OS LUXOS ABSURDOS DEIXADOS POR CLARA NUNES APÓS A SUA MORTE | DOCUMENTÁRIO DA RAINHA DO SAMBA (2026)

E aos 14 anos, a vida apertou. A Clara entrou para a mesma fábrica têxtil em que o pai trabalhou, virou tecelanda cedro e cascata na  máquina o dia inteiro, ganhando suficiente para ajudar em casa. Mas o destino reservou-lhe uma reviravolta que ninguém esperava. Aos 15 anos, em 1957,  toda a cidade ficou em silêncio com uma notícia.

O irmão da Clara, o Zé Shilau, tinha morto à facada o ex-namorado dela. Pode acreditar, foi exatamente assim. O rapaz não aceitava o fim do namoro e começou a espalhar mentira sobre a Clara pela cidade. Para um irmão mineiro dessa época, a honra da irmã valia mais do que a liberdade. Zé Chilau encarou o ex e resolveu à faca. Saiu em fuga e esteve anos sem aparecer.

Clara só ia reencontrar o irmão muito tempo depois, quando já tinha virado famosa no Brasil inteiro. Com o irmão fugitivo e a cidade a fervilhar, a família decidiu que a Clara não podia ficar mais em cedro, era perigoso. Mandaram-na embora para Belo Horizonte para viver com outros dois irmãos, Joaquim e Vicentina.

E aí começou a segunda vida da Clara. era tecedeira de dia, mas à noite fazia um curso normal, porque o sonho dela naquela altura  ainda era ser professora. E aos fins de semana cantava no coro da igreja três turnos  de gente diferente dentro de uma menina só, mas o canto era o que a segurava em pé. Em 1960, com 17 anos, Clara inscreveu-se num concurso de talentos chamado A Voz de Ouro ABC.

Venceu a etapa mineira cantando Serenata do Adeus do Vinícius de Morais. Foi à final em São Paulo,  ficou em terceiro lugar nacional e o prémio que ganhou no primeiro concurso da vida foi um vestido azul, apenas um vestido azul. Mas aquele vestido abriu uma porta. A rádio Inconfidência de Belo Horizonte contratou a Clara.

Em pouco tempo, ela era eleita a melhor cantora de Minas Gerais trs anos seguidos. Em 1963, ganhou o programa próprio na TV Itacolomi.  O nome do programa era Clara Nunes Apresenta e tinha 21 anos, mas Minas estava a ficar pequeno demais para Clara. Em 1965, ela meteu tudo numa mala e foi para o Rio de Janeiro. Foi viver para uma vaga.

Quem viveu nessa época sabe o que era isso. Era um quarto dividido com mais gente em Copacabana, na  rua Barata Ribeiro, sem dinheiro para pagar renda inteira, tentando emplacar uma carreira que ainda ninguém comprava. E foi nesta fase, no fundo do poço financeiro dela, que apareceu uma figura que o brasileiro de 50 anos conhece bem, o velho guerreiro Chakrinha.

A Clara contou esta história em entrevista anos depois,  chegou ao Chakrinha e disse: “Chakrinha, eu não tenho dinheiro para pagar a renda”. E o Chakrinha começou a colocá-la no programa dele, semana após semana,  disfarçado de contrato artístico. Mas toda a gente sabia que era ajuda. Era o maneira que o Chakrinha tinha de pagar o aluguer da Clara sem ferir o orgulho dela.

Foi a Odeon, editora discográfica pela qual ela ficaria para o resto da vida  que finalmente assinou com a Clara. Em 1966, ela lançou o primeiro  disco A voz adorável de Clara Nunes. A gravadora queria fazer dela uma cantora romântica de bolero e canção italiana. Não era ela. E o público sentiu-o logo. O disco vendeu 3.100 exemplares.

O segundo 6. O terceiro 6500. Três, fracassos seguidos.  A maioria das pessoas que entrou no carreira discográfica nos anos 60, com três fracassos deste tamanho, não voltava mais. E foi exatamente  quando todos pensavam que a Clara não vingaria como cantora que a história virou.

A reviravolta veio em 1971 e veio pela mão de um nome que a Clara nunca mais ia esquecer. Adelon Alves, radialista carioca, conhecedor  profundo do samba, convenceu a Clara a abandonar o bolero romântico e a abraçar a música que lhe corria no sangue, samba. Eu cantava um outro estilo de música e o Ataufo aconselhava-me sempre, dizia: “Clarinha, canta samba, tens que cantar música brasileira, tem uma voz tão boa.

”  Samba de raiz, de quadra, de terreiro, foi um risco enorme. Naquela época, mulher a cantar samba não tinha mercado. O samba era território masculino. Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Paulinho da Viola, João Nogueira, os homens. Mulher cantava bolero, canção romântica,  MPB suave, samba mesmo, o samba pesado era para eles.

Só que a Clara não estava para aí virada.  Em 1971, ela gravou o álbum Clara Nunes com E Baiana e o Samba enredo Iua da Portela. E depois o Brasil começou a notar uma coisa diferente naquela mineira. A Clara construiu uma imagem que ninguém tinha antes, roupas brancas.  Turbante na cabeça, fios de conta no pescoço, guias de orixá nos braços, pés descalços em palco, cabelo encaracolado sem alisar.

Numa época em que a cantora brasileira tinha de parecer  estrela de Hollywood para dar certo, a A Clara apareceu vestida  como uma filha de Santo do Terreiro e falou em alto e bom som: “Sou  espírita, sou da Umbanda, sou do candomblé”. Para ter ideia do tamanho disto, a gente tava em plena ditadura militar.

Cantar candomblé na TV aberta podia tirar-te do ar, mas a Clara cantava na mesma. Saudava Yançãan, Oxum, Ogum e Emanjá, sem pedir licença a ninguém, sem se desculpar. E o Brasil respondeu: Em 1974, ela lançou um disco que mudou a história da música brasileira para sempre, alvorecer. alvorecer vendeu 312.000 cópias só em 1974.

312.000 exemplares num único ano. Para ter ideia do tamanho disto, antes da Clara, nenhuma mulher brasileira tinha conseguido vender 100.000 discos. Nenhuma. A Clara não só passou a marca de 100.000, triplicou de uma só vez.  foi a primeira mulher do Brasil a romper essa barreira e quebrou o tecto que estava em cima de toda a cantora deste  país.

A faixa título da viragem foi Conto de Areia, música do Romildo Bastos e do Toninho Nascimento, também Menino Deus, de Mauro Duarte com Paulo César Pinheiro e o nome da dona Ivone Lara,  que a Clara fez questão de revelar ao grande público.  Pareceu que o menino Deus nasceu  raiou.  Foi também aí que apareceu pela primeira vez nos discos da Clara o nome de um jovem poeta chamado Paulo César Pinheiro.

E aí entrou o capítulo amoroso dessa história. A Clara e o Paulo César conheceram-se na quadra da Portela em Madureira, apresentados pelo Mauro Duarte e pelo João Nogueira. Em 1975 casaram. Clara tinha 32 anos, Paulo César 26. E o casamento tornou-se uma das parcerias artísticas mais bonitas que este país já viu. Quase toda a música que ficou para a história da Clara, depois disso, saiu da caneta do marido.

Canto  das três raças. Que agonia o canto do trabalhador.   Guerreira.  Dentro do samb, criei-me, converti-me e ninguém vai tombar.   Portela na avenida  no Carnaval. Portela.  Em 75, 76 e 77, o Brasil viu uma coisa  que ninguém esperava que acontecesse. A Clara ganhou o troféu imprensa três anos seguidos no programa do Silvio Santos.

Quem é da geração 50 mais se lembra direitinho. Família reunida em frente à TV e o Silvio a anunciar a vencedora. Três vezes seguidas foi a Clara. Para se perceber o tamanho daquilo, era praticamente a coroação oficial da rainha da música popular brasileira e o Brasil inteiro assistiu. Mas ela não parou. Nesse mesmo 1977,  a Clara fez uma coisa que nenhum cantora brasileira tinha feito até então.

Juntamente com o Paulo César, ela fundou um teatro com o seu próprio nome, o Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávia, no Rio de Janeiro, inaugurado com o espetáculo Canto das Três Raças. E olha que coisa, esse teatro ainda hoje existe. Foi reformado em 2018, tem agora 743 e continua a funcionar. Mais de 40 anos depois da inauguração, o nome da Clara continua lá em cima do palco.

Mas a gente volta a esse pormenor no fim do vídeo, porque há mais para contar sobre ele. E o disco que veio depois manteve o nível  claridade. em 1975, Canto das Três Raças em 1976, As Forças da Natureza em 77, Guerreiro em 78 e em 1980, uma coisa que pouca gente sabe. A Clara viajou com o Chico Buarque para Angola.

Os dois passaram um tempo lá a conhecer a África Negra na carne. E foi desta viagem que nasceu morena de Angola. >>  >> Morena de Angola que leva o chucalho atado na canela. >> Aquela que toca no churrasco de domingo até hoje. O Chico escreveu a canção especialmente para a Clara depois da viagem.

Ela cantava samba, mas também cantava forró, baião, afoché e Jechá. Cantava Caetano, Chico, Vinícius, Sivuca, Luiz Gonzaga e cantava acima de tudo os mestres do samba que a rádio brasileiro ignorava. Nelson Cavaquinho, Cartola, Candeia, dona Ivone Lara, Wilson Moreira. Ela usava a sua voz para abrir  espaço para outros. Em pouco mais de uma década, a Clara construiu uma carreira que poucos artistas brasileiros  conseguiram em vida inteira.

Vendeu, somando todos os discos editados em vida, mais de 2 milhões de exemplares. levou a alma da Portela para a avenida com o samba Portela na Avenida. Música que até hoje aquece a bateria da escola antes de cada desfile.  Tornou-se a amiga de Bet Carvalho, Alion, Paulinho da Viola, Elis Regina, dona Ivone Lara, Chico Buarkque.

Formou-se com a Bet e a Alioni o famoso trio ABC do samba. A imprensa começou a chamar-lhe rainha  e o título pegou. Mas tem uma coisa que a Clara nunca conseguiu cantar para ninguém, porque enquanto a rainha do samba ganhava o Brasil, lavava lágrimas de fã na quadra da Portela e enchia teatro de luxo no rio, dentro  de casa, a Clara transportava uma dor que ninguém imaginava, uma dor que ela escondeu do Brasil inteiro até quase o fim e que vai virar o eixo de tudo o que  vem depois.

A Clara queria ser mãe, queria mais do que qualquer outra coisa na vida dela. E essa é a parte da história que poucas pessoas conhecem direito. Porque enquanto o Brasil aplaudia a rainha do samba nos palcos, dentro de casa, a Clara vivia uma dor que ela escondia até dos amigos mais próximos. A Clara teve três gravidezes que não vingaram.

Três, sempre por causa de miomas no útero, uns nódulos que cresciam por dentro e não deixavam o bebé se fixar. Cada  perda foi um golpe. A última, em 1979, foi a mais cruel de todas. A Clara já estava com quase 5 meses de gravidez. Já era um bebé formado com batimento, com vida. E o organismo dela falhou outra vez. Foi nesse ano, depois do terceiro aborto espontâneo, que ela tomou uma decisão dolorosa em absoluto sigilo.

Sem contar à imprensa, sem contar a um fã nenhum, a Clara fez uma hiserectomia,  retirou o útero. Acabou ali num quarto de hospital  o sonho de ser mãe. E depois veio um pormenor que é talvez o mais triste desta história toda.  A Clara tinha uma coleção de bonecas, coleção de uma vida montada com carinho, que ela pensava dar de presente para a filha que ainda ia ter.

Depois da herectomia, ela embalou tudo  e doou a um orfanato. Foi a maneira que ela encontrou de fechar aquela porta. E olhem o pormenor mais arrepiante. No mesmo ano de 1979, ela lançou um disco chamado  Esperança. E a capa do disco mostra a Clara sorridente, abraçada com duas crianças.

Quem comprou o disco na altura achou que era apenas uma capa bonita. Não tinha como saber que aquilo era uma metáfora cruel da maior dor da vida  dela. E como se já não fosse o bastante, em janeiro de 1982, o Brasil acordou com a notícia da morte de Elis Regina. A Pimentinha era amiga próxima da Clara. As duas ligavam-se ao telefone, conversavam sobre tudo.

Quando a Elice se foi, a Clara  entrou num estado de profunda tristeza. Conta a história que ela teria  pedido ao Paulo César uma coisa naquele momento. Disse que se algo acontecesse com ela, o marido não deixasse que a morte se tornasse circo mediático. Estávamos em 1982.  Faltava menos de um ano para este promessa ser cobrada.

A Clara sempre foi vaidosa, era a da sua natureza. E em meados de 1982,  durante uma apresentação em Berlim Ocidental, num festival latino-americano, ela percebeu uma coisa que lhe ficou a martelar na cabeça. Tinha varizes a aparecer nas pernas, coisa pouca, quase imperceptível  para qualquer outra pessoa.

Mas a Clara havia e para ela isso era inaceitável no palco.  Vinha tratando com escleroterapia desde 1979 com um angiologista chamado António Vieira de Melo, indicado pelo próprio ginecologista dela. Tratamento mais leve na base da injeção. Mas no final de 82, depois do carnaval de 83, ela decidiu resolver de vez a cirurgia.

marcou para logo a seguir ao desfile da Portela. >>  >> A data escolhida foi 5 de Março de 1983, sábado,  clínica de São Vicente, no bairro da Gávia, Rio de Janeiro. