O Enigma do Ídolo Negro: A Fortuna Desaparecida de Evaldo Braga

O Enigma do Ídolo Negro: A Fortuna Desaparecida de Evaldo Braga

Evaldo Braga. Quem cresceu no Brasil dos anos 70 não esquece este nome. Sorria, sorria, meu bem. Sorria. Saindo do rádio de pilha enquanto a mãe terminava o almoço de domingo. Corria, meu bem, corria da infelicidade. A cruz que levo tocando na vitrola da sala. Sinto a cruz  que levo, bastante pesada. E ele ali todo de vermelho, terço na mão no casino do Chacrinha, sendo apresentado como o negro mais belo do Brasil.

Ponti, o meu amigo é Grega. Este homem foi o primeiro grande ídolo negro que o país  T vendia disco que nem uma padaria vende pão quente. Chegou a fazer 70 espectáculos num só mês, às vezes dois no mesmo dia. E quando a gente pensa num artista deste tamanho, a cabeça já desenha tudo sozinha. Mansão, carro importado na garagem, conta cheia no banco.

  Faz todo o sentido imaginar assim. Só que a história do Evaldo Braga apanha um caminho que ninguém espera. Foi embora cedo, no auge da fama. E o que aconteceu depois de ele morreu com a vida que construiu, com tudo o que este  homem ergueu do zero, é das coisas mais loucas que a música brasileira já viu. Será que sobrou alguma coisa? Onde foi parar tudo aquilo? E porque é que até hoje ninguém soube responder a esta pergunta? pega num café, senta-te aí e fica comigo.

 Porque para compreender o fim desta história,  precisamos voltar bem lá para o começo. Campos dos Goitacazes, interior do Rio, meados dos anos 40, um bebé deixado dentro de um cesto  à porta de uma casa. Evaldo Braga nasceu em Campos dos Goitacazes, no interior do Rio de Janeiro, em plena década de 40.

 já chegou ao mundo como filho que sobrou.  Fruto de uma relação fora do casamento, nunca conheceu a mãe e nunca foi aceite pela mulher do pai.  O pai, o António, ainda tentou ficar com o menino por um tempo, mas logo passou ele adiante para uma senhora cuidar. A dona Terezinha, que pegou no meu bebé nos braços ali mesmo em campos  e assumiu o que mais ninguém quis.

 E há um pormenor que diz tudo sobre o tamanho deste abandono. Até hoje ninguém sabe ao certo dia em que nasceu. A maioria das biografias marca 28 de setembro de 1947. Já o seu próprio irmão, o António Carlos, jura que foi 26 de Maio de 1945, quase 2 anos de diferença. Quando nem a data do nascimento alguém anotou direito, é porque o menino veio ao mundo sem ninguém a olhar.

 Foi a partir desse começo torto que nasceu a lenda mais pesada,  que perseguiu o nome do Evaldo a vida inteira. Diziam na boca do povo de Campos que a mãe era uma menina de programa. e que teria atirado o filho recém-nascido  dentro de uma balde do lixo. Esta história correu o Brasil.

 Tornou-se quase verdade de tanto ser repetida.  Há pessoas que contam até hoje com pormenor, como se tivesse estado lá. Mas o irmão do cantor desmentiu tudo em frente às câmaras. Num documentário dizia que o caixote do lixo nunca houve, que o bebé foi deixado numa cesto à porta de uma casa e que foi dali que a dona Terezinha tirou o menino.

  A diferença entre um versão e outra é o que separa uma tragédia de uma lenda. E essa luta nunca ninguém encerrou. Só que ter quem te recolha não é a mesma coisa que ter um lar. A madrasta  não aceitava o miúdo e sem mãe, sem ser querido dentro de casa, o Evaldo foi parar à rua ainda criança. Da rua veio o destino que esperava tanta criança esquecida nessa altura, o  internato.

