MARCELINHO CARIOCA: FOI SEQUESTRADO PELA MORTE DUM MOLEQUE DE 17 ANOS

10 títulos com o Corinthians, mundialista, ídolo absoluto da Fiel. E esse mesmo tipo sequestrado, acabado, com o olho negro e com um revólver na cabeça, obrigado a gravar um vídeo confessando uma traição repugnante que nunca fez. Hoje vai saber o que realmente aconteceu neste sequestro, quem mandou e em troca de quê.

 Mas tem uma coisa na vida do Marcelinho que nunca foi contada. A ligação entre aquele rapto e a morte de um miúdo de 17 anos, onde o culpado foi o próprio pé de anjo dentro do seu sítio. Mas antes, é preciso saber como o ídolo da Fiel chegou até ali, o carioca que conquistou São Paulo, o especialista em faltas mais respeitado do futebol brasileiro.

 E a verdade é que durante 28 anos ninguém teve coragem de contar inteira. O que a imprensa brasileira contou nessa noite foi o seguinte: Marcelinho Carioca foi raptado pelo marido ciumento de uma mulher casada com quem teria saído num concerto do cantor Tiaguinho. Esta versão saiu da boca do próprio Marcelinho com um revólver apontado à têmpora dele num vídeo gravado dentro do cativeiro.

 A versão é falsa. Os raptores inventaram tudo como cortina de fumo para desviar a investigação. A verdade daquele 17 de dezembro de 2023 é muito mais nojenta e liga-se direto com um crime que o pé de anjo cometeu há 28 anos. Um crime que custou a vida a um miúdo de 17 anos dentro de um sítio que era dele, no interior do estado de São Paulo.

 Um crime pelo qual a justiça brasileira condenou-o em todas as instâncias e pelo qual até hoje ele nunca pagou um tostão. Mas antes de chegar naquela madrugada de Dezembro em Itaquaquecetuba, há uma coisa que você precisa de entender. Porque para compreender como um ídolo do futebol mundial acaba arrastado por um carro numa rua de terra batida, com um revólver na cabeça e um vídeo de humilhação a correr o planeta inteiro, precisamos voltar para uma casa simples no norte do Rio de Janeiro, pro dia 31 e 1 de Dezembro de 1971, nesse último dia do ano, no bairro de

Vila da Penha, zona norte do Rio, nasceu um miúdo que ganhou o nome de Marcelo Fereira Surcim. O pai era mecânico de carros. A mãe cozinhava para a família e passava roupa aos outros nos fins de semana para completar o dinheiro. A casa tinha dois quartos. O chão era de cimento queimado, a bola de futebol era de plástico amarelo e os pés do miúdo eram tão pequenos que a mãe tinha que mandar fazer o sapato por medida com um velho sapateiro do bairro.

 Calçava 35,5. Os vizinhos falavam que com estes pés ele nunca ia chegar a lado nenhum, que arranjasse um ofício. Marcelo não escutou. Aos 6 anos, entrava nos campinhos de terra do bairro para roubar a bola dos miúdos maiores. Tomava bola na cara, levava chuteiras, voltava para casa a chorar.

 Marcelo regressava no dia seguinte e no outro, até que um dia, aos 9 anos, já ninguém lhe tirava nada. Aquele miúdo com pé de boneca dava pontapés a bola com uma precisão que nenhum deles tinha visto num filho de um mecânico do bairro. Tinha 16 anos quando um olheiro do Flamengo viu-o jogar num campeonato de bairro na Tijuca.

 Acompanhou três semanas seguidas. Até que numa tarde de Setembro de 1987, chegou ao pai do miúdo e falou uma frase apenas: “O seu filho vai ser um ídolo do Mengão. O pai riu-se. Achou que era brincadeira de mau gosto. Três meses depois, Marcelo Pereira Surcin assinou o primeiro contrato profissional dele com o Clube de Regatas Flamengo.

 Pagaram o equivalente a da época. O pai chorou quando viu o contrato assinado. A mãe sentou-se na mesa da cozinha e benzeu-se três vezes. A rua inteira do bairro saiu à porta para aplaudir quando Marcelo voltou com um papel na mão. Em 1990, com 18 anos, foi venceu a Taça São Paulo de Futebol Júnior como goleador.

 Naquela mesma época, o Flamengo levantou a Taça do Brasil. Do anos mais tarde, em 1992, ganharam o Campeonato Brasileiro inteiro, 242 jogos disputados, 49 golos e um apelido que já começava a circular nas bancadas do Maracanã, o pé de anjo, porque nenhum jogador com um calçado tão pequeno batia na bola com tanta limpeza. Em janeiro de 1994, o Sport Clube Corinthians Paulista comprou-o.

Veja o que se sabe e o que falta saber sobre o sequestro de Marcelinho Carioca | G1

 O Flamengo não queria vender, mas o Corinthians ofereceu o equivalente a 2.500.000. Marcelinho chegou ao aeroporto de Congonhas numa terça-feira de manhã com 22 anos acabados de completar. Recebeu ele três dirigentes do Corinthians e dois operadores de câmara de televisão. Antes de sair da sala VIP, o Marcelinho falou uma frase que a imprensa de São Paulo gravou para sempre.

 Vim no Corinthians para ser campeão. Vim para deixar a minha marca nesse clube. E foi o que fez. Mas o preço que pagou para cumprir essa promessa, nenhum jornalista desportivo brasileiro quis contar inteiro até hoje. Falta compreender o ídolo antes de compreender a queda. No Parque de São Jorge, sede do Corinthians, Marcelinho treinava duas horas extraordinárias todos os dias depois do treino oficial.

 Sozinho, com três bolas a 30 m da baliza, batia um livre atrás de falta atrás de falta. A direcção mandou apagar as luzes duas vezes porque eram 9 da noite e o Marcelinho continuava chutando. Da terceira vez, o técnico desses anos deu ordem direta, deixar o rapaz treinar o quanto quisesse. Aquelas faltas tornaram-se a marca registada dele.

 Marcelinho marcou na carreira profissional 86 golos de cobrança faltas diretas, 57 deles com a camisola do Corinthians. Recorde histórico do clube e recorde histórico do futebol brasileiro na categoria profissional. O no dia 11 de fevereiro de 1996 mudou tudo. Estádio do Pacaembu lotado. Corinthians contra Santos.

 Bancada cheia de fiel. Marcelinho recebeu a bola na altura do círculo da área. Marcava ele um defesa do Santos. sólido, alto, experiente. O Marcelinho olhou nos olhos do gajo, pisou a bola com a sola da chuteira direita e depois levantou a bola com um toque suave por cima da cabeça do defesa, passou pela lateral, controlou do outro lado, já dentro da área e bateu no ângulo com o peito do pé esquerdo. Golo! O Pacaembu enlouqueceu.

Quando a partida acabou, o juiz principal encostou-se ao ombro dele e falou que havia alguém à espera no vestiário visitante. Marcelinho entrou, estava à espera de uma pessoa só, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. E o Pelé entregou para ele uma placa de bronze que dizia: “Para Marcelinho Carioca, autor de um dos golos mais bonitos que vi na minha vida.

 Esta placa até hoje está pendurada na parede da sala do apartamento da mãe do Marcelinho em Vila da Penha. Marcelinho tinha 24 anos. A partir dali, tudo se transformou em ouro. Nesse mesmo 1996, o Corinthians venceu o Campeonato Paulista. Marcelinho marcou o golo do título na final contra o Palmeiras no Morumbi.

 Em 1998, venceram o Campeonato Brasileiro. No ano seguinte, 1999, repetiram: bicicampeões brasileiros consecutivos, coisa que o Corinthians não o tinha conseguido em 40 anos. A glória absoluta chegou em janeiro de 2000. A FIFA organizou pela primeira na história um Mundial de Clubes. O O Corinthians chegou à final, enfrentou o Vasco da Gama no Maracanã.

