CACILDA BECKER: ELA SABIA QUE ALGO ESTAVA ERRADO. SUBIU AO PALCO MESMO ASSIM
Na noite de 21 de maio de 1969, o teatro Rute Escobar em São Paulo estava lotado. Era uma quarta-feira comum, o tipo de noite que não anuncia nada de especial antes de começar. O público tinha chegado, tinha ocupado os lugares, tinha feito o silêncio que os teatros pedem quando as luzes baixam. A peça estava à espera de Godô de Samuel Becket.
Uma das obras mais exigentes do teatro moderno, densa, filosófica, que pede muito do ator e muito do espectador. E no centro desse palco estava a mulher que muitos consideravam a maior atriz da história do Brasil. Cilda Becker, 53 anos, mais de três décadas em palco. Uma carreira que tinha atravessado o teatro de revista, o o teatro moderno, os clássicos, a televisão, sempre com a mesma entrega total que as pessoas que a viram ao vivo descrevem com uma palavra que parece exagerada até perceber que não é transcendente.
E, então, a meio da peça, Cassilda Becker parou. Não foi uma pausa dramática, não estava no texto de Beckett. Foi uma paragem diferente. O tipo de paragem que as pessoas que estavam no palco junto dela reconheceram imediatamente como algo fora do guião, fora do ensaio, fora de qualquer coisa que tivesse sido planeada.
Cilda caiu um AV C. Fulminante no meio do palco perante o público, sob as luzes do teatro que ela tinha dado à vida para habitar. O pano desceu. As ambulâncias foram chamadas. O teatro Rut Escobar entrou num silêncio que as pessoas presentes nessa noite descrevem como o silêncio mais pesado que alguma vez sentiram dentro de um teatro.
Cassilda Becker foi levada para o hospital e nunca mais voltou ao palco. Esteve em coma durante quase do anos. Faleceu a 14 de junho de 1971, sem ter recuperado a consciência, sem ter tido a oportunidade de se despedir do palco, que era a única coisa que amava. com a intensidade com que o amava. Esta é a parte da história que toda a gente conhece, a atriz que morreu em cena, o drama que parece de ficção.
Mas há uma parte desta história que quase ninguém conta. Uma parte que está nos bastidores dos últimos anos de Cassilda Becker, nos ensaios, nas escolhas, nas conversas que teve com os pessoas mais próximas. Uma parte que transforma o que parecia um acidente trágico numa história de uma mulher que sabia que estava a dar mais do que o corpo conseguia suportar e que escolheu continuar na mesma.
Maria Cassilda Becker nasceu a 6 de setembro de 1921 em Santos, no litoral de São Paulo. Santos era, nos anos 20 uma cidade portuária com uma vida cultural mais rica do que o tamanho sugeria. Pelo porto passavam pessoas, mercadorias, ideias e havia nas ruas daquela cidade uma mistura de influências que não existia com a mesma intensidade no interior do estado.
O pai de Cassilda era um homem culto, apreciador de teatro e de literatura, que criou os filhos com uma relação próxima com a arte que não era comum nas famílias da época. Cilda era curiosa, radicalmente, incontrolavelmente curiosa. Desde pequena que havia nela uma qualidade que as pessoas que a conheceram nesta época descrevem de formas diferentes, mas que apontam para o mesmo lugar.
Uma atenção ao mundo que o rodeava, que era mais intensa do que a maioria dos crianças têm. Um interesse genuíno pelas pessoas nas histórias, nas formas como os seres humanos comportam-se quando estão a ser observados e quando acham que não estão. É a matériapra de um ator. E Cassilda tinha a em abundância desde antes de saber o que fazer com ela.
O teatro chegou ainda na adolescência, não como uma descoberta súbita, como reconhecimento de algo que já lá estava. A primeira vez que Cilda Becker subiu a um palco, as pessoas que estavam presentes descrevem a sensação de ver alguém chegar ao lugar onde pertencia. Havia nela uma naturalidade em palco que não se ensina.
Uma capacidade de habitar o espaço como se o palco fosse uma extensão do corpo e não um território a ser conquistado. E havia uma intensidade que assustava antes de encantar. Cassilda Becker chegou a São Paulo nos anos 40, numa época em que o teatro brasileiro estava a atravessar uma das maiores transformações da sua da sua história.
