Chico Xavier Psicografou Uma Carta de Januário para Luiz Gonzaga — Ele Chorou Ao Ler

E Gonzaga estava a contar este mundo para quem nunca lá tinha ido, para quem só sabia do sertão pelos noticiários de crise, numa coisa que as pessoas queriam ouvir, em coisa bonita, em coisa que orgulhava. O Januário comprou um rádio de pilhas em 1952. Custou todo o dinheiro que tinha guardado em dois anos. E cada vez que a voz de Gonzaga saía daquele rádio, ele parava o que estava a fazer e ouvia de pé.

Foi nessa altura que começou a enviar as cartas. A primeira carta era simples, quase infantil na escrita, porque a sua alfabetização era precária. Pediu ajuda a um vizinho que tinha estudado mais para escrever. Mas o que ele queria dizer era profundo. Queria que Gonzaga soubesse que havia um homem em Toritama que tocava baião durante amor, que conhecia cada nota que o rei gravou e que a seca estava a levar tudo embora menos a música.

Queria que Gonzaga soubesse que a música segurava as pessoas no chão. Quando o chão estava a estalar de calor, as oito cartas foram enviadas com esse espírito, cada uma delas contando um pedaço diferente da vida na feira, da seca, da acordeão e nenhuma chegou. Ainda não sabe o que estava dentro do envelope que Januário recebeu no Rio quando finalmente encontrou Luís Gonzaga.

Pessoalmente, isso vai mudar tudo quando chegar, mas antes, o camião que levou o Januário de Recife ao Rio, três dias e 2/3, parado em cima de fardo de algodão, com o chapéu de couro pressionado contra o rosto para se proteger do sol. Outros sete homens no camião, todos retirantes, todos com aquele silêncio de quem está a deixar para trás.

Algo que sabe que nunca irá recuperar do mesmo modo. Um des é um rapaz de 18 anos chamado Zé Pequeno, que tinha ido à frente da família para ver se o sul aguentava a chegada de mais um. Outro. Era um homem de 60 e tal anos que não disse uma palavra nos três dias de viagem. só olhava para trás, como se estivesse à espera de ver o sertão voltar a aparecer no horizonte.

Januário levava a concertina embrulhada num pano de algodão cru, levava dentro da camisa preso ao peito. o endereço de Gonzaga que o produtor de rádio do Recife tinha dado ao seu Braulho e levava na cabeça uma pergunta que formulava de formas diferentes e durante os três dias de viagem, mas que chegava sempre no mesmo lugar.

O que se diz a um homem que cantou a sua dorme melhor do que você mesmo seria capaz de contar. O rio que Januário encontrou em 1963 não estava à espera dele. Isto é uma coisa que precisa de ser dita sem romantismo. O Rio de Janeiro desse ano estava cheio de retirantes que chegavam com esperança e encontravam favela, frio que o corpo do nordestino não reconhecia.

E um silêncio de solidão muito diferente do silêncio do sertão. O silêncio do sertão cheirava a cainga, tinha o barulho longínquo de uma cabra, tinha textura, o silêncio de um quarto de cortiço no rio, tinha humidade e paredes finas onde se ouvia a vida de todo o mundo, sem ser convidado para ela. Januário esteve 15 dias num cortiço na zona norte antes de conseguir o contacto.

ficou concertina na rua duas vezes para ter dinheiro da comida. Gente parava, ouvia, jogava trocado. Uma mulher idosa parou e ficou a ouvir a asa branca inteira com os olhos fechados. Depois disse que era de Alagoas e que não ouvia aquilo desde que tinha saído de lá em 1940.

Ela deu-lhe um prato de comida e chorou enquanto comia na calçada em frente à casa dela. Quando o contacto chegou, chegou por intermédio de um músico que tocava pandeireta na banda de um programa de rádio. Esse músico conhecia alguém que conhecia alguém que tinha o número do apartamento de Gonzaga. no bairro onde estava a viver na época, uma cadeia de nordestinos no Rio, cada um ajudando o próximo a chegar um pouco mais perto de casa.

Mesmo que casa fosse aqui outra coisa, o Januário foi até o edifício numa manhã de terça-feira. Ficou na calçada durante quase meia hora antes de subir. Segurava o chapéu de couro com as duas mãos, o mesmo chapéu que usava nas feiras desde 1948. tinha-lhe passado sabão no dia anterior, mas o couro estava desgastado de uma forma que nenhum sabão consertava.

