Assim FOI a VIDA LUXUOSA de CID MOREIRA – Morreu Sem Reconhecer Ninguem

 

R milhões de reais. R 60 milhões de reais. Esse é o tamanho da fortuna que o Sid Moreira juntou na vida. Para tu entender o que é isso, tu pega esse dinheiro, coloca num banco [música] e ele rende R$ 400.000 por mês, por mês, sem [música] trabalhar, sem abrir a boca, sem ler uma linha. Os bisnetos do Sid iam morrer ricos sem nunca precisar trabalhar um dia.

 E esse homem, o homem que entrava na tua sala toda a noite às 8, com aquela voz que tu reconhece antes de reconhecer o rosto. Esse homem cortou os dois filhos da herança. Não deixou um centavo, não deixou uma xícara, não deixou o nome deles em nenhuma linha do papel. cortou com letra de advogado em cartório na frente de testemunhas, durante anos e deixou tudo, tudo mesmo, pra quarta esposa, uma mulher 37 anos mais nova, e que ele conheceu num torneio de tênis quando ela tinha 35 e ele já tinha 72.

E hoje, em 2026, os filhos estão na justiça [música] acusando essa mulher de ter desviado 500 milhões de reais. 500 milhões, meio bilhão, meio bilhão. E tem uma perícia paga pelos próprios filhos, mais oficial, que diz que a assinatura do Sid no testamento pode ser falsa, que a mão de um [música] homem de 96 anos não teria firmeza para escrever daquele jeito.

 O documento que decidiu o destino de R$ 60 milhões de reais pode ser falso, mas não é isso que mais me impressiona nessa história. O que mais me impressiona é outra coisa. Quando o Sid sentiu que ia morrer, fez um pedido. Um pedido só. Pediu para ser enterrado ao lado de uma mulher. E não era a Fátima, não era a quarta esposa, [música] era outra.

 A primeira, a que veio antes da fama, antes do dinheiro, antes de tudo. O nome [música] dela Nels e guarda esse nome, guarda com força, porque a Nels não tinha dinheiro, não tinha glamur, não tinha nome. Era uma menina de cidade pequena que conheceu o Al Sides antes dele virar Sid Moreira. E quando [música] tu souber quem ela foi e por o Sid escolheu ficar ao lado dela para sempre, depois de [música] 60 anos longe, depois de três outras esposas, depois de 60 milhões de reais, tu vai entender que esse homem amou uma mulher na vida inteira,

uma. E não foi a que ficou com o dinheiro. Eu te aviso quando chegar lá. E tem mais. O Cid adotou um [música] filho e anos depois disse em entrevista, olhando pra câmera, com essas palavras exatas: “A maior besteira que fiz na vida. A maior besteira da vida inteira de um homem que viveu 97 anos. E esse filho adotivo respondeu: “Não com uma carta, não com um processo normal.

” e respondeu com uma acusação que eu nem sei se tu tá preparada para ouvir. É o tipo de coisa que uma vez dita num tribunal não sai mais e muda tudo o que tu pensa sobre o Sid Moreira. Eu te aviso quando chegar lá. E no último dia de vida, a Fátima estava sentada do lado da cama do hospital em Petrópolis. Faz 29 dias que ela não saía dali, dormindo numa cadeira de plástico.

 E o Sid abriu os olhos, olhou para ela direto nos olhos e a Fátima viu que não tinha mais ninguém atrás daqueles olhos. O homem que falou pro Brasil inteiro durante 27 anos, cuja voz um país inteiro reconhecia antes do rosto, olhou paraa própria esposa e não sabia quem ela era. Dias depois, a Fátima contou o que sentiu naquele momento numa frase só: “Sete palavras, sete.” ti.

 E quando tu ouvir essas sete palavras, tu vai olhar paraa história inteira de outro jeito. Quando penso nela, eu ainda me arrepio. Eu te aviso quando chegar lá. [roncando] E tem um dado sobre o dinheiro do Sid que quase ninguém conta. Um negócio que rendeu para ele mais dinheiro do que 27 anos inteiros de Jornal Nacional. Mais do que a Globo, mais do que os contratos milionários.

E esse negócio é uma coisa que tu provavelmente tem na tua estante em casa. Uma coisa que tu talvez escutava antes de dormir. Uma coisa que tua mãe comprava na banca de jornal por R$ 3,90. Quando tu souber qual é, tu vai olhar paraa tua estante de um jeito diferente para sempre. Eu te aviso quando chegar lá.

Cid Moreira: conheça a trajetória do locutor e jornalista | CNN Brasil

 comenta aqui antes de continuar uma pergunta só. A Globo pagava o Cidu da bancada em 96, sem aparecer na TV, sem gravar, sem ler nada, só pelo nome dele. Chuta quanto? Chuta um número e escreve aí nos comentários. Na metade do vídeo eu te conto o valor exato e tu vai ver que quase todo mundo erra. Erra feio para baixo. Agora vem comigo.

 Mas antes uma coisa, porque se tu não lembrar disso, o resto não faz sentido. Tu lembra? Eu sei que tu lembra. 8 horas da noite. A novela das 7 tinha acabado. A casa inteira cheirava jantar. Teu marido sentado naquela poltrona que só ele sentava. As crianças por perto, às vezes fazendo dever de casa na mesa da cozinha.

 e a TV ali no centro da sala, como se fosse altar. E aí começava aquela vinheta, aquele plim plim que todo brasileiro conhece. E a voz do Cid dizia: “Boa noite”. E naquele momento, o Brasil inteiro ficava quieto. Não era exagero, não era força de expressão. 50 milhões de pessoas toda a noite parando o que estavam fazendo para ouvir um homem ler as notícias. 50 milhões.

 E pensa no tamanho disso. É uma Argentina inteira parando toda a noite para escutar a mesma voz. O país era dividido em tudo, em renda, em cor, em sotaque, em religião, em futebol, em política. Mas às 8 da noite, por meia hora, todo mundo assistia a mesma coisa. A tua vizinha tava assistindo, a tua irmã tava assistindo, a tua comadre do outro lado da cidade estava assistindo, a patroa tava assistindo no Leblom, a empregada da patroa estava assistindo em casa em Nova Iguaçu, os dois lados do país parados diante da mesma bancada.

O Cid era a única coisa que atravessava a classe social no Brasil daquela época. No dia [música] seguinte, na fila do pão, no ponto de ônibus, no consultório do dentista, o assunto era o que o Cid tinha falado na noite anterior. Não era o que a Globo tinha falado, era o que o Sid tinha falado, porque o Sid era a Globo.

