DENER: a estrela do Brasil que morreu aos 23 anos… o ACIDENTE fatal que roubou seu futuro

DENER: a estrela do Brasil que morreu aos 23 anos… o ACIDENTE fatal que roubou seu futuro

Abril de 1994. Faltavam poucos meses para o Mundial do Mundo dos Estados Unidos e o Brasil tinha nas mãos um diamante destinado a reinar sobre o futebol mundial. Dener Augusto de Souza não jogava, dançava sobre o relvado. Era a reencarnação do drible de Garrincha e a letalidade da Pelé, o ídolo indiscutível que tinha a adeptos do Vasco da Gama os seus pés.

 O contrato para atravessar para a Europa já estava em cima da mesa, mas o destino lhe tinha preparado uma emboscada de metal e vidro. Um automóvel em alta velocidade, uma batida brutal contra uma árvore e um cinto de segurança que agiu como carrasco apagaram-lhe a vida aos 23 anos. Hoje, em Lendas nas Sombras, reconstruímos a madrugada que partiu o coração de um país inteiro e o legado da maior promessa que o futebol brasileiro perdeu para sempre.

 Antes de entrar nesta última noite, inscreva-se e ative o sininho, porque esta não é só a história de um jogador que morreu jovem, é a história de uma nação que viu surgir um herdeiro natural do seu futebol mais bonito e perdeu-o quando a Europa já o esperava. Se adora as histórias de figuras brasileiras que viveram na fronteira entre a glória e a sombra, fique até ao fim.

 Hoje vai descobrir quatro coisas. Primeiro, como um menino saído da A pobreza da Vila Ema transformou as quadras duras de São Paulo numa escola secreta de drible. Segundo, por que razão a sua explosão na Portuguesa, no Grêmio e no Vasco fez com que rivais, treinadores e Os jornalistas aceitassem que estavam perante um jogador impossível de marcar.

 Terceiro, como foi verdadeiramente a madrugada do dia 19 de Abril de 1994, quando Denner dormia no lugar do pendura do seu Mitsubishi Eclipse Branco e o cinto que o deveria proteger acabou o asfixiando. E quarto, porque a sua morte não terminou uma carreira, mas abriu uma ferida que o Brasil ainda olha como o grande e se Mas antes de chegar aquela madrugada, é preciso saber de onde veio este menino, porque a história de Dener começa muito antes dos estádios, muito antes do Maracanã e do Canindé e dos corredores do Vasco.

 A história de Denner começa numa rua da Vila Ema, na zona norte de São Paulo, num daqueles bairros onde as casas se empilham umas sobre as outras. Onde o calor esmaga em janeiro e onde o cheiro a feijoada do O domingo é o único luxo que alguns podem se dar. Para compreender é preciso olhar para algo que muitas biografias passam demasiado rápido.

 O seu talento não nasceu num campo perfeito, com chuteiras novas, relva a parada e treinadores a anotar numa bancada confortável. Nasceu na urgência. Nasceu em ruas onde a bola podia ser de couro, de plástico ou uma coisa meio deformada que ainda prestava porque ninguém tinha direito a exigir luxo. Na Vila Ema desses anos, o futebol não era uma atividade extracurricular, era uma língua comum, uma forma de dizer ao mundo que ainda havia alegria, mesmo que a casa estivesse apertada, mesmo que o dinheiro não desse, mesmo que a vida parecesse

concebida para não deixar espaço para os sonhos. Este pormenor muda tudo, porque quando um rapaz aprende a jogar num espaço pequeno, rodeado de paredes, pernas, pó, cimento e adultos gritando da esquina, ele aprende algo que nenhum manual tático ensina. Aprende a decidir antes de pensar. Aprende a esconder a bola com o corpo.

 Aprende a levar uma pancada, levantar-se e pedir de novo. Aprende que o drible não é ornamento, mas sobrevivência. Denner absorveu esta escola com uma naturalidade inquietante. Não driblava para se exibir. Driblava porque era assim que aprendera a existir dentro do campo. E aqui aparece uma chave emocional que precisa de ficar clara desde o início.

 Dener não era um rapaz protegido por uma estrutura. Não tinha um caminho limpo rumo à fama, nem uma família com contactos, nem uma rede de empresários à espera de lapidá-lo. Tinha fome de jogo e uma responsabilidade demasiado pesada para a a sua idade. Quando a ausência do pai bateu na casa, aquele menino percebeu que o talento podia ser também uma obrigação. Não bastava jogar bonito.

 Era preciso jogar como se cada partida abrisse uma porta à mãe, aos irmãos, para os filhos que viriam depois, para uma vida inteira que não queria ficar presa na mesma esquina de sempre. Dener Augusto de Souza nasceu em 2 de abril de 1971. O Brasil em que chegou ao mundo era o da ditadura militar na sua fase final, um país que vivia sob o peso de uma repressão que já começava a estalar, mas que ainda se sentia em cada esquina.

 A São Paulo, do início dos anos 70, era uma cidade que crescia de forma caótica e brutal, uma metrópole que absorvia migrantes do Nordeste como um bicho com fome, enchendo as suas periferias de gente que tinha vindo buscar o que o campo lhes negara. A aldeia Ema fazia parte dessa periferia, um bairro de classe trabalhadora, onde os pais saíam às 5 da manhã e regressavam exaustos às 8 da noite, onde as crianças aprendiam a virar-se sozinhas desde cedo, porque não havia outra opção.

 Neste contexto, cresceu Denner com uma mãe que o amava com ferocidade e um pai que fazia parte daquele tecido de homens trabalhadores que sustentava o bairro. Mas em 1984, quando Den tinha 13 anos, este pai desapareceu, não de forma metafórica, mas da forma mais definitiva e mais brutal, morreu. E Denner, que ainda era um adolescente em plena formação, teve que enfrentar de uma vez a realidade mais dura da periferia de São Paulo.

 O dinheiro não dá, alguém precisa de ajudar a família. E esse alguém ia ter de ser ele. Pensa nisso um momento, 13 anos. sem pai na aldeia Ema. No Brasil de 1984, que era o ano em que a hiperinflação começava a destruir as economias de milhões de famílias brasileiras e o país inteiro vivia com a angústia de uma economia que não parava de ruir.

 E Dener decidiu que ia trabalhar, que ia sair para a rua, fazer o que fosse preciso para dar uma mãozinha em casa, mas decidiu também, com aquela determinação que só há os meninos que não têm nada a perder, que o futebol ia ser o seu caminho. O problema é que Denner não jogava futebol, jogava futsal. Nas quarteirões de cimento da Vila Ema, nos pátios do colégio Olavo Bilaque, onde os rapazes do bairro organizavam partidas que [a música] podiam durar horas, Dener desenvolveu algo que depois, quando chegou aos campos de erva ia

desconscertar todos os defesas do Brasil. O futsal ensina a movimentar-se em espaços pequenos, a girar em décimos de segundo, a proteger a bola com o corpo, a mudar de direção sem aviso prévio. E Dener aprendeu tudo isto com uma velocidade que os seus próprios companheiros descreviam como algo que não parecia natural, algo que parecia que sempre tivera.

