O Brasil acordou esta semana diante de um desfecho que, para muitos, representa não o fim de um capítulo de dor, mas o aprofundamento de uma ferida nacional. Após cinco anos de uma espera angustiante, o julgamento que decidiu o destino dos responsáveis pela morte do pequeno Henry Borel, de apenas quatro anos, chegou ao fim. O desfecho, no entanto, não trouxe o alívio da justiça plena que tantos esperavam. Enquanto Jairinho, o ex-vereador e padrasto de Henry, foi condenado a mais de 43 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado, tortura e coação, o destino de Monique Medeiros, mãe da criança, trouxe uma reviravolta que desencadeou uma onda de indignação sem precedentes.
Monique Medeiros, responsabilizada por tortura por omissão, recebeu perdão judicial e obteve a liberdade. A decisão, proferida pela juíza Elizabeth Machado Louro, baseou-se em argumentos que trouxeram à tona discussões profundas sobre a misoginia, o papel do julgamento social e a percepção da figura materna na sociedade. Contudo, para a imensa maioria da população brasileira, e especialmente para o pai da criança, Leniel Borel, a sentença soou como um insulto à memória de um menino que não teve a chance de crescer.

O caso Henry Borel, ocorrido em 8 de março de 2021, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, deixou o país de joelhos. O que deveria ser um ambiente de segurança — o apartamento onde viviam mãe, filho e o padrasto — tornou-se o cenário de um crime bárbaro. Henry chegou ao hospital na madrugada daquele dia já sem vida, e a versão de um “acidente” contada pelo casal desmoronou rapidamente diante dos laudos técnicos. O corpo da criança apresentava 23 lesões, evidências de um sofrimento físico e psicológico que nenhum ser humano, muito menos uma criança de quatro anos, deveria jamais conhecer.
Leniel Borel, o pai, que viveu os últimos cinco anos em uma batalha incansável para ver a justiça ser feita, foi a voz de uma nação revoltada ao falar com a imprensa logo após a sentença. Suas palavras, carregadas de uma dor que transcende o vocabulário comum, definiram o sentimento coletivo. Ele declarou que a decisão da juíza foi uma “terceira morte” para o seu filho. A primeira, o assassinato; a segunda, quando decisões judiciais anteriores fragilizaram o processo; e a terceira, agora, com a soltura de Monique.
Para Leniel, a argumentação de que a misoginia teria influenciado o julgamento da mãe é um ataque à própria luta por justiça. Ele questiona: como pode a sociedade ser acusada de misógina por exigir que uma mãe, que tinha o dever jurídico e moral de proteção, seja responsabilizada por não ter impedido a morte do filho? A figura de Monique Medeiros é o ponto central desta crise de valores. Desde os primeiros relatos de agressões, quando Henry já demonstrava pavor em estar perto do padrasto e aparecia com hematomas, a mãe teve todas as oportunidades para agir. A escolha, no entanto, foi o silêncio, a omissão e, para muitos, a conivência.
A juíza, ao conceder o perdão judicial, argumentou que as consequências do crime já teriam sido devastadoras para a própria ré e que, se fosse um pai na mesma posição, o julgamento moral não teria sido tão severo. Essa justificativa causou uma onda de repúdio não apenas no público, mas em setores da imprensa e na classe jurídica. Críticos apontam que o crime em questão não se trata de gênero, mas de um dever intransferível de proteção da vida de uma criança indefesa. A imagem de Monique no salão de beleza no dia seguinte à morte do filho, um detalhe que permanece gravado na memória nacional, é constantemente relembrada como uma prova da frieza que parece inaceitável para alguém que perdeu a cria.
O debate ganha contornos ainda mais obscuros com relatos de bastidores sobre o futuro de Monique. Informações dão conta de que produtoras de conteúdo para plataformas de streaming estariam de olho na história do caso para a criação de documentários e séries. A possibilidade de monetização de uma tragédia que destruiu uma família é vista por muitos como o ápice da decadência moral da sociedade moderna. O argumento de que os valores seriam usados para custear os processos judiciais ou ajudar a família não consegue apagar a percepção de que, de alguma forma, o crime está gerando lucro para quem deveria estar pagando pelo erro.
A comparação inevitável com outros casos famosos, como o de Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, que também ganharam notoriedade e, segundo alguns, oportunidades de lucro após cometerem crimes hediondos, levanta uma questão alarmante: estamos criando “famosos do crime”? A sede da sociedade por consumir detalhes macabros de tragédias parece alimentar um mercado onde a notoriedade supera a punição.
