O defesa argentino que entrou no O balneário do Pacaembu naquela tarde de Março de 1961 não sabia quem ia defrontar. Sabia que jogava contra o Santos. Sabia que o Santos era a melhor equipa do Brasil. Sabia que tinha um número 10 que os jornais chamavam-lhe rei. Mas não sabia quem era Pelé. Não a sério, não da forma que precisava de saber para sobreviver naquela noite.
Porque conhecer Pelé de nome e conhecer Pelé de perto eram duas coisas completamente diferentes. E a diferença entre uma e outra cabia num único lance. O lance que destruiu a carreira de Ramon Delgado em menos de 4 segundos e que fez 70.000 1 pessoas no Pacaembu ficarem de pé ao mesmo tempo num silêncio que durou quase 3 segundos antes de explodir no grito mais alto que aquele estádio ouviu nesse ano.
Delgado tinha 27 anos a 1,85 m de altura, 89 kg de músculo distribuídos num corpo que parecia ter sido montado para uma única função, derrubar atacantes. jogava no Rassing de Avelaneda. Era titular absoluto. Tinha fama na Argentina de ser o defesa que ninguém passava. Os jornais de Buenos Aires chamavam-lhe lamurala, o muro.
E até àquela noite de março ninguém tinha passado, ninguém. aconteceu no Pacaembu numa noite de quarta-feira num particular internacional que não valia taça, não valia classificação, não valia nada que um regulamento pudesse medir. E justamente por isso valeu tudo, porque o que aconteceu entre Pelé e Delgado naquela noite não foi um jogo, foi um acerto de contas entre duas formas de compreender o futebol e uma delas não sobreviveu ao apito final.
E esta é a história que ninguém contou por inteiro. A não a história do golo, a história do homem que desafiou Pelé na cara, que disse o que disse, que fez o que fez e que saiu do campo sem olhar para trás. Não por orgulho, por vergonha. Antes de continuar, deixa-me pedir-te uma coisa rápida. Se gosta deste tipo de história que ninguém contou direito, subscreve já o canal.
Ajuda mais do que parece. Um like e um comentário dizem ao algoritmo que este vídeo importa e é isso que mantém este tipo de conteúdo vivo. Agora volta comigo. A partir daqui, a história avança lentamente. O que aconteceu antes, durante e depois desses 90 minutos precisa de ser contado com calma. Porque para perceber o que Pelé fez nessa noite, é preciso primeiro perceber quem era o homem que achava que podia pará-lo.
Ah, e por esse homem saiu do campo de uma forma que ninguém no Rassing de Avelaneda nunca mais esqueceu. O que acontece quando um homem constrói uma reputação inteira em cima de uma ideia? a ideia de que ninguém passa por ele e encontra alguém que não só passa, mas faz parecer que o muro nunca existiu. Em que momento a confiança dos um jogador deixa de ser força e se transforma na coisa que o destrói? Qual é o preço de provocar Pelé quando Pelé está calado? E o que acontece quando o silêncio acaba? Estamos em São Paulo, março de 1961.
O Pacaembu é o maior palco do futebol paulista. Não há televisão em direto para todo o país. Não há replay. Não há câmaras em todos os ângulos. O que acontece dentro do campo é contado depois por quem lá estava. E quem estava lá nessa noite nunca contou a mesma história duas vezes, porque o que viram era difícil de acreditar, mesmo para quem viu.
Ramon Delgado nasceu em Lanuz, província de Buenos Aires, em 1934. Filho de um ferroviário chamado Esteban, que trabalhava nos comboios da linha Roca, e de uma costureira chamada Mercedes, que fazia reparações em casa para complementar o rendimento da família. A casa encontrava-se na Cali Remédios de Escalada, número 1847, às seis quadras da estação de comboios e a quatro quarteirões do campinho de terra batida, onde Delgado disputou os primeiros jogos da vida dele, descalço com uma bola de meia que a mãe costurava com retalhos de tecido que sobravam dos arranjos.
O bairro era operário. As ruas eram de paralelepípedo irregular, com valetas que alagavam quando chovia, com casas de porta e janela que pareciam todas iguais. A com varais a cruzar os quintais de um lado para o outro, carregando roupas que nunca secavam bem por causa da humidade do rio da prata, que subia do sul e ficava presa entre as fábricas e os barracões do distrito industrial.
Delgado era demasiado grande paraa idade desde os 10 anos. Aos 12 já tinha o tamanho de um adulto. Aos 14 já trabalhou com o pai na ferrovia durante as férias, carregando dormentes e substituindo carris num serviço que exigia mais corpo do que cabeça e que deu a delgado uma coisa que nenhum treino de futebol dava. Força bruta.
Não há força de academia que naquela época praticamente não existia no futebol argentino. A força de quem carrega peso de verdade, de quem torce parafusos com as mãos, de quem passa 8 horas de pé num sol de 40º levantando coisas que pesam mais do que ele, não é? Quando Delgado entrava num campinho de vársia aos 15 anos, os outros meninos saíam da frente.
Não porque ele era violento, porque era inútil disputar uma bola com alguém que tinha o dobro do tamanho e o triplo da força. Delgado não precisava de ser hábil, precisava de estar no caminho. E quando estava no caminho, ninguém passava. O Rassin de Avelaneda o contratou em 1952, quando Delgado tinha 18 anos.
Não foi uma contratação glamorosa. Não houve olheiro impressionado numa final de campeonato. Houve um dirigente do Rassin que vivia em Lanuz e que viu Delgado jogar num torneio de bairro e disse ao departamento de futebol que tinha encontrado um defesa que ninguém passava. O departamento mandou alguém ver, o alguém viu e o Delgado foi contratado com um salário que era metade do que ganhava na ferrovia.
A mas que vinha com uma promessa que a ferrovia não podia fazer, a promessa de que se fosse bom ia ter uma carreira. Delgado era bom, não era bom de bola, bom de marcação, bom de posicionamento, bom de antecipação, bom de tudo o que um defesa argentino dos anos 50 precisava ser bom para sobreviver num campeonato onde os avançados-centro tinham cotovelo de ferro e os árbitros apitavam falta só quando o sangue era visível.
Em anos, Delgado era titular. Em quatro era capitão da defesa. Em seis era o defesa mais respeitado da primeira divisão argentina. Os jornais de Buenos Aires criaram o apelido em 1957, depois de um clássico contra o Independiente, em que Delgado assinalou o avançado-centro adversário durante 90 minutos, sem cometer uma falta e sem deixar passar a bola uma única vez.
O cronista desportivo do jornal Clarim escreveu na crónica do dia seguinte que marcar contra Delgado era como tentar atravessar um muro de betão com as mãos nuas. Lamurala. O nome colou e colou porque era verdade. Até março de 1961, nenhum avançado da primeira divisão argentina tinha conseguido fazer Delgado parecer lento ou desajeitado ou perdido em campo. Nenhum.
Delgado podia não ser o defesa mais elegante do mundo, mas era eficiente. E no futebol argentino dos anos 50, eficiência valia mais do que a elegância. A fama de Delgado era grande em Buenos Aires, mas era apenas em Buenos Aires. E era esse o problema, porque em 1958, enquanto Delgado esteve em Avelaneda, fazendo o que fazia todos os sábados, marcando os avançados-centro argentinos com a eficiência de quem aperta parafusos numa linha de montagem.
