma direta: “Romário é um grande jogador, mas estou montando um grupo novo. Estou olhando para o futuro”. E o Romário entendeu o recado. Ele não fazia mais parte dos planos da seleção. Ele tinha sido descartado. Ele estava velho demais. Naquele mesmo ano 2003, o Romário começou a falar publicamente que queria chegar aos 1000 gols na carreira.

 Ele já tinha 850 e poucos gols, segundo a contagem dele, e disse que ia continuar jogando até bater a marca. Aquilo virou uma obsessão, porque no fundo, irmão, o Romário precisava provar alguma coisa. precisava provar que ainda era relevante, que ainda era artilheiro, que não tinha acabado e a marca dos 1000 gols virou o objetivo dele, virou a nova narrativa.

 Se não dava para ser campeão do mundo em 2002, pelo menos dava para ser o cara que marcou 1000 gols. Durante os anos seguintes, de 2003 a 2007, o Romário rodou por vários clubes. jogou pelo Vasco, pelo Fluminense, pelo Miami FC dos Estados Unidos, pelo Adelaide United da Austrália, pelo Flamengo de novo.

 E em todos esses clubes continuou marcando o gol. Em 2005, aos 39 anos, marcou 22 gols pelo Vasco. Em 2006, marcou 18 pelo Fluminense. Em 2007, aos 41 anos, marcou 16 gols. E no dia 20 de maio de 2007, num jogo do Vasco contra o Sport Recife, no estádio da Ilha do Retiro, no Recife, o Romário marcou o gol número 1000 da carreira, segundo a contagem oficial dele.

 A torcida vascaína invadiu o campo. O Romário chorou no meio do gramado, foi carregado pelos companheiros, deu a volta olímpica e depois do jogo deu uma entrevista para a Globo, onde disse: “Esse gol é a prova de que eu nunca desisti, de que eu nunca parei de acreditar. Mas mesmo depois dos 1000 gols, mesmo depois de toda a glória, a ferida de 2002 continuava viva.

 E em 2008, quando o Romário decidiu se aposentar dos gramados, aos 42 anos, ele deu uma entrevista de despedida para o Fantástico da Rede Globo. Foi uma entrevista emocionante. Ele falou sobre a carreira, sobre os títulos, sobre os gols, sobre a família. E no final o repórter Thiago Lefert perguntou: “Romário, se você pudesse mudar alguma coisa na sua carreira, o que seria?” O Romário pensou por um momento, olhou para o lado, depois olhou de volta para a câmera e respondeu: “Eu mudaria 2002.

 Eu queria ter jogado aquela Copa, não pelo título porque o Brasil ganhou, mas pela chance de me despedir da seleção do jeito que eu merecia. Essa é a única coisa que eu mudaria. A resposta pegou todo mundo de surpresa, porque naquela altura 2008 já tinham se passado seis anos da Copa, mas a ferida continuava aberta e o Romário deixou claro que aquilo nunca ia cicatrizar, porque não era uma questão de ego, era uma questão de justiça.

 Ele sentia que tinha sido injustiçado. E quem é injustiçado não esquece. Depois de se aposentar, o Romário entrou para a política. Emente tem foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com mais de 146.000 votos. foi um dos deputados mais votados do estado e uma das primeiras coisas que ele fez quando assumiu o mandato foi pedir a criação de uma CPI para investigar corrupção no futebol brasileiro.

 Ele queria investigar a CBF, os dirigentes, os contratos, as irregularidades. E muita gente acreditava que parte daquela motivação vinha da mágoa de 2002. Vinha da vontade de expor a podridão que existia nos bastidores do futebol brasileiro. A CPI do futebol foi instalada em 2015. O Romário foi um dos membros mais ativos.

 Ele ia para as reuniões, questionava os depoentes, pedia documentos, denunciava irregularidades. E numa das sessões da CPI, em agosto de 2015, ele fez um discurso que ficou marcado. Ele estava falando sobre a falta de transparência da CBF. E no meio do discurso, ele falou uma frase que deixou todo mundo arrepiado.