 4 de janeiro de 2000, 73.000 pessoas nas arquibancadas. 0-0 no fim do tempo regulamentar. 0-0 no fim da prolongamento, penáltis. O primeiro cobrador do Corinthians foi o Marcelinho Carioca. Bateu no ângulo esquerdo do guarda-redes do Vasco. Golo! Sequência perfeita do Corinthians. 4 a 3 na decisão. Campeão do mundo.

 Marcelinho correu pelo relvado do Maracanã com a camisa à cintura e a Fiel em pleno templo do Vasco, em pleno Rio de Janeiro, gritou o seu nome durante 10 minutos seguidos. Pé de anjo. Pé de anjo. Nesse dia, Marcelinho Carioca era o rei indiscutível do futebol brasileiro. Tinha 28 anos. Contrato milionário com o Corinthians.

 Um apartamento de 319 m² no bairro da Moca, avaliado em R$ 1.300.000. Um sítio rural em Sarapui, onde criava cavalos. empresas registadas no nome dele, esposa, filhos, motoristas, assessores, jornalistas que iam atrás dele em tudo quanto era canto, tinha tudo e já tinha, sem saber, uma sentença condenatória definitiva contra ele pela morte de um miúdo de 17 anos.

 A gente volta a isso porque o rasto do dinheiro na vida do Marcelinho Carioca começou a desviar-se silenciosamente logo depois do Mundial. No final de 2001, o Corinthians contratou como treinador Wanderley Luxemburgo. O Marcelinho tinha-o recebido bem, tinha abraçado-o no aeroporto, tinha prometido em privado que ia colocar todo o talento dele ao serviço do projeto.

 Mas um mês depois, num treino de portões fechados, o Luxemburgo deu uma bronca nele à frente dos companheiros por chegar 10 minutos atrasado. O Marcelinho respondeu mal. O Luxemburgo gritou mais alto. Marcelinho enfrentou o cara a cara. E segundo o próprio pé de Anjo, contou anos mais tarde numa entrevista à revista Placar, aquilo foi armado.

 Marcelinho foi transferido para o Valência da Espanha nessa mesma semana. jogou nove jogos oficiais, marcou dois golos. A adaptação foi fraca, em menos de um ano estava de volta ao Brasil, mas já não era o mesmo. Passou pelo Vasco, pelo Santos, pelo São Caetano, pelo Brasiliense de Brasília, equipas cada vez mais baixos, salários cada vez mais baixos e cada vez mais processos judiciais acumulando na sua pasta civil.

 Se retirou-se do futebol profissional em 2006, [música] com 34 anos. Estudou jornalismo numa faculdade privada de São Paulo. Começou a trabalhar como comentador desportivo em canais de televisão de São Paulo. apareceu em programas de famosos, em concursos cantando com a cara mascarada, em bailes de televisão nas noites de domingo.

 Em 2010, tentou pela primeira vez a política como candidato a vereador. Não foi eleito, tentou em 2014, perdeu de novo. Tentou em 2018, também não foi. Até que em 2022, uma aliança política em Itaquaquecetuba, cidade dormitório da região metropolitana de São Paulo, ofereceu-lhe o cargo de secretário municipal de desporto e lazer, cargo de nomeação direta sem passar pelas urnas.

Marcelinho aceitou. Três meses depois de assumir o cargo em abril de 2023, Marcelinho comprou um Mercedes-Benz Branca, modelo do ano, avaliada em € 420.000. Pagou a pronto. A carrinha tinha tração integral, banco em pele clara, sistema de som importado e vidros escurecidos. Era o carro mais caro que o Marcelinho tinha tido na vida.

 Mais caro até que os carros do Mundial de Clubes do ano 2000. Aquele Mercedes-Benz Branco é o primeiro caramelo desta história. Guarda esse pormenor. Porque 8 meses depois de ser comprada, a carrinha seria abandonada numa rua de terra batida do bairro Jardim Valparaíso, em Itaquaquecetuba, com as portas abertas, as chaves na ignição e manchas de sangue seco no volante.

 17 de dezembro de 2023, domingo, a neoquímica Arena do O Corinthians estava lotado, 60.000 pessoas. O cantor Tiaguinho, ídolo do pagode brasileiro, dava um show ao ar livre chamado Tardezinha. Marcelinho estava no camarote VIP. Acompanhava-o uma mulher de 41 anos, chamada Thaí Alcântara de Oliveira. A Thaí trabalhava na Divisão Municipal de Desporto e Lazer de Itaquaquecetuba.

 Era funcionária de um cargo de confiança do próprio Marcelinho. Foi o próprio pé de anjo que a contratou no início daquele ano. O concerto terminou às 9 da noite. O Marcelinho e a Thaí saíram do estádio, subiram no Mercedes Branco. Marcelinho conduziu 51 km para leste de São Paulo com destino na casa da Thaí em Itaquaquecetuba.

 Acompanhou-a até a porta, estacionou a carrinha na frente da casa. [música] Era uma área simples, ruas de terra batida, casinhas pequenas, sem guarda de segurança. Marcelinho entrou em casa às 11:14 da noite. O que aconteceu a partir dali ia mudar a vida dele para sempre. Às 11:32 da noite, quatro tipos encapuzados arrombaram a porta da casa da Thaí.

Entraram armados com duas pistolas e um revólver, imobilizaram o Marcelinho no chão da sala. Botaram um capuz preto na cabeça dele. Amarraram-lhe as mãos com fita adesiva larga. A Thaís jogaram num quarto do fundo da casa, amordaçaram-na com um pano de loiça, trancaram com cadeado por fora.

 Marcelinho foi tirado da casa no empurrão e atirado para o banco de trás de um carro comum, cinzento sem matrícula visível. Levaram-no 5 km mais a norte para uma casa abandonada no bairro Jardim Valparaíso. Desceram-no do carro no empurrão. Deram uma coronhada na cara dele com o punho do revólver. Marcelinho caiu no chão.

 O olho direito enchou em 5 segundos. O sangue escorreu por cima do supercílio. Tiraram o capuz. Sentaram-se ele encostado a uma parede suja. Botaram o revólver na tpora dele e mandaram-no gravar um vídeo com o telemóvel de um dos sequestradores. Fala, Marcelinho. Fala. Diz que estavas com a mulher de outro rapaz.

 Diz que o marido é que está segurando-te aqui. Diz isso agora ou eu rebento-te o miolo. O Marcelinho falou com a voz a tremer, com o olho a fechar pelo inchaço, com o revólver encostado à têmpora. Inventou uma história que nunca tinha acontecido. Disse que tinha saído com uma mulher casada no concerto do Tiaguinho.

 Falou que o marido tinha seguido ele. Falou que o marido tinha raptou-o por vingança pessoal. Falou durante 1 minuto e 18 segundos. O vídeo foi colocado no Instagram. Às 0:32 da madrugada do dia 18 dezembro. Em 15 minutos tinha 80.000 visualizações. Em uma hora tinha 1 milhão. A imprensa brasileira explodiu. A mãe em Vila da A Penha viu o vídeo na televisão às 2as da manhã. Ligou a chorar para o filho.

 Quem atendeu foi um tipo com voz pesada. Pediu-lhe R$ 30.000 por transferência imediata em menos de 1 hora ou matavam o filho dela. A mãe transferiu R$ 30.000 R$ 1000 às 2:40 da madrugada, mas o sequestro não terminou ali. Às 4 horas da manhã do dia 18 de dezembro, os sequestradores pediram mais R$ 30.000. A mãe transferiu mais R. 000.

Era o que sobrava na conta dela. Às 6 da manhã exigiram mais 200.000$. A mãe não tinha. Ligou ao irmão do Marcelinho, ligou a um primo próximo, ligou para um ex-companheiro do Corinthians. Ninguém conseguia juntar R$ 200.000 em 2 horas. Às 11 horas, a A Polícia Civil de São Paulo entrou em ação.