Do outro lado do Atlântico, um miúdo de 17 anos estava a fazer coisas com uma bola de futebol que o mundo nunca tinha visto. Pelé levantou o Mundial na A Suécia e o planeta inteiro aprendeu o nome dele. Os jornais de Buenos Aires deram meia página ao Mundial e três páginas para o campeonato local. Delgado leu sobre Pelé no jornal, viu uma foto granulada de um miúdo negro brasileiro sorrindo com a taça e virou a página.
Não por desprezo, por indiferença. Pelé existia num mundo que não era o de Delgado. O mundo de Delgado era o campeonato argentino, o balneário do Rassen, o bairro de Lanuz, as ruas de paralelepípedo e os treinos na quarta-feira e ao sábado. Pelé era uma abstração, um nome no jornal, uma foto granulada que nada dizia sobre como era enfrentar aquele miúdo de perto, sentir o peso do seu corpo na disputa, ver os seus pés com a bola ao compreender a velocidade com que pensava.
Delgado não fez qualquer esforço para saber mais sobre Pelé. não assistiu a filmagens, não pediu relatórios, não falou com ninguém que tivesse jogado contra ele. Em 1958, a informação no futebol sul-americano viajava devagar. Um defesa argentino que queria saber como jogava um avançado brasileiro tinha duas opções.
Ler a crónica de um jornalista que provavelmente nunca tinha visto o jogador ao vivo ou perguntar para alguém que tivesse enfrentado. Delgado não fez nenhuma das duas. Não porque era arrogante, porque não achava necessário. Na cabeça de Delgado, um avançado era um avançado grande, pequeno, rápido, lento, brasileiro, uruguaio, argentino.
Todos funcionavam da mesma forma. Todos recebiam a bola, todos tentavam virar-se, todos tentavam passar e ninguém passava. Tá? Essa era Zé era a verdade que Delgado carregava como um escudo. E escudos quando são demasiado pesados impedem não só os golpes, impedem também a visão. Enquanto Delgado vivia na bolha do futebol argentino, Pelé vivia outra coisa.
Entre 1958 e 1961, Pelé deixou de ser o menino da Taça da Suécia e tornou-se o maior jogador do mundo. Não por aclamação, por acumulação. Golo atrás de golo, jogo atrás de jogo, viagem atrás de viagem. O Santos de 1961 era uma máquina que o Brasil nunca tinha visto e que a América do Sul estava começando a temer.
Pelé, Coutinho, Pepe, Zito, Mauro, Dalmo. Uma equipa que jogava com uma fluidez que não parecia ensaiada, que parecia nascer do instinto coletivo, da convivência de homens que jogavam juntos todos os dias e que sabiam onde o outro ia estar antes de olhar. E no centro de tudo, Pelé. Aos 20 anos, e Pelé já tinha marcado mais golos do que a maioria dos atacantes fazia na carreira inteira.
Já tinha jogado em estádios de 50, 60, 70.000 pessoas. Já tinha enfrentado as melhores defesas da Europa e da América do Sul. e já tinha aprendido uma coisa que nenhum treino ensinava, que o adversário mais perigoso não era o mais forte, era o que achava que era mais forte. O convite chegou em fevereiro de 1961 por telegrama.
O Santos Futebol Clube convidava o Rassing de Avelaneda para um amigável internacional no Pacaembu em março, no âmbito de uma série de jogos que o Santos estava a organizar contra clubes sul-americanos. para manter o ritmo entre os compromissos oficiais e para gerar receita. A bolsa oferecida era de 15.000, Uma quantia considerável em 1961.
Há o suficiente para pagar dois meses de folha salarial do Rassen. O presidente do Rassen, um homem de negócios chamado Alfredo Beltran, que estava com as contas apertadas depois de uma época em que a equipa não ganhou nada e a bilheteira caiu, aceitou o convite antes de consultar o técnico. técnico. Um ex-jogador chamado Osvaldo Brandoni, que tinha chegado ao Rassing em 1960, depois de uma carreira medíocre como lateral direito no Valley SARsfield, soube do jogo pelo jornal Eográfico na manhã de uma segunda-feira. Brandon ligou ao
presidente. Beltran confirmou. Brandon perguntou quando era. Beltran disse que era em março, na segunda quarta-feira do mês. Brandon perguntou quanto estavam pagando. Beltran disse o valor. Brandon ficou em silêncio por um instante e depois disse que precisava de preparar o time.
Beltran disse que era apenas um amistoso. Brandon não respondeu porque Brandoni, ao contrário de Delgado, sabia quem era Pelé. tinha visto Pelé jogar na Copa de 1958 pela televisão de um bar em Vélez e tinha ficado 15 minutos a olhar para o ecrã depois de o jogo terminar, com o copo de vinho parado na mão, processando o que tinha acabado de ver.
Brandoni sabia que aquilo não era só um amigável, mas não disse nada ao presidente porque o presidente não queria ouvir. Delgado soube pelo técnico. Brandon reuniu o elenco na quinta-feira seguinte no balneário do Rassing em Avelaneda e anunciou o jogo contra o Santos no Pacaembu. Os jogadores reagiram com uma mistura de animação e indiferença.
animação porque era uma viagem ao Brasil, porque São Paulo era uma cidade que a maioria nunca tinha visitado. Porque jogar no Pacaembu era jogar num dos maiores estádios do continente, indiferença porque era um amigável. Amistosos em 1961 eram jogos onde os jogadores corriam menos, disputavam menos e arriscavam menos.
Ninguém se queria magoar num jogo que não valia nada. Delgado fez uma pergunta quando Brandon terminou de falar. A pergunta foi simples e reveladora. Delgado perguntou se o O Santos ia jogar com a equipa titular. Brandon disse que provavelmente sim. Delgado perguntou se o número 10 ia jogar. Brandoni disse que sim, que o Santos jogava todos os jogos amigáveis com o equipa completa, porque o Santos ganhava dinheiro com os jogos amigáveis e os os promotores pagavam para ver a equipa titular, especialmente o camisola 10.
Delgado assentiu e não fez mais perguntas, mas a forma como perguntou se o número 10 ia jogar, não se o Pelé ia jogar. Disse tudo sobre o quanto Delgado subestimava o que ia enfrentar. Pelé não era um número 10. Pelé era a razão pela qual o Santos existia naquele nível. Era o centro gravitacional em torno do qual toda a equipa orbitava.
Chamar ao Pelé de camisola 10 era como chamar o sol de estrela. Tecnicamente correto, praticamente insuficiente. Nos dias seguintes, Brandon tentou fazer algo que nenhum técnico do Racing tinha feito antes de um particular. Preparar taticamente a equipa para um adversário específico. Brandoni sabia que o Santos jogava com um 424 ofensivo, com Pelé a flutuar entre o centro e a esquerda, com Coutinho aparecendo do lado oposto, com Pep a fazer a ligação entre meio e ataque.
Brandon tentou montar um esquema que contivesse os espaços onde Pelé mais recebia a bola. desenhou no quadro preto do balneário as posições, explicou as movimentações. Disse que o Delgado ia marcar o Pelé individualmente e que o volante ia fazer a cobertura. Delgado ouviu de braços cruzados, encostado à parede do balneário, com a expressão de quem já ouviu aquilo mil vezes.
Marcação individual era o que ele fazia, era o que sempre tinha feito. Não precisava de desenho no quadro preto para saber onde ficar. precisava apenas de estar no caminho. E quando estava no caminho, ninguém passava. O Rassim de Avelaneda não viajou de avião para São Paulo, viajou de autocarro.
