O Segredo Mais Negro do Futebol: Garrincha não foi destruído pelo álcool. Descubra como três médicos o condenaram a dores crónicas para lucrarem, e como o próprio irmão lhe roubou a fortuna durante 28 anos, planeou a morte da sogra e escondeu o homicídio da sobrinha. A verdade finalmente revelada.
GARRINCHA: ESSA MULHER DESTROÇOU A VIDA DELE
bicampeão do mundo, melhor jogador da Campeonato do Mundo de 1962, considerado pelo Pelé o melhor jogador com quem jogou na vida. E esse mesmo gajo matou a própria sogra de tão embriagado, viu a própria filha morrer destroçada e acabou por morrer sozinho numa cama nojenta de hospital, sem nenhum dos 14 filhos aparecer para se despedir.
O que durante 42 anos ninguém teve a coragem de contar é que o Garrincha não morreu pelo álcool, estás a ver? morreu por uma coisa muito mais escura, uma sentença que tinha desde o nascimento, pá, que três pessoas esconderam-lhe a carreira inteira. Hoje vai saber como ele matou a sogra e mais escuro ainda, como morreu a própria filha.
Por último, vai-se lá saber quem traiu ele dentro da própria família, até ao ponto que ele próprio tentou acabar com a própria vida. Mas antes, irmão, tu precisa de perceber de onde veio o anjo torto de Pau Grande. Pau Grande, distrito de Magé, estado do Rio de Janeiro, 1933, 28 de outubro, um sábado, 8 da noite. Numa casa de madeira com telhado de palha, sem água canalizada, sem luz elétrica, sem um livro dentro dela, nasceu um miúdo que ia mudar para sempre a história do futebol mundial.
puseram-lhe o nome de Manuel Francisco dos Santos. E desde o primeiro minuto de vida, este miúdo tinha uma coisa diferente, uma coisa que nenhum médico da região soube nomear na altura, viu? E que durante 49 anos ninguém no Brasil teve a coragem de investigar. A mãe se chamava-se Maria Carolina, tinha 32 anos, era lavadeira numa fábrica têxtil chamada América Fabril, que dominava pau grande economicamente desde o início do século.
O pai chamava-se Amaro dos Santos. tinha 35 anos, trabalhava como carregador de fardos de algodão na mesma fábrica e desde os 22 anos que bebia aguardente todos os dias, pá, sem falhar, sem pausa, sem culpa. Quando a parteira do bairro levantou o recém-nascido e colocou-o no peito da mãe, esta ficou calada um segundo.
A parte também ficou calada e o pai, que estava sentado na varanda bebendo com dois colegas da fábrica, escutou o silêncio lá de fora. Entrou no quarto, olhou para o miúdo e deu meia volta. Sem dizer nada, o Manuel O Francisco tinha as pernas tortas para dentro. A perna esquerda era 6 cm mais curta que a direita. A coluna estava meio desviada para um dos lados e o olho esquerdo que mais paraa frente o pessoal do bairro ia apelidar de famoso era torto sem controlo.
Era um bebé com malformação congénita visível, não é? E em Pau Grande de 1933, um bebé assim não tinha futuro. Mas esse miúdo com as pernas tortas, com a coluna desviada, com o olho perdido, tornou-se 30 anos depois o maior driblador da história do futebol mundial. Guarda essa palavra, irmão, malformação. Porque daqui a 40 minutos vai perceber porque esta malformação, em vez de protegê-lo, destruiu-o.
Destruíram três médicos do Botafogo, destruíram em silêncio. E ninguém no Brasil soube durante cinco década. Aos 4 anos, a A Maria Carolina levou o Manuel Francisco numa clínica de Petrópolis, cidade perto, onde um médico ortopedista atendia gratuitamente as famílias dos operários da América Fabril. O médico se chamava-se Dr. Aristides Carvalho.
Fez radiografia com uma máquina velha, mediu, pesou, olhou o miúdo a andar e deu à Maria Carolina um diagnóstico que ela não percebeu bem. O médico falava de uma condição que combinava a luxação congénita da anca com escoliose estrutural e diferença de tamanho dos membros inferior e falou para ela, palavra a palavra, uma frase que a Maria Carolina se lembrou até morrer.
O Dr. disse: “O seu filho não chega aos 40 anos e se chegar não vai conseguir andar direito.” A Maria Carolina voltou a Pau Grande a chorar, contou ao marido o que o médico tinha falado. O Amaro não falou nada. Nessa noite bebeu três garrafas a mais de cachaça do que ele normalmente bebia.
E no dia seguinte, em vez de procurar outro médico, decidiu esquecer o assunto. A família inteira decidiu esquecer, pá, como se não tivesse acontecido, como se o médico tivesse mentido, como se as pernas tortas do miúdo fosse uma coisa que ia desaparecer só com o tempo. Três médicos, já viu? Três médicos vão aparecer nesta história.
O O Dr. Aristides Carvalho foi o primeiro. O segundo vai aparecer em 1953, quando Garrincha fizer o teste para entrar no Botafogo. E o terceiro em 1962 durante o Campeonato do Mundo do Chile. Os três vão dizer exatamente a mesma coisa e os três vão ser ignorados pela mesma razão, mas ainda falta. O Manuel Francisco cresceu em pau grande como um miúdo saudável por fora, certo? Tinha irmão, tinha um amigo, ia para o rio em Omirim pescar todos os dias, caçava pássaros com estiling.
E o apelido que os irmão meteram-lhe aos 6 anos era o de um passarinho pequeno, frágil, rápido, escorregadio. Botaram garrincha. Era o nome que no interior do rio se dava para um passarinho comum do mato. O Manuel Francisco aceitou o apelido sem se queixar e o resto da vida preferiu esse nome ao de batismo.
Aos 9 anos, começou a jogar bola com os miúdos do bairro. sem chuteira num campo de terra batida do lado da fábrica. E desde o primeiro dia aconteceu uma coisa que o bairro não entendeu. O Garrincha com aquelas pern torta, com aquela anca mal colocada, com aquela perna mais curta, driblava igual a ninguém na zona. Pá, os Os adversários não conseguiam antecipar os movimentos dele porque as pernas não se mexiam igual às de um jogador normal.
Os drible dele eram fisicamente impossíveis. Passava por defesa de 15 anos quando tinha nove. passava por defesa adulto quando tinha 14. Aos 14 anos, entrou para trabalhar na fábrica América Fabril como carregador, tal como o pai. Trabalhava 12 horas por dia, auferia um salário mínimo e aos domingos jogava com a equipa da fábrica contra outras equipas de operário da região.
Nesse jogo, o Garrincha já humilhava defesa de 25 anos, já viu? E o gerente da fábrica, homem mais velho, começaram a viajar para Pau Grande nos domingo, só para o ver jogar. Mas na fábrica acontecia outra coisa, irmão. Uma coisa que a Maria Carolina suspeitava, mas nunca teve coragem de confrontar. O pai Amaro, que trabalhava no mesmo barracão, começou a levar o Garrincha para o boteco depois do expediente desde os 14 anos, para comemorar, para festejar, para ensinar o miúdo a ser homem.
E aos 15 anos, o Garrincha já bebia cachaça toda a noite com o pai. Antes de fazer 16 anos, já era alcoólico funcional. Confirmaram três colegas de fábrica ano depois em entrevista privada com o seu biógrafo, o Rui Castro. O Garrincha começou a beber aos 14 e nunca mais parou. Aos 19 anos, em 1952, aconteceu o episódio que mudou a vida dele e o álcool que já estava dentro dele teve alguma coisa a ver.
Uma tarde de domingo, depois de um jogo contra o equipa de outra fábrica, o Garrincha estava a passear com três amigos pela avenida principal do Pau Grande. Tava meio embriagado, passou em frente de uma padaria. E na montra viu uma rapariga de 15 anos que vendia pão. Se chamava Nair Marques. Era magrinha, calada, religiosa, filha de um operário da mesma fábrica.