 A Globo [música] era o Sid, a voz e a emissora eram a mesma coisa na cabeça do povo. E para quem cresceu naquilo, o Sid não era apresentador, era um pedaço da família. A única coisa constante num país que vivia mudando. Mudava de presidente, de moeda, de plano econômico. Cruzeiro, cruzado, cruzado novo, real. Tu lembra das filas no banco para trocar dinheiro, da inflação comendo o salário antes do fim do mês? O Brasil pegava fogo toda semana, mas o [música] Sid tava ali às 8 na bancada.

 E só de ouvir [música] aquela voz firme, tu pensava: “Se ele tá aí calmo desse jeito, a gente vai sobreviver”. Era segurança emocional, era o relógio da casa. Quando o Cid dizia: “Boa noite”, tu sabia que eram 8 horas, que o jantar já foi, que daqui a pouco vem a novela das 8. A voz dele marcava [música] o tempo da tua vida.

 Guarda essa sensação, porque quando eu te contar o que [música] esse homem fez com a própria família, tu vais sentir que alguém que morava na tua casa te traiu, porque de certa forma o Sid morava na tua casa toda a noite durante 27 anos. Aides Moreira nasceu em 29 de setembro de 1927 em Taubaté, interior de São Paulo, cidade de rua de terra, igreja na praça, todo mundo se conhecendo.

Guarda esse nome, Taubaté. Porque Taubaté volta no final dessa história de um jeito que tu não espera. Família pobre, pai operário, mãe dona de casa, que cozinhava para sete numa cozinha de 2 m², chão de cimento, sem telefone, sem carro. Ninguém naquela casa sabia que aquele menino ia virar a voz do Brasil.

 Mas na mesma rua, a poucos metros dali, tinha uma menina crescendo. Uma menina que ia esperar pelo Sid a vida inteira. Uma menina que o Brasil nunca conheceu. Ari, porque quando o Cid ficou famoso, ela já tinha sumido das entrevistas. O nome dela, eu já te disse, é Nelsa. A Nels não some dessa história. Ela tá esperando.

 Aos 15 anos, o Aides entrou na rádio difusora de Taubaté. 15 anos. Tu pensa no que tu tava fazendo com 15, indo pra escola, namorando na porta de casa, ajudando a mãe no domingo. O Alsides com 15 estava dentro de um estúdio lendo notícia pro microfone. Enquanto os outros meninos jogavam bola na rua, ele estava aprendendo a controlar o ar, a respirar entre as vírgulas, a fazer a voz grave sem forçar.

Em 47, com 20 anos, ele pegou um trem e foi para São Paulo. Imagina a cena. Um rapaz magro descendo na estação da luz com uma mala velha, sem padrinho, sem endereço para ficar, sem ninguém esperando. A capital era enorme, barulhenta, desconhecida. A rádio Bandeirantes era o sonho.

 Ele chegou lá, bateu na porta, disse que queria trabalhar e a voz dele, aquela voz que 20 anos depois o Brasil inteiro ia reconhecer, abriu a porta e, enquanto o auxides ia embora de Taubaté, lembra da Nels? Ela ficou numa casinha pequena esperando carta, esperando o namorado voltar no fim de semana e ele voltava.

 No começo, toda a semana, depois de 15 em 15 dias, depois só na Páscoa e no Natal. Taubaté ia ficando mais longe e a Nelsinha. Mas ela esperou. Esperou até ele conseguir espaço em São Paulo. Esperou para casar e foi a primeira esposa do Cid, quando ele ainda era só ao Sides. Depois da Bandeirantes veio a rádio Mairink Veiga, 12 anos lá dentro.

  1. Numa época em que locutor trocava de rádio toda semana atrás de salário melhor, o Sid não trocava, ficava. E foi lá ou naquelas madrugadas de estúdio mal iluminado, tomando café passado, lendo notícia pra madrugada inteira do Brasil, que o Cid aprendeu a coisa que mudou a carreira dele para sempre. Aprendeu a ler notícia como quem conta uma verdade, não como ator fazendo drama, não como locutor gritando tome margarina primor, como um homem sério que acreditava no que estava dizendo.

Essa diferença, que parece bobagem, é o que separou o Cid de todo o locutor que o Brasil já teve. Em 1963, a televisão chamou TV Rio. E tu pensa na televisão brasileira de 1963, sem teleprompter, sem câmera digital, cenário pintado à mão. A luz do estúdio falhava no meio da matéria. Os apresentadores liam com o papel tremendo entre os dedos.

Quando acabava o rolo de filme, entrava aquela tela preta. Era a televisão aprendendo a existir. E no meio dessa bagunça toda o chegou o Cid com 36 anos, voz firme de 12 anos de rádio, e virou a coisa mais confiável do estúdio. Os outros podiam errar, o Sid não. Em 1973, veio o Fantástico Domingo à noite, [música] horário mais sagrado da televisão brasileira.

 A família inteira reunida no sofá depois do almoço de domingo. E quem abria o programa? O Cid ficou 11 anos ali. Tua mãe assistia, tua avó assistia. Tu também, [música] se fosse criança naquela época, estava deitada no chão da sala, olhando o Sid na tela. Mas nem o fantástico [música] foi o momento dele. O momento foi 1eo de setembro de 1969.

Jornal Nacional Estreia, primeiro telejornal em rede nacional do Brasil. Sid Moreira e Hilton Gomes na bancada. Dois homens falando para um país inteiro ao mesmo tempo, pela primeira vez na história. Ninguém ali imaginava o que ia acontecer. O Jornal Nacional virou [música] o programa mais assistido do Brasil, não um dos mais assistidos.

 O mais assistido, 27 anos, de 69 a 96. Primeiro com Hton Gomes, depois com Sérgio Chapelim, que virou o parceiro clássico. E a química entre os dois era rara. O C lia, o Chapelã ficava parado, completamente parado. Não mexia [música] a caneta, não ajeitava os óculos. Quando era a vez do Chapelim, o Cid fazia [música] o mesmo.

 Em 20 anos juntos, nunca tiveram uma discussão sobre quem lia o quê, sem ego, dois profissionais que entendiam que o jornal era maior que eles. E nessa bancada, durante 27 anos, o Sid leu pro Brasil as piores notícias da nossa história. A morte do Tancredo Neves. Tu lembra? 21 de abril de 1985. Mas a morte do Tancredo não foi num dia só. Foram 38 dias de agonia, 38 noites.