 A frase foi: “Eu sei o que é ser traído por gente que deveria te proteger. Eu sei o que é confiar numa promessa e ser enganado. E por isso eu estou aqui” para que outros jogadores não passem pelo que eu passei. A frase foi interpretada como uma referência direta ao que aconteceu em 2002 e mostrou que mesmo 13 anos depois, aquela história ainda doía, ainda incomodava, ainda era uma ferida aberta.

 E o Romário estava usando a política como uma forma de se vingar, como uma forma de expor o sistema que tinha tirado ele da Copa, como uma forma de fazer justiça. Durante a CPI, o Romário chamou vários dirigentes para depor. Chamou Ricardo Teixeira, que tinha sido presidente da CBF na época da Copa de 2002. Mas Ricardo Teixeira não compareceu, mandou um advogado no lugar.

 Disse que estava doente, que não podia viajar. O Romário ficou furioso, disse que era covardia, que o Ricardo Teixeira estava fugindo e prometeu que ia continuar investigando. Mas o que o Romário não esperava, o que ninguém esperava, é que em 2016 uma bomba ia explodir. Uma bomba que ia confirmar tudo o que ele sempre suspeitou.

 Em abril de 2016, a justiça dos Estados Unidos divulgou uma lista de dirigentes da FIFA e de confederações sul-americanas que tinham sido investigados por corrupção. E um dos nomes da lista era o de Ricardo Teixeira. Ele era acusado de ter recebido propina de empresas de marketing esportivo, de ter desviado dinheiro da CBF, de ter lavado dinheiro em contas no exterior.

 A investigação americana, que ficou conhecida como FIFA Gate, expôs a podridão que existia nos bastidores do futebol mundial e o Ricardo Teixeira estava no meio. Quando a notícia saiu, o Romário deu uma entrevista para o jornal O Globo e disse literalmente: “Eu sempre soube que aquele homem era sujo. Eu sempre soube que ele mandava e desmandava na CBF.

 E agora está aí a prova. Ele roubou, ele mentiu, ele enganou e ele foi um dos responsáveis por me tirar da Copa de 2002. Porque ele não queria jogador que questionasse, ele queria jogador que obedecesse. E eu nunca fui de obedecer.” Aquela declaração do Romário em 2016 trouxe de volta todo P debate sobre a Copa de 2002.

 A imprensa esportiva voltou a discutir. Vários jornalistas começaram a investigar e algumas informações novas apareceram. Uma delas foi revelada pelo jornalista Rodrigo Matos do site UOL. Em maio de 2016. Ele conseguiu acesso a e-mails internos da CBF da época da Copa de 2002. E num dos e-mails enviado pelo departamento de marketing da CBF para o Ricardo Teixeira em março de 2002, havia um parágrafo que dizia o seguinte: “Sugerimos que Romário não seja convocado.

 Ele tem histórico de descumprir a agenda comercial. Não comparece a eventos de patrocinadores. Isso gera prejuízo para a CBF e para os parceiros. Aquele e-mail foi a prova de que a exclusão do Romário não tinha sido técnica, tinha sido comercial, tinha sido uma decisão de negócios. E quando aquele e-mail vazou, o Romário deu outra entrevista, dessa vez para o Esport TV, e disse com todas as letras: “Eu sempre falei que fui traído e agora todo mundo sabe que eu estava certo, me tiraram da Copa porque eu não era um bonequinho que eles podiam

controlar. E isso é a coisa mais nojenta que já fizeram comigo. A revelação daquele e-mail causou um escândalo. Vários jornalistas pediram explicações da CBF, mas a CBF nunca comentou oficialmente. Disse apenas que eram assuntos internos antigos e que não ia se pronunciar. E o Felipão, que já estava aposentado como técnico na época, também nunca comentou.

 continuou dizendo que a decisão tinha sido técnica, continuou negando que tinha havido pressão, mas o Romário não aceitou. E em 2017, numa entrevista para o programa do Joares, ele voltou ao assunto. Dessa vez ele foi mais longe. Ele contou que depois da Copa de 2002, tentou várias vezes falar com o Felipão, mandou mensagem pelo empresário, pediu para amigos em comum intermediarem uma conversa, mas o Felipão nunca quis sentar com ele, nunca quis explicar.