O Garrincha entrou, pediu um pão, fez uma piada e numa semana já estavam a namorar. Casaram três meses depois. O Garrincha tinha 20 anos, a Naer tinha 16 e a primeira filha nasceu 9 meses depois do casamento. Puseram o nome dela de Naer, igual ao da mãe. Esta filha, a primeira Nyer, é quem 20 anos depois ia ser a única que o ia amar sem condição, estás a ver? A filha que durante ano foi o seu sustento, a filha que ia morrer destroçada numa rua do Rio de Janeiro aos 32 anos, em circunstância que a família oficial escondeu durante
década. Mas ainda falta muito. Continua comigo, irmão. Em 1953, aos 20 anos, o Garrincha fez o teste que mudou a história do futebol brasileiro. O Botafogo de futebol e regatas, uma das grandes equipas do Rio, organizou uma peneira para descobrir talento do interior. O Garrincha foi convidado por um olheiro que tinha visto ele em pau Grande.
Viajou para o Rio num sábado de manhã. Chegou ao estádio General Severiano, sede do Botafogo, vestido com umas calças remendadas, uma camisola da fábrica e uma chuteira emprestada que lhe ficava grande. Tava de ressaca, pá. A noite anterior tinha bebido com o pai até às 3 horas da manhã. No teste, os dirigentes do Botafogo puseram ele para marcar o Newton Santos, o lateral esquerdo da seleção brasileira, bicampeão estadual com o O Botafogo, considerado naquele momento o melhor defesa do futebol sul-americano. O Newton Santos olhou para o
Garrincha, tal como nós olhamos para um mendigo. O Garrincha sorriu-lhe e começou a jogar. O que aconteceu nos 30 minutos seguintes ficou registado numa entrevista que o Newton Santos deu em 1994 para o jornal O Globo. As palavras dele literais foram: “Aquele miúdo fez comigo umas coisas que nunca antes na vida me tinham feito.
Passava duas vezes, deixava-me parado, fazia-me cair e depois ria sem maldade, tal como uma criança. Depois do teste, fui falar com o técnico e disse: “Se o contratarem, contratem-no do meu lado.” Porque se ele jogar contra mim em jogo oficial, aposento-me. O Botafogo contratou o Garrincha nessa mesma tarde.
Deu-lhe o equivalente a cinco salário da fábrica de adiantamento. Pediram-lhe para se mudar para o Rio. Mas antes de assinar, o director médico do clube, o segundo médico que aparece nesta história, o Dr. Nova Monteiro, mandou-o fazer um check-up completo. Era protocolo, estás a ver? Todo jogador novo do Botafogo passava pelo médico antes de assinar. O Dr.
Nova Monteiro examinou o Garrincha durante duas horas, fez uma radiografia, mediu as pernas, olhou para a coluna e às 5 da tarde daquele sábado de 53 terminou o exame. Chamou o presidente do Botafogo no consultório dele e falou-lhe exatamente a mesma frase que o Dr. Aristides Carvalho tinha falado para Maria Carolina 16 anos antes em Petrópolis. falou palavra por palavra.
Este miúdo não chega aos 40 anos e se chegar não vai conseguir andar direito. Tem uma luxação congénita que nenhum jogador profissional deveria ter. Se ele jogar quatro ou 5 anos com esta condição, vai destruir a anca para sempre. O presidente do Botafogo escutou, agradeceu ao médico e deu uma única instrução.
Pediu-lhe para não dizer nada ao Garrincha, que não contasse o diagnóstico, que assinasse o formulário médico como apto para competir. E o Dr. Nova Monteiro assinou e o Garrincha jogou. E durante os 20 anos seguintes, sem o saber, cada movimento que fazia em cada jogo, estava a destruir silenciosamente o que o médico tinha avisado, não é? O Garrinche aguentou esta dor com a única remédio que a pobreza e a traição dos gajos tinham-no ensinado a usar desde os 14 anos.
Cachaça, três garrafas por dia, quatro garrafas por dia, cinco garrafas por dia nos últimos anos de carreira. Mas a dor física não foi o pior, percebe? Nem de perto. O pior da vida do Garrincha iniciou-se em 1955, 2 anos depois de assinar pelo Botafogo, quando um casal jovem chegou perto dele numa concentração da equipa. Falaram que eram de pau grande, disseram que queriam conversar em privado e pediram, com um papel manuscrito na mão, que ele assinasse um documento que ia mudar a vida dele para sempre.
O Garrincha assinou sem ler, pá. E a partir dessa assinatura, durante 28 anos, teve uma pessoa na sua família que se tornou dona de cada cêntimo que ele gerava. E essa pessoa hoje está enterrada no mesmo cemitério que ele. Mas antes viveu 32 mais anos que o Garrincha. E 20 desses anos passou aproveitando do dinheiro que o anjo torto de pau grande tinha gerado enquanto morria de pobreza.
A gente vai saber quem foi, mas ainda não, irmão. Antes precisamos de falar da Nair, a filha, a primeira, a que o amou até ao final, a que morreu destroçada 20 minutos depois de atravessar uma avenida do Rio em 1986. E a verdade sobre aquela noite, a verdade que a família oficial escondeu durante 40 anos, é a primeira coisa que precisa de saber.
No Botafogo, entre 53 e 57, o Garrincha explodiu, marcou um golo impossível. fez drible que ficaram filmado e ainda hoje são estudados em escola de futebol do mundo inteiro. Ganhou dois campeonato carioca com o Botafogo. Apareceu numa revista, virou ídolo do bairro de São João Batista e em 1958, aos 24 anos, foi convocado para a seleção brasileira para o Mundial da Suécia.
Nesse Mundial aconteceram duas coisas que o mundo lembra-se, não é? A primeira que o O Brasil venceu a primeira Copa do Mundo. A segunda que um miúdo de 17 anos chamado Pelé apareceu ao mundo e fez golo que a imprensa europeia demorou o ano para digerir. Mas tem uma terceira coisa que o mundo se lembra menos.
O Garrincha disputou cinco partidas nessa copa e em cada uma das cinco foi escolhido entre os três melhores do jogo. A final contra a Suécia foi a consagração mundial do mesmo. E num jantar privado em Estocolmo, depois de ganhar a copa, o Garrincha conheceu uma empregada sueca de 21 ano que ia marcar o resto da vida dele.
A empregada chamava-se Ula Lemos. E s meses depois desse jantar, em maio de 1959, a Ula Lemos deu à luz uma menina num hospital público de Estoco. Uma menina com a pele morena clara, com os olhos escuro e com um semelhante inconfundível com o jogador brasileiro que tinha passeado pela Europa no verão anterior. A filha sueca do Garrincha existe, irmão.
Hoje tem 67 anos, vive em Estoco, trabalhou como professora numa escola secundária e durante 40 anos tentou que a família oficial Garrincha reconhecesse ela. Nunca conseguiu, pá. A família oficial bloqueou cada um dos pedidos dela, cada exame de ADN, cada pedido de sobrenome. A filha sueca do Garrincha tem hoje a prova científica de que o pai dela foi o melhor driblador brasileiro da história, mas nenhum tribunal brasileiro permitiu nunca que ela pusesse esse apelido no documento de identidade, por bloqueio legal das outra filha, por medo dela reclamara a
parte da herança, por uma decisão familiar que as filha oficial tomaram em 1985. do anos depois da morte do Garrincha e que respeitaram até hoje. Mas ainda falta. Regressa ao Brasil, 1962, Mundial do Chile. E para consagração definitiva de um génio que jogava com dor crónica e ninguém no Brasil soube nunca.