O Tancredo desmaiou antes da posse e primeiro o presidente civil depois de 21 anos de ditadura. O Brasil tinha passado duas décadas esperando aquele momento e no dia da posse o homem desmaia. Internaram em Brasília. E durante 38 dias, toda a noite, o Cid abria o jornal com boletim médico. Peritonite.

 Infecção generalizada, cirurgia. Outra cirurgia. Sete cirurgias no total. Sete. Pensa na tua avó acendendo vela na igreja em 1985. Pensa nas mães rezando antes de dormir. Pensa no país inteiro com o coração pendurado no aparelho de televisão. E cada noite é a mesma coisa. A voz do Sid firme, lendo os termos médicos como quem carrega uma verdade que não pode tremer.

O Brasil ia dormir pensando: “Amanhã vai melhorar”. E no dia seguinte o Cid voltava com notícia pior. 38 noites assim, até que no dia 21 de abril, a voz do Cid disse que tinha acabado. O silêncio que veio depois foi o mais pesado que o Brasil já ouviu numa sala de TV. Muita gente da tua idade chorou nessa noite, olhando para uma bancada.

chorou por um presidente que nem tomou posse. E a voz que segurou o Brasil durante esses 38 dias foi a do Sid. Leu o impeachment do color. 29 de setembro de 1992. A Câmara votando um por um, o Brasil inteiro contando junto. Quando o placar passou dos 336 votos, a voz do Cid confirmou: “O presidente foi afastado! Não gritou, não comemorou, confirmou e seguiu.

 A função dele não era sentir, era informar. O Brasil sentia por ele. Leu a morte do Aton Sena em 1994. Domingo, primeiro de maio. O Brasil inteiro tinha visto o acidente ao vivo em Ímola, o capacete parado dentro do carro. Ninguém queria acreditar. Durante horas, as famílias esperaram em casa, ligadas na TV, potorcendo por uma notícia boa.

 E na segunda-feira foi o Sid que abriu o jornal. Confirmou a morte. A voz dele deu realidade ao que o Brasil ainda tratava como pesadelo. Leu o plano real em 1994, a moeda nova que prometia acabar com a inflação. Leu a Constituição de 88. Leu a volta das eleições diretas, leu a morte do Sena, do Tom Jobim, do Maurício Matar.

 Cada momento pesado que o Brasil viveu entre 1969 e 1996, a voz era do Sid. E entre uma tragédia e outra, ele estava ali. Mesma cadeira toda a noite, mesma gravata, mesma voz. O Brasil mudava. O sid não mudava. E agora chega a primeira coisa que eu te prometi. O negócio que rendeu pro Sid mais dinheiro do que 27 anos de Jornal Nacional. E a resposta é uma coisa que tu provavelmente tem na tua estante em casa.

Cid Moreira: um legado para a comunicação do Brasil | Música | Universo  Paulinas - Tudo em um só lugar

A Bíblia. Quando o Sid saiu da bancada em 96, ele podia ter sentado no sofá e esperado a aposentadoria. Não fez isso. Olhou pro Brasil e viu uma coisa que ninguém mais tinha visto. 120 milhões de cristãos, todo mundo com uma Bíblia em casa, quase ninguém lê, porque é grande, a linguagem é difícil, a gente cansa.

 Mas ouvir, ouvir a Bíblia na voz do homem que dizia boa noite pro Brasil toda a noite, isso as pessoas iam querer. O Cid gravou os salmos [música] em 12 CDs, botou para vender em banca de jornal por R$ 3,90 cada. R$ 3,90 na banca da esquina, ao lado do jornal da manhã, ao lado da revista da novela, no mesmo lugar [música] onde tu ia buscar o jornal, mesmo ritual, mesma esquina.

 E o Brasil [música] comprou 30 milhões de cópias. 30 milhões. Faz a conta comigo. 30 milhões R$ 3,90 dá R 117 milhões deais em receita bruta. A Bíblia do Sid rendeu em números brutos e mais do que 27 anos de salário na Globo e não ficou nos Salmos. Em 2004 começou a gravar a Bíblia inteira. Gênesis [música] ao Apocalipse, 7 anos de gravação.

E tu sabe onde [música] essas fitas acabaram? Nos quartos de hospital, nas casas de repouso, nas cabines de caminhão, nas estradas de madrugada, na mesa de cabeceira de viúvas que ligavam o CD do Cid às 9 da noite, porque a voz dele fazia companhia num apartamento vazio. Imagina a cena. Uma senhora sozinha, marido já [música] enterrado.

Filhos morando longe, ligando uma vez por semana quando lembravam. Apartamento silencioso, a partir das 6 da tarde. Ela liga o CD e a mesma voz que durante 27 anos dizia boa noite na casa dela. Agora dizia: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”. Não era rádio, não era TV, era mais [música] íntimo.

 Era como se o Cid estivesse sentado na poltrona da sala, lendo para ela. Era companhia. A voz do Cid fazia de conta que alguém estava em casa. Nos hospitais, os enfermeiros contavam que pacientes terminais pediam o CD pelo nome. Não pediam a Bíblia em áudio, pediam a Bíblia do Sid. como se fosse uma versão diferente da Sagrada Escritura.

 E de certa forma era era a versão em que tu confiava, porque a voz que durante décadas dizia que o mundo pegava fogo, mas a gente ia sobreviver, agora dizia que Deus existia e que não devia ter medo. E quando essa voz falava isso, tu acreditava. Os caminhoneiros levavam os CDs na cabine, ligavam no rádio do caminhão nas estradas de madrugada, quando o sono vinha pesado e precisavam de alguma coisa para manter os olhos abertos.

A voz do Cid lendo Gênesis, enquanto a B R101 passava no para-brisa. Era oração e companhia ao mesmo tempo. Os pastores começaram a recomendar nas igrejas. diziam do púlpito: “Compra a bíblia do Sid na banca”. E as vendas subiam de novo na semana seguinte. As mães davam de presente para as filhas no aniversário, as filhas davam de presente para as mães no dia das mães.

 A Bíblia do Sid entrou na casa de gente que nunca tinha entrado numa livraria. Gente que mal sabia ler, que só escutava e ouvia a palavra de Deus na voz do homem. que dizia: “Boa noite”. Receita total, mais de R$ 60 milhões deais. A Bíblia deu pro Sid mais dinheiro do que o telejornal mais assistido do país. E quando ele morreu, os direitos autorais dessa Bíblia não foram pros filhos, não foram para Fátima, foram paraa ADR, a agência humanitária da Igreja Adventista.