 Em 1986, quando Dener tinha 15 anos, disputou um torneio nacional de futsal em São Paulo. O ginásio tinha 7.000 1 espectadores. A partida foi transmitida pela televisão e Dener, aquele rapaz magro da aldeia Ema, que perdera o pai dois anos antes e que trabalhava para ajudar a mãe, fez algo naquela quadra que deixou toda a gente em silêncio e depois fez explodir a multidão numa ovação que ecoou por todo o ginásio.

 Ganhou o troféu com a sua equipa, foi o melhor marcador do torneio, foi eleito o melhor jogador. E no dia seguinte, os olheiros do São Paulo e da Portuguesa estavam à porta da sua casa. E aqui entra algo que muito pouca gente no Brasil lembra direito e que diz muito sobre o tipo de pessoa que Denner era desde o início. Ele escolheu a portuguesa, não o São Paulo, que era o clube do seu coração de toda a vida, o equipa de que era adepto fanático desde menino.

 Escolheu a portuguesa, o clube do Cané, porque ali lhe prometeram algo que para ele era mais importante do que dinheiro ou prestígio naquele momento. tempo de campo, a possibilidade de jogar, de se desenvolver, de transformar aquele talento em bruto que carregava dentro em algo que o futebol profissional pudesse reconhecer. O O Brasil, dos anos 80, não perdoava os pobres.

A inflação devorava os salários numa velocidade absurda. Os preços mudavam antes que muitas famílias conseguissem organizar a compra da semana. E nos bairros populares de São Paulo vivia-se com um misto de resignação e teimosia. Neste mundo, um miúdo que jogava bem podia tornar-se a esperança de muita gente ao mesmo tempo.

 Por isso, a decisão de entrar na portuguesa não foi apenas desportiva, foi uma decisão de vida. O Canindelli oferecia algo que para um rapaz como ele valia mais do que uma famosa camisa, Minutos, visibilidade, uma oportunidade real de tocar na bola onde os adultos importantes o pudessem ver. A portuguesa, além disso, tinha algo que combinava com o Denner.

Não era o clube mais poderoso de S. Paulo, mas era um clube de identidade forte, de claques sensíveis, de gente trabalhadora, que compreendia melhor do que ninguém o que significava vir de baixo. Ali Denner podia errar, crescer, encantar, irritar e voltar a encantar. Este tipo de clube às vezes é perfeito para os génios jovens, porque não os transforma-se imediatamente em produto, deixa-os jogar.

 E Dener precisava jogar, precisava de sentir que a cada domingo podia improvisar algo que ninguém tinha ensaiado. Quem o acompanhou na base recorda aquela sensação estranha de estar a ver um miúdo que parecia desarrumado até tocar na bola. Aí tudo fazia sentido. O corpo inclinava-se ligeiramente, a cintura se movia-se antes que os defesas conseguissem lê-la e a bola saía por um lado quando todos esperavam que saísse pelo outro.

 Não era só velocidade, era engano, era pausa. Era aquele tipo de malícia brasileira que não se fabrica em laboratório porque nasce de milhares de peladas sem árbitro, sem câmara e sem perdão. Em 1988, com 17 anos, atingiu as categorias de base da portuguesa e rapidamente ficou claro que aquilo não era um talento comum.

 Os treinadores que trabalharam com ele nessa altura recordam que Denner havia algo que não se ensina. a capacidade de ler o espaço antes de este existir, de encontrar o passe que mais ninguém via, de encarar o defesa com uma confiança que não cabia num miúdo da sua idade. Havia algo na sua forma de mover-se com a bola que lembrava os grandes do futebol brasileiro, aquele escola de magia que o Brasil tinha produzido nos anos 50 e 60, com Garrincha e Pelé e que o mundo inteiro invejava.

 Em 1989, com 18 anos, Dener estreou-se na equipa principal da portuguesa. E naquele Brasil do fim da ditadura, naquele Brasil que acabara de viver a morte de Tancredo Neves e a chegada de Sarnei ao poder e que navegava entre a esperança da nova democracia e o caos da uma economia que não terminava de funcionar, o futebol continuava a ser a única religião que a todos unia.

 A portuguesa não era o clube mais grande de São Paulo, nem de longe, mas tinha uma claque que respirava futebol. E esta claque adotou Dener de uma maneira que muito poucos jogadores conseguem nos os seus primeiros anos. Os que o viram jogar no Canindé nesses anos dizem que havia algo quase desconfortável na facilidade com que Dener desmontava os rivais, que os defesas que vinham marcar lu saíam da partida com uma expressão de derrota que não era física, era algo mais fundo, porque Denner não só driblava, deixava os adversários em

ridículo de uma forma que parecia involuntária, como se ele não quisesse humilhá-los, mas o futebol que transportava dentro não lhe desse outra opção. era um daqueles jogadores que fazem o público das duas equipas se levantar ao mesmo tempo, porque o que vê no campo supera o resultado e supera a rivalidade e supera tudo.

 Em 1991, chegou o momento que confirmou para o Brasil inteiro o que os adeptos da Portuguesa já sabiam. A Taça São Paulo de Futebol Júnior, a Copinha, como lhe chamam no Brasil, é o torneio de escalões de formação mais importante do país e o que historicamente funcionou como trampolim para as grandes ligas.

 Denner não só venceu o torneio com a portuguesa, que era a primeira vez na história do clube que levantava aquele título, foi eleito o melhor jogador de toda a competição e depois disso, o telefone da portuguesa não parou de tocar. Aqui surge a primeira das revelações que prometi e é uma que muito pouca gente no Brasil processou na época com toda a sua magnitude.

 Em 1991, depois da Copinha, o Underlect da A Bélgica e o Bruges entraram em contacto com a portuguesa para perguntar por Denir. A Europa já estava de olho e a portuguesa convenceu Dener a ficar com promessas de um contrato melhor e de continuar a desenvolver-se no Brasil antes de dar o salto. Dener tinha 20 anos e três filhos que já tinham chegado ou estavam para chegar com a sua namorada de toda a vida, Luciana Gabino.

 A decisão de ficar no Brasil, que nesse momento parecia razoável e estratégica, ia ter consequências que ninguém conseguiu antecipar. Mas antes de chegar a estas consequências, é necessário falar do que Dener construiu no Brasil durante estes anos, porque seria uma enorme injustiça contar a história deste menino sem se deter no que ele realmente foi dentro de um campo de futebol.

 E o que ele foi é algo que o Brasil produz de tempos a tempos com uma generosidade que o resto do mundo admira e que por vezes o próprio O Brasil não termina de valorizar enquanto ainda está presente. O técnico Pep, um dos treinadores mais respeitados da história do futebol brasileiro, que tinha visto jogar os melhores durante décadas, disse algo sobre Denversas sobre os grandes do futebol brasileiro.

disse que Denner era o único jogador que tinha visto na vida que se aproximava de Pelé, não que fosse parecido com Pelé, não que havia coisas de Pelé, que se aproximava-se de Pelé. No futebol brasileiro, onde o nome de Pelé funciona como uma medida absoluta de grandeza, esta comparação é a maior que se pode fazer sobre alguém.