 Localizaram o carro abandonado no Jardim Valparaíso. Localizaram a casa da Thaís. Acharam a Thaís trancada no quarto, desidratada, mas viva. Às 14:20 do dia 18 de Dezembro, uma viatura da Polícia Militar reconheceu um tipo andando sozinho pela rua. T-shirt cinza manchada de sangue seco, olho direito inchado, cabeça baixa. Era o Marcelinho Carioca.

 Os sequestradores tinham soltado-o 10 minutos antes numa esquina da Avenida Itaquera, assustados com a presença policial pesada no bairro. O Marcelinho foi levado para delegacia de Itaquaquecetuba. Tomaram depoimento dele. A mãe abraçou-o na frente das câmaras de televisão. Quando saiu, deu uma conferência de imprensa breve.

 disse que estava bem, que o vídeo que tinha circulado era falso, que a A Thaí era apenas uma amiga, que a versão que obrigaram-no a gravar foi inventada pelos sequestradores com um revólver na cabeça. A imprensa acreditou, o público acreditou, o Brasil inteiro acreditou, mas alguma coisa naquela história não fechava.

 O que aconteceu naquela madrugada do dia 17 dezembro em Itaquaquecetuba sabe-se hoje com detalhe. O diretor do Departamento de Operações Policiais Estratégicas de S. Paulo, Paulo PiS, confirmou na frente da imprensa uma semana depois do resgate. Foi um crime de oportunidade. Quatro caras pobres do bairro viram um Mercedes Branca parada em frente a uma casa simples do Jardim Valparaíso.

 Seguiram o automóvel por puro dinheiro. Quando dominaram o condutor e descobriram quem era, já não dava para voltar atrás. A mulher que estava com ele era Thaísa Alcântara de Oliveira, funcionária da Departamento Municipal de Desporto de Taquaquecetuba, contratada por gestão pessoal do próprio Marcelinho no início do ano.

 O vídeo do Olho Roxo foi gravado no dia seguinte como cortina de fumo para desviar a investigação da imprensa para um crime passional que não existia. Mas a pergunta que nenhum jornalista brasileiro fez é esta: O que fazia um devedor da justiça civil ocupando o cargo de secretário municipal do desporto e lazer numa cidade de meio milhão de habitantes? Porque para dezembro de 2023 o Marcelinho Carioca já tinha 139 processos instaurados contra ele ou contra empresa MPF Promoções Comerciais Limitada.

 Um desses processos arrastava uma sentença condenatória definitiva há 25 anos. Uma sentença que vem do ano 1998, quando um miúdo de 17 anos morreu pisado por um cavalo dentro de um sítio que era dele, no interior do estado de São Paulo. Uma sentença que o pé de anjo nunca pagou, uma indemnização que a família do miúdo vem perseguindo há 28 anos.

 E o dado que nenhum veículo de imprensa brasileira quis ligar é esse. A Mercedes Branca que os sequestradores seguiram nessa noite em Itaquaquecetuba, a carrinha de R$ 420.000 R$ 1000 que o Marcelinho tinha comprado a pronto 8 meses antes, foi comprada com dinheiro que pertencia a outra pessoa. Dinheiro que nunca chegou nos legítimos donos.

 dinheiro que tinha que ter pago o enterro digno de um miúdo de 17 anos numa pequena capela de uma cidade do interior. Dinheiro que tinha que ter comprado um carrinho melhor para um pai de 73 anos não estar empurrando papelão pelas ruas de Sarapuí desde 1998 até hoje. Mas para compreender quem era este miúdo e por a morte dele mudou para sempre a vida secreta do Marcelinho Carioca, vamos precisar ir agora para uma cidade de 5.

000 habitantes no interior do estado de S. Paulo, para uma casa pequena, com telhado de telha e quintal de terra, e para um pai humilde que naquele abril de 1998 aceitou enviar o filho de 17 anos para trabalhar como jardineiro no Sítio do ídolo do Corinthians por 180 reais por mês. A 220 km a oeste de São Paulo, pela estrada que sai do bairro de Pinheiros e entra no interior do estado, tem uma cidade que aparece em pouco mapa.

 Se chama Sarapuí, 5.000 habitantes, uma igreja, uma padaria, duas farmácias, um pequeno cemitério do lado do campo de futebol municipal. As casas têm telha de barro e quintal de terra. As ruas principais são asfaltadas, as outras continuam a ser de terra batida. Naquela cidade, no Inverno de 1997, uma família inteira vivia numa casa de três divisões com chão de cimento.

 Os pais chamavam-se Sérvio Machado e Pedra Batista e tinham 13 filhos. O Sérvio Machado trabalhava como colector de lixo da câmara municipal de Sarapuí. Saía de casa às 4h30 da manhã. Regressava às 2as da tarde com a roupa manchada e o cheiro que sabão nenhum tirava por completo. Ganhava o equivalente a um salário mínimo e meio.

 A Pedra Batista, esposa dele, ia para o campo apanhar algodão na época da colheita e laranja quando chegava o tempo da fruta. Ganhava menos que o marido. Entre os dois, a família juntava o equivalente a dois salários mínimos e meio por mês para 13 filhos. Os filhos comiam arroz e feijão todos os dias, carne duas vezes por semana, nos domingos quando dava.

 frango quando algum vizinho matava um e dava metade. As meninas vestiam roupa herdada das primas mais velhas. Os rapazes usavam as bermudas até rasgar no joelho. A televisão era a preto e branco. O rádio tinha antena partida arranjada com fita isolante. O frigorífico do corredor não gelava direito.

 Mas dentro daquela casa de chão de cimento havia uma coisa que a A pobreza não tinha conseguido tirar deles. Tinha trabalho, tinha respeito. tinha filhos que se cuidavam entre eles e acima de todos os outros tinha um que sustentava toda a família com olhar tranquilo de pai jovem, chamava-se Cristiano.

 Cristiano Donizete Machado de Campos era o mais velho dos 13 irmãos. Tinha nascido a 12 de outubro de 1980. Tinha 17 anos quando esta história chega no ponto que vamos contar. Era um miúdo alto para a idade, magro, de mãos grandes e voz mansa. Trabalhava desde os 12 anos. Lavava um carro num posto de gasolina de Sarapui aos sábados.

 Ajudava o pai na recolha aos domingos. Ensinava o irmão de trás dele a ler. Trocava a fralda do mais novo e o dinheiro que ele ganhava entregava-o inteiro à mãe. A pedra guardava numa lata de bolachas que tinha escondido em cima da frigorífico. O Cristiano sonhava ser camionista, gostava de motor. Gostava da ideia de circular pela estrada e conhecer outras cidades do estado.

 O pai dele tinha prometido que quando ele fizesse 18 anos ia levá-lo para tirar a carta de condução. Faltavam 8 meses. Esta carteira o Cristiano nunca ia tirar. O que aconteceu entre janeiro e Abril de 1998 dentro daquela casa de Sarapuí mudou a família Machado para sempre. No final de janeiro de 1998, um vizinho de Sarapui bateu à porta do Sérgio Machado.

 Falou que num sítio rural, a 15 km da cidade, necessitavam de um miúdo jovem para cuidar do jardim e dos animais. Disse que o sítio era de um jogador de futebol famoso do Corinthians, que o salário era de 180 por mês, que a comida era gratuita, que o miúdo podia dormir no sítio se quisesse, ou regressar a casa nos fins de semana.

 O servo escutou, pensou duas noites, falou com a pedra. A pedra estava grávida do seu 14º filho, um menino que se ia chamar Bruno. A família precisava do dinheiro como nunca antes. O sérvio perguntou ao Cristiano se ele queria ir. O Cristiano disse que sim. O único pedido dele foi poder ir à missa com a mãe aos domingos.

 O Sérgio apertou a mão do vizinho dois dias depois. No no dia 1eo de Fevereiro de 1998, o Cristiano saiu de casa de Sarapui às 6 da manhã. Levava uma mochila de pano com duas calças, três t-shirts, uma toalha, um par de ténis velhos e um terço que a mãe lhe tinha dado à porta. A pedra abraçou-o, beijou-lhe a testa, pediu-lhe para se cuidar.

