Em 1972, Luís Gonzaga subiu ao palco do Teatro Teresa Reichel, no Rio de Janeiro, decidido a anunciar a sua aposentação definitiva, cansado de ver o Baião ser chamado de peça de museu pela nova geração da MPB. Nessa mesma noite, Gilberto Gil estava na plateia, convencido de que o velho Lua representava um passado que a tropicalha que a já tinha engolido. Olá.
O que ninguém esperava era que uma provocação sussurrada nos bastidores faria de Gonzaga rasgar o discurso de despedida e iniciar o espectáculo mais violento e inesquecível de a sua carreira. Aquele concerto mudou o rumo da música nordestina, mas os detalhes do que realmente aconteceu nessa noite ficaram trancados durante décadas.
Gilberto, jovem da impetuoso, vinha do exílio em Londres com a cabeça cheia de guitarras elétricas e teorias sobre o futuro da música brasileira. Para os críticos da época, o gibão de couro de Gonzaga era uma relíquia de um sertão que o país queria esquecer. Um eco de retirantes e sofrimento que já não cabia no Brasil moderno.
Gonzaga sentia o peso dos anos e o silêncio das rádios, que pareciam ter virado as costas ao homem, que praticamente inventou a identidade musical do Nordeste. Mas o que vem agora é ainda mais forte do que a simples disputa entre o novo e o velho. O que vai descobrir daqui a pouco vai mudar completamente a forma como vê essa história.
Porque aquele embate não foi apenas uma discussão sobre o ritmo ou mercado fonograr, foi um confronto de sangue, honra e território. Havia duas perguntas que ninguém conseguia responder na altura e que alimentaram os boatos nas feiras livres de Caruaru até a as estações rodoviárias. O que Gonzaga disse ao ouvido de Gilberto Gil sós? 3 minutos antes de a cortina se abrir, que fez o jovem baiano empalidecer perante os músicos.
E por quê? A fita com a gravação em bruto desse espetáculo desapareceu misteriosamente dos arquivos da editora discográfica e passou 20 anos escondido no fundo de um baú em U. Isto tudo era apenas o início de uma noite, onde o sertão se impôs no canavial de concreto do Rio de Janeiro. Gonzaga entrou no camarim com o senho fechado, carregando ação a concertina branca como quem transporta um fuzil antigo que ainda funciona.
O cheiro a pó e a estrada bacia inici acompanhar o velho mestre, mesmo naquele ambiente sofisticado da zona sul do Rio de Janeiro. Gil estava ali cercado por intelectuais e jornalistas que sorriam com desdém cada vez que ouviam o pesado sostaque do velho Lua. Alguém comentou em tom baixo que o baião tinha-se transformado em música para porteiro e empregada doméstica, que choravam de saudade da terra seca. Gonzaga ouviu.
A mão caleaslhada apertou o chapéu de couro contra o peito e os olhos pequenos e compridos faiscaram. Quem cresceu ouvir aquela concertina? No rádio de pilha, no meio do tempo em que a seca rachava o chão de terra batida, sabe o que aquela música representava. Não era entretenimento, era a única coisa que lembrava ao homem do sertão, que ainda estava vivo, que a sua dor tinha voz e que o seu orgulho não ser comprado.
Gonzaga não engoliu o insulto. Ele deu dois passos em direção a Gilberto Gil, o silêncio a cair sobre os camarim, como a noite cai de repente no meio do mato. Os jovens músicos que acompanhavam Gil travaram. O mestre olhou bem no fundo dos olhos do baiano e disse com aquela voz rouca que parecia vir do fundo da terra.
Acha que o que eu faço é passado? Porque aprendeu a tocar guitarra, olhando para a Europa? Menino, mas a a minha concertina tem o peso de cada légua que o retirante andou a pé para não morrer de fome. O ar ficou pesado. Gil tentou responder, ensaiou um sorriso amarelo, mas a segurança do jovem tropicalista desapareceu diante daquela presença gigante.
O que aquele homem disse a seguir foi a coisa mais estranha que Gonzagasan ouviu em toda a sua vida. Algo que parecia uma trégua. Mas na verdade era um desafio disfarçado de elogio, mas isso vem daqui a pouco. Gonzaga virou as costas, pegou no instrumento e caminhou para o palco sem olhar para trás. Ele tinha um plano claro, tocar três músicas, agradecer ao público e entregar a coroa.
O cansaço físico era real, as pernas pesavam e o coração já não tinha a mesma paciência para aguentar o desrespeito da crítica do sul. A plateia do Teresa Raquel estava dividida. De um lado, os velhos admiradores, homens de cabelo branco que tinham chegado ao rio nos anos 40 em paus de Arara, com as mãos gastas pelo trabalho pesado da construção civil.

Do outro, a juventude universitário que achava o forró uma manifestação ingénua e ultrapassada. Quando as luzes se apagaram, o silêncio que tomou conta do teatro não era de respeito, era de expectativa. Parecia o julgamento de um rei que estava prestes a ser destronado. E Gonzaga posicionou-se no centro do palco, sob um único refletor amarelo que fazia brilhar o couro do seu gibão como armadura antiga.
Ele não sorriu, não fez a piada do costume sobre o burro ou sobre as festas de São João. Ele apenas olhou para o público e começou a puxar o fôle. O primeiro acorde não foi de asa branca, nem de juazeiro. Foi um lamento longo, agudo, que parecia o choro do vento nas fendas da pedra do sertão. Naquele momento, na terceira fila, um homem velho que tinha saído de Patos de Paraíba 30 anos antes, começou a chorar em A Gonzaga tinha o poder de arrancar o homem do presente e lançá-lo de volta para casa, de taipa, para o cheiro do café torrado no fogão a lenha, para a
recordação do pai que ficou sepultado na berma da estrada. Era o orgulho nordestino, que a grande cidade tentava esmagar todos os dias, mas que aquela acordeão trazia de volta com a força de uma enchurrada. Mas o que ninguém imaginava era que Gilberto Gil tinha um plano para aquela noite, algo que ele tinha combinado com o produtor de rádio e que mudaria o destino do espetáculo a meio da quarta música.
E e aqui é onde tudo que achou que estava a compreender muda completamente. Hum. A verdade sobre os anos de ostracismo que Gonzaga enfrentou antes dessa noite guarda um egrutsu sombrio, um pacto de silêncio entre as grandes rádios do Rio de Janeiro para abafar o sonoro do Nordeste, mas isso vem daqui a pouco. Gonzaga começou a cantar.
A voz, em vez de fraca pelo peso dos anos, saiu com uma violência que assustou os técnicos de som. Ele não estava a cantar para o público carioca, ele estava a responder a Gipios, que assistia a tudo da lateral do palco. No meio da execução de respeita Januário, Gonzaga parou a banda abruptamente. O silêncio voltou, seco, cortante.
O velho Lua deu um passo em frente, apontou o dedo indicador na direção de Gilberto Gil e falou ao microfone para todo o teatro ouvir. Há gente a dizer que o sertão morreu e que a nossa música se tornou poeira. Pois suba aqui, Gilberto, e mostra ao povo se o teu violão aguenta o tranco do meu fle.
A plateia prendeu a respiração. Um desafio direto no palco perante milhares de pessoas. Era a velha tradição dos cantores de rabeira, dos repentistas, que resolviam as diferenças no verso e na coragem. Gil ficou estático. Recusar o convite seria assinar o atestado de cobardia perante toda a imprensa.
Aceitar significava enfrentar o maior monstro sagrado da música popular no terreno dele. O público começou a murmurar, o barulho crescendo como zumbido de um enxame de abelhas no meio do mato seco. caminhou devagar, cagou o vio pegou no guitarra e subiu os degraus do palco, sob os olhares atentos dos retirantes que ocupavam as galerias populares.
Você ainda não sabe o que estava escondido atrás das cortinas daquele palco. Algo que foi lá colocado de propósito por um empresário que queria ver o circo pegar fogo. Isso vai mudar tudo quando chegar. Para para compreender a raiva que fervilhava no peito de Gonzaga, é preciso lembrar o que aconteceu na Rádio Nacional em 1958, quando um realizador rasgou os discos de cera do baião à frente dos músicos.
Aquela humilhação ficou cravada na alma do velho Lua, que jurava que o Nordeste nunca mais seria espezinhado no sul. Gil chegou ao centro do palco, a guitarra a tiáculo, e olhou para Gonzaga. K. O velho Lua não deu espaço, não houve aperto de mãos. Gonzaga começou a ditar o ritmo.
Um baião acelerado, pesado, batido no pé da zabumba com uma força que fazia tremer o estrado de madeira. O Gil tentou entrar com as suas harmonias modernas, os acordes dissonantes que tinha trazido da Europa. Mas a concertina de Gonzaga atropelava qualquer tentativa de sofisticação. Era o sertão bruto contra a cidade grande.
Gonzaga tocava com os olhos fechados, o suor a escorrer-lhe pelo rosto, o corpo balançando como se estivesse em trans, a música avançava e Jipeu que não conseguia acompanhar o ritmo. Os seus dedos começaram a falhar nas cordas da guitarra. O velho Lua não teve pena e aumentou a velocidade, puxando o folho com tanta energia que parecia que o instrumento ia partir ao meio.
era a resposta viva, performativa, de quem não precisava de manifesto político ou de guitarra elétrica para ser revolucionário. Ele era a própria revolução. Nascido da fome, do pó e do génio de um homem que transformou a dor de um povo em realeza. Isso parecisse o fim da disputa. A vitória humilhante do mestre sobre o aprendiz. Não era o verdadeiro problema.
Estava apenas começando. As testemunhas tibus que estavam na primeira fila relataram anos depois de um homem misterioso de fato escuro subiu ao estrado com um bilhete para Gonzaga a meio do duelo. Mas isso vem daqui a pouco. No auge do duelo, uma corda da guitarra de Gil rebentou com um estalido seco que ecuou pelos aloofalantes.
O teatro inteiro prendeu o fôlego. Gonzaga parou de tocar imediatamente. Gil olhou para o instrumento com a corda solta, sabendo que tinha perdido a batalha. Mas foi aí que a falsa certeza de todos os os presentes ruiu por terra. Gonzaga não sorriu com desdém. Ele tirou o próprio chapéu de couro, colocou-o na cabeça de Gilberto Gil e disse: “A corda parte-se onde o braço é fraco, mas o sangue que corre nas tuas veias é o mesmo que corre nas minhas. És meu filho, rapaz.
Não briga com o teu pai. Não foi a superioridade técnica de Gonzaga, mas a a sua capacidade de compreender que Girte, Gilberto Gil, não era o inimigo, era a continuação do seu próprio legado, apenas vestindo roupas diferentes. Gonzaga não se reformou nessa noite. O espetáculo continuou por mais duas horas, com os dois a tocarem juntos, o violão partido de Gil acompanhando o ritmo na base da batida na madeira.
No secará, aquela fita cacete que ficou guardada durante 20 anos e que euere tant continha ainda a prova de que a tropicalia não veio para matar o baião, mas para pedir a sua bênção. A gravação foi confiscada pela censura da época, porque a meio do concerto Gonzaga fez um discurso improvisado defendendo os direitos dos Os camponeses do Nordeste, que sofriam com a ditadura, algo que a editora discográfica achou demasiado perigoso para vir a público.
O público gritava nas galerias. O cheiro a suor misturado com um perfume barato do teatro criava um ambiente sufocante. Gonzaga olhou para o plateia e percebeu que aqueles homens de mãos calejadas que tinham deixado o sertão em camiões de retirantes para construir os edifícios de uma rendição, queriam ver um rei de pé.
Cada nota que saía daquela concertina branca era um murro no estômago da elite que tentava apagar o passado. Gilberto Gil, com o chapéu de cabedal na cabeça, começou a bater no corpo da guitarra como se fosse uma alfaia de maracatu. Seguindo o ritmo pesado do velho Lua, a batida ecoava. O som s transformou em algo que ia música comercial da época.
Não era boss, mais o baião das feiras livres. Patô ontem era um clamor antigo, uma força visceral que vinha das entranhas da terra seca de Pernambuco e encontrava eco nos subúrbios do Rio de Janeiro. Os críticos que estavam na plateia com os seus blocos de notas prontos para escrever o obituário artístico de Luís Gonzaga começaram a guardar as canetas.
A o poder daquela performance quebrou a pose dos intelectuais. Nos bastidores, o clima de tensão continuava intenso. O empresário de Gonzaga. Um homem que conhecia o circuito artístico desde os anos 40, tentava acalmar os polícias federais que te vigiavam o teatro por causa das letras das músicas.
A censura estava atenta a qualquer manifestação que pudesse incitar o povo do Nordeste. Mas Gonzaga não se importava com as ameaças e tinha passado fome na infância, tinha visto os seus irmãos morrerem de sede e tinha enfrentado os coronéis do sertão. Não seriam os homens de fato do Rio de Janeiro que iriam calar a sua voz. O espetáculo estendeu-se pela madrugada, transformando Teresa Rachel numa verdadeira fogueira de São João no meio da capital fluminense.
Os retirantes choravam abertamente, lembrando-se da pátria distante, das mães que ficaram rezando no interior e da vida dura que levavam na grande cidade Gonzaga, através da sua concertina. Dava dignidade àquela dor. Ele não cantava a miséria para causar pena. Ele cantava a resistência para dar coragem. E Gilberto surgiu tocando ao lado do mestre.
Compreendeu que o futuro da música brasileira dependia daquela raiz profunda. A noite terminou com todo o teatro de pé, cantando asa branca em Uísono, numa comunhão que poucas vezes se repetiu na história da MPB. Aquela gravação que ficou trancada no cofre durante décadas não foi apenas um registo musical, era o documento de um momento de reunião nacional, onde o O Brasil moderno teve de se curvar diante da força do Brasil profundo.
Gonzaga saiu do palco exausto com o gibão encharcado em suor, mas com a certeza de que o baião nunca morreria anos mais tarde, numa entrevista que nunca foi ao ar. Gilberto Gil confessou que nessa noite foi o verdadeiro os batismo da sua carreira e que o peso do chapéu de couro de Gonzaga na sua cabeça foi a carga mais pesada e honrosa que ele já carregou na vida.
O mistério da cassete permaneceu, mas a certeza do público que lá esteve naquela noite de 1916 ficou marcada para sempre na memória de quem viveu. A era dourada da música nordestina. A história secreta por detrás do regresso de Gonzaga a isu, logo após este concerto, esconde um mistério ainda maior que envolve uma promessa de sangue fita ao seu pai, Januário.
Mas isso vem daqui a pouco. Gonzaga lembrava dos tempos em que viajava pelos aldeias do sertão montado num burro, levando-o com a concertina numa caixa de madeira tosca para tocar nas feiras livres, a troco de alguns tostões, e um prato de farinha com carne de sol. Ele recordava as noites frias na Caiatinga, do som dos grilos e do medo de ser assaltado pelos bandos de cangaceiros que ainda deambulavam pela região na sua juventude.
Toda esta vivência estava contida na forma como seguravam o instrumento no palco do Teresa Rachel. Olá. Aquilo não podia ser aprendido em livros ou em universidades da Europa. Gilberto Gil, apesar da sua juventude e do seu orgulho intelectual, percebeu que a sofisticação da sua música não conseguia competir com a verdade da terra que Gonzaga trazia no peito.