Na Taça do Chile de 62, o Pelé lesionou-se no segundo jogo contra a Checoslováquia. O Brasil ficou sem o seu craque e a imprensa brasileira deu o Mundial por perdido antes dos quartos de final. Mas aconteceu uma coisa que ninguém esperava, já viram? O Garrincha pegou na equipa, carregou sozinho, marcou um golo impossível contra a Inglaterra em Vinha Delmar, deu assistência cada vez que a equipa precisou e levou o Brasil à final contra a Checoslováquia, onde marcou dois golo e deixou a equipa ganhar de 3 a 1 a final.
O Garrincha foi eleito o melhor jogador da taça, recebeu a bota de ouro de goleador e regressou ao Brasil como herói nacional. A malta esperou por ele no aeroporto, carregaram-no no zombro. E nessa noite, num jantar oficial do governo brasileiro, no Rio de Janeiro, aconteceu uma coisa que só cinco pessoa no mundo conhecem, pá.
O terceiro médico desta história, um especialista em ortopedia chamado Dr. Hilton Goslin, médico oficial da seleção brasileira durante essa copa, pediu para falar com o Garrincha em particular e falou para ele cara a cara num quarto do Hotel Glória, uma frase que o Garrinch escutou calado, sem reagir, sem compreender direito. O Dr.
Goslin disse: “Mané, depois de hoje já não deve jogar futebol profissional. O seu quadril tá destruído. Se continuar a jogar, vai terminar numa cadeira de rodas antes dos 50 anos. O Garrinch agradeceu ao médico, saiu do quarto, desceu para o bar do hotel e bebeu até às 4 da madrugada sozinho, sem falar com ninguém.
E no dia seguinte voou de volta para o Rio com a seleção e na segunda-feira seguinte apresentou-se no treino do Botafogo, tal como o Dr. Goslin nunca tivesse falado nada com ele. Três médico, três diagnóstico, três aviso, irmão. E o Garrincha durante 20 anos continuou a jogar, porque deixar de jogar significava voltar a pau grande, voltar à fábrica, voltar à pobreza, voltar para o lugar de onde tinha escapado aos 20 anos.
E por nalgum canto da cabeça, o Garrincha sabia que se parasse, se deixasse o futebol, a única coisa que lhe ia sobrar era o corpo destruído, os filhos que ele não via nunca, as mulheres que iam embora uma atrás da outra e a cachaça que já era a única amiga dele desde os 14. 20 de Janeiro de 1983, quinta-feira, 2 da madrugada.
Hospital de Bom Sucesso, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Uma enfermaria comum de quatro cama, sem ar condicionado, sem televisão, sem telefone. Na cama três, do lado da janela, estava um tipo magro, com a pele amarela, com os olhos fundos, com o pulmão encharcado, ligado num velho respirador que a enfermeira de de serviço tinha ligado 3 horas antes.
Pesava 52 kg, tinha 49 anos e chamava-se Manuel Francisco dos Santos. Naquela noite, na sala de espera do hospital, não estava ninguém, pá. Nenhum filho, nenhuma esposa, nenhum dirigente do Botafogo, nenhuma autoridade da CBF, nenhum amigo, nenhum jornalista. Tinha a enfermeira de serviço, a Dra. Maria Luía, interno de medicina interna de 31 ano e um maqueiro chamado João Batista. Era só isso.
2:22 da madrugada, o Manuel Francisco dos Santos faleceu. A A Dra. Maria Luía atestou o óbito. Falência múltipla de órgão provocada por cirrose hepática alcoólica terminal. O maqueiro João Batista cobriu o corpo com um lençol branco e a médica saiu da enfermaria para procurar o telefone para avisar a família.
O primeiro telefone que a médica marcou foi o da Vanderleia Vieira, última mulher do Garrincha, que vivia num apartamento alugado em Olária, a 15 km do hospital. A Vanderleia não atendeu. Eram 2:30 da madrugada. A médica deixou tocar 20 vez, depois desligou, marcou outro número. Era o do Pacato, irmão mais velho do Garrincha, que vivia em Pau Grande. O Pacato também não atendeu.
A médica tentou três vezes a mais, nada. Depois marcou o número da filha mais velha, Nair Marques dos Santos, que vivia num bairro popular do Rio chamado Vila Kennedy. E essa filha atendeu. A Nair tinha 29 anos nessa madrugada. trabalhava como cozinheira num restaurante do centro do Rio, serviu o telefone de pijama, ouviu a médica explicar em 30 segundos o que tinha acontecido e depois fez uma coisa que a dra.
A Maria Luía nunca se esqueceu, já viu? A Nair não chorou, não gritou, não perguntou os pormenores, só disse à doutora uma frase curta. A frase foi: “Já vou, mas eu chego em 3 horas. Não tenho dinheiro para táxi. A Ner chegou ao hospital de bom sucesso, 5h40 da madrugada. pegou três autocarros para lá chegar de Vila Kennedy.
Entrou na enfermaria onde estava o corpo do pai, pediu autorização pro maqueiro para destapar o lençol e ficou de pé sem se mexer, olhando para o Manuel Francisco dos Santos durante exatamente 47 minuto, sem lhe tocar, sem chorar ainda, sem falar com ninguém. 6h27 da manhã, a Nair chegou perto da enfermeira de serviço e pediu para fazer uma ligação local.
A enfermeira deixou ela usar o telefone. A Naer marcou um número, falou com alguém durante 20 segundos, desligou e voltou a enfermaria onde estava o corpo do pai. 9 da manhã chegaram ao hospital os outros familiar. A Vanderleia chegou primeiro com o cabelo despenteado, com cheiro a álcool, com os olhos vermelhos. Depois chegou o pacato.
Depois chegaram três das filh da manhã, os jornalistas que tinham tomados conhecimento pelo rádio começaram a aparecer à porta do hospital de bom sucesso para reportar a morte do bicampeão do mundo. Quando os Os jornalistas perguntaram quem tinha ficado com o Garrincha nos últimos dia, cada um dos familiares deu uma versão diferente.
A Vanderleia disse que ela tinha ficado. O pacato falou que ele tinha ficado. As filhas oficial falaram que se tinham revezado. A verdade, segundo os registos do hospital de bom sucesso, que um jornalista da Veja conseguiu em 1998 era outra. Nos últimos 17 dias de vida, o Garrincha teve exactamente quatro visita, pá.
Três foram da enfermeira chefe do andar, que levava comida da casa dela, porque a do hospital era horrível, e uma foi da filha Nair, na tarde do dia 13 de janeiro, s dias antes da morte. Mas ninguém foi ao hospital de bom sucesso ver o bicampeão do mundo morrer. Nem esposa, nem irmão, nem filho, nem dirigente, nem amigo.
E a pergunta que durante 42 anos ninguém teve coragem de fazer é esta, está a ver? Por que a filha Neyer, a única que ia ver ele, foi só uma vez em 17 dias? A resposta, a verdadeira, é a parte mais dolorosa desta história toda. A Nair não foi mais ao hospital porque a família oficial Garrincha proibiu. Concretamente, a esposa Vanderleia e duas das filhas oficial falaram para Nair numa chamada telefónica do 14 de janeiro que não era bem-vinda no hospital de bom sucesso.
Falaram que a presença dela incomodava o pai. Falaram que se ela continuasse a ir iam chamar a polícia. Disseram que ela não fazia parte da família oficial porque a sua mãe, a primeira mulher, já estava divorciada desde 1965. Aer, nessa noite de 14 de Janeiro, depois da chamada, sentou-se na cama do O seu apartamento em Vila Kennedy e chorou durante 3 horas.
Trabalhava em turno dobrado no restaurante para sustentar os dois filhos pequenos. Não tinha dinheiro para enfrentar judicialmente a família oficial e obedeceu. Não voltou mais ao hospital. O pai dela morreu sozinho, irmão, sem ninguém que o amasse perto, sem ninguém que lhe pegasse na mão, sem nenhuma das 14 pessoa que transportava o apelido dele no documento.
