Aos 92 anos, Ari Fontoura não é apenas um nome consagrado da dramaturgia brasileira; ele é uma instituição viva, um mestre que atravessa gerações com a leveza de quem compreendeu, muito cedo, que a vida é um palco vasto e, por vezes, implacável. Recentemente, o ator decidiu “abrir o jogo” e compartilhar facetas de sua intimidade que, por décadas, foram protegidas pelo véu da discrição profissional. Em uma revelação que mistura nostalgia, humor e uma pitada de melancolia, Ari revisita escolhas, amores e o papel da arte em sua existência.
O Início e a Renúncia em Nome do Talento
Nascido em 27 de janeiro de 1933, em Curitiba, Ari Beira Fontoura sempre soube que seu destino não caberia nas convenções tradicionais. Filho de um professor de ascendência portuguesa e inglesa e de uma dona de casa italiana, ele deu seus primeiros passos artísticos ainda no início dos anos 60. O “bichinho” da atuação o picou cedo, mesmo quando a vida parecia empurrá-lo para caminhos mais estáveis.
A grande mudança, contudo, veio quando ele recebeu o convite para se mudar para o Rio de Janeiro e integrar o elenco fixo da Rede Globo, em 1965. Ali, o destino de Ari se cruzou com o da história da televisão brasileira. Mas, como toda grande trajetória, houve um custo. Aos 31 anos, vivendo em Curitiba, Ari estava noivo. Ele acreditava que, ao se mudar para buscar o sucesso na capital carioca, sua parceira o acompanharia, mantendo o sonho de construir uma família. A realidade, porém, foi bem diferente. A companheira não o seguiu, e o relacionamento chegou a um fim abrupto.
Hoje, ao relembrar esse episódio, Ari não demonstra o amargor que se esperaria de um coração ferido pelo tempo. Pelo contrário: com a sabedoria dos 92 anos, ele encara o término com a leveza de quem sabe que aquele foi o preço necessário para se entregar inteiramente à sua verdadeira paixão: a arte. Ele não se arrepende. Aquela escolha abriu as portas para uma carreira meteórica, mas também definiu seu estilo de vida solitário, porém rico em conexões, ao longo das décadas seguintes.

Uma Carreira Construída entre o Drama e a Comédia
É impossível falar da televisão brasileira sem citar os papéis que Ari Fontoura imortalizou. Ele transitou entre o teatro, o cinema e a TV com uma versatilidade poucas vezes vista. Nos anos 70, foi o inesquecível Birajara em Dancing Days. Nos anos 80, alcançou o auge com o prefeito Florindo Abelha, em Roque Santeiro, um personagem que se tornou parte do imaginário coletivo.
Seguiram-se papéis icônicos como o Coronel Artur da Tapitanga em Tieta e o deputado Pitágoras em A Indomada, onde o humor político de Ari atingiu o ápice. O ator colecionou prêmios, como o APCA de melhor ator, e o respeito de seus pares. Mais recentemente, em produções como Chocolate com Pimenta, A Favorita — onde brilhou como o vilão Silveirinha — e A Dona do Pedaço, ele mostrou que o tempo apenas refinou sua capacidade de encantar.
O “Blogueirinho” da Terceira Idade
Se a carreira nas novelas já o garantia um lugar na história, a pandemia de 2020 trouxe Ari Fontoura para um novo patamar: o de influenciador digital. Em meio ao isolamento, o ator percebeu que precisava de uma conexão com o público. Sem grandes produções, apenas com o celular em mãos e uma espontaneidade contagiante, ele começou a publicar vídeos sobre seu dia a dia.
O sucesso foi avassalador. De 1 milhão de seguidores em pouco tempo, ele ultrapassou a marca de 6,6 milhões. O “vovô da internet” conquistou jovens que, talvez, nunca tivessem acompanhado suas novelas clássicas, mas que se identificaram com seu bom humor, suas mensagens de otimismo e sua vitalidade. Ele se tornou, de fato, um ícone da geração Z, provando que a idade é apenas um número quando se mantém a curiosidade intacta.
Polêmicas e a Privacidade Preservada
Ao longo de sua vida, Ari sempre foi discreto. Contudo, em 2020, ele se viu no centro de uma polêmica inesperada sobre sua sexualidade, após a atriz Maria Zilda Bethlem relembrar uma conversa de bastidores ocorrida na novela Nina, em 1977. Segundo a atriz, Ari, de forma direta, teria dito a ela: “Eu sou viado”.
A revelação gerou um frenesi na mídia, mas Ari nunca se pronunciou publicamente sobre o assunto. Esse silêncio não é visto como uma negação, mas como um limite imposto pelo ator, que sempre preservou sua vida privada. Para Ari, o que importa é a liberdade de ser, sem a necessidade de rótulos ou explicações para uma sociedade que, muitas vezes, insiste em definir o outro antes que ele mesmo tenha a chance de se apresentar.
Recentemente, boatos sobre um possível relacionamento com um homem mais jovem também surgiram após uma foto viralizar. Mais uma vez, Ari foi enfático e direto: era apenas uma foto com um fã em um restaurante, um gesto de carinho que foi mal interpretado pela máquina de boatos das redes sociais.

Vida, Família e o Legado de um Mestre
Aos 92 anos, Ari Fontoura continua ativo. Recentemente, participou de projetos na Rede Globo e ensaios cinematográficos ao lado de nomes como Fernanda Montenegro e Bruna Marquezine. Ele vive na zona oeste do Rio de Janeiro, cercado de amigos e preservando memórias preciosas, como a de seus irmãos, Estela e Ivan, com quem teve laços profundos e cuja perda recente ele lamentou com profunda emoção.
O segredo de sua longevidade? Talvez seja o fato de nunca ter deixado de se divertir. Seja usando inteligência artificial para se transformar em um “bebê” nas redes sociais — o que lhe rendeu o apelido carinhoso de “vovô Reborn” — ou celebrando aniversários com amigas de longa data como Beth Goulart, Ari cultiva a alegria como forma de resistência.
Ari Fontoura encerra o silêncio não para se justificar, mas para celebrar. Ele olha para trás com a maturidade de quem fez escolhas, colheu os frutos e ainda tem muito a oferecer. Em uma era de conexões efêmeras, Ari permanece um alicerce da cultura brasileira: um ator que soube transformar o palco de sua profissão no palco de sua própria vida, vivendo intensamente, sem se aborrecer mais do que o necessário e, acima de tudo, sendo profundamente, irremediavelmente, ele mesmo.
Sua história não é apenas a de um ator que interpretou vilões, coronéis ou galãs. É a história de um homem que, aos 92 anos, nos ensina que a verdadeira juventude reside na capacidade de se reinventar, de abraçar o novo e de manter, intacta, a chama da curiosidade e do afeto, mesmo diante das incertezas e das passagens inevitáveis da vida.