 Ele foi recolhido pelo SAM, o serviço de apoio ao menor, aquele  lugar que mais tarde se transformou em Funabem e que de verdade era o Instituto Profissional 15 de novembro em Quintino,  no Rio de Janeiro. E ali não passou uns meses, passaram anos. a infância e a boa parte da juventude vividas inteiras dentro de um abrigo para menores abandonado.

 Mas é nesse mesmo lugar, no meio de tanto menino sem rumo, que a vida do Evaldo dá a primeira reviravolta, porque ali cresceu lado a lado com outro miúdo largado igual a ele, um tal de dadá, o mesmo que anos depois o Brasil inteiro ia conhecer como  Dadá Maravilha, um dos maiores goleadores que este país já pôs em campo.

 E foi para o Dadá, ainda dentro do internato,  que o Evaldo lançou a frase que ninguém levou a sério, olhou ao amigo e disse que um dia o Brasil inteiro ia ouvir dizer o seu nome,  que ia ser o cantor da multidão, que tinha um vozeirão e sabia disso, um miúdo sem nada, jurando que ia tornar-se a voz de um país inteiro. Quando o Evaldo finalmente saiu do internato, já era um rapaz feito, mas chegava à vida adulta sem nada nas mãos, sem família à espera, sem dinheiro guardado, sem padrinho para abrir porta, só o sonho de ser cantor e

aquele vozeirão que ele jurava que ia mudar tudo. Para sobreviver, fez o que dava. Passou pela farmácia, pela General Electric, pela Verig, mas o lugar onde o seu coração batia mais forte era um  só. A porta da rádio Mairin Veiga, no Rio de Janeiro. Aquela rádio naquela altura  era o coração da música popular brasileira.

cantor famoso entrava e saía dali o dia inteiro. E o Evaldo virou-se para ficar perto. Tornou-se  engrachate. Engrachava o sapato aos cantores e lavava-lhes os carros. Ficava ali no asfalto da calçada, ouvindo a forma como falavam, decorando os passos, aprendendo o caminho que ele próprio queria pisar um dia.

  E o caminho apareceu em 1969. Foi quando o Evaldo se cruzou na vida de Osmar Navarro, um produtor e compositor que tinha peso no meio musical. Navarro ouviu aquele vozeirão e parou. Olhou para o miúdo e disse uma frase que mudou tudo. É agora ou nunca. apanhou o Evaldo pela mão e levou o tipo diretamente para o estúdio.

 E o que aconteceu dali em diante foi o tipo de explosão que ninguém vê todos os dias. Em 1971, lançaram o compacto  Só Quero. A música foi para o topo das paradas. Eu só quero LV para  nunca mais chorar. Vendeu mais de 150.000 exemplares. Para si ter noção do tamanho daquilo, naquela altura vender 50.

000 já fazia um artista respirar com sossego. O Evaldo triplicou esse número à primeira. Ainda em 1971,  aproveitando o tamanho do barulho, lança o primeiro álbum de estúdio. O nome era mesmo esse, o ídolo negro. E o apelido não veio do marketing nenhum, não. Foi o povo que pôs, foi o povo que olhou para aquele cantor preto todo de vermelho, de voz cheia e falou:  “Este é o nosso ídolo”.

 A gravadora era a Fonogram, com  selo Polidor, quer dizer, equipa grande, grande estrutura, alcance nacional. No ano seguinte, 1972, não deu folga, largou o volume dois. E desse disco veio o golo de placa da carreira inteira Sorria, sorria. Música feita em parceria com uma compositora chamada Carmen Lúcia.

Corria, meu bem, corria da infelicidade. A faixa rebentou na rádio. Virou  hino, tornou-se um trilho de namoro, tornou-se lembrança de uma geração inteira. Em anos, o engrachate da porta da rádio tinha-se tornado o homem mais ouvido do Brasil. E o que veio depois disso foi o tipo de auge que pouca gente vive na vida.