 E Pep não era um homem que usava as palavras sem pensar. Os adeptos do Vasco da Gama que o viram jogar no período final da sua carreira chamavam-lhe cafuné. Esse apelido diz muito. Não o chamavam assim pelo quanto era suave, mas pelo quanto era delicado o seu futebol, pela forma como acariciava a bola, mesmo quando a utilizava para destruir defesas.

 E o descreviam com aquela poesia direta que o futebol brasileiro tem quando fala dos os seus ídolos como uma mistura de garrincha e pelé. A magia e o desequilíbrio do primeiro, a letalidade e a inteligência do segundo, num único corpo de 1,71, que pesava pouco mais de 70 kg e que se movia-se pelo campo com uma leveza que parecia impossível.

Em 1991, esse mesmo ano em que ganhou a Copinha, Denner recebeu o chamamento que todos os Os jogadores brasileiros esperam, como se fosse uma confirmação de que o caminho que escolheram valia a pena. Paulo Roberto Falcão, o selecionador nacional, o convocou para a seleção principal. Em 27 de março de 1991, Dener Augusto de Souza entrou em campo no Maracanã com a camisola amarela do Brasil nas costas e jogou a sua primeira partida internacional.

 O adversário era a Argentina. E para perceber o que isso significava no Brasil de 1991, é preciso lembrar que a rivalidade entre O Brasil e a Argentina nesse período era uma daquelas coisas que iam muito para além do futebol, que carregavam todo o peso histórico de dois países que tinham vivido situações políticas semelhantes e que se mediam em campo com uma intensidade que deixava os jogadores exaustos física e emocionalmente.

 Wenner jogava e quem estava no Maracanã nesse dia recorda que houve momentos em que o estádio inteiro, com mais de 80.000 brasileiros que tinham ido ver a seleção, esquecia o marcador e o adversário [música] e só olhava para aquele miúdo de 20 anos que fazia coisas com a bola que ninguém esperava de alguém que estava estreando-se numa selecção principal.

 Dois meses depois, a 28 de maio, Denner disputou o seu segundo jogo com o Brasil, desta vez frente à Bulgária, com Risto Stockkov na equipa adversária. Stoiskov, que nesse ano ganharia a bola de ouro, viu Denner jogar nesse dia e o seu nome circulou depois nos balneários europeus, como o do próximo grande jogador brasileiro que ia chegar ao continente.

E depois, quando tudo parecia ir exatamente na direção certa, começaram a aparecer as complicações. Não de uma vez, não com uma única crise, mas daquela forma que a vida tende a acumular dificuldades uma sobre a outra, até que o peso se torna difícil de carregar para qualquer pessoa. O facto é que Denner era, para além de um jogador excepcional, um jovem de 20 e poucos anos que vinha da periferia de São Paulo e que de repente tinha dinheiro, fama e todas as pressões e tentações que vêm com isso. Na periferia norte de São

Paulo, onde crescera, o dinheiro era escasso e a vida era dura. E quando este muda de forma radical, de repente, nem toda a gente sabe como atravessar essa transição. Dener era conhecido pelo seu jeito alegre, pelo seu gosto de desfrutar da vida, pela generosidade para com os amigos do bairro, pelas noites que saía para celebrar em São Paulo, com uma espontaneidade que por vezes preocupava quem estava perto dele profissionalmente.

 Não havia nada de obscuro nem de sinistro nisso. Era simplesmente um jovem que vivia intensamente e que não tinha uma estrutura familiar. nem profissional que lhe colocasse limites com firmeza. A portuguesa, que detinha os seus direitos, tomou decisões que, em retrospetiva, são difíceis de compreender completamente. Em 1993, com Denner, em plena maturidade futebolística, aos 22 anos, o clube o emprestou ao Grêmio de Porto Alegre.

Porto Alegre fica a mais de 1000 km de São Paulo, no Sul do Brasil, num contexto cultural completamente diferente, com um frio que os paulistanos e Os cariocas acham hostil e uma forma de compreender o futebol que tem as suas próprias tradições e as suas próprias exigências. O O Grêmio era um clube grande, um dos mais importantes do país e Dener jogou lá e venceu o campeonato gaúcho.

 Mas o empréstimo durou pouco tempo e o impacto que deixou em Porto Alegre foi o de alguém que chegou, brilhou em momentos concretos e foi-se embora antes que a história pudesse desenvolver-se completamente. Quando Denner saltou para o futebol profissional, o Brasil ainda procurava uma nova forma de acreditar na própria seleção.

 Após desilusões, trocas de técnicos e discussões intermináveis sobre a disciplina, o talento e o resultado, o país precisava de uma figura que devolvesse ao adepto uma sensação antiga, a ideia de que o futebol brasileiro podia ganhar sem abdicar da beleza. E Dener apareceu exatamente nesse ponto sensível. Não era um avançado-centro de área comum, nem um médio atacante obediente que só cumpria instruções.

 Era um provocador de caos. recebia nas entrelinhas, atraía dois marcadores, parecia ficar sem saída e depois encontrava uma brecha onde não havia nada. No Grêmio, o contexto era diferente. Porto Alegre não olhava para o futebol como o Rio ou São Paulo. Aí, o adepto exige intensidade, marcação, sacrifício, uma seriedade competitiva que pode chocar com os artistas mais livres.

 Mas mesmo neste ambiente, Dener deixou lampejos que explicavam porque tantos falavam dele com um respeito quase desconfortável. Nem sempre era regular, nem sempre era fácil de conduzir. E aí está parte da verdade completa. Os génios jovens também desesperam os técnicos, chegam atrasados, distraem-se, sentem-se invencíveis, cometem erros de imaturidade, mas quando Dener estava ligado, quando a bola lhe obedecia, a arranque mudava de temperatura.

 E aí chegou o Rio, chegou o Vasco, chegou o Maracanã a respirar-lhe no pescoço. A adeptos vascaínos não precisaram de anos para o adoptar, porque alguns amores de estádio não passam pela paciência, passam por uma jogada, por uma finta, por um chapéu no momento exato, por uma arrancada que deixa um defesa a olhar para o lado errado.

 Dener entendeu rápido que o Rio não só via futebol, o Rio dramatizava o futebol. Cada toque podia tornar-se um relato, cada golo em lenda, cada gesto numa frase repetida na rádio no dia seguinte. Em 1994, Dener foi novamente cedido, desta vez ao Vasco da Gama, no Rio de Janeiro. E aqui é onde a história se acelera de uma forma que ainda é difícil de processar quando a vê em perspetiva.

 Porque Dener chegou ao Vasco numa altura em que o clube carioca era o dominador absoluto do futebol do Rio. Uma equipa cheia de jogadores de qualidade, com uma claque que enchia o Maracanã e que vivia o futebol com aquela intensidade transbordante que caracteriza o futebol carioca. E Denner, que era cedido e que tecnicamente continuava a pertencer à portuguesa, tornou-se em poucas semanas o jogador de quem todos falavam no Rio.