Não porque não existissem voos entre Buenos Aires e São Paulo em 1961. Existiam operados pela aerolíneas argentinas e pela Varigue, com escala em Monte Videl ou em Porto Alegre. Mas porque é que os voos custavam mais do que a diferença entre a bolsa do jogo amigável e o custo da viagem? Aí o presidente Beltran, que tinha aceite o jogo pelo dinheiro, não ia gastar o dinheiro em passagens aéreas quando existia uma estrada que ligava as duas cidades.
O autocarro era um layand de fabrico inglesa, com assentos em pele que já tinham perdido o estofamento em vários lugares, com um motor a diesel que fazia o veículo inteiro vibrar a uma frequência constante e com um sistema de ventilação que consistia em abrir as janelas e torcer para entrar mais ar do que poeira.
A viagem partiu de Buenos Aires numa segunda-feira de manhã, às 6 horas com 22 jogadores, o treinador, o preparador físico, o massagista e o diretor de viagens, que era um funcionário administrativo do Rassim chamava-se Dom Anselmo, que tinha a função de carregar os documentos, pagar as despesas e resolver problemas. Dom Anselmo era um homem baixo, calvo, a de óculos fundo de garrafa, que transportava uma pasta de couro com dinheiro em numerário, porque o Rassen não tinha conta bancária no Brasil e cartão de crédito era uma coisa que existia nos
Estados Unidos, mas não na realidade de um clube argentino de segunda prateleira. A viagem deveria demorar 24 horas, demorou 36. O autocarro avariou na altura de registo, no interior de São Paulo, às 2as da manhã de terça-feira. O motor super aqueceu e o motorista disse que precisava de uma peça que só se encontrava na cidade mais próxima, que ficava a 40 km.
Dom Anselmo saiu com o motorista num camião que passava pela estrada, deixando 22 jogadores, o treinador, o preparador e o massagista à beira de uma estrada escura no interior do Brasil, sem telefone e sem comida e sem nenhuma certeza de quando o autocarro ia voltar a andar. Delgado passou aquela noite sentado no banco de trás do autocarro parado, com as pernas esticadas no corredor porque não cabiam no espaço entre os assentos.
Ouvindo grilos e o barulho de camiões que passavam de vez em quando na auto-estrada com os faróis cortando a escuridão. Dormiu com intervalos de uma hora, duas no máximo, acordando com dores no pescoço, nas costas e nos joelhos. Os mosquitos entravam pelas janelas abertas e picavam os jogadores que tentavam dormir. O massagista, um velho chamado Domingues, que trabalhava no Rassing desde os anos 40, passou a noite aplicando uma pomada de citronela nos braços e pernas dos jogadores que queixavam-se das picadas.
A pomada tinha um cheiro forte a limão e a álcool que se misturou com o cheiro a gasóleo do motor frio e com o cheiro a suor de 22 corpos que não tomavam banho desde Buenos Aires. Dom Anselmo regressou às 9 da manhã de terça-feira com a peça e com o motorista que demorou mais duas horas para consertar o motor.
O autocarro saiu de registo ao meio-dia e chegou a São Paulo às 6 da tarde, 12 horas depois do previsto. Delgado desceu na estação rodoviária do Bresser com as costas bloqueadas, os olhos vermelhos, a barba por fazer e o corpo de um homem que tinha viajado 36 horas num autocarro que não foi feito para caber um defesa de 1,85 m. A equipa foi levada diretamente para um hotel na Liberdade.
Um hotel barato, com quartos pequenos e chuveiros que alternavam entre água gelada e água morna sem aviso. Delgado, tomou banho, a deitou-se na cama e dormiu 3 horas. Quando acordou era de noite, o jogo era no dia seguinte. O Pacaembu em 1961 era um estádio que tinha cheiro. Não o cheiro genérico de estádio que qualquer adepto conhece, um cheiro específico que pertencia àquele lugar e àquela época e que quem lá esteve nesses anos reconheceria com os olhos fechados a 50 anos de distância.
cheiro de betão húmido que nunca secava porque a estrutura do estádio estava parcialmente enterrada no vale entre a Consolação e o Pacaembu, e a humidade subia do solo e se instalava nas paredes como um morador permanente. Cheiro a cigarro, porque em 1961 se fumava em qualquer lugar, incluindo dentro dos balneários, incluindo no banco de suplentes, incluindo nas salas de imprensa.
cheiro a café que vinha das garrafas térmicas que os os funcionários do estádio distribuíam para equipa técnica e para a imprensa. E por baixo de tudo, o cheiro a linimento, aquele óleo de cânfora e eucalipto que os massagistas usavam para aquecer os músculos dos jogadores e que impregnava os balneários com uma intensidade que fazia arder os olhos.
Os vestiários ficavam no subsolo, acedidos por uma rampa de betão que descia do nível do campo para um corredor estreito com portas de ferro de ambos os lados. O balneário da equipa da casa ficava à esquerda, o balneário do visitante ficava à direita. Entre os dois, o corredor tinha cerca de 20 m de comprimento, sem janelas, as iluminado por candeeiros fluorescentes que zumbiam e que piscavam quando alguém ligava o chuveiro, porque a instalação elétrica do Pacaembu em 1961 não suportava muita carga ao mesmo tempo. As paredes do corredor eram de
azulejo branco ou tinham sido brancas quando foram instaladas nos anos 40. Em 1961, os azulejos tinham uma pátina amarelada de duas décadas de vapor, suor e produtos de limpeza que não limpavam tanto quanto prometiam. Delgado chegou ao Pacaembu às 16 horas, 4 horas antes do jogo.
O Rassin tinha feito um treino leve de manhã no campo de um clube amador na zona norte de São Paulo, que Dom Anselmo tinha conseguido emprestado e depois voltou para o hotel. para almoçar e descansar. Delgado não descansou. Ficou deitado na cama do hotel, olhando para o tecto, com as costas ainda doridas da viagem, tentando visualizar o jogo.
M Delgado fazia isso antes de cada partida. Deitava-se, fechava os olhos e imaginava os lances. Imaginava o avançado-centro recebendo a bola. Imaginava a sua chegada na disputa. Imaginava o corpo a bloquear, o ombro a encaixar, a bola a sair. Imaginava o muro a funcionar. Sempre imaginava o muro a funcionar, porque o muro funcionava sempre.
No Pacaembu, Delgado entrou no balneário visitante e sentou-se num banco de madeira que rangia quando se mexia. O balneário era menor do que o do Rassin em Avelaneda. Tinha oito cabides de ferro na parede, um espelho partido no canto, um chuveiro coletivo com quatro saídas de água e um chão de cimento que estava sempre molhado.
Delgado sentou-se, colocou a bolsa no chão e começou a preparar-se. tirou as chuteiras da mala, chuteiras de couro preto, adidas, a com fechos de alumínio que ele próprio afiava com uma lima antes de cada jogo. As travas afiadas eram um hábito que Delgado tinha desde a vársia em Lanuz. Travas afiadas cravavam melhor no relvado, davam mais estabilidade no momento da disputa.
E se por acaso atingissem a canela de um avançado, o avançado ia pensar duas vezes antes de regressar. Foi enquanto afiava as trancas que Delgado ouviu a voz pela primeira vez. Não veio do campo, veio do corredor. Do corredor que separava os dois balneários. Uma voz que falava português, que se ria de alguma coisa, que tinha uma energia que não combinava com o balneário frio e húmido do Pacaimbu.
Era uma voz jovem, despreocupada, a voz de alguém que não estava nervoso, que não se estava a preparar para uma batalha. Hak estava simplesmente a andar de um lado para o outro, conversando com um amigo como se fosse um dia comum. Delgado não percebeu o que a voz dizia porque não falava português, mas ouviu o tom, e o tom era o de alguém que não tinha medo de nada.