 70 espectáculos num mês, às vezes dois no mesmo dia. Era essa a rotina do Evaldo Braga no auge da sua carreira. Ele saía de uma cidade à pressa para chegar à próxima a tempo de subir ao palco. E em todo o lugar que ele chegava era multidão esperando. A imagem ficou marcada no Brasil inteiro. Evaldo entrava em palco de vermelho da cabeça aos pés.

 Camisola vermelha, calças vermelhas, terço na mão direita. Aquele mesmo terço do internato, o objeto de fé que ele carregava desde menino. Voz para fora,  gesto exagerado, o corpo inteiro a acompanhar a música. Era um espetáculo de presença e ele  estava em todo o lado da televisão. No casino do Chacrinha, o velho guerreiro apresentava-o como o negro mais belo do Brasil e a plateia ia ao chão.

 No programa do Silvio Santos, só que tinha um lugar onde a coisa não foi tão amigável,  o programa do Flávio Cavalcante. Segundo o irmão do cantor, o António Carlos, o Flávio não foi com a cara do Evaldo. Disse que ele cantava demasiado alto. e parecia louco em palco. É o retrato de uma briga que ia perseguir o Evaldo a carreira toda.

 O povo amava. A elite torcia o nariz,  mas o povo decidia e o povo tinha decidido. Os rits dele não lhe saíam da boca de ninguém. Só quero. Sorria, sorria. A cruz que carrego. Meu Deus, ela me deixou. Eu não sou lixo. Cada uma destas músicas tocava na rádio do Brasil inteiro, do Oiapok Achui, disco vendia que nem pão quente, a sair do forno e o reconhecimento atravessou o oceano.

[ressonando] A casa-mãe alemã da Philips lá na Europa, mandou ao Evaldo uma medalha de ouro. Era o prémio por mais de 500.000 discos vendidos em apenas 3 anos de carreira. cantor de música popular brasileira recebendo medalha da Alemanha. Não era coisa comum naquela época. Quase ninguém lá chegava. Agora estás a ouvir tudo isso e a tua cabeça já está a fazer a conta sozinha.

 70 espetáculos por mês, 500.000 discos vendidos em 3 anos, medalha internacional. Esse gajo tinha que estar a nadar em dinheiro. Tinha que ter mansão em bairro chique, garagem cheio de carro importado, conta bancária que não mais acabava. É o que qualquer um pensaria. Só que a realidade do Evaldo Braga era outra.

 O único veículo registado em nome dele, segundo a perícia que o Jornal do Brasil divulgou anos depois, era um Volkswagen T, um simples sedan nacional dos populares da época. Nada de Mazerate, nada de Lamborghini, nada do luxo que o povo imagina até hoje quando se lembra do ídolo negro. Por fora era Ovação, disco de  ouro, multidão gritando o nome dele.

 Por dentro transportava uma ferida que nenhum espectáculo, nenhum aplauso, nenhum disco do mundo conseguiu fechar. Todo aquele sucesso, no fundo, tinha um motivo só. Um motivo que o Evaldo guardava ao peito e quase ninguém de fora sabia. O seu sonho não era enriquecer, não era casar, não era construir património, era ficar famoso o suficiente para a mãe biológica o encontrar.

Era a esperança de que [a música] em algum lugar do Brasil, aquela mulher que desapareceu logo depois de ele nascer, visse o filho a cantar na televisão e voltasse atrás. Cada concerto lotado era um grito mudo. Era um menino do internato perguntando: “Onde estás?” E quando a história da origem do mesmo veio à tona na imprensa, quando todo o Brasil ficou sabendo que a mãe do Evaldo seria uma ex-garota de programa, aconteceu uma coisa que [a música] doeu de uma maneira que ninguém imaginou. Começaram ao aparecer

mulheres, várias ex-garotas de programa batendo à porta, mandando recado, dizendo que eram a mãe do cantor. Cada bate à porta era uma esperança nova subindo para o peito do  Evaldo e cada uma delas se desfez no ar. Nenhuma aprovou nada, nunca. A verdadeira mãe, se ainda estava viva, nunca apareceu.

