Sanfoneiro de estúdio não deixou Luiz Gonzaga tocar sanfona de 30 mil — muito avançada para amadores

Um acordeonista de estúdio bloqueou Luís Gonzaga à frente de todos na loja e disse que aquela concertina de 30.000 cruzeiros não era para mãos de amador. O que aconteceu nos minutos seguintes? Ninguém que estava presente se esqueceu. Estávamos em 1972. Luís tinha 59 anos e estava no auge do regresso ao sucesso que tinha conquistado ao longo daquela década, voltando  a encher teatros e praças pelo Todo o Brasil depois dos anos de ostracismo que a bossa nova e a Jovem Guarda tinham provocado no final dos

anos 50. Nessa tarde tinha entrado numa loja de instrumentos no centro do Rio de Janeiro, sem o chapéu de cabedal, nem o gibão bordado, envergando uma camisa simples e calças comuns, como fazia quando saía, sem compromisso de palco. E havia naquele visual quotidiano uma invisibilidade que a cidade por vezes oferecia a pessoas famosas que não estavam em modo de ser reconhecidas.

 A loja era frequentada por músicos profissionais, professores de conservatório e estudantes avançados. E ao fundo do salão havia uma concertina italiana exposta num suporte de madeira com uma placa de 30.000 cruzeiros que chamava a atenção de qualquer acordeonista que entrasse pela porta. A loja tinha um movimento tranquilo naquela tarde.

 Dois ou três clientes a olhar para instrumentos, um funcionário atrás do balcão e um homem de cerca de 40 anos sentado numa cadeira perto do fundo do salão com uma concertina no colo que qualquer músico da cidade reconheceria como Roberto Farias, acordeonista contratado de estúdio, que tinha trabalhado nas gravações de dezenas de artistas da Rádio Nacional e que estava  ali naquela tarde à espera de um colega.

 O Roberto tinha aquela postura de músico profissional que conhece o próprio  valor e que, por isso mesmo, tende a avaliar rapidamente quem entra num espaço de música. E quando O Luís entrou pela porta com aquela roupa simples e foi direto em direção à acordeão italiano do fundo do salão, Roberto levantou-se da cadeira antes que Luiz chegasse ao instrumento.

 Foi até ele com aquela determinação de quem está fazendo um favor, colocou a mão na frente da concertina e disse, com uma voz firme e sem má vontade aparente que aquele instrumento era para músico profissional, que era uma peça rara importada de Itália e que não estava disponível para qualquer pessoa  testar.

 O Luís parou, olhou para a mão de Roberto em frente da concertina e depois olhou para o rosto do homem com aquela calma,  que não tinha pressa nem raiva, e perguntou com voz tranquila o que precisava de fazer para ser considerado músico suficiente para tocar aquele  instrumento. Roberto ficou um segundo sem saber exatamente como responder, porque havia na questão de Luís uma direteza que não encaixava na reação de intimidação que estava habituado a provocar quando bloqueava pessoas assim.

  E depois disse que aquela concertina tinha uma resposta muito específica nas teclas que exigia anos de estudo técnico a ser aproveitada, que nas mãos erradas o instrumento poderia ser desregulado e que ele estava a fazer aquilo pelo bem do instrumento  e de quem fosse comprá-lo. O funcionário do balcão, que tinha observado a cena desde o início, ficou em silêncio, sem intervir, porque O Roberto era um cliente frequente e respeitado da loja, e não havia qualquer instrução clara sobre o que fazer naquele tipo de situação. Luiz ouviu a

explicação do Roberto com atenção, assentiu levemente com a cabeça como alguém que está a considerar o que ouviu e depois disse com aquela  calma de sempre: “Percebo, mas deixa-me fazer uma coisa.” Virou-se para o funcionário do balcão, perguntou educadamente se podia pegar na concertina por um momento e o funcionário, que estava numa posição desconfortável entre os dois, olhou para Roberto por um segundo e depois disse que sim, que podia apanhar.

 Roberto cruzou os braços com aquela expressão de quem está permitindo algo que não aprova, mas que vai provar o ponto que estava a fazer. Convicto de que em 30 segundos o homem de camisa simples ia confirmar  tudo o que tinha dito sobre o instrumento não ser para qualquer pessoa.

 O Luiz pegou na concertina com as duas mãos, encaixou nos braços com aquela naturalidade de quem está a colocar de volta algo que sempre foi seu. ficou um momento em silêncio com os olhos fechados e depois começou. O que saiu daquela concertina italiana de 30.000 cruzeiros nas mãos de Luís Gonzaga fez Roberto Farias descruzar os braços antes  que o primeiro compasso tivesse terminado.

 Não era um simples baião de quem está a testar um instrumento. Era uma execução que mostrava cada camada do que aquela concertina tinha para oferecer. as teclas respondendo com aquela precisão italiana que Roberto tinha mencionado sendo utilizada com uma fluência que não via nem nos músicos mais experientes com quem trabalhava nos estúdios.