 Os adeptos do Vasco adotaram-no com uma velocidade que surpreendeu até os próprios dirigentes do clube, Cafuné o chamavam, e cantavam com aquela paixão fervorosa que o futebol carioca tem pelos seus ídolos, aquela capacidade de fazer com que um estádio inteiro funcionar como um único organismo que vibra e grita e celebra com uma intensidade que por vezes assusta quem a vê de fora. Dener respondia com futebol.

Jogadas que saíam do estádio em silêncio por um segundo e depois o faziam explodir, dribles que pareciam impossíveis no espaço que tinha, uma clicidade com a bola que ia para além da técnica e tornava-se algo que só se pode chamar arte. Há uma jogada típica de Denner que ajuda a perceber porque era tão difícil marcá-lo.

 Ele recebia de costas com o defesa colado e em vez de dar logo o passe como manda o manual, esperava mais meio segundo. Esse meio segundo era uma provocação. O marcador se aproximava, outro adversário fechava a linha de passe, o público prendia o ar e depois Dener girava com a sola ou com a parte externa do pé, deixando o corpo do defesa cair sozinho.

 Não era força, era cálculo disfarçado de improviso. E quando levantava a cabeça, já tinha criado uma vantagem que não existia 2 segundos antes. Por isso, as comparações com Garrincha e Pelé não eram simples exagero de adepto emocionado. Garrincha representava o engano, a alegria do drible, a capacidade de transformar o marcador em personagem secundário de uma cena cómica.

 Pelé representava a inteligência total, a finalização, a leitura da jogada antes que os outros chegassem. Dener não era nenhum dos dois, porque ninguém é, mas tinha fragmentos de ambos misturados com uma urgência noventista, com aquela velocidade de um Brasil que já olhava para a Europa como destino inevitável para os seus grandes talentos.

 A imprensa sabia, os rivais também. E essa é a parte que mais pesa quando a gente reconstrói a sua carreira. Dener não morreu como uma promessa anónima, a quem depois inventou-se a grandeza por compaixão. Morreu quando o futebol brasileiro já falava dele. Morreu quando as propostas já existiam.

 Morreu quando os técnicos, jornalistas, companheiros e adversários tinham-no visto fazer coisas que não se esquecem. Esta diferença importa muito porque separa a lenda vazia do talento comprovado. Dener não foi uma fantasia criada depois do acidente. O acidente interrompeu algo que já estava a acontecer e então ocorreu algo que alterou todo o eixo da sua vida pessoal e que ninguém no Brasil, que não viveu de perto soube completamente naquele momento.

 Em fevereiro de 1994, durante o carnaval do Rio, a namorada de Denner, Luciana Gabino, mãe dos seus três filhos, morreu num acidente de carro. Denner tinha 23 anos, era pai de três crianças e acabara de perder a mulher com quem tinha construído a sua vida desde o bairro da aldeia Ema. A dor daquele momento foi algo que os que estiveram perto dele nessa altura descrevem como uma pancada da qual Dener completamente porque as semanas seguintes foram de futebol e mais futebol, de viagens entre São Paulo e Rio para os treinos, de negociações com

a Europa que já estavam avançados para um momento, e pensa nisso, nos 2 meses e meio que vão do carnaval de fevereiro ao no dia 19 de Abril de 1900, 94. Denner perdeu a mãe dos seus filhos, continuou jogando futebol profissionalmente, negociou a sua transferência para a Alemanha e percorreu centenas de quilómetros de estrada entre duas das maiores cidades do Brasil. Tudo isto com 23 anos.

 Talvez conheça também o que é carregar demais ao mesmo tempo. E se assim for, pode imaginar o que lhe passava pela cabeça daquele miúdo nessas semanas. Mas o futebol continuava e o Vasco com Denner como figura principal estava em plena disputa pelo campeonato carioca. Dener não só jogava bem, jogava de uma forma que fazia com que os adversários que o enfrentavam tivessem de mudar os seus planos de jogo para tentar contê-lo, com resultados que, na maioria das vezes, eram parcialmente ineficazes.

 Porque Dener era daqueles jogadores que se se marca um lado, ele aparece pelo outro, que se fechar o caminho da direita, ele inventa um pela esquerda que tu não sabia que existia. E é preciso dizê-lo claramente. No Brasil de 1994, no ano do Campeonato do Mundo, num país que tinha o Romário e o Bebeto, e toda uma geração de jogadores extraordinários, Dener era o nome que gerava mais expectativa.

 O jogador que se olhava com a sensação de que o melhor estava por vir, o técnico Carlos Alberto Parreira, que preparava a seleção para a Taça dos Estados Unidos, tinha manifestado interesse em Denir. Não era uma convocatória confirmada, mas os rumores que corriam na indústria do futebol brasileiro naquela época falavam que se Denuasse a jogar como jogava no Vasco, seria muito difícil para a Parreira ignorá-lo.

 E isso fazia com que cada partida de Denner fosse também uma espécie de teste de fogo, uma audição pública perante o técnico da seleção e diante de todo o Brasil. Aqui vem a segunda revelação que prometi e é uma que tem aquele sabor amargo das coisas que estiveram prestes a acontecer, mas que o destino não permitiu. O Estugarda alemão, o VFB Estugarda tinha fechado a contratação de Dener.

 Não era uma negociação em curso, não eram rumores, não era um interesse genérico de um clube europeu por um jogador sul-americano. Era um acordo concreto com o dinheiro que tinha passado de mão em mão nas reuniões dos dias anteriores ao acidente. Denner ia para o Estugarda depois da Taça, caso fosse com a seleção, ou directamente no Verão de 94, se não fosse convocado.

 O futebol europeu, que nessa altura começava a absorver os grandes jogadores brasileiros com uma velocidade crescente, ia ter Dener Augusto de Sousa nos seus campos. Preciso que preste atenção à ironia mais cruel desta história. Denner estava a fazer o que a maioria dos jogadores brasileiros sonhava fazer nos anos 90, fechar o salto para a Europa.

 O Estugarda não era um postal qualquer, era uma porta para um futebol mais rico, mais organizado, mais observado pelo mundo. Naquela época, ir para a Europa significava passar de promessa nacional a património internacional. Significava dinheiro para a família, estabilidade para os filhos, outro tipo de respeito profissional.

Para um menino da periferia de São Paulo, aquilo não era só um contrato, era a confirmação de que todo o caminho tinha valido a pena. Mas essa confirmação chegou misturada com cansaço, estradas e decisões improvisadas. A viagem noturna entre São Paulo e o Rio parece lida de longe, uma cena comum de jogador jovem.

 Reunião, família, amigos, carro potente, regresso de madrugada para cumprir compromissos. Mas quando coloca-o sob a luz do que aconteceu depois, cada detalhe fica pesado. O banco reclinado, o corpo adormecido, o amigo ao volante, o Avenida Borges de Medeiros vazia naquela hora. Alagoa Rodrigo de Freitas ao lado, bela e silenciosa, como se a cidade não soubesse que estava prestes a perder um dos seus ídolos mais recentes.