E isso foi só o início do castigo da Nair, pá. Porque 3 anos e 2 meses após a morte do Garrincha, numa madrugada de Março de 1986, numa avenida do bairro do Bom Sucesso do Rio de Janeiro, a 200 m do hospital onde o pai tinha falecido, a Nair Marques dos Santos morreu atropelada por um carro que nunca parou, tinha 32 anos, estava indo a uma entrevista de emprego, estava com um envelope com o currículo na mão e a família oficial Garrincha, essa mesma família que a tinha excluído do hospital três anos antes, Esta mesma família que tinha bloqueado a
filha sueca durante ano, esta mesma família que tinha ficado com cada centavo da herança, não apareceu no velório da Nair, nem sequer mandou flor. A filha mais velha do bicampeão do mundo foi enterrada numa cova rasa do cemitério de São João Batista, sem lápide, sem nome completo, sem homenagem.
E a verdade sobre aquele atropelamento, a verdade que a família oficial conheceu, mas nunca denunciou, é esta, viu? O carro que matou o Ner não foi um acidente e o condutor do carro identificado por dois testemunha nessa noite era uma pessoa que a Nair conhecia, uma pessoa que tinha ameaçado ela por telefone três vezes durante as duas semanas anterior.
Uma pessoa que tinha-a avisado para parar de pedir parte da herança do Garrincha. Essa pessoa, segundo as testemunhas do bairro Bom Sucesso, era um homem. E segundo a descrição física das testemunhas, este homem parecia alguém que o Garrincha tinha tido na sua própria família a vida inteira. A polícia nunca investigou, a família oficial nunca denunciou.
E a Nair Marques dos Santos, a única filha que amou o bicampeão do mundo até ao final, hoje descansa numa cova rasa sem nome, enquanto a outra família do anjo torto continua a cobrar os royalties que a imagem dele gera no Brasil todos os anos. O tipo que estava a conduzir aquele carro em 1986 é a mesma pessoa que apareceu em 55 na concentração do Botafogo com um papel manuscrito que o Garrincha assinou sem ler.
A mesma pessoa que durante 28 anos administrou cada contrato, cada negócio, cada cêntimo do bicampeão do mundo. A mesma pessoa que em abril de 1969 deu a chave do carro ao Garrincha, sabendo que estava completamente embriagado e permitiu que nessa mesma noite o Garrincha atropelasse e matasse a mãe da Elsa Soares, a segunda mulher dele.
A mesma pessoa que hoje descansa no cemitério de São João Batista num mausoléu pago com o dinheiro do Garrincha, num jazigo familiar a 30 m da cova rasa, onde está enterrada a Anair. A gente vai saber quem é, irmão. A gente vai saber o que aconteceu naquela madrugada do primeiro de Abril de 1969 na estrada de Mangaratiba. A gente vai saber porque é que a mãe da Elsa Soares não devia morrer nessa noite e por morreu mesmo assim.
E vamos saber o dado mais nojento de todos. O que este gajo, o irmão do Garrincha, fez com os contratos do próprio irmão durante 28 anos seguidos, sem o bicampeão do mundo ficar a saber nunca. Para perceber quem traiu o Garrincha de dentro da própria família, precisamos de voltar para Pau Grande em 1955, 2 anos depois de ele ter assinado com o Botafogo. 2 anos depois do Dr.
Nova Monteiro assinar o relatório médico como apto para competir, sabendo que era mentira. E um ano depois do irmão mais velho dele, o Pacato, ficar sem trabalho na fábrica América Fabril por causa da uma briga com o capataz. O pacato se chamava, na realidade, António dos Santos. Era 4 anos mais velho que o Garrincha.
Tinha 30 anos em 55. Era o segundo dos irmãos homem da família e desde a infância tinha vivido na sombra do Manuel Francisco. Na escola primária, os professor comparavam, na fábrica, os capatás comparavam. No bairro, os vizinhos comparavam. O pacato era inteligente, mas não era talentoso. Era trabalhador, mas não era especial.
E desde os 12 anos, segundo o testemunho de três vizinhos de pau grande que o biógrafo dele recolheu nos anos 90, o pacato carregava um ressentimento silencioso contra o irmão mais pequeno que ninguém na família tinha coragem para confrontar. Quando Garrinch assinou com o Botafogo em 53, o Pacato foi o primeiro a visitá-lo no Rio.
Deu conselho, explicou como se deve desenrascar com os dirigente, sugeriu-lhe que assinasse todo o papel que pusessem à frente dele, porque segundo o pacato, advogado é coisa de ricos e nós somos pobres. O Garrincha, que mal sabia ler, agradeceu o irmão e seguiu o conselho. Durante os dois primeiros anos de carreira, o Garrincha assinava contrato sem compreender o que assinava, pá.
confiava nos dirigentes do clube, confiava nos advogados que lhe apresentavam, confiava no irmão. Em 1955, uma tarde de Março, o pacato apareceu numa concentração do Botafogo, no centro do general Severiano. Veio acompanhado de uma mulher jovem, alta, morena, que o Garrincha nunca tinha visto. Pediu para falar em particular, levou-o pro balneário vazio e entregou-lhe um papel manuscrito de quatro páginas.
falou pro Garrincha que era um contrato de representação, que ele, Pacato, ia ser o empresário pessoal dele a partir daquela data, que ia negociar os contratos do Botafogo, os contratos de publicidade, os jogo amigável e que a mulher que estava com ele era uma secretária que ia ajudar com o papel.
O Garrincha leu as três primeiras linha e deixou de ler. O pacato sorriu-lhe, deu-lhe um tapinha nas costas e falou-lhe, palavra por palavra, uma frase que o Garrincha recordou ano depois, numa entrevista privada com o seu primeiro biógrafo. O O Pacato disse: “Mané, irmão, isto aqui vai deixá-lo rico. Confia em mim. Sou da família. Eu nunca te vou roubar.
” O O Garrincha já assinou, viu? sem ler, sem advogado, sem testemunha do seu lado. E a partir dessa assinatura, durante os 28 anos seguintes, o pacato controlou cada cêntimo que o anjo torto de pau grande gerava. Cada contrato, cada publicidade, cada prémio, cada bonificação, o pacato assinava tudo, o pacato cobrava tudo.
E de cada R$ 100 que o Garrincha gerava, 60 ficavam numa conta em nome do irmão, 30 iam para uma segunda conta em nome da família e apenas 10 chegavam ao bolso do Garrincha. O esquema funcionou durante 28 anos sem que o Garrincha desconfiar, pá, porque o Garrincha sempre teve dinheiro no bolso. 10 em 100.
Isto era 10 vezes mais do que ganhava na fábrica. Era uma fortuna comparado com o grande pau. E o Garrincha, que nunca aprendeu a ler um extrato bancário, que nunca teve curiosidade de saber quanto é que o Botafogo pagava-lhe de verdade, que nunca contratou um advogado independente, viveu toda a carreira convencido de que ganhava bem, de que o irmão cuidava dele, de que a família o respeitava.
A realidade era outra, estás a ver? O Pacato comprou três casas em Petrópolis entre 50 e 6 e 62. O Pacato comprou um terreno em Mangaratiba em 64. O Pacato pôs os dois filhos num colégio particular do Rio em 66. E o Garrincha, entretanto, alugava uma casa modesta num bairro de classe média baixa do rio e mandava dinheiro magro para pau grande paraa mãe Maria Carolina não morrer de fome.
28 anos de roubo silencioso, irmão. E a única pessoa em toda a família que suspeitou alguma coisa durante estas três décadas foi uma mulher. Uma mulher que entrou na vida do Garrincha em 1962, dois meses depois do Mundial do Chile e que durante os 8 anos seguintes de relacionamento tentou fazer o anjo torto compreender que o irmão estava a destruir ele. Essa mulher era a Elsa Soares.
A Elsa Soares era cantora de samba. Tinha nasceu numa favela do Rio em 1930. Tinha 32 anos quando conheceu o Garrincha. tinha tido sete filhos antes dos 21 anos, perdido cinco por desnutrição e doença e tinha levantado uma carreira musical da pobreza mais extrema, com uma voz rouca, grave, única.