O teatro que existia antes, o teatro de revista, o teatro de entretenimento popular, estava a ser questionado por uma geração de artistas que acreditava que o palco podia fazer mais, que havia na arte dramática uma capacidade de mudar as pessoas que o puro entretenimento nunca alcançaria. Cilda Becker foi parte central desta revolução. O Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, foi a instituição que transformou o Teatro Paulistano nos anos 50 e Cassilda Becker foi a sua maior estrela durante anos.
Com o TBC, o teatro brasileiro encontrou uma profissionalização e um rigor que não existia antes. Os papéis que interpretou nestes anos em peças de Tennessee Williams, de Arthur Miller, de O’Ne dos clássicos do Teatro Universal, eram o tipo de papéis que exigem de um ator uma exposição total. Não há sítio para se esconder num palco de teatro moderno. Ou estás presente ou não estás.
E a Cilda estava sempre presente. Havia um nome que começou a circular nestes anos. Nem um apelido, nem um título honorífico, simplesmente a afirmação de um facto que toda a gente que havia concordava em voz alta. A maior atriz do Brasil. Em 1948, Cassilda Becker conheceu Valmore Chagas, ator como ela, com uma presença própria, com um talento que era reconhecido por quem estava dentro do meio, com uma inteligência sobre o teatro que ia para além da interpretação e tocava na estrutura, na organização, na forma como um
companhia se constrói e se mantém ao longo do tempo. A relação entre Cassilda e Walmore foi uma das grandes histórias de amor do teatro brasileiro, não pelos dramas externos, não pela espetacularidade, mas pela profundidade de uma parceria que era ao mesmo tempo amorosa e artística. Em 1958, os dois fundaram juntos a companhia Cilda Becker, uma companhia de teatro própria, com o nome dela na testa, com a visão artística de ambos, a orientar as escolhas.
Fundar uma companhia de teatro no Brasil de 1958 não era uma decisão comercial, era uma declaração de intenção. E a companhia Cassilda Becker seguiu este caminho com uma consistência que é rara em qualquer arte. Em 1964, o golpe militar mudou o Brasil. E para o teatro brasileiro, um teatro que estava a crescer, a amadurecer, a encontrar uma linguagem própria que dialogava com as tensões do país e do mundo, a ditadura foi uma ameaça que chegou de formas diferentes, mas sempre com o mesmo efeito, o estreitamento do espaço.
Cassilda Becker navegou estes anos com uma posição que era em si mesma forma de resistência. continuou a fazer o teatro que acreditava ser necessário fazer, não com manifestos, não com discursos, com escolhas de repertório que diziam claramente para quem sabia ler que havia uma atriz e uma companhia que não iam vergar a cabeça a lógica da censura.
Becket, por exemplo, não era um autor que os sensores identificavam facilmente como subversivo. À espera de Godô, era suficientemente abstracta, suficientemente filosófica passar pelos filtros da censura sem acionar alarmes. Mas Beckett é, no fundo, uma peça sobre a espera, sobre pessoas que esperam por alguma coisa que nunca chega.
No Brasil de 1969, no auge do período mais brutal da ditadura, o ano em que o AI5 tinha sido decretado, havia algo à espera de Godô, que o público entendia sem precisar que ninguém lhe explicasse. A Cilda sabia isso, escolheu a peça sabendo isso. E chegamos agora à parte desta história que raramente é contada.
Nos meses que antecederam a noite de maio de 1969, as pessoas que trabalhavam de perto com Ciler, os atores da companhia, os técnicos, Walmor Chagas, descrevem sinais que, vistos de trás, ganham um peso que na altura não tinham. Cilda estava a trabalhar para além do que o corpo conseguia. Não era novidade. Cilda sempre tinha trabalhado para além do que o corpo conseguia.
Essa era a sua forma de trabalhar. Os ensaios longos, a preparação que não tinha hora para acabar, a entrega total que não reconhecia o conceito de poupança quando havia uma peça a construir. Mas havia algo diferente nos últimos meses, um cansaço que os ensaios não resolviam, uma palidez que as pessoas notavam e comentavam entre si, sem comentar diretamente com ela.