Era um chapéu que tinha visto 40 anos de sertão e entendia isso. O que aconteceu quando a porta se abriu é o coração desta história toda, e está a chegar perto disso agora. Quem abriu a porta era um homem jovem, talvez com 20 e poucos anos, com um ar cansado e uma caderneta na mão. Disse que era o secretário de Gonzaga.

Perguntou o nome e o motivo da visita. Januário disse o nome e disse que tinha recebido uma carta convidando-o a ver. O jovem pediu para esperar, fechou a porta, voltou 2 minutos depois e abriu passagem. O apartamento tinha um corredor comprido com fotografias nas paredes, fotografias de Gonzaga com músicos, com políticos, com artistas que Januário reconhecia pelo nome, mas nunca tinha visto pessoalmente.

Ao fundo do corredor, uma sala com uma janela grande de onde se via a cidade lá em baixo. Uma cidade que Januário ainda não compreendia e que ainda não entendia. Luís Gonzaga estava sentado numa cadeira de madeira encostada à janela. Estava com a acordeão no colo, não tocando, só com as mãos pousadas sobre as teclas, como quem está a pensar em alguma coisa.

tinha os olhos fevereus quando Januário entrou, abriu os olhos lentamente, olhou para Januário de alto a baixo, sem pressas, viu o chapéu gasto, a roupa de retirante que tentou arranjar-se sem ter muito com que se arranjar. E avó, a acordeão embrulhado no pano de algodão que Januário trazia no braço. E disse com aquele sotaque de Exu que 40 anos de rio não tinham conseguido apagar completamente.

Você é o acordeonista das feiras de Toritama. Januário ficou parado porque aquilo estava certo. Mas como Gonzaga sabia de onde ele era? Se as oito cartas nunca tinham chegado, o que vem agora é a parte que vai mudar a forma como se está a compreender esta história desde o começo. Porque a carta que Januário recebeu em Recife, a carta que o senhor Braulho leu em voz alta na cozinha da pensão com cheiro de feijão.

Olá, aquela carta assinada com o nome de Luís Gonzaga e escrita com a letra grande e inclinada do rei. Essa carta tinha chegado a Gonzaga antes de chegar a Januário. Tinha chegado de uma forma que nenhum dos dois homens esperava. Em 1962, um padre da paróquia de Toritama, que tinha guardado as cartas de Januário por anos, esperando encontrar uma forma de enviá-las, tomou uma decisão estranha.

Ao invés de enviar as cartas pelos correios de novo, entregou-as pessoalmente a um bispo que ia ao rio, a negócios da igreja. E o bispo, que tinha ligações com tudo e com todos naquela cidade, foi a única pessoa no mundo que sabia que Chico Xavier, o médium espírita de Uberaba, o homem que psicografava cartas de mortos paraa consolação de vivos, Chico Xavier estava a trabalhar naquele momento numa série de mensagens de pessoas simples do interior do Brasil que queriam alcançar alguém que tinha mudado de mundo através pés da música. O

padre não era espírita, o bispo tampouco, mas os dois entendiam que havia um canal que funcionava e a dor de O Januário precisava de um canal. Chico Xavier recebeu as oito cartas de Januário numa tarde de Março de 1962. Leu cada uma delas sentado na cadeira do quarto de trabalho da casa de Uberaba, onde recebia os seus médiuns e as suas visitas.

E nessa mesma tarde, em estado de concentração, com a caneta na mão e os olhos fechados, escreveu uma carta. Mas a carta que Chico Xavier escreveu naquela tarde não era uma psicografia de alguém que tinha morrido. Era uma carta diferente. Era uma carta que descreveu depois para os que estavam presentes como uma mensagem que recebeu de um espírito que dizia ser alguém muito próximo de Luís Gonzaga, alguém que tinha partido jovem e que acompanhava o rei há anos, preocupado com o isolamento que a fama tinha criado

entre ele e os músicos simples do interior de onde tinha vindo. Carta foi escrita com o nome de Januário no destino e a assinatura no final era de Gonzaga, mas não do Gonzaga vivo. Era de uma presença que Chico descreveu como Gonzaga vindo de um lugar onde a concertina ainda tocava, mas os pés já não pisavam mais no barro do sertão.