Delgado olhou para o companheiro que estava sentado ao lado dele, o lateral direito Hugo Morales, que falava um pouco de português porque tinha uma namorada brasileira em Foz do Iguaçu. Delgado perguntou quem estava no corredor. Morales levantou-se, foi até ao porta do vestiário, espreitou pelo vão e voltou com uma expressão que Delgado não soube interpretar na hora.
Morales disse que era o Pelé, que o Pelé estava a passar pelo corredor com outro jogador do Santos, os dois a rir, os dois de chinelo e calções, como se estivessem ir para a praia em vez de para um jogo de futebol. A Delgado registou a informação e voltou a afiar os fechos. Se o seu adversário estava de chinelos e calções 4 horas antes do jogo, tanto melhor.
Significava que não estava levando aquilo a sério. E quem não leva a sério comete erros. E erros contra Delgado custavam caro. O que Delgado não sabia e que Morales não disse porque não sabia também era que Pelé estava de chinelos e calções, porque Pelé estava sempre de chinelos e calções antes dos jogos. Era o seu ritual, chegar cedo ao estádio, passear pelos corredores, conversar com quem encontrasse, rir, relaxar, soltar o corpo e a mente antes de se concentrar.
Pelé concentrou-se nos últimos 30 minutos antes do apito. Até lá era o miúdo de Bauru que gostava de conversar, de rir e de estar perto das pessoas. A descontração de Pelé não era desrespeito, era método. E o método funcionava porque quando os 30 minutos finais chegavam, Pelé entrava num estado que ninguém à volta conseguia descrever com precisão.
Os olhos alteravam-se, a postura alterava-se, a voz mudava. O miúdo risonho de chinelo se transformava noutra coisa. E a outra coisa era o jogador que nenhum defesa do mundo queria enfrentar. O aquecimento começou às 19h30, meia hora antes do apito. O Pacaembu já tinha quase 60.
000 1 pessoas dentro com mais gente a chegar pelos portões a cada minuto. O Santos entrou primeiro com o equipamento branco de treino e espalhou-se pela metade do campo que era deles. O Racing entrou depois com o uniforme azul celeste e branco listrado e ocupou a outra metade. Os adeptos do Santos, que eram praticamente todos os presentes, a por 1961 ver o Santos jogar no Pacaembu? Era um evento que atraía gente de toda a cidade, não apenas santistas.
Aplaudiram a entrada da equipa e gritaram o nome de Pelé quando apareceu trotando em direção ao centro do campo. Delgado estava a fazer alongamento na intermédio do lado do Rassen, quando viu Pelé de perto pela primeira vez. Não na foto granulada do jornal, não na voz do corredor, de perto, a menos de 30 m de distância.
E o que viu não foi o que esperava. Delgado esperava um jogador grande. Pelé não era grande. Tinha 1,73, pesava 70 e tal quilos. Ao lado de Delgado, que tinha 1,85 m e quase 90 kg, Pelé parecia mais pequeno do que um avançado centro deveria parecer. Delgado registou isso com a satisfação instintiva de um defesa que olha para o atacante e pensa que pode dominá-lo fisicamente, mas o registo durou apenas o tempo que Pelé levou-o para apanhar a primeira bola no aquecimento.
Pelé dominou uma bola no peito que vinha de Coutinho, deixou cair na coxa, passou para o pé direito, fez quatro embaixadinhas sem olhar para baixo e devolveu de letra a Coutinho enquanto conversava com Pep sobre alguma coisa que fez rir os dois. A bola obedeceu a Pelé de uma forma que Delgado nunca tinha visto uma bola obedecer ninguém. Não era habilidade.
Habilidade Delgado já tinha visto em centenas de Os jogadores argentinos que sabiam fazer malabarismo com a bola e que no jogo de verdade não valiam o que custavam. Aquilo era outra coisa. Era uma intimidade com a bola que parecia física, quase orgânica. Há como se a bola e o corpo de Pelé fossem extensões um do outro.
Delgado assistiu durante talvez 20 segundos, depois virou de costas e continuou o alongamento. Mas alguma coisa ficou, não consciência, debaixo dela, num lugar onde a dúvida se instala-se antes de a mente reconhecer que está ali. O jogo começou às 8 da noite. 70.000 pessoas no Pacaembu. A noite estava fresca.
Março, em São Paulo, tem noites de 22. 23º com uma humidade que faz com que a camisa colar no corpo depois dos primeiros 10 minutos de jogo. O gramado do Pacaembu estava bom, cortado baixo, firme, sem aquelas poças de lama que apareciam quando chovia intensamente e que transformavam o campo num lamaçal, onde a técnica morria e a força bruta reinava.
Nessa noite, o campo estava limpo e campo limpo favorecia quem tinha técnica. Delgado não pensou nisso. Devia ter pensado. Delgado estava escalado como defesa central com a função específica de marcar Pelé. A instrução de Brandon era clara. Não deixa-o virar. Se ele receber de costas, cola-te a ele. Se ele virar, já era.
Delgado ouviu a instrução e entrou em campo com a confiança de Lamurala, a confiança de quem nunca tinha falhado, a confiança de 7 anos de campeonato argentino sem que nenhum avançado-centro tivesse passado por ele de uma forma que o fizesse parecer lento ou perdido. Delgado posicionou-se atrás de Pelé na primeira bola e esperou.
Nos primeiros 20 minutos, Delgado jogou o melhor futebol da sua vida. Não porque tenha fez coisas espetaculares, porque fez o básico com uma perfeição que impressionou até os jornalistas brasileiros que se encontravam na tribuna de imprensa. A Pelé recebeu cinco bolas nos primeiros 20 minutos. Em três delas, Delgado cortou antes que Pelé controlasse.
Nas outras duas, Pelé controlou, mas Delgado encaixou o corpo, usou a anca, empurrou o Pelé para fora do lance e ficou com a bola sem cometer falta. Foram duas jogadas limpas, tecnicamente perfeitas, em que Delgado usou a vantagem física, mais 12 cm, 15 kg a mais, para tirar Pelé do caminho, como quem tira uma cadeira da frente para passar.
A claque do Santos vaiou na segunda vez que Delgado tirou Pelé do lance. Delgado ouviu a vaia e sentiu uma coisa que não devia ter sentido. Sentiu satisfação, sentiu que o muro estava a funcionar, sentiu que Pelé era mais um avançado-centro que ia bater na parede e voltar. E nesse momento, nesse momento exato, entre o 20º e o 21º minuto de jogo, Delgado cometeu o erro que custou tudo. Delgado falou com Pelé.
Não se sabe com absoluta certeza o que Delgado disse. Os relatos divergem. Um jornalista argentino que estava na tribuna e que falava português disse depois de ter ouvido Delgado dizer algo em espanhol na direção de Pelé durante uma parada para lateral. Outro jornalista brasileiro disse que viu Delgado a aproximar de Pelé e dizer-lhe algo ao ouvido enquanto esperavam pela cobrança.
O massagista dos Santos, que contou a história anos mais tarde num bar em Santos, disse que ouviu de um jogador do Rassin que Delgado tinha dito a Pelé que ele era pequeno e que não iba a pasar, pequeno e que não ia passar. O que Delgado disse exatamente não interessa tanto quanto o que aconteceu depois de ele ter dito.
A de porque a provocação verbal a Pelé era uma coisa que os veteranos dos santos conheciam e que temiam não por Pelé, mas pelo adversário. Porque Pelé, quando provocado, não respondia por palavras, não respondia com faltas, não respondia com empurrões. Pelé respondia com futebol. E quando Pelé respondia com futebol, o futebol que saía era de uma crueldade técnica que não parecia humana.
Pelé não falou durante os primeiros 30 minutos de jogo, não se queixou das divididas, não olhou para Delgado com raiva, não gesticulou para o juiz, não fez nada do que um avançado frustrado normalmente faz quando está a ser marcado de perto por um defesa que não dá espaço. Pelé ficou calado e o silêncio de Pelé era para quem jogava com ele, o equivalente a uma bomba ser armada. Coutinho sabia.
Coutinho jogava com Pelé desde os tempos das categorias de base dos Santos e conhecia cada variação de humor do parceiro. Sabia que quando Pelé se calava depois de levar uma cotovelada ou uma pisada ou uma provocação verbal, o silêncio significava que Pelé estava processando, não processando a raiva, processando decisão.
estava a decidir o que ia fazer, como ia fazer e quando ia fazer. E quando a decisão era tomada, o resultado era inevitável. O Zito também sabia. Zito, que era o capitão dos Santos e que tinha a função de organizar o meio campo, olhou para Pelé aos 25 minutos e viu uma coisa nos olhos dele que reconheceu de imediato. Os olhos de Pelé tinham mudado, não de cor, obviamente, de intensidade.
Os olhos que 15 minutos antes estavam no rosto do miúdo de Bauru, que se ria e conversava e jogava futebol como quem se diverte, estavam agora no rosto de outra pessoa. Uma pessoa que Zito conhecia e que respeitava e que, se fosse honesto consigo próprio, temia um pouco. Porque a pessoa que aparecia nos olhos de Pelé naqueles momentos não era o miúdo, era o jogador.
E o jogador era capaz de coisas que o miúdo nunca faria. Pep contou anos mais tarde que aos 30 minutos do primeiro tempo, quando o Santos teve um lateral no meio-campo, Pelé se aproximou-se dele e disse apenas uma frase: quatro palavras. Pepou quais eram as quatro palavras, mas disse que quando ouviu soube que Delgado ia sofrer.
Não sofrer fisicamente, sofrer de uma forma que não tinha cura. Sofrer no orgulho, sofrer na identidade, a sofrer naquilo que Delgado acreditava ser. O muro que ninguém passava, porque o Pelé ia passar e ia passar de uma maneira que todo o mundo ia ver. O primeiro tempo terminou 1-0 para o Santos com um golo de Pep aos 40 minutos.
Numa jogada que não envolveu Pelé diretamente, Delgado saiu para o intervalo, achando que tinha feito um bom jogo. E tinha, nos termos que Delgado conhecia, tinha marcado Pelé de perto, tinha cortado bolas, tinha ganho divididas. Pelé não tinha marcado qualquer golo. O muro nos números estava intacto, mas os números não contavam o que estava a acontecer por baixo dos números.
Não contavam que Pelé tinha deixado de tentar receber de costas, o que significava que tinha deixou de fazer o que Delgado esperava. Não contavam que Pelé tivesse começado a aparecem em posições diferentes, flutuando pela esquerda, surgindo na direita, acaindo para o meio campo, obrigando Delgado a deslocar-se mais do que nunca se deslocava.
Não contavam que Delgado, aos 45 minutos do primeiro tempo, já tinha corrido mais do que corria em 90 minutos de campeonato argentino. E não contavam que as pernas de Delgado, que tinham viajado 36 horas num autocarro e que não tinham descansado direito, estavam a começar a pesar.
O segundo tempo começou e Pelé mudou, não de posição, de atitude. Nos primeiros 15 minutos da segunda parte, Pelé pediu a bola oito vezes. Nas oito vezes recebeu. Nas oito vezes tentou passar por Delgado. Nas três primeiras, Delgado conseguiu parar. Na quarta-feira, Pelé passou por ele pela primeira vez. Um drible curto, corpo para um lado, bola para o outro.
E Delgado recuperou só porque Pelé chutou para fora. Na quinta-feira, Pelé passou outra vez. Uma aceleração pura, sem drible, apenas velocidade. E Delgado recuperou porque Zito fez a jogada errada e a bola saiu pela linha de fundo. Na sexta-feira, Pelé passou uma terceira vez e só não marcou porque o guarda-redes do Rassin fez a defesa da vida.
À sétima, Pelé quase passou, mas Delgado conseguiu colocar o pé e tirar a bola para canto. Na oitava, Pelé recebeu de frente, olhou para Delgado e devolveu a bola para Coutinho, sem tentar o drible. como se estivesse a testar, como se estivesse a medir, como se estivesse esperando.
Delgado sentiu, sentiu que a cada lance o espaço entre ele e Pelé ficava mais pequeno. Não o espaço físico, o espaço de tempo. O tempo que Delgado levava a reagir estava a diminuir, não porque Pelé estivesse a ficar mais rápido, mas porque Delgado estava ficando mais lento. As pernas que tinham percorrido 36 horas de autocarro estavam pesando agora de verdade.
A acidez láctica subia pelas coxas e pelas gémeos e transformava cada arrancada numa negociação entre a vontade e o corpo. Delgado era forte, era duro, aguentava dores como poucos. Mas o corpo tem limites que a vontade não consegue ultrapassar e os limites estavam a chegar. Aos 30 minutos do segundo tempo, o jogo estava 2-1 pro Santos.
Coutinho tinha marcado o segundo aos 20 minutos num remate de fora da área. O Racing tinha descontado aos 25 num golo de cabeça do avançado Ruben Sosa, aproveitando uma falha da defesa santista num pontapé de canto. O jogo estava aberto, competitivo, honesto. Delgado tinha levado três dribles de Pelé no segundo tempo, mas nenhum deles tinha resultado em golo.
O muro tinha rachado, mas não tinha caído. E Delgado, com a teimosia de quem construiu uma vida inteira em cima de uma única convicção, acreditava que podia aguentar mais 7 minutos e sair dali com a dignidade intacta. Aconteceu aos 37 minutos da segunda tempo. O Santos tinha uma falta na intermédia do lado esquerdo a uns 35 m do golo do Rassin.
Pelé não bateu a falta, ficou na área à espera do cruzamento. Delgado posicionou-se atrás dele, colando o corpo, sentindo o calor do corpo de Pelé contra o seu peito, as costas de Pelé contra o peitoral de Delgado, os dois à espera da bola com atenção de dois animais que sabem que o próximo segundo decide tudo. Zito bateu a falta, levantou a bola para a área, a bola veio alta, com efeito a cair na segunda trave.
O defesa esquerdo do Rassen subiu e cabeceou para a frente, afastando. A bola bateu no meio-campo, ressaltou uma vez e sobrou num espaço entre a linha do meio e a entrada da área do Rassen. Um espaço de ninguém, uma bola que não era de ninguém. Pelé chegou primeiro, não porque tivesse arrancado, porque já estava a mover-se antes de a bola chegar.
como se soubesse para onde ia a bola cair antes de a bola cair, como se o espaço onde a bola ia ressaltar fosse um ponto no campo que já tinha marcado na mente enquanto aguardava a cobrança da falta. Pelé chegou a bola de costas para Delgado, dominou com o pé direito. A bola parou morta no chão, como se tivesse sido ali colada. Delgado chegou um segundo depois, um segundo que em condições normais não era nada.
Um segundo que aos 37 minutos do segundo tempo, a depois de 36 horas de viagem e 77 minutos de jogo, marcando o melhor jogador do mundo, era tudo. E o que aconteceu nos 4 segundos seguintes foi a coisa que destruiu a carreira de Ramon Delgado. Pelé recebeu de costas. Delgado colou-se-lhe, como mandava a instrução.
Encaixou o ombro nas costas de Pelé, empurrou. O corpo de Pelé cedeu 1 cm, dois, como se fosse cair para frente. E então o Pelé fez uma coisa que Delgado não percebeu na altura e que passou o resto da vida a tentar entender. Pelé rodopiou. Não rodou devagar, não rodou com aviso, rodou com uma velocidade de rotação que não parecia possível para um corpo que estava a ser empurrado por um homem de quase 90 kg.
rodou por cima da bola, com o corpo inteiro rodando sobre o eixo do pé esquerdo, levando a bola consigo no giro. E e quando completou os 180º do movimento, menos de um segundo, talvez 6 d Pelé estava de frente para Delgado. De frente, olhando-o nos olhos com a bola no pé direito. E Delgado estava parado, completamente parado, com o corpo inclinado para a frente, na posição em que estava a empurrar um instante antes, com o peso no pé errado, com o equilíbrio comprometido, com as pernas que já não respondiam à velocidade que
a situação exigia. Pelé olhou nos olhos de Delgado. Foram menos de meio segundo, mas nesse meio segundo, Delgado viu uma coisa nos olhos de Pelé, que o acompanhou durante o resto da vida. Não era raiva, não era triunfo, era algo que Delgado só conseguiu descrever muitos anos mais tarde, numa entrevista a um jornalista argentino que o encontrou vivendo numa casa modesta em Lanuz, reformado, é vivendo da pensão da caminho-de-ferro que o pai tinha deixado.
Delgado disse que o que viu nos olhos de Pelé naquele meio segundo era pena. Não a pena de quem se julga superior, a pena de quem sabe o que vai fazer e sabe que o outro não pode evitar. A pena de um homem que tem nas suas mãos o poder de destruir e que não sente prazer nisso, mas que se vai destruir a si próprio, porque é o que o jogo exige.
Depois do giro, Pelé deu um toque curto para a direita, puxando a bola para fora do alcance do Delgado. Delgado tentou rodar em conjunto, as pernas não acompanharam. O corpo foi, mas os pés ficaram e Delgado caiu. Não levou uma rasteira, não foi empurrado, caiu sozinho. Caiu porque o corpo não aguentou acompanhar o movimento, porque as pernas travaram.
Só porque o equilíbrio que sustentava Laamurala durante 90 minutos de futebol argentino não era suficiente para acompanhar Pelé num giro de 180º, seguida de uma aceleração lateral. Delgado caiu sentado no relvado do Pacaembu, como caem as pessoas quando apanham um susto que tira as pernas do lugar.
Sentou-se no chão com as pernas abertas e olhou em frente e viu Pelé a afastando com a bola. Livre, sem marcação, correndo em direção à baliza. O guarda-redes do Rassin saiu. Pelé não abrandou, não esperou, não calculou, rematou com o pé direito de fora da área, com a bola a subir numa curva que passou por cima da mão esticada do guarda-redes e entrou no ângulo esquerdo da baliza com uma violência que fez a rede estufar e voltar como se tivesse levado um soco.
70.000 pessoas no Pacaembu ficaram de pé ao mesmo tempo, mas não gritaram imediatamente. Houve um silêncio, um silêncio de dois, talvez 3 segundos. O silêncio que acontece quando 70.000 pessoas vem uma coisa ao mesmo tempo e necessitam de um instante para processar se aquilo realmente aconteceu. E depois do silêncio, o grito, o grito mais alto que aquele estádio ouviu nesse ano.
O grito de 70.000 pessoas que tinham acabado de ver o Pelé fazer uma coisa com um defesa que ninguém achou possível. Delgado estava sentado no relvado quando o golo entrou. Continuou sentado quando a claque gritou. Continuou sentado quando os jogadores do Santos correram para abraçar Pelé.
Continuou sentado durante quase 10 segundos, que é uma eternidade quando 70.000 pessoas estão a olhar. E quando finalmente se levantou, não olhou paraa Pelé, não olhou para o placar, não olhou para ninguém. levantou-se, sacudiu a relva do calção e voltou paraa posição com a cabeça baixa. Voltou a andar, não trotando, andando com o passo de quem sabe que uma coisa acabou e que não tem volta.
O Santos marcou mais um nos minutos finais, fechando em 4-1. Delgado levou mais um drible de Pelé nos acréscimos, mas esse já não importava. O drible dos 4 segundos já tinha feito o que precisava de fazer. já tinha destruído aquilo que precisava destruir. Quando o juiz apitou o final, Delgado não cumprimentou ninguém, não apertou mãos, não mudou camisola e trocar de camisola em amigáveis internacionais era um ritual que quase ninguém recusava em 1961, porque as camisolas das equipas rivais eram troféus que os jogadores levavam para casa e guardavam-nos com orgulho. Delgado
não quis troféu, não quis lembrança, não não quis nada daquele campo, daquela noite, daquele jogo. Ah, saiu pelo túnel lateral do Pacaembu com a cabeça baixa, sem olhar para trás, sem olhar para o placar eletrónico que mostrava Santos 4 a 1 Rassin, sem olhar para os companheiros que vinham atrás em silêncio.
O banco de reservas do Rassin já estava vazio quando Delgado passou. Os reservas tinham descido para o balneário nos minutos finais, quando o jogo já estava decidido. Delgado entrou no balneário e sentou-se no mesmo banco de madeira que rangia. O mesmo banco onde tinha estado sentado 4 horas antes, quando afiar os fechos das chuteiras e ouvir a voz de Pelé no corredor era tudo o que existia no mundo.
Sentou-se e ficou ali sem tirar as chuteiras, sem tirar as caneleiras, sem despir a camisa encharcada de suor, sem se mexer. Durante quase 15 minutos, Delgado esteve sentado naquele banco, a olhar para o chão de cimento húmido do vestiário do Pacaembu, e ninguém se atreveu a falar com ele. Os companheiros entraram um a um, tiraram as chuteiras, tiraram as caneleiras, foram para o duche.
Ninguém disse nada a Delgado, não por indiferença, por respeito, porque os Os jogadores do Rassin tinham visto o que aconteceu, tinham visto de perto e sabiam que não havia nenhuma frase no mundo que servisse para aquele momento. Não havia palmada nas costas, não havia jogo que vem, não havia cabeça erguida que fizesse sentido.
O que Pelé tinha feito com Delgado não era uma derrota, era uma revelação. revelação de que o muro que Delgado tinha construído ao longo de uma carreira inteira era feito de um material que não resistia à Pelé. E esta revelação, uma vez feita, não podia ser desfeita, não podia ser esquecida, não podia ser relativizada.
Estava ali no chão de cimento do vestiário, no suor da camisola na lama das chuteiras, no silêncio dos companheiros. O treinador Brandon entrou no balneário 15 minutos depois do apito final, olhou para Delgado. Delgado não levantou os olhos. Brandon ficou de pé durante um instante, como se estivesse a decidir se dizia alguma coisa. não disse.
Saiu do balneário e foi para o corredor, onde Dom Anselmo estava a fumar um cigarro encostado à parede de azulejo amarelado, com a pasta de couro debaixo do braço e a expressão de um homem que queria estar em qualquer parte do mundo, menos ali. Brandon disse a Don Anselmo que o equipa ia dormir no hotel e viajar na quinta-feira de manhã. Dom Anselmo assentiu.