 O Cristiano prometeu que ia voltar no sábado seguinte com o primeiro pagamento no bolso. Aquela foi a última vez que a mãe dele viu-o inteiro. O sítio ficava ao norte de Sarapui, numa estrada de terra batida que saía da auto-estrada secundária que vai para Tatuí. 20 haares, uma casa principal com telhado de telha francesa, uma coxeira para seis cavalos, um barracão de ferramentas e um campo de pastagem onde os animais andavam livres durante o dia.

O sítio era propriedade do Marcelo Pereira Surcin, o ídolo do Corinthians. Tinha comprado em 1996 com o dinheiro do bicho do Campeonato Paulista. Pagou 600.000€ à vista. O clube que ficou a saber do detalhe elogiou-o numa coluna da imprensa Paulista como exemplo de um jogador com cabeça para os negócios.

 [música] O O Marcelinho quase nunca ia ao sítio. Ia duas, três vezes por ano, aos domingos à tarde, com os amigos. Passava umas horas montando os cavalos, comendo churrasco, a beber cerveja na beira da piscina. Depois regressava a São Paulo. O sítio era uma propriedade de investimento, um capricho de campeão, um símbolo de que tinha chegado lá.

 Para cuidar do lugar, contratavam miúdos do concelho mais próximo. A modalidade era informal. Nenhum contrato escrito, nenhum papel registado, sem seguro de trabalho, só o acordo verbal de R$ 180 por mês e comida de graça. Era o modo mais barato de manter o sítio com gente a trabalhar. E era exatamente assim que a família Machado mandou o Cristiano.

 Durante Fevereiro e Março de 1998, o Cristiano habituou-se no sítio. Aprendeu a varrer o quintal, aprendeu a podar os arbustos da frente, aprendeu a dar água aos cavalos de manhã e de tarde. O que ele nunca aprendeu, porque ninguém ensinou, foi como lidar com eles. O Cristiano tinha crescido numa cidade pequena.

 Conhecia galinha, cão, alguma vaca leiteira de algum vizinho. Mas cavalo de passeio, daqueles que treinam para aguentar o peso de um cavaleiro adulto durante uma hora seguida, era um bicho que ele nunca tinha encostado de perto. O encarregado principal do sítio, um rapaz de 50 anos chamado Adelmo, explicou ao Cristiano que com um cavalo não se brincava.

 mostrou para ele como dar comida sem pôr a mão muito perto. Avisou que nunca entrasse na coxeira sozinho. Mas o Adelmo só estava no sítio três dias por semana. Os outros quatro dias, o O Cristiano ficava com um companheiro mais novo, um miúdo de 14 anos da mesma cidade, os dois sozinhos, com três cavalos soltos no campo e mais dois na coxeira, sem instruções escritas, sem números de emergência colados na parede.

O Cristiano falava com a mãe através do telefone aos sábados à noite. contava para ela que estava bem, que comia bem, que o patrão Marcelinho tinha mandado enviar lembrança pelo encarregado, que ia voltar para a cidade no primeiro fim de ª semana de abril para entregar o primeiro pagamento.

 A pedra acreditava e pedia para ele cuidar dos pés quando trabalhasse no quintal, que se lembrasse de comer a fruta, que rezasse o terço de noite. O cristiano prometia tudo. Faltavam três dias paraa promessa ficar no ar. No dia 7 de Abril de 1998, Quarta-feira às 17 horas, um dos cavalos da cocheira do Marcelinho saltou a vedação de madeira do fundo do sítio e fugiu para o campo do vizinho.

 Era um cavalo aazão de 8 anos chamado Furacão, 32@ de músculo. O segundo maior do sítio, o Cristiano e o outro miúdo viram-no passar a galope por cima da cerca. O companheiro mais novo correu para avisar o encarregado. O Adelmo não estava no local nessa quarta-feira. Era o dia de folga dele. O Cristiano tomou uma decisão sozinho.

 Decidiu que ia atrás do cavalo, que era a responsabilidade dele, que se o patrão Marcelinho chegasse no fim de semana e o cavalo não estivesse lá, iam descontar do salário dele. Tinha 17 anos, estava no local há dois meses, estava sozinho com um miúdo de 14 e ninguém tinha ensinou-lhe o que ele ia tentar fazer nessa tarde.

 O Cristiano foi até o barracão das ferramentas, pegou numa corda grossa de 3 m de comprimento, tinha usou-a duas semanas antes para atar umas tábuas que iam empilhar pro inverno. Saiu pelo campo, andou 40 minutos pelo pasto do vizinho até encontrar o cavalo. O furacão pastava tranquilamente na beira de um ribeiro.

 O Cristiano se aproximou-se devagar, falou baixo com o bicho, fez-lhe festas no pescoço, como tinha visto o Adelmo fazer. E depois fez o que nenhum miúdo com experiência teria feito jamais. amarrou uma ponta da corda no pescoço do cavalo e a outra ponta, a outra ponta atou à cintura dele próprio.

 Apertou o nó duplo para não soltar 3 m de corda entre o cavalo e ele e começou a andar de volta para o sítio, segurando o cabresto com a mão esquerda. O que o Cristiano não sabia, o que ninguém lhe tinha explicado, é que um cavalo adulto pode assustar-se em menos de 3 segundos. Um barulho de folha, um movimento à beira do campo, uma pisadela errada, qualquer coisa.

 E o furacão assustou-se. O cavalo deu um tranco. O Cristiano deu quatro passos para trás pela força do puxão e caiu no pasto. A corda ficou esticada entre o pescoço do animal e a cintura do miúdo. O furacão disparou a galope. O Cristiano não teve tempo para desfazer o nó, nem teve tempo de gritar. O cavalo atravessou o pasto, arrastando-o de costas durante os primeiros 200 m.

 O Cristiano bateu com a cabeça numa pedra ao passar o ribeirão. A pedra abriu um ferimento do tamanho de uma moeda do lado esquerdo do crânio, mas o desmaio ainda não chegou. O Cristiano continuou a gritar, continuou tentando agarrar a corda, continuou empurrando com os pés para travar o cavalo.

 O furacão atravessou mais três pastos, saltou duas cercas baixas, atravessou uma estrada de terra batida. O Cristiano foi deixando para trás o ténis, depois a t-shirt, depois o cinto. O corpo dele foi batendo contra o chão durante quilómetro. Os cois das patas traseiras do cavalo iam atingindo-o no rosto, no peito, nos braços.

 Um dos cois partiu o osso da face esquerda. Outro rebentou três costelas do lado direito. Outro abriu o couro cabeludo da testa até à nuca. O companheiro mais novo tinha corrido para a casa principal. Ligou pro telefone do encarregado. O Adelmo não atendeu. Ligou para a prefeitura de Sarapui. A linha estava ocupada. ligou para a mãe do Cristiano.

 A pedra atendeu no quarto toque. O miúdo chorava tanto que demorou 2 minutos a conseguir falar. A pedra escutou a palavra cavalo, escutou a palavra Cristiano, escutou a palavra arrastado e desmaiou do lado do telefone. Uma das filhas mais velhas pegou no auscultador, falou com um companheiro do campo, desligou, subiu para o único carro da família, um velho carocha que mal apanhava, e saiu em direção ao sítio com o pai, o irmão de 14 anos e dois tios que moravam na casa do lado.

 Quando chegaram no local, 32 minutos depois da chamada, o cavalo tinha voltado para a coxeira sozinho. Tinha a corda partida no pescoço, as patas de trás estavam manchadas de sangue e à beira da coxeira, no local onde o cristiano tinha se soltado finalmente quando a corda não aguentou mais, estava o corpo do miúdo, de barriga para baixo, de cuecas, a t-shirt arrancada por completo, a pele das costas rapadas até ao músculo, as costelas do lado direito afundadas para dentro, o crânio aberto desde a testa até ao início do pescoço e o rosto, o rosto do

miúdo que dois meses antes tinha saído da sua casa com um terço na mochila já não era reconhecível. O sérvio Machado ajoelhou-se do lado do corpo do filho mais velho. Não gritou, não chorou, ficou de joelhos no pasto durante 28 minutos sem se mexer. Depois levantou-se, pegou o Cristiano ao colo, meteu-o no banco de trás do Fusca e levou-o para a cidade, para o cemitério pequeno de Sarapui.