 O acidente não teve épica. Isso é outra coisa que dói. Não houve uma última jogada, nem uma despedida no estádio, nem uma cena preparada pelo destino com música de fundo. Houve um segundo de sono, um volante perdido, uma chapa branca a espatifando-se contra uma árvore, metal a dobrar-se, vidro a partir-se e um cinto de segurança convertido pela posição do corpo numa armadilha mortal.

Por vezes a morte não chega com símbolos grandes, chega com um ângulo mal posto. E agora preciso que preste muita atenção no que aconteceu naquelas últimas horas, porque os pormenores daquela madrugada são os que fazem com que esta história seja impossível de esquecer para qualquer pessoa que a conheça completamente.

 No fim de semana dos dias 16 e 17 de abril de 1994, Dener viajou para São Paulo. A reunião era nos escritórios da Portuguesa, no estádio do Canindé, o clube que ainda detinha os seus direitos desportivos e que tinha organizado os termos da transferência para o Estugarda. Era uma daquelas reuniões de negócios que no O futebol brasileiro daquela época se faziam-no com informalidade e urgência ao mesmo tempo, com representantes e dirigentes numa sala a decidir o futuro de um jogador, enquanto lá fora a cidade seguia o seu ritmo imparável. Denner

chegou a São Paulo e encontrou-se por acaso com um ex-companheiro da Portuguesa no parque de estacionamento do Canindé. Um jogador que nos anos que se seguiram recordaria aquele encontro com uma precisão que só os momentos que se revelam ser os últimos podem dar. Dener transportava uma mochila, uma mochila cheia de dinheiro, o dinheiro do acordo com o Estugarda, o adiantamento do contrato que o ia levar para a Europa.

 E Denner, com aquela espontaneidade que o caracterizava, abriu a mochila, mostrou para o ex-companheiro e disse algo que aquele homem nunca esqueceria, que não contasse a ninguém, que estava vendido ao Estugarda da Alemanha, que era segredo por enquanto. Naquela noite, o dia 19 de Abril de 1994, Denner e o seu amigo Oto Gomes de Miranda, com quem tinha uma amizade próxima, partiram de regresso ao Rio de Janeiro.

O carro era o Mitsubishi Eclipse de Denner, 1992 branco com a matrícula DNR0010, aquelas três letras que, em retrospetiva, parecem carregadas de significado demais. Mais de 400 km de est entre São Paulo e Rio, uma viagem nocturna pelas auto-estradas federais do Brasil, com o calor húmido de abril e o cansaço de um fim de semana de reuniões e negociações nas costas.

 Dener recostou-se no banco do pendura com o encosto reclinado para trás. Estava com o cinto de segurança, fechou os olhos. E os que reconstruíram o que aconteceu depois fazem-no com a frieza que exige falar de algo do género. Oto Gomes de Miranda, que conduzia, adormeceu ao volante.

 O eclipse perdeu o controlo na Avenida Borges de Medeiros, nas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos mais belos recantos do Rio de Janeiro. Um lugar onde a água reflete as luzes da cidade e onde durante o dia os locais fazem desporto e sentam-se para ver o tempo passar. Eram aproximadamente 5 da manhã do dia 19 de abril.

 O carro bateu de frente contra uma árvore e depois aconteceu algo que a perícia médica estabeleceu com uma clareza que ainda dói. Dener, que dormia com o banco reclinado, foi concebido para a frente pelo impacto e chocou violentamente contra o cinto de segurança. Este cinto que numa posição normal de assento teria absorvido o golpe sem consequências graves na posição reclinada em que Denner estava agil como um garrote.

 A força do impacto fez com que a correia de segurança comprimisse sua laringe. A morte foi por asfixia. O homem, que era descrito como a mistura de garrincha e Pelé, morreu estrangulado enquanto dormia, num acidente que durou fracções de segundo num canto do Rio de Janeiro, que ao amanhecer continuaria igualmente belo e igualmente indiferente.

 Oto Gomes de Miranda sobreviveu, mas perdeu as duas patas. Há algo na crueldade específica de como Denner morreu, que ainda me desperta uma raiva difícil de articular quando penso nisso. Não foi uma doença, não foi uma decisão errada num momento de crise. Foi o cansaço de uma viagem nocturna, o sono de um condutor e a geometria brutal de um cinto de segurança na posição errada.

Um segundo diferente, um ângulo diferente do banco. E Denner talvez chegasse ao treino do Vasco nessa mesma manhã, embarcasse no avião para a Copa em junho, estreasse no Estugarda em setembro. Tudo isto dependia de uma fracção de segundo sobre o asfalto húmido do Rio de Janeiro. A notícia atingiu o Brasil numa semana em que o país queria falar de Mundial, de convocatórias, de Romário, de Bebeto, da possibilidade de levantar uma taça ao fim de 24 anos.

E, de repente, antes de a seleção viajar para os Estados Unidos, o país teve de olhar para um caixão. Esse contraste explica a magnitude do golpe. O Brasil estava preparado para imaginar o futuro e teve de chorar um miúdo que representava precisamente esse futuro. No Rio, os adeptos do Vasco choraram-no como se o conhecessem desde sempre.

Em São Paulo, a portuguesa sentiu que perdia algo mais íntimo, não só o jogador, mas o rapaz que saíra da sua estrutura e que ainda pertencia emocionalmente à sua história. Nos programas desportivos, os comentadores falavam com aquela voz estranha que surge quando o profissional tenta narrar uma tragédia e o adepto que carrega dentro dele racha.

 Ninguém sabia bem como ordenar a perda, porque Denner não se enquadrava nas categorias habituais. Não era uma estrela velha despedida pelo tempo, não era um jogador acabado, era uma promessa em pleno voo. E aí nasceu a condenação da sua memória, ficar suspenso para sempre no ponto mais luminoso da possibilidade. Quando um jogador completa a sua carreira, a história pode medi-lo, pode contar títulos, insucessos, lesões, golos, erros, regressos, polémicas.

 Com Dener não se pode fazer isso. Com Dener só se pode imaginar. E a imaginação no futebol às vezes é mais poderosa do que qualquer estatística, porque não tem limite. Cada brasileiro que o viu jogar pode construir a sua própria versão do futuro. Dener campeão do mundo, Dener triunfando na Alemanha, chegando Dener a um gigante europeu, Dener formando dupla com outros craques, Dener a envelhecer como ídolo.

 Nenhuma destas vidas aconteceu, todas ficaram abertas. As primeiras horas daquela terça-feira, 19 de Abril, foram de confusão e de dores alastrando do hospital para as redacções dos jornais e depois para os rádios e depois para as televisões de todo o Brasil. A notícia chegou no momento em que milhões de brasileiros começavam o seu dia quando colocavam o café para passar e ligavam o rádio e o locutor dizia aquelas palavras que ninguém queria ouvir.