Brandon disse mais uma coisa baixinho, quase num sussurro que Dom Anselmo ouviu e que repetiu anos mais tarde a um jornalista que estava a escrever um livro sobre os amigáveis internacionais dos santos nos anos 60. A Brandon disse que não ia falar sobre o jogo com ninguém e que ninguém do Rassen devia falar sobre o jogo com ninguém.
Não porque era vergonhoso perder por 4 a 1 pró Santos. Perder dos santos era normal. Toda a gente perdia dos santos. Mas porque o que Pelé tinha feito com Delgado era uma coisa que, se fosse contada, ninguém ia acreditar. E se alguém acreditasse, a reputação de Delgado e por extensão a reputação da defesa do Rassin ia ser destruída.
Melhor deixar aquilo morrer ali, no balneário, na viagem de regresso, no silêncio. Melhor fingir que nunca aconteceu. Mas nunca aconteceu não funciona quando 70.000 pessoas viram. Nunca aconteceu. Não funciona quando os jornalistas da tribuna de imprensa estavam a escrever as crónicas naquele momento, a com máquinas de escrever portáteis sobre as mesas de fórmica da sala de imprensa do Pacaembu, descrevendo o Gold de Pelé com palavras que variavam de jornalista para jornalista, mas que convergiam num ponto. O defesa argentino sentou-se no
chão. Sentou-se no chão sem ninguém ter tocado nele. Pelé passou e o homem sentou. A crónica do estado de São Paulo do dia seguinte utilizou uma frase que ficou: “O argentino construiu um muro. Pelé passou por cima, por baixo e pelo meio. Quando acabou, o muro não existia mais e o argentino estava sentado no chão, olhando para o nada como um homem que acordou do seu próprio funeral.
A crónica do jornal dos desportos do Rio de Janeiro, que cobria o jogo por correspondência telefónica, foi mais direta. Pelé humilhou o defesa argentino com um golo que devia ser proibido pela convenção de Genebra. Ó, nenhuma das crónicas mencionou Delgado pelo nome. Era o defesa argentino, o argentino, o defesa.
Lamurala era um alcunha que fazia sentido em Buenos Aires, mas que nada significava em São Paulo. E em São Paulo, nessa noite, Delgado tinha deixado de ser qualquer coisa que pudesse ter sido. A viagem de regresso a Buenos Aires foi pior do que a ida. O mesmo autocarro Layland que Dom Anselmo tinha conseguido fixar com a peça de registo.
Os mesmos bancos de couro desgastado, o mesmo motor diesel a vibrar, 36 horas de estrada. Mas desta vez o silêncio era diferente. Na ida o silêncio era de sono e cansaço. No regresso o silêncio era de derrota. E dentro da derrota, o silêncio específico que rodeava Delgado era diferente do silêncio que rodeava os outros.
Os outros tinham perdido um jogo. Delgado tinha perdido uma identidade. Delgado viajou no mesmo banco de trás, com as mesmas pernas esticadas no corredor, mas desta vez não dormiu. Esteve acordado durante as 36 horas inteiras, olhando pela janela para o interior do Brasil, que se transformava no interior da Argentina, conforme o autocarro cruzava a fronteira.
Olhando para as estradas de terra batida, que viravam estradas de asfalto, que se transformavam em ruas de paralelepípedo, à medida que se aproximavam de Buenos Aires, ninguém se sentou ao lado dele, ninguém tentou conversar. Morales, o lateral que falava português, ficou à frente do autocarro a viagem inteira.
O Wrestling voltou a jogar no sábado seguinte contra o o San Lorenzo para o campeonato argentino. Delgado jogou, marcou o avançado-centro do San Lorenzo sem dificuldade. O jogo terminou 1-1. Ninguém comentou o amigável contra o Santos. Ninguém mencionou o golo de Pelé. Ninguém chamou Delgado de a lamurar durante as duas semanas seguintes.
O apelido, que antes era motivo de orgulho, tinha-se tornado uma coisa que ninguém queria dizer em voz alta, porque dizê-lo em voz alta era lembrar. E lembrar era vergado sentado no chão do pacaembu, com as pernas abertas e o olhar vazio de quem acabou de descobrir que o muro era feito de papel. Delgado jogou mais dois anos no Rassen, perdeu a titularidade em 1962, quando o novo técnico decidiu que a defesa precisava de jogadores mais rápidos e escalou um rapaz de 20 anos chamado Alfredo Ramos, que corria mais e pesava menos.
Delgado aceitou o banco de suplentes sem reclamar. Jogou alguns jogos como substituto. Em 1963, o contrato não foi renovado. Delgado voltou para Lanuz, voltou para casa dos pais, para Cali Remédios de Escalada, a para o bairro de Paralelepípedo e Valetas. conseguiu um emprego na mesma caminho-de-ferro onde o pai tinha trabalhado, não como ferroviário, mas como funcionário administrativo, preenchendo formulários num escritório que ficava ao lado dos carris e que vibrava cada vez que um comboio passava. Não voltou a jogar
futebol profissional. Jogou alguns jogos de vársia em Lanuz aos domingos com amigos do bairro em campinhos de terra batida que pareciam os mesmos campinhos onde tinha jogado em criança. Não falava sobre o Rassen, não falava sobre o Pacaembu, não falava sobre Pelé. Quando alguém mencionava aquela noite de Março de 1961, Delgado mudava de assunto com a capacidade de quem praticou a esquiva durante anos.
Em 1978, a um jornalista argentino chamado Eduardo Rivas estava a fazer uma pesquisa sobre os jogos amigáveis internacionais de clubes argentinos nos anos 60 para um livro que nunca chegou a publicar. Rivas encontrou o nome de Delgado numa escalação do Rassim contra o Santos no Pacaembu e acompanhou o morada dele até Lanuz.
foi até à Cale Remédios de Escalada e bateu à porta do número 1847. Delgado abriu. Tinha 44 anos. O cabelo que era preto nos anos 60 estava grisalho. O corpo que era de 90 kg estava mais magro, com os ombros caídos de quem passa o dia sentado numa cadeira de escritório. Os olhos que Rivas descreveu no rascunho do livro, como os olhos de um homem que viu uma coisa que não conseguiu processar, ainda tinham uma sombra daquilo que tinha acontecido 17 anos antes.
Rivas pediu uma entrevista. Delgado aceitou com relutância. Sentaram-se na cozinha da casa com café e facturas que a mãe de Delgado preparou. Rivas perguntou sobre a carreira no Rassing. Delgado respondeu com frases curtas e factuais. Rivas perguntou sobre o jogo contra o Santos. Delgado ficou em silêncio durante quase 10 segundos.
Depois disse que foi um jogo difícil. Rivas perguntou sobre o golo de Pelé. Delgado voltou a ficar em silêncio. Mais tempo desta vez. Depois disse uma coisa que Rivas anotou no caderno com letras maiúsculas porque sabia que era importante. Delgado disse que antes daquela noite acreditava que sabia o que era futebol, que tinha jogado futebol durante 15 anos e que entendia o jogo, compreendia as regras, entendia os limites do que um corpo humano podia fazer com uma bola.
e que nessa noite, num lance de 4 segundos, a Pelé mostrou para ele que tudo o que achava que sabia estava errado, que o futebol que Pelé jogava não era o mesmo futebol que O Delgado jogava, que era outro desporto, outro planeta e que o mais difícil da sua vida não foi cair no chão do Pacaembu perante 70.000 pessoas. A coisa mais difícil foi levantar-se depois e continuar a viver num mundo onde sabia que tinha encontrado alguém que fazia parecer que tudo o que ele tinha construído nunca existiu.