 A polícia chegou 4 horas depois. Enquanto tudo isto acontecia no interior de São Paulo, a A 220 km de distância, o patrão Marcelinho jogava uma partida contra o Atlético Mineiro no estádio do Pacaembu. Faltavam dois meses para o Corinthians se sagrar campeão brasileiro. Naquela noite de quarta-feira, dia 7 de abril, o Marcelinho marcou um golo de livre aos 32 minutos do segundo tempo.

 O encarregado do Sítio, Adelmo, recebeu a notícia na quinta-feira, 8 de abril, às 7h00. ligou logo para o administrador pessoal do Marcelinho. O administrador pediu calma, disse que ele se encarregava de avisar o patrão, que não ligasse para mais ninguém, que não falasse com a imprensa local, que esperasse instruções.

 As instruções nunca chegaram na cidade. O Marcelinho não foi no velório, não enviou coroa de flores, desapareceu por completo. Ninguém da família dele ligou para o servio ou para a pedra. O caixão em madeira de pinho à família teve de comprar fiado na única funerária de Sarapuí. A missa de corpo presente que o padre da cidade rezou naquela tarde de quinta-feira, 9 de abril, saiu do bolso de um tio do Cristiano.

 Os R$ 220 que custou cavar a sepultura foi a vizinhança que juntou. E nunca, em entrevista nem em depoimento judicial posterior, reconheceu que o Cristiano tinha sido empregado dele. A versão oficial do mesmo, sustentada até hoje pelos advogados dele, é que o Cristiano nunca trabalhou no sítio. O Cristiano nunca assinou contrato, isso é verdade.

 Mas o dinheiro que recebia mês a mês saía de uma empresa registada em nome de um primo do Marcelinho. E o encarregado Adelmo, no primeiro depoimento que deu para Polícia Civil de Sarapui, duas semanas depois do enterro, confirmou por escrito que o Cristiano tinha sido contratado verbalmente por gestão do patrão. Aquele depoimento foi arquivado e nunca apareceu nos processos judiciais posteriores.

 O que veio depois é a parte mais difícil de contar. Cristiano Donizete Machado de Campos, 17 anos, filho mais velho de três irmãos, jardineiro sem contrato assinado no sítio rural do ídolo do Corinthians, foi sepultado no dia 10 de abril de 1998 no pequeno cemitério de Sarapuí. A mãe dele, Pedra Batista, estava grávida de 8 meses e meio quando aconteceu o acidente.

 O bebé que ela esperava se chamava-se Bruno. Três semanas depois do enterro do Cristiano, a pedra deu à luz o Bruno com dois meses de antecedência. O menino nasceu fraco, apanhou uma meningite nos primeiros 15 dias de vida. Morreu com 42 dias no Hospital Municipal de Sarapuí. A família teve de cavar uma segunda sepultura do lado da primeira.

Mais um filho, Thago, irmão que tinha 11 anos quando o Cristiano morreu, começou a ter convulsões epilépticas três meses depois do enterro. Os médicos diagnosticaram epilepsia induzida por trauma. O Thaiago tem hoje 38 anos, continua a tomar medicação todo dia. A epilepsia não o deixou terminar a escola.

 Trabalha numa pequena oficina de reparação de bicicletas em Sarapuí. Ganha menos de um salário mínimo por mês. A família Machado abriu um processo cível contra o Marcelo Pereira Surcim 3 meses depois do funeral do Cristiano. A ação pediu indemnização por morte de um menor de idade contratado sem registo laboral em propriedade do réu. O processo foi tocado por um advogado de Sarapuí.

 que lhe cobrou o serviço em prestação durante 12 anos. O Marcelinho perdeu a ação na primeira instância em 2003, perdeu o recurso em 2006, perdeu o recurso especial no Supremo Tribunal de Justiça em 2011. A indemnização fixada pelo juiz de primeira instância era de R$ 145.000. Com a mora acumulada pelos anos de atraso do pagamento, hoje a dívida chega em R$ 690.000.

O Marcelinho nunca pagou um tostão. Os advogados dele apresentaram 22 recursos de revisão ao longo de três décadas. Cada recurso atrasou o pagamento entre 6 meses e 2 anos. Enquanto isso, o O património pessoal do Marcelinho era transferido silenciosamente para o nome de familiares e empresas controladas.

 Para 2020, segundo o registo da Receita Federal, o Marcelinho declarava um património pessoal de R$ 14.300. R$ 14.000. Um tipo que tinha ganho milhões a jogar à bola, um tipo que tinha sido campeão do mundo, um tipo que 4 anos antes, em 2016, tinha declarado R$ 2.hõ700.000 em bens próprios. A queda em 4 anos foi de 99%.

A justiça brasileira classificou aquilo como manobra fraudulenta. E enquanto tudo isto acontecia nos tribunais de S. Paulo, em Sarapui, o Sérvio Machado, hoje com 73 anos, continua a empurrar um carrinho de cartão e garrafa pelas ruas da cidade. Sai às 5 da manhã, regressa à 1 da tarde, recolhe embalagens de plástico, lata de alumínio, cartão na porta dos comércios pequenos.

 Vende o material numa recicladora em Tatuí. ganha R$ 120 numa boa semana. A sua esposa, Pedra Batista, de 67 anos, acompanha-o três dias por semana, quando o corpo deixa. Tem artroses nos dois joelhos, toma um medicamento para a pressão. O sérvio anda com uma bengala de madeira que um filho fez para ele.

 A pedra usa um óculo com o vidro direito rachado desde o ano passado porque não junta o dinheiro para trocar. Querem receber os R$ 690.000 R$ 1.000 antes de morrer. Pediram em cada audiência, pediram em cada entrevista que um jornalista do interior fez com eles. Pediram em carta escrita à mão que a filha mais velha mandou para a Procuradoria Regional de São Paulo em 2022 e em 2023.

 As cartas nunca foram respondidas. No dia 22 de maio de 2024, finalmente um juiz de São Paulo aprovou a penhora de parte do leilão de um dos apartamentos do Marcelinho. R$ 583.000 R foram desviados directamente para conta da família Machado. A indemnização ainda está incompleta. Faltam R$ 107.000. Mas passados ​​26 anos, uma parte chegou.

A filha mais velha do Sérvio entregou a notícia em mãos para o pai no dia em que receberam a primeira transferência. O O Sérgio escutou, olhou para a esposa, olhou pro carrinho de cartão parado no quintal e disse uma frase apenas. Meu filho era o mais velho dos três irmãos e pro o senhor Marcelinho foi mais um jardineiro.

Mas a indemnização parcial que a família Machado recebeu em maio de 2024 abriu uma questão nova. Uma questão que nenhum jornalista brasileiro teve coragem de fazer até hoje. Se o património pessoal do Marcelinho Carioca tinha descido de R$ 2.700.000 para 14.300€ em 4 anos? Se o ídolo do O Corinthians estava há 30 anos a fugir do pagamento de uma sentença transitada em julgado? Se o apartamento da Moca com três suites e 319 m² tinha sido transferido para o nome de um primo do pé de anjo que lá viveu 6 anos sem pagar um tostão de condomínio.

Então de onde tinha saído o dinheiro comprar o Mercedes-Benz branco de 400 e 20.000 à vista em abril de 2023. O dinheiro que 8 ito meses depois atraiu quatro pobres rapazes do bairro Jardim Valparaíso a seguir àquela carrinha até uma casa simples de Itaquetuba. O dinheiro que acabou por pagar um resgate de R$ 42.000.

O dinheiro que um secretário municipal de desporto e lazer, formalmente declarado devedor da justiça civil nunca devia ter na mão. A resposta está dentro de um esquema que a justiça brasileira descobriu em 2024. Um esquema que ligava o Marcelinho Carioca com uma das fraudes financeiras mais grandes do Brasil nos anos 2000.

 Um esquema que arruinou milhares de pequenos aforradores brasileiros e que deixou durante 15 anos o Marcelinho vivendo com luxo de campeão do mundo enquanto um pai de 73 anos empurrava um carrinho de cartão pelas ruas de Sarapuí. A resposta a esta pergunta começou a chegar em maio de 2024, quando a justiça brasileira abriu um novo pacote de processos contra o património do pé de anjo.

 139 processos no total acumulados ao longo de 15 anos. Alguns eram dívidas menores. Uma agência de viagens, um hospital privado, um fornecedor de ração de cavalo. Outros eram graves e um deles, o mais recente, era o mais escuro de todos. O processo do edifício Prince de Gales, no bairro da Moca, tinha sido aberto em 2004 pela administração do condomínio.

Marcelinho: sequestradores pegaram R$ 60 mil - 18/12/2023 - Esporte - Folha

 O Marcelinho devia 37 meses de taxa. A dívida inicial era de R$ 85.000, pequena para um campeão do mundo, impossível de cobrar durante 20 anos. O que a justiça descobriu em 2024 foi o seguinte: o Marcelinho tinha transferido a propriedade do apartamento da Moca para um primo afastado, morador no Rio de Janeiro.

 A transferência foi feita em 2006. O primo nunca se mudou para o apartamento, nunca pagou condomínio, nunca pagou IMI, mas formalmente era o proprietário. Durante seis anos, outro parente do pé de anjo, um tio materno de cerca de 60 anos, viveu dentro do apartamento sem contrato de arrendamento assinado, sem recibo, sem qualquer compromisso legal.

 A administração do condomínio sabia que o verdadeiro dono continuava [música] sendo o Marcelinho, mas não podia cobrar porque o nome que constava na matrícula do registo de imóveis era de outra pessoa. A dívida cresceu: 85.000, 200.000, 500.000, 1 milhão, R$ 2.hões500.000 de dívida acumulada. Em paralelo, o O Marcelinho fez a mesma coisa com o apartamento de Panema.

 Transferiu para uma sociedade anónima registada no nome da sua mulher daqueles anos. Fez a mesma coisa com o sítio de Sarapuí. Fez com dois terrenos no interior do estado. Fê-lo com o carro da família, com as contas bancárias, com os bónus de rescisão que tinham ficado do Corinthians. Tudo em nome de familiares, tudo em nome de empresas com sócios fictícios, tudo blindado da justiça civil.

 E enquanto essa blindagem crescia, o pagamento de um salário formal do Marcelinho era feito por uma empresa denominada MPF Promoções Comerciais Limitada, registada em nome de um sobrinho do pé de anjo. No papel, o O Marcelinho não era dono de nada. Carro, apartamento e conta bancária estavam todos em nome de terceiros. Era, segundo os registos, um empregado do próprio sobrinho deste, que vivia com um salário declarado de R$ 4.500 mensais.

 Mas em abril de 2023, esse mesmo, trabalhador de 4.500$ mensais, pagou a pronto uma Mercedes-Benz branco de R$ 420.000. E ninguém na imprensa brasileira perguntou de onde tinha saído o dinheiro. O dinheiro tinha saído da Boi Gordo. A quinta do Boi Gordo, Sociedade Anónima, foi uma das maiores fraudes financeiras da história do Brasil.

Funcionou entre 1997 e 2004. A proposta era simples. O pequeno poupador entregava R000, R$ 10.000, R$ 20.000. A empresa investia o dinheiro na compra e engorda de bovinos de carne em explorações do interior do país. Em troca, prometia rendimento até 6% mensal. Um retorno impossível para qualquer investimento legítimo, mas brilhante para uma pirâmide financeira.

 Os primeiros os investidores recebiam o rendimento em dia. A notícia espalhava-se. Chegavam investidores novos. O dinheiro dos novos pagava os antigos. Quando a pirâmide cresceu demasiado para se sustentar, em 2004, a empresa faliu. 30.000 famílias brasileiras perderam as suas economias. Muitas perderam a casa, algumas o casamento.

 Alguns sócios cometeram suicídio. A Boi Gordo precisava de pickups famosos para crescer, rapazes conhecidos que levassem os investidores novos pro esquema. E o Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, campeão do mundo do ano 2000, recém-reformado do futebol, com uma imagem pública sólida e uma conta bancária que já começava a esvaziar, aceitou o contrato.

 Pagavam-lhe uma comissão sobre cada investidor que ele levava para o esquema. A comissão era de 5%. Em 7 anos, segundo o cálculo dos peritos da Administração Tributária no relatório de 2024, o Marcelinho recebeu pela captação de investidores o equivalente a R$ 3.200.000. 1.000€ em dinheiro vivo. Dinheiro que nunca declarou, dinheiro que nunca apareceu nas contas oficiais dele.

 Dinheiro que circulou por conta de familiar, por sociedade anónima, com um sócio fictício, por contrato verbal pago em envelope dentro de café no centro de São Paulo. Quando a O Boi Gordo faliu em 2004 e as 30.000 1 famílias perderam tudo. O Marcelinho já tinha o dinheiro seguro no sistema de blindagem dele. Enquanto os aforradores fraudados enchiam o sistema judicial com ação que ia demorar 20 anos a resolver, o O Marcelinho comprava um cavalo, viajava pro Rio aos fins de semana, pagava o salário da mãe em Vila da Penha e nunca, em

15 anos transferiu um cêntimo para família Machado de Sarapui para cumprir a sentença de morte de um miúdo de 17 anos. A Mercedes-Benz branca de R$ 420.000 R$ 1.000 que o Marcelinho comprou a pronto em abril de 2023 saiu de um dos últimos giros do dinheiro blindado. O dinheiro original era de um comerciante de Belo Horizonte que tinha investiu a sua poupança na Boi Gordo em 2002, perdendo tudo na quebra.

 Esse mesmo comerciante morreu de ataque cardíaco em 2015 aos 61 anos. A viúva ficou a viver num quarto alugado em Belo Horizonte com a pensão mínima do falecido. O Marcelinho nunca soube o nome do comerciante, nunca importou. O que lhe importava era continuar rodando o dinheiro entre contas para nenhum juiz conseguir penhorar.

 Até que um juiz de São Paulo, no dia 22 de Maio de 2024 encontrou finalmente a brecha no sistema e penhorou parte do leilão do apartamento da Moca. R$ 583.000 R$ 1000 foram desviados diretamente para a conta da família Machado. Pela primeira vez em 26 anos, uma parte do dinheiro chegou aos legítimos donos.

 A indemnização ainda está incompleta. Faltam R$ 107.000, mas o sistema rachou. E enquanto o sistema rachava nos tribunais de São Paulo, oito meses depois, numa rua de terra do bairro Jardim Valparaíso, quatro pobres rapazes que também não tinham um tostão para a família deles viram um Mercedes-Benz Branco parado na frente de uma casa simples.

 Decidiram seguir e raptaram o ídolo que durante 26 anos tinha construído um império para não pagar a ninguém. Agora se compreende a história inteira. O sequestro do dia 17 dezembro de 2023 tinha pouco a ver com o crime passional. foi a consequência lógica de 25 anos de abandono sistemática.

 A vítima real daquela noite não estava a ser o marido ciumento de uma mulher casada. O Marcelinho caiu pela sua própria carrinha branca. Uma carrinha de caixa aberta que ele jamais devia ter tido. Uma carrinha de caixa aberta que ele jamais devia ter conseguido comprar a pronto. Uma carrinha cujo dinheiro original tinha sido roubado pela pirâmide da boi gordo de 30.