 E foi nesse meio, com a alma a esfarelar-se por dentro, que o Evaldo compôs junto com a Carmen Lúcia uma das músicas mais doídas que ele deixou. Quando ouviu repetirem-lhe na cara a história  de que a mãe o teria jogado numa lata de lixo, entrou no estúdio e gravou um desabafo. Eu não sou lixo. Eu não  sou lixo para ti fora jogar meu bem.

A letra  é dura, é resposta direta. Quem ouvia na rádio achava música de amor.  Era música de filho ferido a gritar à mãe que nunca apareceu. E a revolta foi tanta, mas tanta, que ela mudou o homem por completo. O Evaldo nunca tinha bebido um gole de álcool na vida, nunca tinha tocado num cigarro.

 Cresceu no internato com fé, com um terço na mão, era um homem religioso. Depois daquela história  rebentar, ele tornou-se outro. Passou a beber, passou a fumar. loucamente, segundo as pessoas que conviviam com ele de perto,  como se cada gole fosse uma tentativa de calar um vazio que não calava. E enquanto isso, do lado de fora, a crítica não dava tréguas.

 Os críticos elitistas da imprensa cultural batiam no som do Evaldo sem dó nem piedade. Não tinham uma palavra de elogio. Diziam que era música demasiado popular, demasiado brega, simples demais. Farto de apanhar de gente que nunca tinha passado fome na vida. O Evaldo  lançou num desabafo de entrevista uma frase que ficou.

 Ele dizia que fazia música para o povo pobre e sofrido como tinha sido e não para elite que torcia o nariz ao jornal. Tem quem diga que ele tinha razão, que a arte do povo é para ser do povo. E crítico de Palitó não tem nada a dizer disso,  mas há quem argumente que toda a arte precisa de ser questionada, que a crítica também faz parte do jogo.

 E aí a pergunta fica para si. O que ninguém sabia naquele janeiro de 1973, nem o próprio Evaldo era que tudo isto, a dor, a bebida, a revolta, os espectáculos lotados, a multidão gritando-lhe o nome dele, estava prestes a terminar.  E a 3 horas de distância do Rio de Janeiro, numa curva da estrada que liga Minas ao litoral, o destino já tinha marcado dia e hora.

 30 de janeiro de 1973, Belo Horizonte, mais um concerto esgotado do ídolo negro. A plateia a gritar, a voz no auge, o terço de sempre na mão direita. E foi no meio desse concerto que aconteceu uma coisa que mexeu com o Evaldo de uma forma difícil de explicar. Uma fã subiu ao  palco para abraçar o ídolo e no abraço, sem querer, arrancou-lhe o terço da mão.

  Aquele terço não era enfeite, não era o objeto de fé que o Evaldo transportava desde os tempos do internato em Quintino. Era a proteção dele. Quem estava por perto contou depois que o O Evaldo ficou aflito,  tentou disfarçar para a plateia, terminou o concerto, mas saiu do palco com um peso no peito, como se alguma coisa se tivesse desencaixado nessa noite.Evaldo Braga, o primeiro ídolo negro do pop moderno

 No dia seguinte, 31 de janeiro de 1973, ele e o motorista Vanderlei pegaram no estrada de regresso ao Rio, a BR3, que hoje conhecemos como BR040, a estrada que atravessa a fronteira entre Minas e o Rio de Janeiro. Eles passavam pela altura da cidade de três rios, que hoje chama-se areal. Era amanhã, a estrada estava em movimento e foi numa curva que tudo aconteceu.

 O Volkswagen T el em que voltavam, bateu de frente com uma reboque Scania que vinha em sentido contrário, descendo de Belo Horizonte, frontal, aço contra aço. O motorista Vanderley morreu de imediato ali no asfalto. O Evaldo foi resgatado com vida. Levaram o cantor à pressa para o hospital Nossa Senhora da Conceição, em três rios.