 O funcionário do balcão saiu de trás do balcão sem se aperceber que estava a fazer isso. Os dois ou três clientes que estavam noutros cantos da loja pararam o que estavam a fazer e ficaram parados a ouvir. E havia no rosto de cada um deles a mesma expressão, a expressão de quem estava ouvir algo que não esperava ouvir naquele local naquela tarde.

 Roberto ficou parado a ouvir com aquela atenção de músico profissional que não consegue fingir que não está a reconhecer o que está a ouvir. E havia no seu rosto uma mudança progressiva que começou por ser surpresa e foi-se transformando em algo mais complexo, o desconforto de alguém que compreende em tempo real a extensão do erro que cometeu.

 Luiz tocava sem olhar para ninguém, os olhos fechados, o corpo ligeiramente inclinado com a concertina e havia naquela postura a mesma entrega que tinha em qualquer palco. Não importava se era um teatro cheio ou uma loja de instrumentos a meio da tarde com cinco pessoas a ouvir, porque o Luís Gonzaga não tocava para o público, tocava porque não sabia ser outra coisa.

 A acordeão italiano respondia em cada acordar com aquela clareza que só os instrumentos muito bons têm. E nas mãos de Luiz, aquela clareza transformava-se em algo que a maioria das pessoas nunca tinha  ouvido a sair daquele tipo de instrumento. Nem mesmo o Roberto, que tinha tocado em dezenas de estúdios  com dezenas de acordeonistas ao longo da carreira.

 O silêncio dentro da loja tinha uma qualidade que nenhum dos presentes conseguiria descrever depois com precisão, mas que todos se lembrariam. Quando Luís terminou e o silêncio tomou o salão durante alguns segundos, Roberto deu um passo na sua direção e disse com uma voz que tinha perdido toda a firmeza do início, com quem o senhor estudou.

 Luís abriu os olhos, olhou para o Roberto com aquela expressão tranquila de sempre e respondeu com uma simplicidade que pesava mais do que qualquer nome de conservatório poderia ter pesado. Com meu pai, no sertão de Pernambuco, Roberto ficou parado a processar aquela resposta, porque havia nela uma informação que contradiga tudo o que ele tinha assumido  quando viu aquele homem de camisa simples se aproximar da concertina italiana.

 E a contradição chegou a um lugar que não tinha como ser ignorado. O funcionário do balcão, que tinha ficado  em silêncio durante toda a cena, disse em voz baixa o nome, disse Luís Gonzaga. E Roberto virou o rosto para o funcionário como alguém que está a confirmar algo que o corpo já tinha compreendido antes da cabeça e depois fechou os olhos por um segundo.

 Roberto ficou parado em silêncio por um momento que parecia mais longo do que era e depois aproximou-se de Luiz com uma expressão que tinha abandonado completamente a postura do início, e disse com uma honestidade direta que não tentava minimizar o que tinha feito. “Eu errei,  peço desculpa.

” O Luís olhou para o Roberto com aquela calma que não guardava rancor e respondeu com uma frase que o acordeonista de estúdio  carregou durante muito tempo depois. Não precisa de desculpa, necessita de atenção. Da próxima vez que alguém quiser tocar um instrumento, deixa a música dizer se sabe ou não sabe. Roberto ouviu aquilo em silêncio.

E havia naquelas palavras uma lição que chegava de uma forma que nenhum professor de conservatório teria Conseguiu entregar com a mesma precisão, porque vinha de alguém que tinha acabado de demonstrar o ponto antes de o fazer. O funcionário do balcão ficou parado a ouvir aquela troca, sem dizer nada, porque não havia nada que precisasse de ser acrescentado.

Luiz colocou a concertina de volta no suporte com o mesmo cuidado com que tinha pegado, ajeitou o instrumento na posição certa e depois ficou um momento olhando para ela como alguém que está a se despedindo-se de algo que não é seu, mas que merece respeito. O funcionário do balcão perguntou se o Luís queria comprar a concertina com aquela esperança de quem acabou de presenciar algo extraordinário e quer que a história tenha um final à altura.

 Luiz sorriu com aquela leveza de sempre e disse que não, que a concertina que tinha em casa já era boa o suficiente para o que precisava de fazer e que aquela ali merecia ficar para alguém que ia usá-la todos os dias. Roberto, que estava parado ao lado a ouvir aquilo, disse em voz baixa que depois do que tinha acabado de ouvir, não conseguia imaginar quem seria suficientemente digno para comprar aquele instrumento.

 E Luís respondeu com um sorriso que qualquer  pessoa que entrasse pela porta com vontade de tocar seria digna o suficiente, que era exatamente esse o ponto. Luiz despediu-se do funcionário, acenou com a cabeça para Roberto e saiu pela porta da loja com a mesma roupa simples e as mãos vazias com que tinha entrado.

 De regresso à tarde do Rio de Janeiro, que continuava no exterior, sem saber o que tinha acontecido dentro daquela  loja. O Roberto ficou ficou no meio do salão por um momento depois de o Luiz sair e então foi até ao cadeira onde tinha  estado sentado antes, pegou na própria concertina, ficou a olhar para ela por um longo momento e voltou a colocá-lo no estojo sem tocar.

 disse ao funcionário que ia necessitar de alguns minutos e o funcionário compreendeu sem que nenhuma palavra a mais precisasse de ser dita, porque tinha acontecido algo naquele salão que precisava  de espaço para ser processado. E este tipo de espaço não tem um tamanho fixo e não termina quando a pessoa sai pela porta. Roberto Farias regressou a casa naquela noite com uma pergunta que não conseguia tirar da cabeça.