Bispo levou a carta ao rio, chegou às mãos do produtor de rádio, chegou ao seu Braulho, chegou aos ouvidos de Januário na cozinha com cheiro a feijão. E agora está com Januário dentro do apartamento, olhando para Luís Gonzaga, que acabou de dizer o nome da sua cidade, sem que ninguém tivesse contado. Januário perguntou com voz baixa, como Gonzaga sabia de Toritama.

Gonzaga ficou um momento calado, depois levantou-se da cadeira com a concertina ainda no braço, dirigiu-se a uma gaveta de uma mesa de canto, tirou de dentro um envelope. Um envelope que Januário reconheceu. Era um dos seus, uma das oito cartas que tinham regressado com carimbo de não encontrado.

O bispo tinha enviou as cartas também para Gonzaga com uma nota a explicar o que tinha acontecido. O que Chico Xavier tinha escrito e quem era Januário. Gonzaga abriu a primeira carta de Januário ali mesmo à sua frente e leu em voz alta. A letra travada, as palavras com grafia errada, o português de quem aprendeu a escrever sozinho no interior de Pernambuco no fim dos anos 40.

Leu devagar, sem pressas, sem corrigir nada com o tom de voz. leu da maneira que estava escrito. Quando terminou, ficou olhando para o papel por um tempo. Depois olhou para o Januário e disse: “Saí de Exu com menos do que isso no peito, muito menos. Esteve 8 anos tentando chegar aqui e a carta nunca o foi. 8 anos.

Levei três para sair do sertão e nunca mais deixei de andar. Januário sentiu a garganta fechar e Gonzaga disse uma coisa que Januário repetiria pelo resto da vida para os filhos, para os netos, para qualquer acordeonista que encontrasse nas feiras do interior e que estivesse desistindo. A carta chegou, irmão.

Demorou mais do que devia, mas chegou. Aqui é onde precisa de parar um segundo e perceber o que estava a acontecer com Luís Gonzaga por dentro naquele momento. que a história que o Brasil conhecia de Gonzaga em 1963 era a história do rei, do homem que tinha pegado no baião, no shot, no forró e levado para todo o Brasil, que tinha dado ao nordestino uma voz que chegava a sul, a Sudeste, a locais onde o sertão era apenas um nome de jornal e a seca era um problema de outro.

O Gonzaga de 1963 era famoso, era reconhecido, era o homem que aparecia nos programas de rádio e que gravava discos que tocavam em todo o canto. Mas havia uma coisa que muito pouca gente sabia sobre Gonzaga nesse período, uma coisa que os que estavam mais perto dele no dia-a-dia perercebiam, mas não comentavam publicamente.

Gonzaga estava com uma tristeza profunda, uma tristeza que não era de depressão, não era de crise, era de saudade de uma coisa que ele sabia que não voltava mais, o sertão que ele cantava. Já já não era o sertão que existia da maneira que tinha existido na sua infância em Exu.

A modernização tinha chegado até ao interior. O êxodo rural estava a mudar as feiras, as festas, os modos. E Gonzaga sabia com a intuição afinada de quem passou a vida inteira, observando e transformando em música o que via, que estava a cantar um mundo que estava desaparecendo. Quando Januário chegou ao apartamento com a concertina embrulhada no pano de algodão com o chapéu de couro que tinha visto 40 anos de feira e de seca, Gonzaga não estava só a receber um visitante, estava a receber uma prova de que aquele mundo ainda estava vivo em algum lugar. Mas o que ainda não

sabe é o que aconteceu depois de Gonzaga pediu a Januário que abrisse as fona e tocasse alguma coisa. Januário hesitou. estava numa sala de um apartamento no Rio de Janeiro, à frente do rei do baião, com as mãos que de repente pareciam não saber mais o que faziam. 40 anos de feira, 40 anos de saber exatamente como segurar o instrumento.

E de repente aquelas mãos eram estranhas para ele. Gonzaga apercebeu-se, levantou-se, dirigiu-se à mesinha de canto, voltou com um copo de água e colocou-o na mão de Januário. Bebe, aqui não há público, tem dois acordeonistas do sertão num quarto do rio. Januário bebeu o copo inteiro.

Depois abriu o pano de algodão e tirou a concertina e tocou asa branca. Tocou do princípio ao fim, devagar, com a afinação que as mulheres paravam na feira para ouvir, com o grave que fazia a música parecer, que vinha do chão em vez de vir do instrumento. Gonzaga ficou parado com as mãos no colo, escutando. Não sorriu, não acenou com a cabeça, não deu sinal de aprovação durante a música, apenas ouviu.