 Os médicos tentaram, mas não houve  jeito. O Evaldo não resistiu aos ferimentos e morreu poucas horas depois. E olhem o pormenor que cala fundo. Tem fontes que dizem que morreu com 27 anos. Outras dizem que tinha 25. A briga das datas de nascimento perseguiu o Evaldo até no certificado de Óbito.

 Aquele menino que veio ao mundo sem ninguém para anotar o dia certo despediu-se da vida com a mesma confusão sobre quantos anos tinha vivido.  E há outro pormenor que dá um nó na garganta. Nesse mesmo fim de semana, no programa do Chacrinha, ia receber o disco de ouro pelas 100.000 cópias vendidas do álbum O ídolo Negro, volume 2, era o reconhecimento oficial de todos os que tinha conquistado.

  O Evaldo morreu no caminho para apanhar o próprio troféu. A notícia correu o país no mesmo dia. A Folha de São Paulo, o Jornal do Brasil, toda a rádio estamparam a morte do ídolo negro. E quando o corpo do cantor chegou ao Rio de Janeiro para ser sepultado no cemitério de São João Batista, o que aconteceu ali foi de cortar a respiração.

Milhares de pessoas apareceram para se despedir. Tanta gente que a polícia teve que enviar tropa de choque para conter a multidão. O povo que  ele tanto amou foi até ao portão do cemitério dizer a Deus: “O ídolo negro tinha partido demasiado cedo no auge.” Mas aí começou um mistério que dura até hoje, porque um homem daquele tamanho, com aquela carreira, com aquele dinheiro pingando todos os meses de royalty, não deixou nada amarrado.

 E o que aconteceu com tudo o que o Evaldo Braga construiu é uma das histórias mais loucas a que a música brasileira já viu. O Evaldo morreu sem deixar herdeiro nenhum. Nenhum. Não tinha um filho, não tinha mulher. A mãe biológica nunca apareceu, nem viva, nem morta. O pai não estava na vida dele e quando o cantor fechou os olhos no hospital de Três  Rios, em Janeiro de 73, não tinha uma única pessoa registada  em notário com direito automático a herdar o que tinha conquistado.

 E aí vem a pergunta que ninguém soube responder até hoje. O que este homem realmente tinha para deixar de bens físicos? Pouca coisa. O Volkswagen TL,  o único veículo registado em seu nome, transformou-se em ferro retorcido no asfalto da BR3. Não existe registo fidedigno de mansão, quinta, apartamento de luxo ou qualquer outro património.

 Os automóveis importados que o povo até hoje jura que o Evaldo tinha, Mazerate, Lamborghini e estas coisas, nunca foram comprovados em fonte nenhuma.  É lenda, é história que o tempo foi insuflando, mas havia uma coisa que valia muito e essa coisa era invisível, direito de autor. Em três anos de carreira, o Evaldo Braga vendeu, segundo o biógrafo Gonçalo Júnior, entre 1 milhão e 2 milhões de discos.

 Cada execução na rádio, cada exemplar vendido, cada música tocada num programa de televisão pingava dinheiro. Era uma fortuna a chegar todo mês. E aí entra a frase mais perturbadora desta história inteira. Quando o Gonçalo Júnior foi entrevistado sobre o paradeiro deste dinheiro, respondeu com todas as letras.

 Os fundos de direitos de autor do Evaldo tiveram paradeiro desconhecido. Paradeiro desconhecido. Repete esta frase com calma. O dinheiro de um ídolo nacional gerado por mais de 1 [canção] milhão de discos vendidos, simplesmente desapareceu e ninguém, em mais de 50 anos, soube dizer para onde foi. A gravadora na altura deu uma versão para imprensa.