A vaidade do jovem artista foi partido ali à frente de todos, não por um insulto, mas pelo abraço de um pai que reconhecia o valor do filho, mesmo quando este caminhava por caminhos tortuosos. O gesto de colocar o chapéu de cabedal na cabeça de Gil foi um ato de transmissão de poder que calou os críticos e uniu as duas pontas da história da música brasileira.
Os técnicos da editora discográfica tentaram recuperar a cassete na manhã seguinte. Sepasou no pinpinho do Numbras Pinu, onde ela tinha sido guardada, levado por um camionista de confiança de Gonzaga que tinha ordens estritas para entregar o material apenas nas mãos da família do mestre em mi a gravação original continha não só as músicas e o duelo, mas as conversas informais que os dois tiveram em palco durante os intervalos.
revelações profundas sobre as suas vidas e sobre as dificuldades de criar de criar arte num país marcado pelas injustiças social e pela violência política. O impacto daquele concerto repercutiu-se nas semanas seguintes nas páginas dos jornais de todos os estados. Os jornalistas que antes criticavam o velho Lua tiveram de admitir que o rei do baião continuava firme no seu trono e que a sua música tinha uma vitalidade que desafiava o tempo e as modas passageiras.
A juventude carioca, que antes olhava para o forró com distanciamento e preconito, passou a frequentar as casas de espectáculos da Baixada Fluminense para ouvir os acordeonistas. que seguiam os passos de Luís Gonzaga, gerando um no heresse pelas tradições do Nordeste. Gonzaga sentia que a sua missão não termina nado. O cansaço que o levou a pensar em reforma desapareceu, substituído por uma nova urgência de percorrer o Brasil profundo, de voltar para as estradas de terra batida e para os palcos improvisados no interior do país, onde o verdadeiro povo o
esperava com a mesma devoção de sempre. Sabia que o Rio de Janeiro e São Paulo eram importantes para o mercado fonográfico, mas o coração do seu público batia era nas feiras livres, nos arraiás de interior e nas casas de taipa do sertão. A fita trancada no baú tornou-se uma lenda entre os colecionadores e investigadores da música brasileira.
Um tesouro escondido que muitos tentaram comprar por fortunas. mas que a família de Gonzaga guardou com zelo religioso, cumprindo o desejo do mestre de aquele registo de que é quises só deveria ser revelado quando o Brasil estivesse pronto para compreender a verdadeira dimensão daquele encontro histórico.
A gravação em bruto mostra a humanidade dos dois artistas, sem os cortes e as correções dos estúdios modernos, revelando os erros, os improvisos e a emoção pura de uma noite em que a música foi maior do que as diferenças ideológicas. Para compreender os bastidores daquela noite, é preciso voltar à MO 1946 no estúdio da Rádio Nacional, quando Gonzaga gravou o primeiro baião de duas faces sob um calor de 40º.
O técnico de som paulista riu-se do ritmo arrastado e disse que o Brasil urbano nunca compraria um disco que cheirasse a estrume de bode. Tá. Gonzaga não respondeu com palavras. E se ele passou a noite inteira sentado na calçada da rádio com fome, à espera que o diretor chegue na manhã seguinte para garantir que o disco seria prensado e distribuído em cada feira livre do país.
Esse mesmo orgulho ferido reapareceu no camarim do Teresa Rachel. Gilberto Gil estava rodeado de jornais franceses e ingleses, discutindo o existencialismo e as novas correntes da vanguarda Londrina. Enquanto Gonzaga limpava o pó dos botões da sua concertina com um lenço de algodão velho, a frieza entre os dois era visível até para os carregadores de caixas.
Um dos produtores da noite tentou intervir, sugerindo que Gonzaga fizesse uma introdução mais suave para agradar à classe média alta, que pagava bilhetes caros. Os E o mestre apenas olhou por cima dos óculos e disse: “Se eles queriam música suave, deviam ter ficado em casa a ouvir disco de fita. Eu vim trazer o peso do sertão e o sertão não pede licença para entrar.
Bol trazida pelos operários quegastaram o salário da SEO. Estes homens sabiam o que era a migração forçada, a humilhação do alojamento coletivo nos canteiros de obras e a saudade que apertava o peito na hora do crepúsculo. Quando a concertina chorou os primeiros com os passos, viram um espelho da sua própria existência, uma prova viva de que a sua cultura e a sua história tinham valor.
que a rádio tentava impor a quarta incógnita sobre o que estava escrito no nos conect da segurança nacional minutos após o término do concerto guarda um segredo que o nome de três deputados da época. Isso vai mudar tudo quando chegar. Gonzaga puxava o folle com os braços rígidos, as veias saltadas sob a pele queimada do sol de Exu.
A marca física do esforço mostrava que ele não estava ali. Cada acorde era uma disputa por território cultural. Gilberto Gil sentiu o impacto logo nos primeiros minutos. O som da guitarra que ele tentava emular no violão acústico parecia magro. sem corpo, incapaz de preencher o espaço diante da muralha de som criada pela Zabumba, pelo triângulo e pela concertina branca de 80 baixos.
O confronto era desigual porque Gonzaga jogava com o memória de três gerações de sofredores. Atenção no palcos subiu quando o acordeonista de apoio de Gonzaga, um rapaz novo trazido do interior da Paraíba, falhou uma nota no meio do chote por causa do nervosismo. O velho Lua parou o espectáculo com um gesto seco da mão esquerda.
olhou para o músico com uma severidade que assustou a assistência e disse no microfone: “No meu palco, respeito pelo povo, vem antes do com pomo. Se o dedo falhar por medo, a concertina transforma-se em lixo.” O jovem paraibano engoliu em seco, limpou o suarce da testa com a manga da camisa e recomeçou o ritmo com uma precisão cirúrgica.
Este nível de exigência mostrava que para Gonzaga a música do O Nordeste não era uma brincadeira folclórica, mas uma liturgia que exigia precisão total. A plateia entendeu o recado. Os risinhos dos estudantes universitários que ironizavam o gibão de couro desapareceram completamente. A atmosfera do teatro alterou-se, tornando-se pesada, solene, semelhante às antigas festas de padroeira, onde o respeito pelos mais velhos era a primeira regra da convivência.
Gilberto Gil assistia a tudo do canto do palco, com a guitarra apoiada no joelho, percebendo que a teoria tropicalista de misturar tudo nem sempre funcionava quando se estava perante uma raiz autêntica que não aceitava mistura barata, a cassete continha uma faixa bónus que nunca foi registada em nenhum catálogo oficial. Uma gravação de 10 minutos, onde Gonzaga ensina Gil a afinar o violão de acordo com a tradição dos cegos cantadores de feira do Ceará.
Mas isso vem daqui a pouco. Gonzaga voltou a cantar agora com os olhos fixos na galeria superior, onde os retirantes mais pós-primos se espremiam para ver o mestre. A voz saiu com uma afinação perfeita, cortando o ar do teatro. Ah, como uma faca de ponta bem amolada. Ele cantava sobre a partida do Nordeste, sobre a promessa de voltar quando o chuva caísse e sobre a dor de ver os filhos a crescer longe da terra natal.
Cada palavra encontrava eco nos corações daqueles homens que construíram o Rio de Janeiro com o suor do próprio corpo, mas que mantinham a alma presa ao chão de gesso do sertão. O empresário da gravadora assistia a tudo da mesa de somendo unhas de preocupação. Ele sabia que aquele concerto seria o último contrato de Gonzaga.