 O apresentador do telejornal mais visto do Brasil abriu a edição com uma frase que os que ouviram guardam com precisão: “O futebol brasileiro perde a arte de Dener. O país parou de uma forma que poucas notícias conseguem.” Não com a paralisia do choque político ou da tragédia coletiva, mas com algo mais íntimo e mais difícil de processar, o luto pelo que poderia ter sido e que já nunca seria.

 Porque no Brasil, onde o o futebol não é um desporto, mas algo mais assemelhava-se a uma forma de entender a existência, a morte de um jovem jogador não é apenas a perda de um indivíduo, é a perda de um futuro imaginado coletivamente, de todas aquelas partidas que foram sonhadas e que já não iam acontecer. Os adeptos do Vasco da Gama, que o haviam adotado em poucos meses como se fosse um ídolo de toda a vida, chegaram ao hospital do Rio com uma espontaneidade que ninguém organizou.

 A portuguesa, o seu clube de origem, suspendeu os treinos naquele dia. Os estádios que no dia seguinte tivessem jogos programados observaram minutos de silêncio, que em muitos casos tornaram-se algo mais longo, aquele silêncio coletivo que os brasileiros sabem fazer quando o luto é real e profundo. E os jogadores da seleção que estavam em plena preparação para o Mundial souberam da notícia com aquela mistura de tristeza pessoal e pergunta implícita que a morte de alguém da sua mesma geração e do seu mesmo ofício provoca.

Romário, que seria o grande protagonista da Taça dos Estados Unidos e que conhecia bem Dener, falou sobre ele com uma sobriedade que num homem conhecido pelo jeito direto dizia mais do que qualquer elogio elaborado. Os companheiros de Denner no Vasco e na Portuguesa encheram os microfones dos dias seguintes com recordações que tinham aquela qualidade específica das memórias dos jovens sobre alguém da mesma idade que já não está.

 a mistura do betão e do inacabado, a imagem vívida do último treino ou do último golo ou da última brincadeira no balneário e depois o vazio do que vem depois. E depois chegou um paradoxo que torna esta história ainda mais pesada. O Vasco da Gama venceu o Campeonato Carioca de 1994. O título que Dener tinha ajudado a construir com as suas jogadas na fase anterior acabou por ser celebrado e foi celebrado com um misto de alegria e tristeza que os adeptos cariocas sabem sustentar melhor do que ninguém.

Porque o futebol carioca já viveu muitas coisas assim. Denner recebeu a medalha de campeão a título póstumo. Um campeão que já não podia erguer o troféu, que não podia ouvir o canto da claque, que não podia sentir nos ombros a alegria coletiva de um título conquistado. Há outro sofrimento, menos público, mais silencioso, que também precisa de entrar nessa história. O dos seus filhos.

 A lenda fala do jogador. A família carrega o vazio. Para o público, Denner é uma camisola, um drible. Uma promessa para os os seus filhos foi uma presença reconstruída por vídeos, relatos e recortes de jornais. E este tipo de ausência tem uma forma muito particular de doer, porque não se chora só a pessoa que se perdeu, mas também a relação que nunca poôde existir.

 Um pai que não viu os filhos crescerem, filhos que tiveram que descobri-lo através da memória dos outros. Por esta razão, o legado de Denner não pode ser contado apenas com frases bonitas sobre o futebol arte. Sim, foi um artista. Sim, foi um diamante. Sim, o O Brasil perdeu um jogador que poderia ter mudado muita coisa.

 Mas também houve uma família destruída, uma namorada morta semanas antes, três filhos marcados por dois acidentes e um país que transformou esta tragédia em mito porque o mito dói menos do que a realidade. Dizer o génio eterno dos 23 anos é certo, mas também é uma forma de suavizar uma perda insuportável.

 O mais forte é que décadas depois o seu nome ainda provoca uma reação imediata em quem o viu jogar. Não precisam de rever números, não precisam de estatísticas avançadas. Basta lembrar como ele se movia. Essa é a prova definitiva de certos jogadores. Não ficam só nos arquivos, ficam no corpo dos quem os viu, no sorriso de quem se lembra de uma jogada, no silêncio de quem se pergunta o que teria acontecido.

 Nessa mistura de orgulho e tristeza que o O Brasil reserva aos seus talentos mais luminosos e mais maltratados pelo destino, os três filhos cresceram sem pai. Dinis Henrique, Felipe Augusto e Dener Mateus. Os três rapazes que Dener tinha tido com Luciana Gabino, a mulher que também morrera num acidente de viação menos de dois meses antes, cresceram com uma mãe que já não estava lá e um pai do qual restavam apenas vídeos, recordações de outros e uma lenda que no futebol brasileiro foi ficando cada vez maior com o passar dos anos. Os três viveram a

infância e a adolescência em São Paulo, sustentados principalmente pela força das suas famílias. Dois deles são adeptos do São Paulo. O terceiro é corintiano. Nenhum terminou por ter um vínculo afetivo significativo com os clubes que Denner defendeu, o que diz algo sobre a distância entre a lenda pública e a experiência privada de quem a vive por dentro.

 Depois da morte de Denner, algo aconteceu no Brasil, que é um daqueles fenómenos que o futebol brasileiro produz e que surpreende até quem os conhece. Milhares de famílias em todo o país deram aos seus filhos recém-nascidos o nome de Dener. Não foi uma campanha, nem uma iniciativa organizada. Foi um impulso espontâneo das mães e dos pais que queriam homenagear aquele miúdo da aldeia Ema que morrera antes de cumprir tudo o que prometia, que queriam que o nome continuasse vivo de alguma forma concreta no mundo.

 Há gerações de brasileiros nascidos em 1994 e 1995, que se chamam Dener e que por vezes não conhecem completamente a história do homem cujo nome ostentam. E aqui está a terceira revelação que prometi e é talvez a mais importante do ponto de vista de compreender o que realmente se perdeu. Há um consenso entre as pessoas que viram Dener jogar e que depois viram jogar os grandes jogadores brasileiros das décadas seguintes.

 Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar, que é difícil de ignorar. O consenso é que Denner tinha algo diferente. Não melhor nem pior em termos comparativos, mas genuinamente diferente. Uma forma específica de se relacionam com a bola e com o espaço que não voltou a ser vista da mesma forma. Quando Neymar apareceu no início dos anos 2010, mais de um jornalista e mais de um ex-jogador que tinha visto Denner foi buscar a comparação, a leveza, a alegria, o drible como forma de expressão, antes do que como ferramenta tática, a sensação de que o futebol para

aquele jogador era um prazer que não podia ser contido, mas Neymar chegou a cumprir o que prometia para o bem e para o mal, com todos os seus títulos e todas as as suas polémicas. e toda a sua trajetória longa e complexa. Dener ficou congelado aos 23 anos, no momento em que o potencial era máximo e a carreira ainda não tinha chegado ao seu ponto de maior maturidade.

 E essa é talvez a forma mais devastadora de se perder na memória coletiva do futebol, não como um homem completo, com as suas vitórias e os seus fracassos e toda a sua história, mas como uma possibilidade infinita que o tempo não teve oportunidade de moldar definitivamente. A comparação com outros astros que chegaram a completar a sua jornada ajuda a medir o tamanho da ferida.