Quando Januário terminou, o apartamento ficou quieto por um momento. Gonzaga disse: “Onde é que aprendeu essa afinação?” Januário disse que tinha aprendido ouvindo o rádio e tentando chegar ao mesmo lugar. Gonzaga ficou a olhar para ele. Depois disse uma coisa que o Januário levou anos a compreender completamente.

Chegou a um lugar diferente, num lugar que nunca fui e pediu para tocar de novo. Nessa tarde, os dois tocaram durante quase 3 horas no apartamento do Rio de Janeiro. Gonzaga tirou a própria concertina do estojo e tocou junto em alguns troços. Escutou noutros. fez Januário repetir uma passagem específica de a morte do vaqueiro três vezes, porque havia algo no fraseado do acordeonista de Toritama que Gonzaga H queria perceber de onde vinha.

Foi no final da tarde, quando a luz estava ficando cor de laranja na janela grande e a cidade lá em baixo estava a começar o o seu barulho de fim de dia, que Gonzaga dirigiu-se à mesa de trabalho, pegou em papel e caneta e começou a escrever. Januário ficou sentado, não perguntou ao que era, esperou. Gonzaga escreveu durante cerca de 15 minutos, depois dobrou o papel, colocou-o dentro de um envelope, fechou o envelope e escreveu o nome de Januário na frente com a própria letra.

A mesma letra grande e inclinada que o seu Braulio tinha reconhecido na cozinha da pensão de Recife. Entregou o envelope a Januário com as duas mãos. Esta é a carta de verdade. Leva para casa. Januário pegou no envelope, perguntou se podia abrir. Gonzaga disse que não, que era para abrir quando chegasse ao sertão. O que estava escrito nessa carta, Januário só leu a com a ajuda de Don Zazfim, que estudou mais do que ele, um ano depois, quando finalmente regressou a Toritama.

Porque a vida no rio não funcionava do forma que ele tinha esperado. E ele voltou, voltou com a concertina, o chapéu de couro e o envelope fechado guardado dentro da Bíblia, no mesmo local onde guardava os endereços e os anos de espera. Quando a dona Zefinha leu a carta em voz alta na mesa da cozinha, com os dois filhos presentes, e a lamparina acesa, porque ainda faltava luz elétrica naquela parte de Toritama.

Januário chorou, não de tristeza, de um negócio que é difícil de nomear, de reconhecimento, talvez de sentir que alguém que entendia o mundo da maneira certo tinha olhado para si e confirmado que existia, que o que fazia tinha peso, que a concertina na feira das 5 da manhã não era menos importante do que a concertina gravada em disco.

Gonzaga escreveu na carta que havia dois tipos de músico que sustentavam a música nordestina. O primeiro era o músico que levava a música para fora, que traduz o sertão para o Brasil, que é a voz que grita de longe. O Segundo era o músico que fica, que toca na feira enquanto a seca chega e enquanto a seca se vai embora, que é a memória viva de que aquilo ainda existe.

Que sem o segundo, o primeiro fica sem chão. E sem os Januários de Toritama, não há rei do baião, porque não há baião a ser coroado. E escreveu que a carta de Chico Xavier, porque Gonzagas abia da carta de Chico Xavier. Ah, o bispo tinha contado tudo, tinha-lhe chegado como uma pancada. tinha ficado noites a pensar no que o médium de Uberabas tinha escrito numa mensagem que descrevia um músico de feira que tocava baião no escuro para segurar as pessoas no lugar para dar a elas uma razão de ficar quando tudo mandava ir embora.

Gonzaga escreveu que quando leu o descrição de Chico Xavier, recordou do pai do Januário da outra geração, que era o seu pai, o senhor Januário, acordeonista de Exu, que tocava nas festas dos santos sem cobrar, porque achava que era obrigação de quem sabia, que naquele momento entendeu que o nome Januário nesta história toda era de propósito, que havia um círculo a fechar, que o sertão tinha uma forma de mandar dar recados que não necessitava de correios.