Porque Cassilda não era o tipo de pessoa com quem se tinha conversas sobre o descanso. Havia também as dores de cabeça, frequentes, intensas, que Cassilda geria com a descrição de quem não quer que o trabalho seja interrompido por uma fraqueza do corpo. E há uma conversa que circula entre quem estava próximo de Cassilda nesses meses.
Uma conversa que nunca foi completamente confirmada, nem completamente desmentida, que Cilda sabia que algo não estava bem. Não um diagnóstico, não uma certeza médica, mas a intuição de quem vive dentro do próprio corpo com a atenção de um ator que sabe que há sinais, que os sinais dizem alguma coisa e que a coisa que dizem não é tranquilizadora, e que mesmo assim optou por continuar porque havia uma peça, porque havia um palco, porque havia um público que estava à espera e porque Cassilda Becker simplesmente não sabia ser de outra
forma. Se isso é coragem ou incapacidade de parar, e talvez sejam a mesma coisa, é uma questão que fica no ar. Voltamos ao Teatro Rut Escobar. Era a 17ª apresentação de À espera de Godo. Não era a estreia. Não havia a adrenalina especial da primeira noite. Era a 17ª apresentação. Uma noite de meio de época, rotineira nos detalhes logísticos, igual às anteriores, em tudo o que era visível do exterior.
A Cilda estava em palco. Estava a dar o que sempre dava, a presença total, a entrega sem reservas, a habitação completa do texto e da personagem que era a sua assinatura como atriz. E depois, a meio de uma cena, aconteceu. Os atores que estavam em palco com ela descrevem um momento de desorientação visível, um segundo em que Cassilda pareceu perder a referência do espaço, em que o corpo deu um sinal que o olhar de quem está ao lado reconhece como errado, como fora do esperado.
A Cilda caiu. O pano desceu com uma velocidade que a equipa técnica accionou antes de qualquer ordem verbal. o instinto de fechar o palco quando algo acontece que não devia acontecer. O público ouviu o som, sentiu a mudança e ficou no silêncio de quem não sabe o que está a acontecer, mas sabe que é grave. Walmor Chagas estava no teatro.
Chegou ao palco em segundos e o que encontrou? A mulher que amava, a companheira de décadas, a maior atriz do Brasil, no chão do palco que ela tinha escolhido como o lugar central da sua vida. É o tipo de imagem que não sai da memória de quem a viveu. A ambulância chegou. Cassilda foi levada e o teatro Rute Escobar ficou vazio naquela noite de uma forma que nada tinha a ver com a ausência de pessoas.
Cilda Becker ficou em coma, não por dias, durante meses, durante quase do anos. O Almor Chagas esteve ao lado todos os dias com a fidelidade de quem não tem alternativa que não seja estar presente, não porque o dever o exija, mas porque havia uma ligação entre aquelas duas pessoas que não se interrompe com o coma de uma delas.
O Brasil do teatro ficou em suspensão. Havia a esperança que alimenta, mesmo quando os médicos não têm palavras que a justifiquem completamente. Havia as visitas, as mensagens, os gestos de uma comunidade artística que sentia que uma parte central de si estava ali, num hospital inacessível. Nos bastidores hospitalares daqueles meses, as pessoas que estavam presentes descrevem o Almore como um homem que não desmoronou em público, que manteve uma compostura que era, na sua origem o mesmo material de que Cassilda era
feita. a convicção de que há coisas que se fazem mesmo quando o custo é elevado. A 14 de junho de 1971, Cassilda Becker morreu sem ter recuperado a consciência, sem ter voltado ao palco, sem ter tido a oportunidade de saber o que o Brasil sentiu quando ela caiu e o que o Brasil ia sentir quando ela partisse.
Tinha 49 anos. E aqui está a parte desta história que é talvez a mais difícil de contar. Cilda Becker morreu. O Brasil do teatro chorou. Houve homenagens, houve textos, houve o reconhecimento de uma perda que as pessoas dentro do meio sentiam de forma visceral. E depois, não imediatamente, não de forma declarada, mas com a lenta inevitabilidade de como as coisas funcionam quando não há ninguém a lutar contra ela.