Ronaldo pôde tornar-se o fenómeno, ganhar Campeonatos do Mundo, sofrer lesões terríveis e voltar. Ronaldinho pôde levar a alegria brasileira ao Barcelona e ao mundo. Rivaldo pôde levantar a Taça e deixar a sua marca na Europa. Neymar pôde tornar-se símbolo de uma era inteira, com tudo o que de brilhante e contraditório que isso implica.

 Dener não teve direito a essa complexidade. Não pôde desiludir, nem reinventar-se, nem cair, nem voltar. morreu antes que a vida lhe permitisse ser completo. E talvez, por isso a sua recordação seja tão limpa e tão dolorosa ao mesmo tempo. O Dener que ficou na memória, não envelhece, não erra depois dos 30, não quezília com técnicos europeus, não atravessa lesões longas, não perde velocidade.

 O Denner da memória está sempre prestes a fazer a jogada seguinte. está sempre a inclinar o corpo, sempre deixando o marcador para trás, sempre com a Europa à espera do outro lado do oceano. Este congelamento é lindo para a lenda, mas profundamente injusto para o ser humano. Quando o Brasil ganhou a Mundial de 1994, houve alegria, claro, Romário virou-se herói nacional.

 A seleção recuperou a coroa e o país celebrou como só o Brasil sabe celebrar. Mas para quem havia acompanhado Dener de perto, aquela taça houve uma sombra, porque no meio da festa ficava a pergunta que ninguém conseguia expulsar completamente. E se ele tivesse estado lá? Não como titular garantido, não como uma solução mágica, mas como aquele tipo de jogador que numa partida fechada pode inventar uma saída.

 Aquela Taça também foi disputada com um fantasma jovem, olhando da memória, porque há uma síndrome que os brasileiros que viveram aquela época conhecem bem, que poderia se chamar síndrome do que poderia ter sido. A cada poucos anos, o futebol brasileiro perde alguém antes do tempo e o país fica com aquela questão impossível de responder.

 O que teria acontecido se tivesse chegado à Taça dos Estados Unidos? Se tivesse jogado no Estugarda e depois num clube maior, como parecia inevitável, se tivesse podido desenvolver nos campos europeus aquele talento que no Brasil mal tinha mostrado uma fracção das suas possibilidades, quem compreende o futebol brasileiro diz que Denner teria encontrado no Estugarda o contexto de que necessitava para crescer como profissional.

 O futebol alemão dos anos 90, organizado, tático, fisicamente exigente, era exatamente o tipo de desafio que traz à tona o melhor dos jogadores tecnicamente dotados que vêm do futebol sul-americano, porque os obriga a acrescentar disciplina e consistência a um talento que por vezes no Brasil expressa-se de forma mais episódica.

 E depois do Estugarda, com a marca de um jogador brasileiro que tinha funcionado na Europa, o caminho para os clubes mais grandes do continente estava aberto. Pessoalmente, acredito que Denner teria chegado ao melhor futebol europeu. Não digo isto por sentimentalismo, mas pelo que dizem todos os que o viram jogar no Vasco, que era apenas a ponta do icebergue, do que aquele miúdo era capaz de fazer.

 E eis que surge a quarta revelação, a que é talvez a mais dura de todas a processa completamente. A matrícula do carro que Dener conduzia naquela noite era DNR00, as suas iniciais, Dener. O universo tem por vezes esta crueldade específica dos pormenores que parecem inventados, mas são reais, que parecem metáforas literárias, mas são factos verificáveis.

 O carro que levou-o à sua última reunião em São Paulo, o carro que viajou de noite pela rodoviária federal entre as duas maiores cidades do Brasil, levava as suas iniciais na placa. DNR Dener, como se o próprio carro já fizesse parte da lenda que naquela noite se iria fechar da pior maneira possível. Quando penso na história de Dener e no que ficou depois daquela madrugada do dia 19 de Abril, é impossível não pensar também no Brasil que o produziu, porque Dener não foi um acidente, não foi uma anomalia na cadeia de produção do futebol brasileiro, foi

exatamente o produto do que aquele país sabe fazer melhor do que ninguém no mundo. apanhar um rapaz da periferia, de uma família que mal chega ao fim do mês, de um bairro onde o futuro se vê com pouca clareza e transformá-lo em algo que o mundo inteiro vai olhar com espanto. A aldeia Ema deu ao Brasil um jogador que os técnicos mais respeitados comparavam a Pelé.

 Isto não é pouca coisa, isto é o futebol brasileiro na a sua versão mais pura e mais poderosa. Mas há também algo na história de Denner que obriga a pensar no que o futebol brasileiro, com todas as suas estruturas e dinâmicas de poder, não poôde dar a um jovem de 23 anos que vinha de onde era natural. A portuguesa, que detinha os seus direitos, recusou as primeiras propostas europeias quando Dener tinha 20 anos.

Estas decisões foram tomadas por pessoas em escritórios que tinham interesses económicos e estratégicos próprios. E Denner, como a maioria dos jogadores da a sua geração no Brasil, não tinha a estrutura nem o poder negocial para se impor. O futebol brasileiro daquela época, com o seu sistema de direitos, sessões e empréstimos, funcionava de uma forma que colocava os jogadores numa posição de dependência que por vezes se revelava limitante no momento exato em que o talento mais necessitava do contexto adequado para se desenvolver. E o mais

brutal de tudo, o que faz com que esta história doer de uma forma específica mais de 30 anos depois, é que na última semana da sua vida, Denner tinha conseguido finalmente o que queria. O Estugarda estava assinado, o dinheiro estava na mochila, o caminho para a Europa estava aberto.

 Tudo o que tinha sido negado ou adiado nos anos anteriores estava finalmente resolvido. E foi exatamente nesse momento, com a mochila do contrato na mão e o cansaço de um fim de semana de negociações nas costas, que o automóvel tomou a curva da Avenida Borges de Medeiros e o sono venceu o condutor e a árvore parou tudo.

 Os filhos de Denner cresceram a ouvir a história do pai da boca dos outros. Os companheiros do bairro que o conheceram de menino na aldeia Ema, os ex-companheiros da Portuguesa que o viram estrear-se no Canindé, os adeptos do Vasco que ainda hoje, mais de 30 anos depois, dizem o nome de Cafuné com aquela mistura de carinho e melancolia que tem as recordações dos ídolos que foram cedo demais.

 E destas conversas fragmentadas, destes pedaços de história que não tem o arco completo que uma vida inteira dá. Os três filhos de Dener Augusto de Souza construíram a imagem de um homem que não puderam conhecer, mas que deixou pegada suficiente no mundo para que essa imagem tivesse substância e peso.

 Nos anos que se seguiram, sempre que o Brasil produzia um jovem jogador de qualidades extraordinárias, o nome de Denner aparecia nas comparações, nem sempre de forma explícita, mas estava lá como uma referência implícita do que poderia ter sido o ponto de chegada daquele tipo de talento. Ronaldinho, quando surgiu no final dos anos 90, com a sua alegria e o seu desequilíbrio, recebeu comparações com Denner por parte dos jornalistas que tinham visto os dois jogarem. Neymar quando chegou também.