O perdão judicial, embora previsto no ordenamento jurídico brasileiro em situações específicas onde a dor do réu é considerada punição suficiente, parece ser um conceito impossível de ser aceito pela população no caso de uma mãe que negligenciou a proteção do próprio filho. O dever de garantir a segurança, previsto na Constituição e no Código Penal, coloca os pais como garantidores da integridade dos filhos. A quebra desse dever fundamental gera uma ruptura social que nenhuma sentença de perdão é capaz de consertar.
A revolta dos apresentadores de programas de televisão, que ecoaram o sentimento de milhões, expôs a frustração com o sistema judiciário. Muitos questionam se a justiça está desconectada da realidade das famílias brasileiras e se o conceito de misógina, embora importante, está sendo usado como um escudo para proteger ações que deveriam ser julgadas com o rigor que a proteção à criança exige.
O caso Henry Borel deixou de ser apenas um processo criminal; tornou-se um símbolo da luta entre a impunidade e o desejo de proteção aos mais vulneráveis. Enquanto Jairinho cumpre sua pena, a liberdade de Monique Medeiros continuará a ser, por muito tempo, uma ferida aberta. A trajetória de Leniel Borel, o pai que perdeu tudo, permanece como um lembrete constante de que, na busca por justiça, o sistema muitas vezes falha em enxergar a humanidade daqueles que foram brutalmente silenciados.
O Brasil se pergunta agora: o que restou da memória de Henry? Restou a indignação de uma nação que, unida pela dor, espera que o tempo não apague a gravidade do que aconteceu. O caso Henry não pode ser apenas mais uma notícia de arquivo. Ele deve servir como um marco para que as leis sejam revistas e para que, no futuro, a proteção à vida, especialmente a vida infantil, esteja acima de quaisquer teses jurídicas ou discursos sociais que, ao tentar defender causas, acabam por desproteger as vítimas da atrocidade.
Enquanto Monique caminha em liberdade, sob os olhares de uma sociedade que não a perdoou, o silêncio de Henry ressoa. Ele, que foi vítima da crueldade extrema, representa hoje cada criança cujos direitos à vida foram negligenciados. A justiça pode ter encerrado o julgamento nas cortes, mas o tribunal da opinião pública e a consciência nacional continuam a debater este crime, na esperança de que, um dia, proteger a vida seja o único critério que realmente importe perante a lei.
Esta tragédia levanta questões fundamentais: até onde vai o limite da omissão? O perdão judicial para casos de crimes contra a vida de menores deve ser permitido? Onde está o equilíbrio entre o direito do réu e a necessidade da sociedade de ver o mal punido com a severidade que a justiça exige? O caso Henry Borel não é apenas o caso de um menino, mas um espelho de como o Brasil trata seus filhos e como a justiça enfrenta o desafio de ser justa sem ser insensível.
A dor de Leniel Borel, ao sentir que seu filho foi morto pela terceira vez, é a dor de um país que clama por transparência e por decisões que, acima de tudo, protejam os inocentes. A discussão sobre misógina e os desafios enfrentados pelas mulheres na sociedade são legítimos, mas não podem, jamais, ser o motivo para que a responsabilidade maternal seja mitigada quando o resultado é a interrupção precoce de uma vida.
O desfecho deste julgamento permanecerá como uma cicatriz na história judiciária do Rio de Janeiro. A repercussão do caso, que já era enorme, promete continuar nos próximos anos, não apenas pelos recursos que o pai de Henry promete mover, mas pela constante lembrança de que a justiça, quando não compreendida, deixa de ser justiça para se tornar um fardo pesado para aqueles que já perderam tudo.
Em última análise, o que o Brasil deseja é a certeza de que crimes como este não voltem a acontecer. A proteção da infância é um dever sagrado de toda a sociedade. E quando falhamos em proteger um Henry, falhamos todos nós. A luta de Leniel é, portanto, a luta de todos os brasileiros que acreditam que o valor de uma vida é imensurável e que nenhuma tese de defesa pode justificar a omissão diante da morte de uma criança.
O final deste julgamento não encerra as perguntas; ele apenas as multiplica. O que será de Monique Medeiros fora das grades? O que será da dor de Leniel Borel? O que será das milhares de outras crianças que sofrem caladas em lares que deveriam ser seu porto seguro? As respostas a essas perguntas ditarão o futuro da nossa sociedade. A justiça, para ser plena, precisa ser humana, mas, acima de tudo, precisa ser justa com a vítima. E no caso de Henry Borel, a justiça parece ter, mais uma vez, deixado a desejar aos olhos daqueles que acreditam que a proteção do mais fraco é o pilar de qualquer civilização.