 E isso doeu mais do que a própria exclusão, porque o Romário queria entender, queria ouvir do Felipão porque ele tinha sido deixado de fora, queria saber se a promessa de março tinha sido mentira ou se tinha havido alguma mudança de plano, mas nunca teve essa chance. O Jo Soares perguntou: “E se o Felipão te ligasse hoje, você atenderia?” O Romário pensou por um momento e respondeu: “Atenderia, porque eu quero ouvir a verdade.

 Eu quero que ele olhe no meu olho e fale o que aconteceu de verdade. Se ele fizer isso, eu consigo seguir em frente, mas enquanto ele não fizer, a ferida vai continuar aberta”. Aquela resposta mostrou que 15 anos depois o Romário ainda carregava aquela dor e que a única forma de curar aquela dor era ouvir a verdade.

 Mas a verdade nunca veio e provavelmente nunca vai vir, porque o Felipão nunca vai admitir que foi pressionado, nunca vai admitir que a decisão não foi técnica, nunca vai dar o braço a torcer. Mas tem uma parte dessa história que ainda não foi contada, irmão. Uma parte que mostra o quanto aquela exclusão mexeu não só com o Romário, mas com a família dele, especialmente com o filho Romarinho, que na época da Copa de 2002 tinha 7 anos.

 O Romarinho, que hoje é jogador profissional, contou numa entrevista em 2020 para o canal do YouTube do Fred, ex-jogador do Fluminense, que lembrava do pai assistindo a final da Copa Sozinho em casa, e que naquele dia ele, o Romarinho, uma criança de 7 anos, perguntou para a mãe porque o pai não estava jogando e a mãe respondeu: “Porque não deixaram ele jogar, filho?” E o Romarinho, sem entender direito, perguntou: “Mas por quê?” E a mãe, sem saber o que dizer, só respondeu: “Um dia você vai entender”. O Romarinho contou

que só foi entender aquilo anos depois, quando cresceu, quando virou jogador, quando começou a entender como funciona o futebol por dentro. E quando entendeu, ficou com raiva. Ficou com raiva de quem tinha tirado o pai da copa. Ficou com raiva do Felipão. Ficou com raiva da CBF.

 E disse na entrevista: “Meu pai merecia estar naquela Copa. Ele merecia se despedir da seleção como herói”. E tiraram isso dele. E isso é algo que eu nunca vou perdoar. Essa frase do Romarinho mostra que a ferida de 2002 não ficou só no Romário, passou para a próxima geração, virou uma dor de família e isso torna tudo ainda mais triste, porque não foi só uma carreira que foi afetada, foi uma história de vida, foi um legado, foi um sonho que foi roubado e que nunca mais voltou.

Hoje, em 2025, o Romário tem 59 anos, continua sendo deputado federal, continua sendo ídolo do futebol brasileiro, continua sendo lembrado como um dos maiores artilheiros de todos os tempos, mas quando alguém pergunta para ele sobre a Copa de 2002, a resposta é sempre a mesma. A ferida continua aberta, a dor continua viva e a traição nunca foi esquecida.

 Porque tem coisas na vida, irmão, que a gente não esquece. E uma delas é ser traído por quem a gente confiava. E a pior parte de tudo isso, a parte que dói mais, é que o Romário nunca teve o que ele mais queria. Ele nunca teve uma conversa franca com o Felipão, nunca ouviu a verdade, nunca recebeu um pedido de desculpas, nunca teve um encerramento para aquela história.

 E isso é o que dói mais, porque a gente consegue perdoar muita coisa na vida, mas a gente só consegue perdoar de verdade quando a outra pessoa reconhece o erro. Quando a outra pessoa olha no nosso olho e pede desculpa. E isso o Romário nunca teve e provavelmente nunca vai ter. E por isso a ferida vai continuar aberta para sempre. M.

 

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