 Não sobre quem era o homem que tinha entrado na loja, mas sobre quantas vezes na vida tinha feito o mesmo julgamento rápido e nunca tinha descoberto o tamanho do erro, porque a pessoa do outro lado não tinha tocado  a concertina. Nos dias seguintes, continuou a trabalhar nos estúdios, como sempre, mas havia algo de diferente na forma como olhava para quem entrava pelas portas,  uma atenção que não estava lá antes, o hábito de esperar antes de decidir que sabia o que estava vendo.

 Contou a história a alguns colegas de estúdio com aquela honestidade de quem não tem  como embelecer o que fez. E cada um que ouviu ficou em silêncio por um momento antes de responder. Não porque a história  fosse surpreendente, mas porque cada um reconhecia em si mesmo a mesma tendência para avaliar antes de ouvir e sabia que a única diferença entre o Roberto e eles era que o Roberto tinha sido confrontado com o erro de uma forma que não deixava escapatória.

 Luís Gonzaga nunca soube que aquela tarde na loja tinha mudado a forma de trabalhar de um músico de estúdio que nunca mais viu depois desse dia.  Luís Gonzaga passou por situações destas ao longo de toda a carreira. Pessoas que olhavam para a roupa antes de ouvirem a música, que avaliavam o sotaque antes de escutar o que tinha para dizer, que decidiam o que ele valia antes de dar a ele a hipótese de mostrar.

 E respondeu a cada uma destas situações  da mesma forma que tinha respondido a Roberto naquela loja. Não com confronto, nem com o discurso, mas com a única resposta que não tem como ser contestada. Tocando. Havia nessa escolha repetiu-se ao longo de décadas uma sabedoria que não era estratégia, era caráter.

 A convicção de que o que se é de verdade não precisa de defesa, porque defende-se sozinho quando deixa de tentar  explicar e começa simplesmente a demonstrar. Luiz distribuiu mais de 200 acordeões pelo Brasil ao longo da vida. abriu portas para dezenas de artistas nordestinos que chegavam ao rio sem contacto e sem dinheiro.

 E fez tudo isto com a mesma naturalidade de quem sabe que cuidar do próximo faz parte do mesmo trabalho de cuidar da música. Quando Luís Gonzaga faleceu em agosto de 1989, o Brasil perdeu um homem que tinha transformado cada julgamento pela aparência em combustível para mostrar o que estava por trás dela e que tinha feito isto com uma calma, que dizia mais sobre quem ele era do que qualquer discurso poderia ter dito.

 O que aquela tarde na loja revelava era algo que a trajetória inteira de Luís Gonzaga confirmava, que as pessoas que chegam de longe com roupa simples e sotaque diferente transportam muitas vezes o que as pessoas bem vestidas nos sítios certos passaram a vida inteira a tentar aprender. E que a diferença entre reconhecer isso e não reconhecer é simplesmente a disposição para esperar antes de julgar.

 Roberto Farias era um músico competente que tinha construído uma carreira sólida nos estúdios do Rio e mesmo assim tinha olhado para Luís Gonzaga e visto apenas o que estava do lado de fora, porque é muito mais fácil avaliar o que aparece do que esperar pelo que está por trás. A lição que saiu daquela tarde não era sobre humilhação, nem sobre a redenção.

 Era sobre o custo silencioso de julgar antes de ouvir. Um custo que a maioria das pessoas nunca descobre, porque a pessoa que foi julgada vai-se embora sem tocar na concertina e o erro nunca aparece. E o que torna esta história ainda mais pesada é que Roberto era músico, alguém que deveria saber melhor do que ninguém que o talento não tem morada fixa nem roupa certa  e mesmo assim tinha caído no mesmo erro que qualquer pessoa desatenta cometeria.

 Esta história ensina-nos que o julgamento pela aparência não é apenas uma injustiça para com quem é julgado, é uma prejuízo para quem julga. Porque cada vez que você decide o que alguém vale antes de ouvir o que tem para dizer, está fechando uma porta que podia ter-te levado para algum lugar que não esperava.

 Roberto Farias quase perdeu a hipótese de ouvir um dos maiores acordeonistas que o Brasil já produziu, porque olhou paraa camisa simples e decidiu  que sabia o suficiente. Você também vai estar dos dois lados dessa história ao longo da vida. Vai ser julgado antes de ser ouvido e vai sentir o peso disso e vai julgar antes de ouvir e vai perder algo que não vai saber que perdeu.

 A pergunta que esta tarde deixa não é sobre Luiz Gonzaga, é sobre o que faz quando alguém chega pela sua porta com roupa simples e sotaque diferente e quer tocar a concertina que está a guardar para quem já decidiu que merece. Porque a resposta que der nesse momento vai dizer mais sobre quem  és do que tudo o que já tocou ou vai tocar na vida.

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