O maior negócio da vida dele virou doação religiosa. Os filhos ficaram olhando, a Fátima ficou olhando. O Brasil inteiro comprou, mas ninguém da família herdou. E o dinheiro da Bíblia, junto com o salário da Globo, virou tijolo, virou parede. O Cid comprou imóveis ao longo de décadas, no total, 18 

propriedades. 18. guarda esse número. Nos últimos anos, o Sid e a Fátima se mudaram pro casarão de Teresópolis. 700 m², cinco suítes, piscina aquecida, sauna, academia. O Cid fazia diálise no Hospital de Petrópolis a menos de uma hora de carro e voltava pra Serra. A Fátima organizava os remédios, as consultas, a rotina de um homem de 95 anos.

 uma esposa cuidando do marido doente. Mas enquanto cuidava acontecia outra coisa. A casa da Barra da Tijuca no Rio, foi vendida por 1,2 milhão deais. Os filhos dizem que valia R$ 6 milhões de reais. Tu entende o que isso significa? É como se alguém vendesse a tua casa por R$ 20.000 quando ela vale R$ 100.000. Pensa na tua casa. Pensa no que tu sentiria.

 Ninguém vende pelo preço um quinto sem motivo. Os filhos dizem que o motivo era transferir patrimônio disfarçado, vender barato paraa gente de confiança, que depois revendia pelo preço real. E não foi só a barra. Dos 18 imóveis, a Fátima vendeu 11 12,3 milhões deais em vendas declaradas. Se todas foram abaixo do mercado, como a da barra, o valor real pode ter sido 40 milhões de reais, passando de mão em mão, enquanto o City fazia diálise na serra. E a mansão de Itaipava, 1000 m².

Tu sabe o que é 1000 m²? É a tua casa, a casa da tua vizinha, a da vizinha da tua vizinha e a padaria da esquina, tudo junto, colocada à venda por 2,9 milhões de reais. A justiça bloqueou a venda. A mansão tá parada, [música] vazia, área com as luzes apagadas, enquanto advogados brigam no tribunal. Guarda essa imagem.

 Uma mansão de 1000 m quadrados com as luzes apagadas. Porque é assim que termina quando o [música] dinheiro vira guerra e o dono não tá mais vivo pra acender a luz. E agora chega a segunda coisa que eu te prometi, os quatro casamentos de Sid e o pedido que mostra quem ele realmente amou. Daniel se casou quatro vezes. Quatro. E só uma dessas mulheres importou de verdade.

 A primeira foi a Nels aquela que eu pedi pra você guardar lá no começo. Nels conheceu Alides, não Sid Moreira. Você conheceu o cara da [música] voz bonita, não a celebridade nacional. Casaram quando Cid ainda era locutor de rádio do interior. Eles tiveram uma filha, Jaciara. E Jaciara cresceu. Teve um filho também, Alexandre. neto de Sid.

 E agora eu preciso que você preste atenção no ano 1996, o ano que destruiu Sid Moreira de uma forma [música] que ele nunca admitiu em público. Em março de 96, tiraram ele da bancada do Jornal Nacional. E eu vou te contar essa parte em detalhes mais para frente, porque a saída de Sid não foi escolha dele, foi expulsão.

Mas em outubro de 96, 7 meses depois, o Alexandre morreu em um acidente de carro. Ele tinha 21 anos. 21. A idade [música] em que você acha que a vida tá começando. Cid perdeu a bancada em março, perdeu o neto em outubro, no mesmo ano, perdeu a identidade profissional e o sangue do sangue no mesmo calendário.

 E ninguém falou sobre o que isso fez com ele por dentro, porque Sid não falava, engoli a geração dele era assim. Em 2020, a Jaciara morreu em Fizema pulmonar. Uma doença que vai tirando o ar aos poucos por anos, até a pessoa não ter mais fôlego para subir uma escada. A a filha do Sid foi sufocando devagar enquanto o pai assistia impotente. Ele tinha 50 anos.

 O Cid tinha 92 quando enterrou a própria filha. Pensa nisso. Esse homem enterrou o neto com 21 anos. Enterrou a filha com 50. enterrou a primeira esposa Nels ainda antes em Taubaté e a sepultura da Nelsita lá no cemitério venerável Ordem Terceira, no convento Santa Clara, com a filha Jaciara ao lado e o neto Alexandre.

Três túmulos de uma mesma família esperando pelo quarto. O coveiro sabia, o padre sabia. A terra estava reservada. Todo mundo em Taubaté sabia que Sid ia voltar para lá um dia. A segunda esposa foi a Olga Verônica Radenzev. Casaram em 1970, se separaram em 1972. 2 anos. Dessa relação nasceu Rodrigo, um dos filhos que Cid ia deserdar 50 anos depois.

 Depois do divórcio, pai e filho se distanciaram. Rodrigo cresceu longe do pai e em dezembro de 2025 o Rodrigo foi preso em flagrante no interior de São Paulo. Agressão à ex-mulher com revólver, porte ilegal de arma, tráfico de drogas. Na casa dele, a policial encontrou três tijolos de maconha, um revólver carregado, duas pistolas falsas, um rifle e um pé de maconha.

Esse é o filho biológico do Sid Moreira. Esse é um dos herdeiros que você quer anular o testamento. A terceira esposa foi a Juliana Naumic. Eles se casaram em 1993, se separaram em 2000, 7 anos. E durante esses 7 anos aconteceu a coisa que o Sid então chamado na frente das câmeras de A maior besteira que fiz na vida.

A maior besteira, não besteira qualquer, a maior na vida inteira de um homem que viveu 97 anos. A adoção do Roger. Roger é sobrinho de Juliana, filho de uma irmã dela. O Cid adotou já adulto, ou não era bebê, não era criança, era gente feita. E a adoção aconteceu por incentivo da própria Juliana. A ideia parecia bonita.