Rivas perguntou se Delgado sentia raiva de O Pelé. Delgado disse que não. Disse que sentiu raiva durante uns dois, tr anos. Depois a raiva passou a ser outra coisa. Virou uma espécie de respeito que doía, um respeito que não era admiração, porque a admiração é uma coisa que se sente à distância.
E o que Delgado sentiu não era a distância, era de perto. Era o respeito de quem olhou nos olhos de Pelé a menos de 1 metro de distância, no momento em que Pelé ia destruir tudo. E viu naqueles olhos não crueldade, não arrogância, mas algo que Delgado só conseguiu nomear muitos anos depois. Pena! Disse Delgado a Rivas. Vi pena nos olhos dele.
Não a pena de quem se acha melhor, a pena de quem sabe o que vai fazer e sabe que o outro não pode evitar. Rivas anotou. Delgado tomou um gole de café e depois disse a última coisa que disse sobre aquela noite, a coisa que Rivas sublinhou por três vezes no caderno e que é a frase que ficou quando tudo o resto se perdeu. Eu construí um muro durante toda a minha vida.
Pelé mostrou-me que os muros não param o vento. Ele era o vento e eu era só pedra. Rivas agradeceu e foi-se embora. O livro nunca foi publicado. Os cadernos de rivas ficaram guardados numa caixa no apartamento dele em Buenos Aires durante décadas. Até que o filho, depois da morte de Rivas em 2004, encontrou as apontamentos e doou-os pra biblioteca do Vy Sarsfield Club, onde estão até hoje numa caixa de cartão na prateleira debaixo de um arquivo que quase ninguém consulta.
Delgado morreu em 1999, aos 65 anos, na mesma casa da Cali Remédios de Escalada em Lanuz. Morreu de enfisema pulmonar. Consequência de 40 anos de cigarro. O mesmo cigarro que fumava no balneário, no banco de reservas, à beira do campo, como praticamente todo o jogador de futebol dessa geração, fumava sem que ninguém achasse estranho.
O velório foi na sala da casa. Os amigos do bairro vieram, vieram alguns ex-jogadores do Rassing. Morales, o lateral que falava português, veio de Córdova, onde vivia desde os anos 80. Ninguém mencionou o Pacaembu durante o velório. Ninguém precisou, porque toda a gente que ali estava sabia. E o que sabiam era a mesma coisa que Delgado sabia desde aquela noite de Março de 1961, sentado no chão de um estádio em São Paulo, a olhar para o vazio, enquanto 70.
000 pessoas gritavam à volta, que tinha encontrado o vento e que o vento não se importa com muros. Pelé nunca soube o nome de Delgado. Não porque Pelé fosse arrogante ou indiferente, porque em 1961 Pelé enfrentava um defesa diferente a cada 3 dias. O Santos jogava entre 80 e 100 jogos por ano, entre Campeonato Paulista, torneios nacionais, amigáveis internacionais e excursões pela Europa, África e Ásia.
Pelé driblava. passava, marcava e seguia para o próximo jogo. Os defesas eram obstáculos temporários. A desafios de 90 minutos que se dissolviam no marcador final. Pelé não guardava nomes, guardava lances. E aquele lance, o giro, a queda, o golo, ficou na sua memória como mais um lance numa coleção de milhares.
Em 1972, num programa de televisão em São Paulo, o apresentador mostrou a Pelé uma fotografia antiga de um jogo contra o Rassing no Pacaembu e perguntou-lhe se ele lembrava-se. Pelé olhou para a foto, reconheceu o estádio, reconheceu a camisola do Rassen e disse que se lembrava do jogo, mas não lembrava-se do resultado.
O apresentador disse que tinha sido 4-1. Pelé sorriu e disse que 4-1 era um bom resultado. O apresentador perguntou se se lembrava de algum lance específico. Pelé pensou por um momento e disse que lembrava-se de um golo bonito, um giro sobre o defesa, mas que não se lembrava quem era o defesa.
Não se lembrava do nome, não lembrava o rosto, lembrava o giro, lembrava a bola a entrar, lembrava o grito da claque. do homem que ficou sentado no chão depois do giro. Sem memória. Essa é talvez a parte mais cruel da história. Não a queda, não a humilhação, não o fim da carreira. A parte mais cruel é que o lance que destruiu a vida de Ramon Delgado foi para Pelé um lance entre milhares, um giro entre centenas de giros, um golo entre mil e tal golos.
A coisa que acompanhou Delgado durante 38 anos, que mudou a sua carreira, que mudou a sua identidade, que mudou a forma como se via ao espelho. coisa para Pelé não teve peso, não teve nome, não teve rosto, foi terça-feira, foi mais um jogo, foi mais um giro. E é é isto que significa enfrentar o maior jogador da história. Não é perder.
Perder é normal. Perder acontece com todo mundo. Enfrentar Pelé era descobrir que o momento mais importante da sua vida era para ele um pormenor que não merecia ser recordado. Era descobrir que o muro que construíste a vida inteiro, o muro que era a sua identidade, o muro que Buenos Aires inteira conhecia e respeitava, este muro era invisível para ele.
Não porque ele fosse cruel, porque ele era o vento. E o vento não vê muros, passa por eles, passa por cima, por baixo e pelo meio. E quando passa, não olha para trás. Delgado saiu do campo nessa noite sem olhar para trás, não por orgulho, por vergonha, mas também por uma coisa que talvez não tenha reconhecido na altura e que talvez tenha reconhecido apenas muitos anos depois, sentado na cozinha da casa em Lanuz, com um jornalista que nunca publicou o livro.
É, saiu sem olhar para trás, porque olhar para trás era ver o campo onde Lamurala morreu. E ninguém quer ver o lugar onde aquilo que o definia deixou de existir. Passaram-se os anos, o Pacaembu continuou a receber jogos, o Racing continuou a jogar na Argentina, o Santos continuou a viajar o mundo com Pelé. E na Cali Remédios de Escalada em Lanus, um homem que já tinha sido um muro, continuou a viver a vida que sobrou.
Depois de o muro cair, uma vida de escritório, de formulários, de comboios que passavam e faziam o chão vibrar, de domingos a jogar vársia com os amigos do bairro, de cigarros fumados à porta de casa, olhando para o céu de Buenos Aires. Uma vida que não era má, mas que tinha um buraco no meio que tinha a forma exacta de 4 segundos num campo de futebol em São Paulo.
O caderno de rivas está na biblioteca do Vy Sarsfield. Até hoje, numa caixa de cartão, na prateleira de baixo, quase ninguém consulta. Dentro dele, na página 47, com letras maiúsculas sublinhadas três vezes, está a frase que Delgado disse e que é a única coisa que sobreviveu de tudo aquilo. Eu construí um muro à vida inteira.
Pelé mostrou-me que os muros não param o vento. Ele era o vento e eu era só pedra. A pedra ficou em Lanuz. O vento seguiu pelo mundo e o Pacaembu que viu tudo acontecer continua ali no vale entre a Consolação e o Pacaembu, com o cheiro do betão húmido e as paredes de azulejo que já foram brancas. E se alguém descer a rampa, entrar no corredor e parar em frente ao vestiário visitante, talvez ainda consiga ouvir, se prestar muita atenção, o ranger do um banco de madeira, a o ranger de um homem que ali se sentou e nunca se levantou de
verdade. Pzie.