A Dona Zefinha parou de ler quando chegou nessa parte, olhou para o Januário. Januário disse que sabia que o pai chamava-se Raimundo, mas que o avô, o pai do pai, chamava-se Januário também. Um nome que regressava, um nome que o sertão conhecia. A carta de Gonzaga terminava com quatro palavras que Januário mandou gravar na lápide quando faleceu em 1991 na cidade de Toritama, onde tinha nascido e onde tinha voltado a tocar nas feiras até aos 70 e poucos anos.

O baião foi você, mas aqui há um pormenor que esteve guardado durante décadas e que só veio a público muito tempo depois, quando um investigadora que estudava a correspondência de Chico Xavier encontrou uma referência ao caso nos arquivos de Uberaba. Porque a carta que Chico Xavier escreveu em 1962, a que foi lida na cozinha do senhor Braulho no Recife, aquela carta não estava entre os papéis do médium.

A investigadora encontrou uma anotação no diário de Chico Xavier, datada do mesmo dia, março de 1962, descrevendo a psicografia de uma mensagem de um espírito que ele identificou-se apenas como o vaqueiro que voltou a pé. A anotação dizia que o espírito falava com sotaque de Pernambuco e que trazia uma preocupação específica.

Havia um músico no interior do Nordeste que estava prestes a desistir. E este músico precisava de um sinal de que o que fazia importava antes de partir. A anotação de Chico Xavier não mencionava Gonzaga, não mencionava Toritama, não mencionava Januário pelo nome, apenas descrevia o vaqueiro que voltou a pé e a preocupação com o músico.

A investigadora passou dois anos a tentar compreender a ligação entre a anotação de Chico Xavier e a carta que chegou ao produtor de rádio do Recife, assinado com o nome de Gonzaga. Dois anos de arquivos, de entrevistas a pessoas que ainda estavam vivas, de cartas e papéis amarelados. O que ela concluiu e publicou num artigo pequeno e que não fazia muito barulho, mas que quem conhece a história de Januário trata como a peça final do quebra-cabeças.

É que ninguém soube explicar com clareza quem escreveu a carta do Recife. O produtor de rádio disse que recebeu um envelope já selado com instrução de entregar ao seu Braulho. O Seu Braulho disse que o envelope chegou com um bilhete, dizendo de que vinha de um amigo de Gonzaga. E a letra da carta que a investigadora comparou com amostras de psicografias de Chico Xavier, tinha uma semelhança que ela descreveu no artigo como impossível de ser coincidência, mas impossível de ser provada.

Gonzaga, quando alguém perguntava por Januário nos últimos anos de vida, dizia que a história toda tinha sido um negócio que o sertão tinha arranjado da maneira que o sertão arranja as coisas importantes, sem dar satisfações a ninguém, sem pedir permissão, chegando à hora que tinha que chegar e indo emboras sem deixar endereço.

Depois e quando lhe perguntavam se acreditava que Chico Xavier tinha tido alguma coisa a ver, Gonzaga pegava na concertina, tocava os primeiros acordes de asa branca e não dizia mais nada. Porque há histórias que o sertão conta e que não necessitam de explicação para serem verdade. Precisam apenas de alguém que escute do jeito certo.

Januário de Toritama escutou do jeito certo. Tocou o baião na feira por mais 26 anos depois de regressar do Rio. Nunca se tornou famoso, nunca gravou um disco, nunca saiu do interior de Pernambuco de novo. Mas cada vez que tocava asa branca de manhã cedo, com o sol ainda fresco e a voz de Gonzaga no fundo da memória, ele sas cartas guardadas na Bíblia dentro de casa.

Uma que chegou antes de ele ser escrita e outra que só fazia sentido quando o sertão decidiu que era a hora. Se cresceu a ouvir Gonzaga no rádio e carregou o sertão ao peito, mesmo longe de casa, inscreva-se. Este canal, o que acabou de ouvir, tem mais uma camada, sama camada, que esta história não contou, porque a história de Dominguinhos foi vaiado em cá, o arro e o que Luís Gonzaga fez quando subiu ao palco nessa noite, isto é ainda mais pesado do que tudo o que ouviu aqui.

Dominguinhos tinha 22 anos, esteve no primeiro grande concerto da carreira e a vaia que se abateu sobre ele havia um motivo que ninguém na plateia sabia. Gonzaga sabia e o que fez a seguir à frente de mil pessoas em Caruaru é uma das coisas mais duras e mais belas que um homem já fez por outro num palco nordestino. A história completa está neste vídeo aqui.

E se já assistiu, tem mais histórias como esta à sua espera aqui no canal. M.

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