E há algo nestas comparações recorrentes que diz mais sobre o vazio que Dener deixou do que qualquer análise técnica poderia dizer que o futebol brasileiro, que produz talento de forma quase industrial, não terminou de preencher o espaço específico que aquele miúdo da Vila EMA ocupava.

 Há um ponto que ajuda a compreender a dimensão real aqui e é um que tem a ver com o que o futebol brasileiro daquela época perdeu em termos estatísticos, mas que não conta a história completa. Denner jogou 47 partidas no Campeonato Brasileiro pela Portuguesa, marcou sete golos, dois jogos com a seleção principal, nove com a sub, 23.

 Estes números vistos friamente não são os de um jogador de lenda, mas os números não captam o que acontecia quando Dener tinha a bola nos pés e o espaço para se movimentar. Os números não captam o silêncio que se fazia nos estádios antes de a gritaria explodir. Não captam a expressão dos defesas que saíam da partida com a sensação de terem sido driblados de uma forma que não sabiam como explicar.

 Não capturam os telefonemas que chegavam da Europa, perguntando por aquele miúdo que fazia com a bola, coisas que o futebol brasileiro produzia de vez em quando e que a Europa sempre quis para si. E o que mais dói em tudo isto, o que faz com que esta história seja impossível de fechar completamente, é a combinação de tragédias que se tem concentrado nos últimos meses da vida de Dener.

 Em fevereiro, a falecimento de Luciana Gabino, a mãe dos seus filhos. Em Abril, a sua própria morte, dois meses e meio de luto pessoal e de futebol profissional e de negociações europeias e de viagens noturnas de estrada, até que no dia 19 de abril o círculo fechou-se da maneira mais brutal. Três crianças pequenas ficaram sem mãe e sem pai em menos de três meses.

 É isso que resta quando se atravessa a superfície da lenda futebolística e chega-se ao que havia embaixo. Uma história familiar devastada, uma geração de crianças que cresceu sem os pais, uma ferida privada que continuou a sangrar muito depois de os estádios fecharem as suas portas e os os jornalistas escreverem o último artigo de homenagem.

 O Brasil ganhou a Taça do Mundo dos Estados Unidos. Em 1994, Romário foi o melhor jogador do torneio. A seleção nacional levantou a sua quarta estrela na disputa de grandes penalidades contra a Itália no Rose Ball de Pasadena, com Roberto Báio a desperdiçar o último remate e 150 milhões de brasileiros a chorar de alegria perante os seus televisores.

 Foi a Taça de Romário e de Bebeto e do abraço do bebé imaginário que os dois festejavam a cada golo. Foi o título mais esperado do futebol brasileiro desde 1970. E no meio de toda aquela alegria, em algures naquela celebração coletiva, havia também um espaço vazio com o nome de Dener escrito nele.

 Talvez o Brasil tivesse ganho do mesmo modo, com Romário como figura central e Bebeto como o seu complemento perfeito. Talvez Denner tivesse saído do banco em algum momento decisivo e tivesse mudado uma partida com uma daquelas jogadas que só ele sabia fazer, ou talvez tivesse que esperar até ao Mundial seguinte. até 1998 em França, que foi o da derrota dolorosa para a mesma França de Zidane, quando o O Brasil chegou com uma geração que já começava o seu declínio.

 Não se pode saber. E essa é a natureza específica deste tipo de luto no futebol, que as perguntas não têm resposta e que a dor não diminui com o tempo, mas se transforma, torna-se algo mais parecido com saudade, mas com aquela qualidade particular da saudade de algo que nunca chegou a existir completamente. Todos os dias 19 de abril, no Brasil, os que o viram jogar se se lembram.

 Os que só o conheceram através das recordações dos outros se lembram também daquela forma particular como se recorda de alguém que não se conheceu pessoalmente, mas cuja história entrou dentro de nós e ficou. E os três filhos que têm o seu nome e seu sangue continuam a viver em São Paulo com aquela herança complexa e pesada e ao mesmo tempo preciosa, de ser os filhos de alguém que todo o país transformou em lenda, antes de poderem conhecê-lo como um pai comum.

 A última imagem que temos de Dener Vivo é no estacionamento do Canindé, numa Terça-feira, 19 de Abril de 1994, à tarde, com uma mochila na mão e um sorriso. E o segredo do Estugarda que está a contar ao amigo e ex-companheiro. Um rapaz de 23 anos, pai de três filhos, com o futuro mais risonho que o futebol brasileiro tinha imaginado para alguém da sua geração, há poucas horas de entrar num carro branco em direção ao Rio e de nunca chegar, isto é o que ficou.

 Uma mochila com dinheiro que já não servia para nada, um contrato com um clube alemão que nunca se concretizou, três crianças que cresceram sem os dois. E a memória de um jogador que o Brasil de 1994 estava prestes a ver na sua melhor versão no Mundial mais esperada em décadas, nos campos europeus, onde o seu talento teria tido o espaço e a exigência para chegar ao mais alto, e que, em vez disso, ficou congelado para sempre naquela imagem do miúdo da Vila Ema, que dançava sobre o relvado e fazia os defesas saírem da partida sem saber

direito o que tinha acontecido. com eles. 30 anos depois daquela madrugada na Alagoa Rodrigo de Freitas, o nome de Denner continua a aparecer nas conversas sobre o futebol brasileiro, com uma frequência que os próprios protagonistas destas conversas às vezes acham surpreendente, não como nostalgia superficial, mas como algo mais fundo, como a referência a um tipo de jogador e a uma forma de compreender o futebol que aquele nome representa melhor do que qualquer outro.

E quando nasce no Brasil algum menino com um talento especial, quando aparece nas camadas jovens de algum clube paulistano ou carioca, um miúdo que faz com a bola coisas que não deveriam ser possível na sua idade, alguém sempre diz o mesmo nome. Como se Dener Augusto de Souza continuasse a ser a medida do que o futebol brasileiro pode produzir quando dá a um menino pobre da periferia o tempo e o espaço para crescer.

Assim terminou a história do miúdo da Vila Ema, que ia reinar sobre o futebol mundial. Com 23 anos, com o contrato europeu praticamente fechado e o Mundial a poucos meses de distância, Denner ficou parado numa curva da Avenida Borges de Medeiros. O Brasil seguiu em frente, venceu a Taça, celebrou a sua quarta estrela e continuou a produzir craques enormes, mas aquele espaço nunca foi preenchido completamente.

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vive nos relatos de quem o viu mover-se com a bola colada ao pé, nos filhos que transportam o seu apelido, na memória do Vasco e da Portuguesa, e nesse questão que nunca envelhece o que teria sido do futebol brasileiro se aquele carro branco tivesse chegado ao destino. Vener não chegou a reinar na Europa, mas deixou uma sombra tão grande que ainda parece uma promessa aberta para todo o Brasil, mesmo hoje, sem desfecho. Щu.

 

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