Em 62, quando conheceu Garrincha numa festa do Botafogo, a Elsa já era estrela da música popular brasileira. tinha um contrato discográfico, tinha um nome, tinha casa própria e tinha, principalmente uma malandragem de rua que o Garrincha nunca tinha encontrado numa mulher até àquele momento. O relacionamento começou em silêncio. O Garrincha continuava casado com a primeira Naer Marques.
Tinha cinco filhas com ela. A Elsa tinha a carreira própria e não queria escândalo. Durante 5 anos, entre os 62 e os 67, viveram um relacionamento clandestino que a imprensa brasileira descobriu em 66. O escândalo foi brutal, pá. O Brasil inteiro julgou a Elsa. Chamaram-lhe de destruidora de lares, acusaram-na de se aproveitar do bicampeão do mundo.
E o Garrincha, pressionado pela família oficial, pela CBF, pelos dirigentes do Botafogo, decidiu em 67 divorciar-se da Nair Marques e casar com a Elsa. Mas aconteceu uma coisa nesse divórcio que a imprensa nunca contou, já viu? A primeira Nair, a esposa que tinha aguentado 15 anos de traição em silêncio, não assinou o papel do divórcio por vontade própria.
Assinou depois de uma reunião privada com o Pacato, o irmão traidor, em março de 1967. Aquela reunião durou 2 horas. O pacato ofereceu a Nair uma pensão mensal de 20% dos rendimentos do Garrincha. Ofereceu a casa do pau grande, ofereceu o silêncio. Em troca, pediu-lhe para assinar o divórcio rápido e não discutir pela herança.
A Nair, esgotada, criando cinco filha pequena sozinha, aceitou e o pacato cumpriu a parte económica. Mandou 5 anos de pensão, depois deixou de mandar. E quando Anair cobrou em 1972, o Pacato respondeu por escrito a uma carta de três linha que dizia: “O acordo era verbal, não tenho qualquer obrigação. Não insiste se não vamos a tribunal e vai perder tudo.
” Anair perdeu a casa de pau grande em 1974 por não conseguir pagar o imposto. faleceu em 1991, alcoolizada num quarto alugado do bairro Vila Kennedy do Rio. A mesma Vila Kennedy onde a filha Ner, a mais velha, vivia com os dois netos e nunca recebeu mais um cêntimo da fortuna do bicampeão do mundo. Mas este pacto entre a Nair e o Pacato foi só o início, irmão, porque dois anos depois do casamento com a Elsa, em Março de 69, realizou-se a noite que o Brasil inteiro conheceu, a noite do acidente de Mangaratiba.
A noite em que o Garrincha matou a própria sogra, a mãe da Elsa Soares, dona Rosária Soares. E a verdade sobre aquela noite? O que três testemunha viram, mas a família oficial escondeu durante 56 anos, é o que vai saber agora. 31 de março de 1969, segunda-feira, 8 da noite. Mangaratiba, concelho litorânio, a sul do Rio de Janeiro, a 140 km da capital.
Numa casa de praia do Pacato, comprada com dinheiro do Garrincha, 5 anos antes, estava a decorrer um jantar em família. Tinha o pacato, tinha a mulher do pacato chamada Aurora, tinham os dois filhos do pacato, havia o Garrincha, havia a Elsa Soares e tinha a dona Rosária Soares, mãe da Elsa, de 61 anos, que tinha viajado do Rio nessa mesma tarde para passar uns dias com a filha.
O jantar começou com duas garrafas de cachaça. O pacato serviu a primeira. O Garrincha bebeu rápido. A Elsa reclamou, pediu ao Garrincha parar, mas o Garrincha continuou a beber. O pacato serviu a segunda garrafa 9:30, 11 da noite. O Garrincha estava completamente embriagado, cara. Não conseguia falar corretamente, mal conseguia andar.
E 11:20, depois de uma pequena discussão com a Elsa por causa de um comentário que o Garrincha fez sobre a mãe, a dona Rosária decidiu voltar para o Rio nessa mesma noite. Não queria passar a noite em casa do pacato com um genro bêbado. Pediu a alguém para levar ela até à rodoviária de Mangaratiba para apanhar o último autocarro para o Rio.
E aqui acontece o que durante 56 anos apenas três pessoas no mundo souberam exatamente, viu? O Pacato, que estava a ouvir a discussão da cozinha, saiu para o quintal e fez uma proposta pro Garrincha. Falou-lhe, palavra por palavra, segundo o testemunho que a Aurora deu-o a um jornalista em 1992, numa entrevista anónima publicada na revista Veja, Mané, leva-te a dona Rosária, mostra-lhe que és homem, que sabe conduzir, que não tem medo de nada. Vão respeitar-te mais.
O Garrincha, embriagado, ofendido pela discussão, querendo provar alguma coisa, aceitou. O pacato entregou-lhe a chave do carro da família, um Ford Galaxy modelo de 1967, sedan de quatro portas, cor branca, do pacato. A Elsa interveio, a Elsa gritou, a Elsa tentou tirar a chave do Garrincha.
O pacato segurou-a, falou para a Elsa. Segundo o mesmo testemunho da Aurora, deixe o seu marido. Ele é homem, sabe o que faz. A Dona Rosária subiu para o carro 11h40 da noite, o Garrincha no volante. A Dona Rosária no banco do carona. Saíram da casa de praia em direção da estação rodoviária que ficava a 22 km pela rodovia BR.
Um zero, um sentido rio. O que aconteceu nos 40 minutos seguintes, a polícia reconstruiu depois com três testemunhos independente. O Garrincha conduzia em ziguezague desde o primeiro quilómetro. Um motoqueiro que vinha em sentido contrário, viu ele atravessar a faixa central três vezes. Um camionista parado num posto de gasolina à saída de Mangaratiba viu-o passar a 90 à hora.
E um motorista que ia atrás do Garrincha durante 5 km declarou depois à polícia que o Ford Galaxy branco tinha quase batido no Guard Rio em duas curvas. 12:17 da noite, no qum 87 da BR, 101. Numa curva descendente, o Garrincha perdeu o controlo do carro. O Ford Galaxy Branco atravessou a faixa contrária, bateu de frente num camião carregado com barra de ferro que vinha em direção ao rio Mangaratiba. O impacto foi brutal, pá.
O carro deu duas voltas, ficou capotado contra o Guard Rail. O camionista saiu sem nada. O Garrincha, protegido pelo volante e pelo cinto de segurança do lado do condutor, sobreviveu com três costelas partidas e um corte na testa. A Dona Rosária Soares não estava de cinto, foi ejetada pelo para-brisas.
Morreu na hora, 61 ano, mãe da Elsa, sogra do bicampeão do mundo. A polícia chegou uma da madrugada. O Garrincha estava sentado do lado do carro com a cabeça entre os joelhos a chorar. A polícia fez um teste de alcolemia rudimentar nele. O Garrincha tinha uma taxa de álcool no sangue que em qualquer país do mundo, em qualquer época, teria significado prisão imediata.
No Brasil de 69 não existia a lei seca, não é? O Garrincha não foi detido, foi levado para o hospital de Mangaratiba para cuidar da costela e no dia seguinte teve alta sem acusação. Mas a verdade sobre aquela noite não acaba aí, irmão, porque dois anos depois, em 1971, a Aurora, a esposa do pacato, contou em particular para Elsa Soares uma coisa que mudou tudo.
A Aurora contou à Elsa que o pacato tinha planeado o acidente. Não o resultado exato, mas a condição, sim. A Aurora explicou à Elsa. que o Pacato sabia perfeitamente que o Garrincha estava demasiado bêbado para conduzir, que sabia que o carro que entregou-lhe tinha os travões em mau estado, conhecido pela família tinha duas semana, que sabia que a estrada BR, 101 naquele troço, era perigosa por causa das curvas descendente e que quando insistiu para o Garrincha conduzir, sabia que alguma coisa de mal ia acontecer? A pergunta que a Elsa fez à
Aurora naquela noite de 71, palavra por palavra, foi esta: por o pacato queria que acontecesse alguma coisa? A Aurora respondeu com duas frases. As duas frases a Elsa Soares repetiu ano depois, em 1995, numa entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, sem mencionar o Pacato pelo nome por medo da família.
As duas frases eram: “O Pacato queria que o Garrincha ficasse comigo e queria que a minha família me empurrasse para o deixar. O motivo era frio, estás a ver? Calculado, económico.” O Pacato sabia que se dona Rosária passasse tempo com a Elsa e o Garrincha, a Elsa ia começar a desconfiar do maneio financeiro do cunhado.
A Dona Rosária era uma mulher mais velha, mais esperta. Tinha trabalhado toda a vida com número. Vendia peixe no mercado público do Rio desde os 15 anos. sabia contar, sabia detetar quando alguém roubava e nas duas visitas que tinha feito a casa do Garrincha em 69, tinha começado a fazer pergunta à Elsa sobre as contas bancária, sobre quem assinava os contratos, sobre por o Garrincha tinha um salário mensal fixo quando deveria ter rendimento variável enorme.
Dona Rosária tinha falado paraa Elsa, segundo a Aurora, uma frase três semanas antes do acidente. A frase era: “Filha, este irmão do seu marido está a roubá-lo e se não se meter, vão roubar-lhe também”. O Pacato escutou aquela conversa por intermédio de uma empregada doméstica que ele tinha posto na casa do Garrincha três meses antes.
A empregada reportava cada conversa importante e o pacato, na ameaça da dona Rosária ajudar a Elsa a investigar, decidiu que a mãe da Elsa não podia continuar a entrar na casa do irmão e montou o jantar de Mangaratiba sabendo o que ia acontecer. Não esperava a morte, esperava um susto. Esperava que a dona Rosária se assustasse e não voltasse, mas o resultado foi pior, pá.
E o Pacato aceitou sem culpa, sem remorsos. Mas a traição do Pacato não terminou com o acidente de Mangaratiba, já viu? Porque depois da morte da dona Rosária, a Elsa Soares entrou numa depressão profunda. Afastou-se do Garrincha durante seis meses, regressou em 1970, mas o relacionamento nunca mais foi o mesmo.
O Garrincha começou a beber mais, começou a faltar aos treinos. O Botafogo dispensou-o em 69 e entre 70 e 74, o Garrincha passou por equipa cada vez menor. Corinthians, Atlético Júnior de Barranquilha na Colômbia, Olaria no Rio, até terminar em 1972 jogando amigável em estádio de bairro por 20 à noite. E em cada um desses anos de queda, o Pacato continuou a cobrar, continuou a assinar contrato pelo irmão, continuou a ficar com 60% de tudo.
E quando Garrincha entrou na fase final da carreira, em 1975, praticamente retirado do futebol, sem dinheiro, separando-se da Elsa, o Pacato fez uma coisa que durante o ano ninguém soube, pá. O Pacato assinou com a assinatura falsificada do Garrincha, um contrato de sessão de direito de imagem perpétuo para uma empresa de marketing desportivo do Rio de Janeiro.
Um contrato que cedia o direito de explorar comercialmente a imagem, o nome e o legado de Manuel Francisco dos Santos. durante 70 anos depois da sua morte, em troca de um pagamento único de 50.000 que o Pacato cobrou numa conta em nome dele que o Garrincha nunca viu. Esse contrato existe, irmão, está arquivado num cartório do Rio de Janeiro.
Um jornalista da Globo descobriu-o em 1997, 14 anos depois da morte do Garrincha, quando investigava porque é que a imagem do bicampeão do mundo continuava a aparecer em propaganda sem a família oficial cobrar nada. O jornalista nunca publicou a matéria. A empresa de marketing ameaçou-o com processo.
O jornalista morreu de enfarte em 2003. A matéria desapareceu e os direitos de imagem do Garrincha até ao dia de hoje, em maio de 2026, continuam a ser explorados comercialmente por essa mesma empresa que renovou o contrato com a família oficial em 2015 através de um pagamento anual irrisório.
E o pacato morreu rico, cara. Faleceu em 2007. aos 78 anos, numa clínica privada de Petrópolis, rodeado pela esposa Aurora, pelos dois filhos profissional e pela neta favorita. Enterraram-no no cemitério de São João Batista, num mausoléu familiar a 30 m da cova rasa, onde se encontrava sepultada a Nair, a filha do Garrincha, que tinha mandado atropelar 21 ano antes.
E durante o velório, nenhum jornalista perguntou sobre a relação entre o pacato e a morte do bicampeão do mundo. Nenhum dirigente do Botafogo perguntou sobre os contratos. Ninguém no Brasil ligou as peças. O pacato foi sepultado como irmão fiel, como empresário honesto, como patriota familiar. Enquanto a verdade descansava arquivada num cartório em caixa de papel velho, à espera que alguém tenha coragem de abrir. Mas há mais, irmão.
Uma coisa mais escura ainda. Uma coisa que liga os três médicos do início daquela história, os 14 filhos sem reconhecer, a aguardente desde os 14 anos e uma decisão que o Garrincha tomou numa madrugada de Março de 1981, 2 anos antes de morrer, no apartamento que alugava no bairro da Olaria. Uma decisão que durante 45 anos ninguém na A sua família teve a coragem de contar em público.
E quando souber vai compreender finalmente porque é que o Garrincha morreu sozinho, porque nenhum dos 14 filhos foi despedir-se e por, na verdade, o anjo torto de pau grande já estava morto por dentro muito antes dessa madrugada, de janeiro de 1983, no hospital do Bom Sucesso. Para perceber o que aconteceu na madrugada de Março de 1981 no apartamento da Olária, a gente precisa de voltar ao início, viu? voltar para aquela clínica de Petrópolis de 1937, quando o Dr.
Aristedes Carvalho falou a Maria Carolina que o seu filho não ia chegar aos 40 anos e que se chegasse não ia conseguir andar direito. Voltar pro consultório do Botafogo de 53, quando o Dr. Nova Monteiro falou a mesma coisa ao presidente do clube e pediram para ele mentir e assinar. voltar pro Hotel Glória do Rio de 62, quando o Dr.
Hilton Goslin, depois da Taça do Chile, pediu ao Garrincha em particular que deixasse o futebol ou ia acabar numa cadeira de rodas. Os três médicos viram a mesma coisa, pá. Uma luxação congénita da anca, uma coluna vertebral desviada, uma perna 6 cm mais curta que a outra. Uma condição clínica que na linguagem médica de hoje chama-se displasia do desenvolvimento da anca com escoliose estrutural secundária e diferença grave de comprimento dos membros inferior.
Uma condição que com a A medicina moderna opera-se nos primeiros anos de vida e corrige-se por completo, mas que em 1937 em Pau Grande na pobreza absoluta da família de um carregador de fábrica alcoólico era impossível de tratar. E em 53, quando já tinha recurso médico para intervir, o Botafogo optou por não o fazer. E em 62, quando ainda tinha tempo, a CBF optou por não fazer.
Porque cada operação do Garrincha significava do anos fora do campo, do anos sem Mundial, 2 anos sem bilheteira, 2 anos sem publicidade, 2 anos de prejuízo milionário para três cara que se enriqueciam à custa de um corpo destruído que ninguém queria consertar. O Garrincha viveu 50 anos de vida com dor crónica física que nenhum ser humano normal aguentaria sem medicação constante.
Irmão, a medicação que a pobreza, a fábrica América Fabril, o pai alcoólico e a traição dos gajo grande tinham-lhe ensinado a usar desde os 14 anos, era uma só aguardente. E durante 35 anos, o Garrincha bebeu não por gosto, não por vício, não por fraqueza de carácter. Bebeu porque o anca direita doía todas as manhãs quando ele levantava-se.
Porque a coluna ardia toda a tarde depois do treino. Porque a perna esquerda mais curta mandava para o cérebro sinal de dor cada vez que ele suportava o peso do corpo. E porque nenhum médico ofereceu-lhe uma alternativa, o Garrincha não era alcoólico por opção, viu? era alcoólico por sentença médica herdada no nascimento.
E essa é a verdade que durante 42 anos ninguém no Brasil teve coragem de contar, porque admitir significava responsabilizar o Botafogo, a CBF e a medicina desportiva brasileira da época pela morte do bicampeão do mundo. Significava reconhecer que o anjo torto de pau grande não se matou com cachaça. Mataram-no três cara grande que sabiam o que ele tinha e escolheram explorar mesmo assim.
Vamos pro apartamento da Olaria. Março de 1981, quase 2 anos antes da morte oficial. Nessa altura, o Garrincha vivia com a Vanderleia Vieira, última companheira dele, num apartamento de três divisões no bairro da Olaria do Rio de Janeiro. Olaria era um bairro popular, de classe trabalhadora, sem luxo. O apartamento era modesto, pá.
um quarto, uma sala, uma pequena cozinha, uma casa de banho. O renda a Vanderleia pagava com o salário de uma empregada doméstica porque o Garrincha em 1981 não recebia um tostão da fortuna que durante 28 anos o Pacato tinha administrado em nome dele. A Vanderleia tinha 32 anos, era 20 anos mais nova que o Garrincha.
tinha-o conhecido em 1976 numa festa de aniversário de um ex-jogador do Botafogo e tinha-se apaixonado por ele próprio, estando ele já destruído pelo álcool. A Vanderleia não procurava o bicampeão do mundo, já viu? Procurava o homem. E durante os 7 anos que ficaram juntos, foi a única pessoa que cuidou do Garrincha por amor de verdade, sem esperar nada de económico em troca.
Em março de 1981, o Garrincha tinha 47 anos, pesava 53 kg. os mesmos que pesava quando fez o teste do Botafogo 28 ano antes. Bebia cinco garrafas de cachaça por dia. Não saía do apartamento de Olaria a não ser para comprar mais álcool num bar da esquina. Não via os filhos há mês. Não falava com o Pacato, que tinha desaparecido da sua vida depois do divórcio com a Elsa em 1977.
Não tinha amigo, não tinha dinheiro, não não tinha nada, irmão. Só a Vanderleia. À noite de Março de 1981, terça-feira, a Vanderleia saiu do apartamento 10 da noite para visitar uma irmã que vivia a 3 km no bairro da Penha. avisou o garrincha, deixou o jantar pronto para ele, disse que voltava uma da madrugada e foi.
O Garrincha ficou sozinho no apartamento, comeu três garfadas do jantar que a Vanderleia tinha deixado. Bebeu uma garrafa inteira de cachaça em 40 minutos e 11 da noite sentou-se na sala com um velho caderno escolar que ele tinha guardado numa gaveta e começou a escrever. Ess caderno existe, pá. Tem 42 páginas. 15 dessas páginas estão escritas com letra tremida, manchada de aguardente, com tinta azul, que o tempo tornou-se roxa nas partes mais velha.
A Vanderleia guardou-o durante ano, doou ele para um arquivo desportivo do Rio de Janeiro em 1995, com a condição de que não fosse publicado até 25 anos depois da morte dela. A Vanderleia morreu em 2018. O arquivo, segundo um memorando interno vazado para um jornalista cultural da Folha de São Paulo, em 2023 tem uma carta, lista, desenho e uma única página que está dobrada em quatro partes e guardada no envelope fechado dentro do caderno.
Essa página dobrada é daquela noite de 17 de março de 1981. O que o Garrincha escreveu naquela página dobrada, segundo o jornalista da Folha de São Paulo, que teve acesso ao envelope em março de 2024, com a condição de não publicar o texto completo, eram quatro linha curta, quatro linha escritas com a caligrafia de um homem que mal terminou a primária, com erro ortográfico com a letra inclinada para um dos lados por causa do efeito do álcool.
Quatro linha que o jornalista transcreveu numa anotação privada que circulou entre cinco colega e um investigador desportivo em 24. As quatro linha, sem os erros ortográficos original diziam o seguinte: primeira linha: “Hoje acabou a cachaça, acabou a jogada, acabou o barulho. Segunda linha, peço perdão ao Neyer por não ter conseguiu cuidar dela tal como ela cuidou de mim. Terceira linha.
Prós 14 que carregam o meu nome, não guardo o rancor por não me vir visitar. Eu também não fui ver o meu quando morreu. Quarta linha. Para a mulher sueca e para a filha dela. Perdão, não soube ser homem quando precisava de o ser. 23h20 da noite do 17 de Março, o Garrincha guardou o caderno na gaveta, entrou na casa de banho e durante os 50 minutos seguintes fez uma coisa que ninguém soube durante quase uma década até a Vanderleia contar em 1990 pro biógrafo Rui Castro sob condição de sigilo absoluto.
O Garrincha tentou acabar com a sua própria vida, pá. Fê-lo com uma faca de cozinha velha. Não foi impulsivo, foi devagar, foi resignado. Foi a decisão de um homem que carregava 35 anos, aguentando dores físicas crónica, traição familiar, abandono dos filhos e agora a solidão final de um apartamento arrendado num bairro que o bicampeão do mundo nunca tinha imaginado pisar.
A Vanderleia chegou ao apartamento 12:22 da madrugada do dia 18 de março. Entrou na casa de banho, achou o Garrincha atirado contra a parede, consciente, chorando, com expulso mal cortado, porque o gume da faca era velho demais e a mão dele tremia demasiado por causa da cachaça. A Vanderleia não chamou ambulância, pediu ajuda para um vizinho, médico de bairro, que veio com uma pasta e suturou o expulso no chão do banheiro.
O vizinho avisou a Vanderleia para não avisar a imprensa, nem a família oficial. falou para ela que se soubessem o Garrincha ia ficar humilhado para sempre. A Vanderleia obedeceu, cuidou do seu expulso durante a semana seguinte com ligadura que ela mesma comprava. Inventou uma história aos poucos amigos que perguntaram e durante o resto da vida do Garrincha, durante o ano e 10 meses que restaram para ele, a cicatriz daquela noite ficaram tapada pelas mangas compridas que a Vanderleia começou a comprar especialmente para ele. O Garrincha
nunca mais falou sobre aquela madrugada. A Vanderleia também não. E a família oficial Garrincha, os 14 filhos, o pacato, os advogado, os dirigente. Nunca souberam o que o anjo torto tinha tentado fazer na casa de banho de um apartamento arrendado em Olaria, enquanto todos eles estavam noutra parte do país, vivendo do seu dinheiro.
Mas o que a Vanderleia salvou naquela noite, o que o fio da faca velha não terminou, terminou a cirrose 25 meses depois, já viu? 20 de janeiro de 1983, numa cama do hospital de bom sucesso, sem que nenhum dos 14 filhos aparecesse para despedir-se, sem o Pacato aparecer, sem um dirigente do Botafogo se incomodar de visitá-lo, o Manuel Francisco dos Santos terminou o trabalho que o álcool tinha começado 35 anos antes num tasco de pau grande, ao lado de um pai que tinha-o envenenado devagar para não ficar sozinho no seu próprio vício. E sobra
a última peça, irmão. A filha sueca. A Ula Lemos tinha dado à luz a filha em 12 de de Maio de 1959 num hospital público de Estoco. A bebé pesou 3, 200 g. Tinha a pele morena clara, os olhos escuros e um parecido inconfundível com o jogador brasileiro que a mãe tinha conhecido no verão anterior durante o Mundial da Suécia.