000 1 famílias brasileiras e cujo dinheiro, antes disso, tinha sido prometido para uma família de Sarapuí como indemnização pela morte de um filho de 17 anos, espezinhado por um cavalo do próprio sítio dele. O vídeo do olho negro e a confissão forçada de adultério foram só à cortina de fumo. A verdade estava em baixo e a verdade era essa.

 Quatro caras pobres do Jardim Valparaíso viram passar um ídolo do Corinthians a conduzir um automóvel de R$ 420.000 R por uma rua onde ninguém ganhava mais do que um salário mínimo. Foram atrás e imobilizaram-no por pura fome. Esses quatro rapazes, sem saber, entregaram ao Marcelinho Carioca um castigo simbólico que o sistema judicial brasileiro nunca tinha conseguido entregar.

 Tiraram a carrinha blindada dele, partiram a cara dele, obrigaram-no a confessar uma história inventada perante milhões de brasileiros e mostraram-lhe durante 22 horas dentro de um cativeiro sujo, o que se sente estar à mercê de alguém que tem o poder. O que o Cristiano sentiu naquele dia 7 de abril de 1998, arrastado durante quilómetros por um cavalo disparado, foi a mesma coisa.

 A mercê de um bicho que não tinha sabido controlar. Mas o cavalo do O Cristiano era cego. Os sequestradores do Marcelinho não eram. Os sequestradores sabiam exatamente o que estavam a fazer. E aqui está o pormenor que nenhum jornalista desportivo brasileiro quis conectar. O primeiro cobrador do Mundial de Clubes do ano 2000, o que bateu no ângulo do guarda-redes do Vasco da Gama naquela tarde gloriosa do dia 4 de janeiro, o proprietário da placa de bronze que está hoje pendurada na parede da sala da mãe em Vila da Penha. O ídolo

absoluto da Fiel, o especialista em faltas mais respeitado do futebol brasileiro, o carioca que chegou ao Corinthians com 22 anos e a promessa de deixar a sua marca no clube, esse mesmo cara, em Abril de 1998, enquanto um miúdo de 17 anos morria arrastado por um cavalo do seu sítio, esteve no estádio do Pacaembu a marcar um golo de livre contra o Atlético Mineiro. 32 minutos da segunda parte.

Bola colocada no ângulo esquerdo do guarda-redes adversário. Naquela noite, ele levantou os braços para o céu. Os companheiros correram para o abraçar. A Fiel gritou o seu nome durante 3 minutos e a 220 km de distância, no pequeno cemitério de Sarapuí, uma família humilde cavava com o pai emprestado a sepultura do filho mais velho deles.

 Placa de bronze que está pendurada na sala da mãe do Marcelinho em Vila da Penha e a Cruz de Madeira sem nome que marca a campa do Cristiano em Sarapuí são as duas extremidades de uma mesma história. Uma história que durante 28 anos ninguém teve coragem de contar inteira. Até hoje, em agosto de 2024, 8 meses depois do rapto de Taquaquecetuba, 8 meses depois da penhora do apartamento da Moca, 8 meses depois da família Machado receber em conta a primeira transferência de R$ 583.000,

 R$ 1.000. O caso voltou a surgir nos jornais brasileiros, mas desta vez foi por outro motivo. O Tribunal de Justiça de S. Paulo marcou para agosto de 2024 o julgamento dos sequestradores. Sete réus principais. Quatro deles tinham participação direta no cativeiro do Jardim Valparaíso. Os outros três eram financiadores secundários da operação.

 O último dos envolvidos tinha sido detido no dia 16 de agosto de 2024, num bairro afastado da Grande São Paulo. Foi apanhado enquanto tentava embarcar num autocarro para o interior. Tinha 32 anos, era pedreiro de obra, tinha três filhos pequenos em casa. O julgamento durou 5 dias.

 21 testemunhas foram chamadas a depor, 13 pela acusação e oito pela defesa. O Marcelinho compareceu no terceiro dia do júri. Camisola branca, calças pretas, sapato social. O olho direito já tinha voltado ao normal. Sentou-se no banco das testemunhas, jurou dizer a verdade e relatou às 22 horas dentro do cativeiro com voz firme. O capuz preto na cabeça, a coronhada no rosto, o revólver na têmpora, o vídeo forçado.

 O juiz responsável pelo caso fez uma pergunta no final do depoimento que ninguém esperava. perguntou ao Marcelinho qual era o seu sentimento em relação aos sequestradores. O pé de anjo respondeu que perdoava a todos, que entendia que eram pobres caras, levados pela necessidade, que esperava que cumprissem a pena com dignidade. A A imprensa desportiva brasileira destacou a fala em todas as edições do dia seguinte.

 falou do espírito cristão do pé de anjo, da grandeza moral do ídolo do Corinthians. Quatro dias depois, no mesmo Tribunal de Justiça de São Paulo, noutro processo perante outro juiz, a defesa do pé de anjo apresentou o recurso número 23 contra a indemnização pela morte do Cristiano Donizete Machado de Campos. A família Machado já tinha recebido os R$ 583.

000 da penhora do apartamento da Moca. Faltavam R$ 107.000 R$ 1.000 para completar a indemnização. O novo recurso alegava prescrição parcial da dívida e mora calculada com índice errado. O juiz negou provimento ao recurso em 10 dias úteis, mas os os advogados do pé de anjo podem apresentar mais um e mais outro depois.

 Cada recurso atrasa o pagamento dos € 107.000 restantes entre 4 e 8 meses. O Sérvio Machado tem hoje 73 anos, a Pedra Batista 67. Os médicos do Hospital Municipal de Sarapui calculam que os dois conseguem viver mais uns sete 8 anos no cenário otimista. O sérvio tem o coração fraco. A pedra tem diabetes do tipo 2 e artrose.

 A previsão atual dos advogados da família é que o último cêntimo chegue à conta dos machados entre 2028 e 2032, possivelmente antes do sérvio morrer, provavelmente depois da pedra se ir embora. Enquanto isso, o Marcelinho Carioca continua a exercer o cargo de secretário municipal de desporto e lazer de Taquaquecetuba.

 Recebe um salário oficial de R$ 16.000 por mês. Tem motorista, secretário e gabinete próprio no terceiro andar do edifício da câmara municipal. Aparece em foto oficial ao lado do presidente da Câmara da cidade. Inaugura campo desportivo nos bairros mais pobres. tira selfie com criança nas escolas públicas e continua a ser, segundo a justiça civil brasileira, devedor de uma sentença firme que vem de 1998.

A carrinha Mercedes-Benz Branca foi devolvida a este pela Polícia Civil dois meses depois do rapto. As manchas de sangue do volante foram limpas, a pintura foi retocada e o pé de anjo continua a dirigi-la todos os dias entre a Moca e Itaquecetuba. Em nenhum momento deste trajeto diário, segundo registos públicos do veículo, ele passa pela cidade de Sarapuí.

 Para um tipo que ganhou um mundial de clubes no Maracanã, 220 km são 2 horas meia de estrada por Castelo Branco. Nada. O julgamento dos sequestradores terminou no quinto dia, ao fim da tarde do dia 30 de agosto de 2024. Os quatro arguidosir foram condenados a 22 anos de prisão em regime fechado. Os outros três, financiadores secundários da operação, apanharam entre os 8 e os 12 anos cada um.

 O líder do grupo, um rapaz de 41 anos, era exsegurança de uma discoteca da zona leste de São Paulo. Tinha sido despedido três meses antes do rapto por agredir um cliente. Estava endividado em 60.000€ com as giotas do bairro. Foi ele que teve a ideia de seguir o carro do Marcelinho. Foi ele quem encostou o revólver na tpora do pé de anjo.

 Foi ele quem gravou o vídeo com o telemóvel roubado à Thaís. Os quatro Os participantes diretos vão sair em liberdade condicional, segundo o cálculo dos advogados. entre 2044 e 2046, vão ter quase 60 anos quando saírem. Os filhos pequenos que tinham em casa vão ser adultos, os pais idosos vão estar mortos, as esposas separadas.