 Um homem rico e famoso adota o sobrinho da esposa, dá o sobrenome Moreira, dá uma vida melhor. Na cabeça de Juliana era um gesto de amor. Na cabeça do Sid era um favor paraa esposa. Ninguém dos dois imaginou o que viria depois. Mas a generosidade durou enquanto o casamento durou. Em 2000, Sid e Juliana se separaram. A Juliana foi embora.

 pegou as coisas dela e saiu. Mas o Roger ficou porque a adoção no Brasil é irrevogável. Não existe desfazer adoção. O que foi assinado em cartório tá assinado para sempre em cima da certidão do RG do CPF, filho de Sid Moreira, carimbado. O Cid tentou desfazer na justiça, contratou advogados, não conseguiu. A lei não deixa.

 E Sid ficou preso em uma armadilha que ele mesmo criou, um filho que não queria, que não podia devolver. que a lei obrigava a reconhecer como herdeiro. Todo ano, quando refazia o testamento, teve que escrever explicitamente que esse filho ficava fora, porque se não dissesse nada, a lei incluía. E aqui vem a parte pesada.

 Veio a público [música] um e-mail que o Sid mandou pro Roger. Revista Fórum publicou o conteúdo. Em uma linha específica, Sid escreveu com essas palavras exatas: “Você continua sendo meu filho adotivo porque não consegui reverter a adoção.” [música] Pensa no peso dessa frase. Lê de novo. Você [música] continua sendo meu filho adotivo, porque não consegui reverter a adoção. Cada palavra é uma faca.

 Você continua como se fosse temporário, porque não consegui como se fosse tentativa frustrada. Não é um pai escrevendo pro filho, é um homem escrevendo para um estranho que ele não consegue tirar de casa. Um pai escrevendo: “Tu é meu filho, porque eu não consegui te tirar. Não porque [música] te amo, não porque te escolhi, não porque te criei, porque a [música] lei não deixou.

 Essa foi a frase: “A que muda tudo o que tu pensa sobre essa família?” E o Roger respondeu: “Não com outra carta, não com processo comum.” Respondeu com acusações gravíssimas. Acusou o pai adotivo de atos libidinosos, de estupro. Essas foram as palavras nos autos do processo. [música] Palavras que, uma vez colocadas no papel não saem mais.

 O [música] Sid negou até morrer. Negou em entrevista, negou em depoimento. A Fátima disse que foi agredida e ameaçada pelo Roger dentro de casa. Nenhuma acusação foi provada, nenhuma foi retirada. ficou no ar, como fica em toda a briga de família que passa do limite. E o Sid, [música] já com 90 e poucos anos, e assistia tudo de dentro da mansão em Teresópolis, sem poder fazer nada.

 E chegamos na Fátima Sampaio, a quarta esposa, a que ficou com tudo. Novembro de 2000, Fortaleza, Ceará. Imagina a cena. Um torneio de tênis, calor de Nordeste, público nas arquibancadas. E num dos intervalos, um senhor de 72 anos, de boné e raquete na mão, olhou para uma mulher do outro lado da quadra e errou o saque.

 Essa mulher era a Fátima, repórter da revista Caras. tinha 35 anos, tava lá trabalhando, fazendo matéria sobre os jogadores. E o Cid, o homem que durante 40 anos nunca errou uma palavra no telejornal, errou uma bola. Ele contou depois nessas palavras exatas: “Eu vi aquela moça e perdi o jogo.” Perdi o jogo.

 Um homem de 72 anos, viúvo duas vezes, já separado da terceira esposa, famoso no Brasil inteiro, e errou uma bola de tênis porque viu uma repórter de 35 anos olhar para ele. Daí começou tudo. namoraram 6 anos discretos, sem alarde, o Sid virando 73, 74, 75. A Fátima virando 36, 37, 38. Casaram em 2006, ele com 78, ela com 41. E aqui vem uma coisa importante.

 A lei brasileira tem uma regra. Quando um homem de mais de 70 anos casa, o dinheiro que ele tem não vira automaticamente da esposa, continua dele. Se quiser dar para ela, tem que dar em vida ou escrever no testamento. Porque a lei sabe que velho casando com mulher nova pode ser coisa de esperteza. Isso significa que cada centavo que a Fátima recebeu do Sid foi porque ele decidiu dar. Foi escolha dele.

 E é essa a escolha que os filhos questionam hoje. Dizem que o Sid, de tão velho, já não sabia o que estava decidindo. A Fátima era jornalista, tinha nome próprio antes do Cid. escrevia para caras para outras revistas, carreira montada, e depois do casamento largou tudo. Virou a esposa do Cid Moreira, a cuidadora, a que acordava cedo para separar os remédios, a que marcava médico, a que decidia quem entrava na casa.

 Em 2010, sentou com ele e gravou horas de conversa para escrever a biografia dele. Boa noite, Sid Moreira, a grande voz do Brasil. livro de 2010. Tá nas livrarias até hoje. E é a versão que a Fátima escolheu contar, a versão em que ela é a companheira que ficou quando todos foram embora. E talvez ela não esteja completamente errada.

Pensa com calma. Os filhos visitavam, ligavam, estavam presentes. O Rodrigo morava longe, acabaria preso com arma e drogas. O Roger estava em guerra judicial contra o próprio pai. Quem estava lá toda manhã fazendo café? A Fátima, quem acompanhava na diálise e sentada numa cadeira de plástico três vezes por semana durante 3 anos e meio.

A Fátima, quem lidava com advogados, com processos, com acusações públicas. A Fátima. Isso não prova que ela é inocente, mas prova que ela estava presente. E agora chega a terceira coisa que eu te prometi, a guerra judicial. E como tudo explodiu, em 2021, a bomba estourou. O Rodrigo e o Roger, que não se suportavam entre si, que cresceram em casas diferentes, cidades diferentes, realidades diferentes, que nunca tinham se reunido numa mesa de Natal, se juntaram pela primeira vez num objetivo comum: derrubar a Fátima. Entraram na

justiça pedindo uma coisa inédita. [limpando a garganta] Pediram para tirar a Fátima de dentro de casa e para declarar que o Sid não estava mais no juízo perfeito, que precisava [música] de um tutor, que a esposa dele era uma ameaça. Pediram prisão preventiva da Fátima, prisão da esposa do Sid Moreira, e as acusações eram pesadas.

 Disseram que [música] a Fátima havia pego R$ 40 milhões da conta do marido e colocado em conta dela e [música] de parentes dela 40 milhões. Saindo da conta do Sid Moreira, entrando em contas de gente que não tinha nada a ver com o velho, só com a Fátima. Disseram que ela havia vendido 11 das 18 propriedades do Cid por preços que ninguém paga no mercado.

 A Casa da Barra por R 1,2 milhão deais quando valia seis. Casas em Petrópolis, apartamento em São Paulo, tudo vendido barato, tudo passando de mão em mão, tudo [música] com dinheiro sumindo pelo caminho. Eles disseram: “E essa talvez seja a pior, que Sid estava preso dentro da própria casa, que Fátima decidia quem podia visitar, quem podia telefonar, quem podia ver o velho.

Um homem de 93, 94 a 95 anos, isolado do mundo pela própria esposa. Amigos de décadas não conseguiam mais falar com ele no telefone. Os filhos [música] não conseguiam entrar na casa sem hora marcada. Fátima tinha transformado a mansão em Teresópolis, numa fortaleza com apenas uma porta e ela com a chave.

 E [roncando] disseram, por fim, que Sid estava sofrendo maus tratos dentro da própria mansão. Isolamento, controle do dinheiro, saúde [música] piorando, tudo junto, tudo apontando, segundo os filhos, para crime contra idoso. O Ministério Público do Rio entrou no caso, mandou gente até a mansão em Teresópolis.

 Visitaram Sid pessoalmente com o médico do estado. Conversaram com os empregados. Checaram os bancos, eles investigaram por meses e, no fim arquivaram tudo. Disseram: “Não tem crime, o velho não tá sofrendo maus tratos. A esposa não tá prendendo ninguém e foram além. E viraram contra os filhos.

 Eles acusaram os filhos de terem mentido paraa polícia de propósito para prejudicar Fátima.” O próprio estado brasileiro olhou pros filhos do Sid Moreira e disse com todas as letras: “Vocês estão mentindo”. Mas os filhos não pararam. Não podiam parar, porque se parassem, o testamento ficava de pé. E se o testamento ficasse de pé, eles ficavam com nada.

 E com nada não era a opção. E agora pensa nessa cena. 3 de outubro de 2024. Sid morre no hospital Santa Teresa em Petrópolis, 97 anos, 29 dias internado. E enquanto o padre rezava em Taubaté, enquanto o caixão descia na terra ao lado de Nels da Jaciara e Alexandre, enquanto Fátima chorava de preto no cemitério, os advogados dos filhos estavam em um escritório no Rio de Janeiro digitando: “Horas depois da morte! Antes do corpo esfriar, o pedido de abertura de inventário já estava protocolado.

Pensa no timing com cuidado. O pai morreu de manhã. Antes de anoitecer, os filhos já estavam na justiça, pedindo para contar o dinheiro, enquanto a terra ainda estava fresca na sepultura. E em agosto de 2025 veio a peça que pode mudar tudo. O perito Cláudio da Silva Cordeiro analisou as assinaturas no testamento de 2023.

O último testamento, o que deserdava os filhos e dava tudo para Fátima. O testamento que Sid supostamente assinou com 96 anos. Tu sabe como essa gente que analisa a assinatura trabalha? Eu te explico. Pega a assinatura suspeita, coloca embaixo de uma lente de aumento que amplia 10, 20 vezes e busca padrões. A pressão que a caneta fez no papel, a velocidade que a mão andou, os pontinhos onde a mão parou, mesmo que por um segundo só.

 Depois compara com assinaturas velhas do mesmo homem, de quando ele era mais jovem e a mão estava firme. Quando uma pessoa saudável assina, o traço sai fluido, contínuo, vai de uma ponta a outra sem parar. Mas quando a mão treme, quando o cérebro já não comanda bem os dedos, o traço vira uma linha cheia de tremorzinhos, invisíveis a olho nu, mas claros como o dia sob as lentes.

 E o que o perito encontrado no testamento de 2023, o último testamento de Sid, o que deu tudo para Fátima é isso. Tremores, oscilações, pressão irregular, pontinhos de parada que não deveriam estar lá. A mão que segurou aquela caneta não tinha controle. Era a mão de quem estava com o cérebro indo embora devagar. O testamento pode ser falso ou pode ter sido assinado por um homem que não mais ele sabia o que estava assinando.

Duas possibilidades, as duas desastrosas para Fátima. Agora, uma coisa importante, esse especialista foi contratado pelos próprios filhos. Eles pagaram para ele olhar. A justiça ainda vai chamar um perito neutro para conferir, mas o dado já tá no processo e o dado diz: “O papel que decidiu o destinação de R$ 60 milhões de reais pode não valer nada.

 A justiça bloqueou a mansão de Itaipava. Ninguém vende, ninguém compra até que se decida. E em outubro de 2025, os filhos subiram na aposta, [música] de forma que a imprensa brasileira inteira voltou a prestar atenção. Eles não eram mais [música] 40 milhões de reais. Agora o processo fala em 500 milhões de reais em desvios.

 Meio bilhão de reais. Bilhão com B se somar as acusações inteiras. Ocultação de [música] bens em contas internacionais. Enriquecimento ilícito. Uso de laranjas [música] para esconder patrimônio. Sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, transações imobiliárias fraudulentas e pediram nova investigação ao MPRJ. A Fátima respondeu pela imprensa.

 Disse que estava no meu luto, que as acusações eram absurdas. Lembrou todo mundo que o Ministério Público já tinha olhado aquilo tudo em 2021 e engavetado. Lembrou que foram os filhos que foram pegos mentindo, [música] não ela. Mas o processo tá rolando agora. Enquanto tu ouve esse vídeo, os advogados escrevem petições, os peritos analisam papéis.

 O dinheiro tá trancado pela justiça e a guerra promete durar anos. E agora chega a quarta coisa que eu te prometi. E eu preciso que tu esteja aqui comigo agora. Se tu tá deitada [música] no sofá, quase dormindo, senta. Se tu tá mexendo no celular, larga, porque o que vem [música] é o que eu guardei esse vídeo inteiro para te contar.

Em 4 de setembro de 2024, o Cid foi internado no Hospital Santa Teresa em Petrópolis. Insuficiência renal. Ele já fazia diálise há 3 anos e meio, três vezes por semana. Durante 3 anos e meio. Faz a conta comigo. 3 anos e meio dá 546 sessões, cada uma de 4 horas. No total, quase 2200 horas, deitado numa cadeira de hospital, ligado a uma máquina enquanto o corpo ia falhando, e a Fátima sentada na cadeira de plástico do lado, segurando a mão quando doía, levando café quando esfriava, toda segunda, quarta e sexta. Saía da mansão de

madrugada, dirigia até Petrópolis, 4 horas de hospital, voltava para casa, repetia na quarta, repetia na sexta, semana após semana, durante 3 anos e meio, sem férias desse calendário. A diálise não negocia. Nessa última internação, veio o peritonite com infecção junto. O corpo de 97 anos não aguentou. Os rins pararam.