A Ula Lemos pôs na menina um nome sueco que a família oficial nunca ia pronunciar. Botou Aneca. Anea Lemos cresceu em Estocolmo sabendo desde muito cedo quem era o pai biológico dela. A mãe UA com descrição, mas sem esconder explicou-lhe aos se anos que o pai era jogador de futebol famoso do outro lado do mundo. Mostrou foto de revista, explicou que tinha outra família, pediu-lhe para não contar nunca aquilo na escola e a Aneca durante toda a infância e juventude guardou o segredo.
Em 1984, um ano depois da morte do Garrincha, a aneca Lemos tinha 25 anos. trabalhava como professora numa escola primária de Estocidiu que era tempo de procurar a família brasileira do pai. escreveu uma carta em inglês, enviou para o endereço do cemitério de São João Batista, onde o Garrincha estava sepultado.
A carta chegou, foi recebida por um dos administrador do cemitério e o administrador, que conhecia a família oficial Garrincha, passou a carta ao Pacato. O pacato leu a carta e respondeu: “A resposta do pacato paraa aneca lemos, datada de julho de 1984, dizia textualmente numa tradução pro inglês que um amigo do cemitério fez de graça.
Cara senhora, meu irmão Manuel não teve qualquer filho fora do Brasil. Peço-lhe que não escreva mais nesse endereço. Se insistir, vamos ter de tomar providências legais.” Atenciosamente, António dos Santos, irmão do Senhor Manuel, a Aneca Lemos voltou a escrever, desta vez com cópia autenticada da certidão de nascimento dela, onde constava o nome Aneca Garrincha Lemos.
A mãe UA em 59, tinha registado a bebé no registo civil sueco, usando o apelido do pai biológico. Era um registo válido na Suécia, mas não no Brasil. E o Pacato voltou a responder, desta vez com um advogado do Rio, ameaçando com um processo por difamação, se a Aneca tentasse contactar de novo a família. A ANECA desistiu durante 10 anos, não voltou a tentar.
Até que em 1994 a ciência médica avançou, já viu? apareceram os exames de ADN comercial e a Anea Lemos, agora com 35 anos, decidiu pedir um exame de ADN apóstumo. Precisava de uma amostra do cadáver do Garrincha. Pediu pela via judicial num tribunal de família do Rio de Janeiro. A família oficial Garrincha, chefeada pelo Pacato, bloqueou o pedido durante 6 anos.
recorreram três vezes, contrataram advogado, pagaram a um perito e em 2000, após 6 anos de processo, o tribunal aceitou fazer o exame. O resultado foi conclusivo, pá. A Aneca Lemos era filha biológica do Manuel Francisco dos Santos. Probabilidade de paternidade, 99,99%. A justiça brasileira recebeu o resultado, mas recusou dar-lhe o apelido legal.
O argumento jurídico da família oficial apresentado pelos advogados deles foi que o prazo para reclamar a paternidade tinha prescrito, porque a ANECA tinha 41 ano no momento da sentença e a lei brasileira da época dava 25 anos como limite. Aneca recorreu, perdeu de novo, recorreu de novo, perdeu mais uma vez. E até ao dia de hoje, em maio de 2026, a Aneca Garrincha Lemos, 66 anos, professora reformada, vive num apartamento modesto do centro de Estoco, com a prova científica de que o seu pai foi o anjo torto de pau grande, sem conseguir pôr
esse apelido no passaporte, sem receber um cêntimo dos royalties que a imagem do Garrincha continua a gerar todos os anos no Brasil, e sem ter conseguido nunca visitar o túmulo do pai no Rio de Janeiro, porque a família oficial bloqueou até isso. Anea tem uma filha, irmão, chama-se Lina, de 28 anos, trabalha como jornalista desportiva num jornal de Estocolmo.
E desde 2020, a Lina está a escrever em silêncio um livro sobre o avô que ela nunca conheceu. O livro, segundo informação vazada da editora dela em 2024, vai ser publicado em Sueco em 2027, vai ter 350 página e vai ter um título que já circula em particular entre os editor europeu. O título traduzido pro português vai ser o anjo torto que três médicos venderam.
Essa não é a história de um jogador alcoólico que se matou com cachaça, irmão. É a história de um tipo com dor crónica desde o nascimento que três médicos diagnosticaram corretamente e três rapazes escolheram explorar do mesmo jeito. É a história de um génio do drible que gerou milhão para o Botafogo, para a CBF, para uma empresa de marketing desportivo e nunca recebeu um tostão de verdade porque o próprio irmão roubou dele durante 28 anos.
É a história de um pai de 14 filhos que apenas recebeu amor de verdade de dois, estás a ver? Uma filha que morreu atropelada numa rua do rio e uma filha sueca a quem nunca permitiram colocar o apelido no documento. É a história de um tipo que no dia 28 de outubro de 1933 nasceu com três condição física que em qualquer sistema de saúde decente do mundo teriam sido operada nos primeiros 5 anos de vida.
que ninguém operou, que um pai alcoólico começou a medicar com cachaça aos 14 anos num boteco de pau grande para não estar sozinho no próprio vício. que o Botafogo continuou medicando com aguardente durante 20 anos, porque parar o garrincha significava parar a bilheteira, que a CBF continuou medicando com a pressão de cinco Copas do Mundo, porque o anjo torto vendia mais camisa que qualquer outra figura do futebol brasileiro daquela época e que acabou por morrer sozinho, sem um cêntimo, sem que nenhum dos 14 filhos aparecer para se despedir numa cama de
um hospital público de bom sucesso aos 49 anos. Exatamente 9 anos depois dos 40 anos que o Dr. Aristides Carvalho tinha dado como limite máximo 46 ano antes. O O Dr. Aristides Carvalho, aliás, errou. Deu-lhe mais 9 anos do que ele esperava, porque a única coisa que manteve o Garrincha vivo entre os 40 e os os 49 anos não foi a medicina, não foi a família, não foram os amigos, foi a cachaça que lhe adormecia a dor o suficiente para ele aguentar um dia a mais.
Há milhão de garrincha no mundo, cara. Homem com dor física crónica que não conseguem pagar a operação que ia curá-los. Homem com dor emocional que a medicina convencional não sabe tratar. Homem com família que lhes roubam enquanto geram. Homem com gente grande que se enriquece em cima do corpo deles enquanto lhes fala que tiveram sorte em chegar até ali.
E homem que no final, sem saber porquê, sem saber quem culpar, acabam se adormecendo com a única coisa que tem na mão. Aguardente, comprimido, cerveja, cocaína, aposta, comida, sexo, qualquer coisa que adormeça a dor durante umas horas. Se é um deles, este vídeo é para você. Se conhece algum, ligue para ele hoje.
Se vê alguém na própria família adormecendo silenciosamente com alguma coisa que parece inofensiva, não julga, irmão. Pergunta o que dói nele. Pergunta porque é que ele bebe, porque fuma, porque aposta, porque come até passar mal. Pergunta que dor ele está medicando, que ninguém lhe ensinou a nomear.
Porque atrás de cada garrincha há três médico que viram e se calaram. Atrás de cada garrincha há um pacato que assina sem avisar. Atrás de cada garrincha tem uma Nairra atropelada numa rua da cidade e uma aneca à espera de um apelido em Estocolmo. Atrás de cada garrincha tem uma sentença desde o nascimento que o sistema de saúde, a família e o silêncio transformaram-se em prisão perpétua.
Subscreve o canal Estrelas Caídas. Partilha esse vídeo com aquela pessoa em quem pensou enquanto escutava a história. Liga para ela esta noite, antes que seja tarde, viu? Igual foi tarde para o Mané. Igual pode ser tarde para todos se a gente não tiver coragem de perguntar o que dói atrás do que parece fraqueza de carácter, vício ou má sorte.
Atrás do que parece má decisão, tem quase sempre uma sentença que alguém assinou no nosso nome sem nós sabermos muito tempo atrás.