 Disse que ia doar tudo a um orfanato que o Evaldo ajudava em vida e também para a Funabem, que era exatamente o local onde o cantor tinha sido criado. Soaria como o desfecho perfeito para história. o dinheiro voltando a ajudar outros meninos largados como ele tinha sido. Só que há um problema. Nas palavras do próprio biógrafo, se este foi feito de facto, não se sabe.

 Ninguém comprovou, ninguém viu, ninguém prestou contas. E anos depois a história ainda deu uma reviravolta. Apareceu um homem dizendo ser irmão do Evaldo e entrou na justiça para reivindicar a herança. Pediu para ser reconhecido como herdeiro legítimo do cantor.  O biógrafo, no entanto, é categórico.

 A história deste suposto irmão não fecha. Segundo as datas que apresentou, o homem teria nascido depois da morte do Evaldo. Quer dizer, é matematicamente impossível que fosse irmão. E enquanto essa toda a luta corre nos bastidores, as músicas do Evaldo continuam  vivas. No Spotify, a cruz que carrego e sorria sorria somam milhões e milhões de execuções até aos dias de hoje.

 Cada vez que alguém carrega no play, um cêntimo de royalty é gerado pela lei brasileira. Esse direito só cai no domínio público em 2044, 70 anos depois da morte. Quer dizer,  até hoje esse dinheiro está pingando em algum lugar. Pingando para quem? Boa pergunta.  Os luxos do ídolo negro, no fim das contas, nunca foram os carrões e as mansões que o povo imaginou.

 Foram as músicas. E estas ninguém conseguiu fazer evaporar. Mais de 50 anos depois daquela curva na BR3, o nome do Evaldo Braga continua de pé. E não é porque alguém fez questão de preservar, é porque a música do homem teimou em não morrer. Os grandes da época pegaram no cancioneiro dele e regravaram.

 Agnaldo Timóteo, Adilson Ramos, Newton César, Carlos Alexandre. Todos puseram a voz em cima do que o Evaldo deixou escrito. E a obra dele virou ponte paraa geração que veio depois, Amado Batista, Odair José. Todos os a cena romântica e foleira dos anos 80 e 90 tem uma dívida para com o som do ídolo negro.  Ele abriu uma estrada que muito artista famoso depois só precisou de pisar.

No cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro, o túmulo do Evaldo é um dos mais visitados todos os dias de finados. 50 anos passados, fã ainda leva flor. Fã ainda reza, fã ainda canta, sorria, sorria, de pé, em frente da lápide. Tem gente que nem sequer era nascida quando o O Evaldo morreu e mesmo assim vai lá prestar respeito.

 E depois quando a gente para para pensar na vida deste homem do início ao fim, fica uma sensação difícil de explicar. Um menino deixado numa cesto em Campos, criado por uma mulher que não era a sua mãe, largado no internato para menor abandonado. Esse mesmo menino se tornou o cantor da multidão  que ele tinha jurado que ia ser.

 Vendeu mais de 1 milhão de discos, recebeu medalha de ouro da Alemanha, encheu os maiores programas de televisão do Brasil e morreu aos 27 anos numa curva de estrada, sem deixar herdeiro para reclamar a fortuna que ele construiu. No final de contas, talvez o luxo de verdade não tenha sido nada que se pudesse guardar num cofre. O luxo foi a voz, foi o seu vermelho no palco do Chacrinha.

 Foi o povo a cantar Eu não sou lixo no autocarro, no bar, na fila do banco. Foi a prova de que um menino sem nada pode sim tornar-se a voz de um país inteiro, se Deus permitir,  e o talento for verdadeiro. E agora eu Quero saber a sua opinião. O que você acha que aconteceu com o dinheiro do Evaldo Braga? Foi doado  mesmo para o orfanato, como a editora prometeu? foi parar ao bolso de alguém que nunca prestou conta ou simplesmente se perdeu no tempo sem ninguém a queixar-se?

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