 O fígado deu sinais de falha, a pele ficou amarelada, as pernas incharam, a pressão caiu e não voltou. Durante 29 dias, o corpo foi desligando órgão por órgão. Os médicos tentaram tudo, mas um corpo de 97 anos tem limite. E a Fátima ficou ali 29 dias dormindo numa cadeira reclinável, sem sair do hospital, comendo o que a enfermagem trazia, segurando a mão do marido quando ele acordava com medo, chamando o médico quando os monitores apitavam.

No último dia, o Cid abriu os olhos. A Fátima estava do lado dele, como tava há 29 dias, como estava há 24 anos. Ele olhou para ela direto nos olhos e a Fátima percebeu que não tinha mais ninguém atrás daqueles olhos. Os olhos estavam abertos, mas ninguém olhando de volta. O homem que falou pro Brasil durante 27 anos, cuja voz era reconhecida antes do rosto, olhou paraa esposa e não sabia quem era.

 Não era sono, não era cansaço, era a mente indo embora antes do corpo. A Fátima se aproximou, falou o nome dele, Sid. Ele continuou olhando sem reagir. Falou o próprio nome dela. Fátima. Nada. Pegou a mão dele. Nada. 24 anos de casamento se dissolvendo no espaço de uns minutos. Ela sentou de volta na cadeira e esperou. Esperou que ele voltasse. Não voltou.

 Algumas horas depois, parou de respirar. E lembra que eu te prometi contar o que ela sentiu naquele momento? A Fátima disse dias depois, numa entrevista que quase ninguém viu, em uma frase só: “Eu perdi ele antes dele morrer.” Sete palavras, para e lê de novo. Eu perdi ele antes dele morrer. Nessas sete palavras tá toda a solidão de uma mulher que cuidou de um homem durante 24 anos, 546 sessões de diálise, 29 dias. sem sair do hospital.

 E no final ele olhou para ela como se fosse uma estranha que tinha entrado no quarto por engano. Morto pode acusar a Fátima de muita coisa. Os filhos acusam. A justiça investiga, a imprensa especula. Talvez ela tenha desviado dinheiro. Talvez não. Talvez tenha isolado o sid dos filhos.

 Talvez os filhos tenham se isolado sozinhos. A justiça vai decidir cada um desses pontos nos próximos anos. Mas perder o marido antes dele morrer, ver ele ir embora com os olhos abertos, olhando para ti, sem te reconhecer, isso nenhum dinheiro paga e nenhum processo apaga. E isso a Fátima viveu de verdade durante horas, antes do monitor aptar a última vez.

 E agora pensa no que isso significa pro testamento. O Cid refazia o testamento todo o ano. Todo o ano. Advogado novo, laudo médico novo, testemunhas novas. Mesma decisão. Filhos fora, Fátima dentro. Mas se no último dia ele não reconhecia a esposa, quando exatamente ele parou de saber o que assinava? [música] Em 2024, 2023, 2022, a gente não sabe, ninguém sabe.

 Porque a linha entre lucidez e confusão num homem de 96 anos não é porta que fecha de uma vez, é luz [música] que vai apagando devagar. Tem dia que a luz tá forte, no dia seguinte fraqueja e ninguém marca o exato momento em que se apagou. O testamento é uma porta trancada e a chave morreu com ele. Mas tem uma coisa que eu não te contei ainda.

 Lembra da Nels? A primeira esposa. Eu pedi para tu salvar o nome lá no começo. Agora tu você vai entender por quê. Sid se casou quatro vezes. Morou 60 anos no Rio de Janeiro. Construiu R milhões de reais. Morou em [música] mansões em Petrópolis e Teresópolis. Tinha casa na Barra da Tijuca, tinha apartamento em Copacabana, teve três esposas depois da primeira, adotou um filho que acabou virando inimigo.

 Ele teve um filho biológico que acabou preso. Ele entregou tudo para Fátima no testamento. E quando sentiu que ia morrer, quando o corpo já dava os avisos, Sid fez uma escolha. não pediu [música] para ser enterrado no Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da vida adulta. Não pediu Petrópolis, onde morreu. Não pediu Teresópolis, onde passou os últimos anos com Fátima.

 Não pediu um cemitério chique. Não pediu um mausoléu grandioso. Não pediu placa de mármore. Pediu Taubaté. pediu para voltar paraa cidadezinha de rua de Terra, [música] onde nasceu em 1927. pediu para ser enterrado ao lado da Nelsa, a que ele conheceu antes de ser Sid Moreira, antes da fama, antes do Jornal Nacional, antes dos R 60 milhões de reais, antes de ter motorista, empregados, advogados, assessores.

quando ele ainda era Alsides, garoto magro do interior de São Paulo, com dicção linda e sonho grande, a Fátima, mas a quarta esposa, aquela que ficou com o patrimônio, a que os filhos acusam de R$ R$ 500 milhões em desvios, levou o corpo do marido até Taubaté. Dirigiu 4 horas na estrada de São Paulo com o caixão atrás.

Pensa nessa imagem. A viúva dirigindo pela rodovia Presidente Dutra com o corpo do marido. Ele chegou no cemitério, assistiu o caixão descer na terra ao lado de Nels Jaciara, ao lado de Alexandre. Entregou o marido para ficar para sempre, deitado ao lado de outra mulher. “Pensa nessa cena com calma.” Fátima de preto, olhando o caixão descer, sabendo que o homem com quem dormiu 24 anos ia passar a eternidade inteira ao lado da primeira esposa.

 Não ao lado dela. Dela não, dela nunca. Da Nels sempre da Nelspriu o pedido, não discutiu, não mudou o lugar. Ele entrou no carro e voltou às 4 horas de estrada e chegou no casarão vazio de Teresópolis, sozinha, sem o marido, sem o corpo, sem nada. Enquanto isso, em Taubaté, embaixo da terra, os quatro da primeira família estavam juntos de novo.

 Nelsy, que morreu ainda antes da fama chegar, sem ver o marido virar a voz do Brasil. Jaciara, a filha que sufocou devagar com Enfisema. Alexandre, o neto de 21 anos que morreu no acidente de carro, e agora Sid, a família inteira reunida. Depois de décadas de separação pela morte de uns e pela distância dos outros, juntos novamente em Taubaté, um homem que deserdou os filhos pela esposa pediu para ser enterrado ao lado de outra mulher.

 E a esposa aceitou como se os 60 anos depois de Nels fossem um parêntese. 60 anos de parêntese entre Taubaté e Taubaté, entre Nels e Nelse. E quando o parêntese fechou, Sid voltou pro ponto exato onde parou, como quem aperta controle mais Z em 60 anos de vida. desfazendo tudo, voltando ao rascunho original, como se toda a fama, todo o dinheiro, todos os casamentos que vieram depois fossem um desvio na vida que ele deveria ter vivido.

 Pensa nisso devagar. Três esposas depois da Nelsa, quatro filhos, R 60 milhões de reais. 27 anos na bancada, 30 milhões de bíblias vendidas. Um nome que virou sinônimo de credibilidade. Oito décadas de conquistas. E no final Sid escolheu virar pó ao lado da moça de Taubaté, que tinha conhecido antes de tudo começar. Porque no último pedido da vida, quando tu tem que escolher uma coisa só pra levar paraa eternidade, Sid não escolheu fama, não escolheu dinheiro, não escolheu a esposa atual, escolheu o primeiro amor, a mulher que esperou. Nos

últimos anos, ainda surpreendeu. Em 2019, aos 92 anos, abriu o canal no YouTube, 322.000 1 seguidores, Instagram com 1 milhão. Um homem nascido antes da televisão existir fazendo vídeo pro YouTube. Os vídeos mostravam um sí diferente, sem terno, de camisa aberta, falando de casa, lendo a Bíblia, respondendo fã.

Em 2023, aos 96 anos, ele ainda dublou um filme. Do estúdio de rádio em Taubaté aos 15 até o [música] estúdio de dublagem aos 96, foram 81 anos de trabalho com a voz. Depois que morreu, o canal do YouTube ficou em silêncio. O último vídeo é de antes da internação. O Instagram congelou. A foto mais recente é de um homem sorrindo que não sabia [música] que ia morrer em semanas.

Contas viraram túmulo digital e agora fazem parte do espólio em disputa. Até o Boa Noite Digital é herança que os filhos e Fátima disputam. E tem um dado que quase ninguém menciona. Em março de 1996, quando o Cid leu o último Jornal Nacional, não foi escolha dele, foi tirado. Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo da Globo, queria rostos mais jovens.

 O Sid não [música] aceitou, foi até Roberto Marinho pessoalmente, o dono da Globo, pediu para ficar e Roberto Marinho não reverteu. O homem que leu as notícias do Brasil por 27 anos foi tirado da cadeira por uma decisão executiva. E o que ele fez? Engoliu, ficou na Globo num papel menor, narrando chamadas do Fantástico e continuou [música] recebendo.

O contrato vitalício foi renovado em setembro de 2019. A Folha publicou R$ 350.000 por mês. Lembra quando eu pedi para tu chutar no começo do vídeo? Aí está, 350.000 por mês, mesmo sem aparecer na TV. Mesmo sem gravar, é o que um brasileiro médio ganha [música] em 10 anos, entrando na conta dele em 30 dias.

 A Globo pagou até 3 de outubro de 2024. O contrato morreu com o Sid. Faz a conta comigo. R$ 350.000 por mês, de 2019 até 2024. 5 anos, 60 meses, 21 milhões de reais só nesse último contrato para um homem que não aparecia mais na TV. A história do Sid Moreira não é sobre 60 milhões de reais, não é sobre testamento, não é sobre briga de herança, não é sobre Fátima, não é sobre Roger, não é sobre Rodrigo, é sobre o que acontece quando um homem passa a vida sendo a voz mais confiável de um país. E no final nem ele

mesmo reconhece a esposa do outro lado da cama. É sobre o que acontece quando tu constrói patrimônio durante 80 anos e no dia da morte os filhos entram na justiça antes do corpo esfriar. É sobre o que acontece quando tu amou uma mulher na juventude, casou com outras três ao longo das décadas e no último pedido da vida só quer voltar pra primeira.

 A voz mais importante da televisão brasileira acabou enterrada ao lado de uma mulher que o Brasil nunca conheceu, nunca viu numa foto, nunca ouviu numa entrevista, nunca soube que existiu, porque o Sid conheceu e no final só isso importou. E agora pensa com calma, pensa em alguém da tua família, alguém da tua geração, alguém que trabalhou a vida inteira construindo alguma coisa.

 uma casa, um patrimônio, uma reputação. E um dia morreu. E no dia seguinte a família virou o processo. Os filhos brigando, os netos pegando lado, o dinheiro dividindo irmão de irmão. Talvez tu conheça uma história assim. Talvez seja da tua vizinha. Talvez seja da tua própria família. Se essa história te fez pensar em alguém, alguém que tu conhece, alguém que tu vê todo dia, alguém que trabalhou a vida inteira e a família, brigou por tudo quando morreu.

Alguém que construiu patrimônio tijolo por tijolo e a herança virou guerra antes do corpo esfriar. Alguém que escolheu morrer ao lado de uma pessoa que ninguém da família entendia por manda esse vídeo para essa pessoa. Manda agora, manda pelo WhatsApp. Manda sem dizer nada. Porque a história do Sid Moreira não é sobre fama, não é sobre dinheiro, não é sobre globo, é sobre o primeiro amor que espera a vida inteira debaixo da terra de uma cidade pequena.

É sobre o último pedido de um homem que tinha tudo e no final só queria voltar pro começo. É sobre o fato de que o mundo inteiro olha pro teu casamento, pra tua vida, pro teu patrimônio e diz: “Que lindo!” E ninguém pergunta se tu tá bem ali dentro. Ninguém pergunta o que tu quer levar pro outro lado quando chegar a hora.

 E se tu quer conhecer outra história que o Brasil acha que conhece, mas não conhece de verdade, o próximo vídeo conta a vida de um homem que o mundo chamava de gênio. Bicampeão mundial. O Brasil adorava ele como Deus. Criancinha trocava a figurinha do álbum dele na escola. Mães colocavam foto dele na parede e esse homem matou a própria sogra, dirigindo bêbado, espancou a mulher que amava até ela ficar sem dentes e morreu destruído pelo álcool aos 49 anos.

Uma fortuna esperava por ele. Ele nunca viu um centavo. E o que ele escondeu dentro de casa é ainda pior do que tudo isso. Tu não vai querer perder. M.

 

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