Cassilda Becker começou a desaparecer da memória pública brasileira, não do teatro. Dentro do teatro, o seu nome continuou a ter peso. Existem prémios com o seu nome, a salas de teatro com o seu nome, a gerações de atores brasileiros que cresceram a ouvir falar dela como referência máxima. Mas da memória do Brasil grande, do Brasil que não frequenta o teatro, que consome cultura através da televisão e do cinema, Cilda Becker foi ficando cada vez mais distante.
O teatro não deixa arquivo da mesma forma que o cinema ou a música deixam. Não há gravações de Cassilda Becker a atuar que o grande público possa ver. Há fotografias, há relatos, aos textos que os críticos escreveram, mas não há o equivalente em teatro do que um disco é para a música ou um filme é para o cinema. A grandeza de Cassilda Becker existiu de forma mais intensa no momento presente em que aconteceu.
E o momento presente não se transfere para quem não estava lá. Isto torna a responsabilidade de contar a história ainda maior, porque se ninguém conta, a história desaparece. E quando a história de uma artista desta dimensão desaparece, desaparece também uma parte do que o Brasil foi e do que o Brasil pode ser. Para compreender Cda Becker, é necessário compreender o que o teatro representa, não como entretenimento, e não como indústria, mas como forma de conhecimento humano que não existe em mais nenhum outro lugar.
O teatro acontece entre pessoas em tempo real, no espaço partilhado de um palco e de um público, com a consciência de ambos os lados de que o que está a acontecer é ao mesmo tempo, verdadeiro e falso, real e ficção, presente e eterno. E dentro deste espaço, Cassilda Becker foi durante 30 anos a a artista que mais completamente soube habitar aquela contradição.
Não havia distância entre ela e a personagem. Não havia o mecanismo de proteção que muitos atores desenvolvem, a capacidade de entrar no personagem e sair dele com uma fronteira que separa o que é deles do que é da ficção. A Cilda entrava e levava tudo, a vida toda, a vulnerabilidade toda, a intensidade toda. E era essa a razão pelo qual a sua arte era extraordinária, era também a razão pela qual o custo era que era.
Quando o corpo cedeu naquela noite de maio de 1969, cedeu o corpo de uma mulher que tinha dado ao teatro tudo o que o teatro pode pedir e um pouco mais do que o corpo conseguia suportar. Mas há o paradoxo que define completamente a história da Cassilda Becker. Ela sabia, sabia que havia sinais, sabia que havia um preço e escolheu pagar.
Não por imprudência, não por inconsequência, por uma convicção que as pessoas que não amam o que fazem com aquela intensidade raramente conseguem compreender completamente que havia coisas mais importantes do que a autopreservação, que o palco era uma delas. Walmore Chagas viveu décadas depois da morte de Cassilda.
continuou no teatro e quando falava dela em entrevistas havia uma frase que aparecia sempre em variações diferentes, mas com o mesmo núcleo, que Cassilda Becker foi a pessoa mais inteira que alguma vez conheceu. Inteira, não perfeita, não sem contradições, mas inteira, no sentido de que não havia distância entre o que era e o que fazia, entre o que acreditava e aquilo que vivia, entre a arte e a pessoa.
Isso é raro. É tão raro que quando acontece a ausência dura mais tempo do que a presença. O teatro Rute Escobar existe ainda hoje em São Paulo. As luzes acendem, os atores entram, o público senta e algures naquela sala, naquele palco onde Cildda caiu em Maio de 1969, há uma memória que o teatro guarda de uma forma que os ficheiros não conseguem.
a memória do corpo de uma grande atriz a habitar aquele espaço com tudo o que tinha. Cilda Becker não saiu daquele palco, ficou. Se chegaste até aqui, conheces agora a história que o Brasil deixou a pagar. A menina de Santos que o teatro encontrou, a mulher que ajudou a inventar o teatro moderno brasileiro, a artista que sabia que havia sinais e que escolheu o palco na mesma e o coma de quase dois anos que o Brasil seguiu à distância, esperando sem conseguir fazer mais nada.
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