 Dos 13 filhos do Sérvio Machado e da Pedra Batista, dois morreram no ano de 1998. O Cristiano no dia 7 de abril, no sítio do Marcelinho em Sarapuí. O Bruno, em 22 de junho, no hospital concelhio de Sarapui, com 42 dias de vida. Os outros 11 ainda estão vivos, mas espalhados. A mais velha das mulheres, a Cleusa, tem hoje 42 anos.

 Trabalha como auxiliar de cozinha numa escola pública de Sorocaba. É a que cuida dos documentos do processo civil da família. É a que assina os recibos da indemnização parcial em nome dos pais. O segundo irmão, depois do Cristiano, o Anderson, tornou-se alcoólico aos 25 anos. Vive hoje numa pensão pública no centro de Tatuí.

 O salário todo vai para a cachaça. O Thaago, com a epilepsia que apareceu três meses depois do funeral do irmão, vive hoje num quartinho das traseiras da casa dos pais em Sarapuí. toma medicação quatro vezes ao dia. Sete dos restantes irmãos trabalham em pequenos ofícios pelo interior do estado.

 Pedreiro, ajudante de mecânico, doméstica, empregada de mesa, [música] segurança noturno. Nenhum deles terminou o ensino secundário. E a mais nova, a Aline, nascida em 2003, é a única dos 13 que terminou o ensino básico por inteiro. Hoje tem 22 anos. Trabalha como atendente numa farmácia de Sorocaba. Sonha estudar Direito, quer ser advogada da família.

 Entre janeiro e outubro de 2024, o Marcelinho Carioca deu sete entrevistas a grandes veículos da imprensa desportiva brasileira. Respondeu sobre a carreira no Corinthians, o golo de chapéu contra o Santos, a placa do Pelé, o Mundial de Clubes do ano 2000 e o sequestro de Taquaquecetuba. Em nenhuma das sete entrevistas, segundo o inquérito de um jornalista do interior em outubro de 2024, o Marcelinho mencionou o nome do Cristiano Donizete Machado de Campos.

Nenhuma vez. O miúdo de 17 anos que morreu espezinhado no seu sítio em 1998 continua sem nome na boca do ídolo do Corinthians. Os jornalistas também nunca perguntaram. Em 10 horas de gravação somadas, não houve uma única questão sobre o processo civil de Sarapui, sobre a penhora do apartamento ou sobre o carrinho de cartão que o sérvio Machado empurra pelas ruas do interior.

 Desde 1998. O silêncio cumpriu a função de sempre. Existe uma fotografia que circulou pouco na imprensa brasileira. Foi tirada em 2019 por um repórter de uma televisão regional do interior. Mostra a sepultura do Cristiano Donizete, Machado de Campos, no pequeno cemitério de Sarapuí, 21 anos depois do funeral.

 A cruz de madeira que a família tinha colocado no no dia 10 de Abril de 1998 ainda estava ali apodrecida pela chuva, inclinada para frente pelo vento. O nome do miúdo tinha desaparecido com o tempo porque a tinta preta tinha apagado por inteiro. Nem flor, nem fita, nem placa de mármore. A vizinhança nunca conseguiu juntar dinheiro para trocar.

 Naquela mesma semana de 2019, sem combinar, um fotógrafo paulista publicou no Instagram uma imagem da sala do apartamento da mãe do Marcelinho em Vila da Penha. Mostrava a placa de bronze do Pelé, ainda pendurada na parede do salão. A placa estava polida, sem uma marca de pó, refletindo a luz do lustre. Embaixo dela, num móvel de pau-santo, havia uma camisola do Corinthians emoldurada, três troféus do Campeonato de São Paulo e uma foto grande da final do Mundial de Clubes do ano 2000.

 Aquelas duas imagens, separadas por 220 km de rodovia, contamar de uma palavra. A placa de bronze polida em Vila da Penha e a cruz de Madeira apodrecida em Sarapui são um resumo silencioso de 28 anos de evasão. 28 anos durante os quais um ídolo do Corinthians construiu um sistema inteiro para blindar a placa de bronze enquanto deixava a cruz de madeira do miúdo que morreu no sítio dele apodrecer no cemitério do interior.

 O que é que essa história deixa-nos no fim do caminho é uma questão. Uma questão que nenhum tribunal brasileiro consegue responder. Uma questão que nem a indemnização completa de R$ 690.000, nem a condenação em todas as instâncias, nem a penhora do apartamento da Moca, nem o humilhante rapto de Itaqua Quecetuba conseguem contestar.

 A pergunta é esta: Quantos rapazes como Marcelinho Carioca caminham hoje pelas ruas da sua própria cidade? Caras que tiveram um ídolo no seu bairro quando eram miúdos. Rapazes que chegaram no topo com esforço, com talento, com hora extra de treino por baixo das luzes de um estádio.

 Rapazes que quando já tinham o contrato assinado, a casa comprada, o carro pago a pronto, deixaram de olhar para baixo. Rapazes que aprenderam a blindar o dinheiro antes de aprender a cuidar da gente deles. Rapazes que quando um miúdo de 17 anos morreu espezinhado por um dos seus cavalos, não foram no velório, não mandaram flor, não ligaram à mãe, continuaram a dar um autógrafo, recebendo prémio, marcando golo, levantar troféu, comprar carro importado, enchendo as paredes dos mesmos com placa de bronze regalada por rei do futebol.

Estes tipos existem, andam nas ruas, às vezes são secretários municipais, outras vezes são comentadores desportivos, às ora são políticos, ora são simplesmente pais de família que esqueceram-se de onde vieram. E todos eles, sem excepção, levam dentro uma sentença pequena, definitiva. Uma sentença que dá para burlar durante 10, 15, 20, 28 anos, mas que algum dia numa rua de terra batida qualquer, em frente de uma casa simples onde quatro pobres rapazes estão a olhar, vai cobrar sozinha.

 O Marcelinho Carioca cobrou a sua parte naquela madrugada do 17 de dezembro de 2023. Cobrou o olho roxo, cobrou a coronhada na cabeça, cobrou o vídeo humilhante que o Brasil inteiro viu, cobrou os R$ 42.000 R$ 1.000 que a sua mãe transferiu por Pix de Vila da Penha e cobrou, mesmo que ele não queira admitir ainda, a única dívida que a justiça civil não tinha conseguido cobrar até esse momento.

 A dívida com um pai de 73 anos que continua empurrando um carrinho de cartão pelas ruas de Sarapuí. A dívida a uma mãe que perdeu dois filhos no mesmo ano de 1998. A dívida para com o irmão que vive com epilepsia desde os 11 anos pelo trauma de ter visto o irmão morto em cuecas do lado de um cavalo manchado de sangue. O Marcelinho carioca ainda não terminou de pagar. Faltam 107.000€.

E enquanto estes R$ 107.000 não chegarem na conta da família Machado, o pé de anjo vai continuar a ser o que é. Um campeão do mundo que aprendeu tudo do futebol e nada dos homens. Os pés pequenos que a mãe mandou forrar quando o miúdo com um sapateiro do bairro de Vila da Penha serviram para marcar 86 golos de livre direto, mas nunca serviram para andar os 5 m que separavam a porta da sua casa da porta da família Machado em Sarapuí, no dia do funeral do Cristiano.

 Aqueles 5 m na vida do Marcelinho Carioca ainda continuam sem ser andados. Se essa história fez pensar em alguém que conhece, em alguém da sua própria família, em alguém que se esqueceu de onde veio no dia em que assinou o primeiro contrato, partilhe este vídeo com ele essa noite. Se você próprio se sente identificado com alguma parte dessa história, liga a essa pessoa que você não liga há anos.

 Liga-lhe antes de ser tarde. Antes de um carrinho de cartão empurrado por um pai de 73 anos vire o espelho silencioso da sua própria consciência. E subscreve o canal se quer que a gente continue contando as histórias que ninguém no futebol brasileiro tem coragem para contar inteiro, porque em estrelas caídas ainda há muito ídolo à espera que alguém fale o nome completo dele em voz alta.

 

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