Se o público rejeitasse o repertório tradicional em prol das novidades que dominavam as tabelas de sucesso. Ah, mas o resultado foi exatamente o inverso. A força da performance começou a atrair até os jornalistas mais céticos que deixaram as suas cadeiras na zona de imprensa e aproximaram-se do palco para ver de perto a velocidade dos dedos dos Gonzaga nos botões da Sanfon.
O suor escorria pelo pescoço do mestre, ensopando o colarinho do gibão de couro pesado, feito à medida por um artesão de Caruaru. O peso do trage era de quase 10 kg, mas Gonzaga parecia não sentir o incómodo físico. Ele movimentava-se com a agilidade de um jovem. Carregamento do instrumento se top corpo. A simbiose entre o homem e a concertina era total.
Uma imagem que ficou gravada na mente de todos os presentes como o símbolo máximo da resistência cultural do povo nordestino. As luzes do teatro começaram a falhar por causa da sobrecarga no sistema elétrico do velho edifício, criando um jogo de sombras que tornava a figura de Gonzaga ainda mais imponente e mítica. No centro do palco, parecia que o O próprio sucertão tinha invadido a zona sul rio de janeiro, trazendo a sua penumbra, o seu calor sufocante e a sua urgência de sobrevivência.
Gilberto Gil, ainda com o chapéu de cabedal na cabeça, acompanhava o mestre com batidas firmes na lateral da guitarra, transformando o instrumento de cordas numa percussão rústica e potém. O espetáculo entrou pela madrugada, sem que ninguém pedisse para sarassair ou se queixasse do calor que transformava o teatro numa verdadeira caldeira humana.
Os vendedores de refresco e cerveja tinham esgotado de céos os seus stocks ainda a meio da apresentação, mas o público continuava firme, hipnotizado pela energia que emanava do palco. Gonzaga não dava trégoas, emendava um rojão atrás de um shot, sem tempo para conversas compridas ou discursos políticos formais.
A política dele estava na escolha de cada verso, na exaltação do homem do campo e na denúncia da seca que expulsava o povo de suas casas. Nos bastidores, os polícias federais da censura discutiam se deviam ou não interromper a apresentação por causa dos improvisos que Gonzaga fazia entre as músicas, criticando abertamente a falta de apoio do governo federal aos agricultores do Nordeste.
O gerente do teatro interveio, alertando que se a polícia tentasse subir ao palco para prender o rei do baião, os operários que ocupavam as galerias populares quebrariam o teatro todo para defender o artista. Perante o risco de um motting generalizado, os agentes decidiram recolher as suas as cadernetas e observar de longe, registando as penas os relatórios que seriam enviados na manhã seguinte para Brasília.
A revelação sobre o destino do motorista que transportou o baú com as fitas originais até Exu revela uma perseguição que durou três meses pelas estradas de terra da Baía. Mas isso vem daqui a pouco. Gonzaga fez uma pausa para beber água numa caneca de alumínio que ele trazia de casa, recusando os copos de cristal que a produção do teatro tinha colocado na mesa de apoio.
O gesto simples foi aplaudido de pé pelos trabalhadores da plateia, que reconheceram na caneca o mesmo utensílio que usavam todos os dias nos canteiros de obras. O mestre limpou a boca com as costas da mão, olhou para a banda e deu-se sinal para a música mais esperada da noite, o início de Asa Branca, foi tocado a um ritmo mais lento do que o normal, quase como uma oração fúnebre, fazendo com que o silêncio no teatro se tornasse absoluto.
A canção foi cantada pela platea antes mesmo que Gonzaga aproximasse o rosto do microfone. Milhares de vozes unidas em um único canto que falava sobre a terra, ardendo como uma fogueira de São João e sobre a perda da plantação por causa da falta de chuva. Era o hino nacional do Nordeste sendo ento o coração da antiga capital federal.
Uma demonstração de força que deixou os diretores, ditores da gravadora impressionados com a fidelidade do público de Luís Gonzaga. O mestre Aptenas sorria tocando as notas com uma suavidade.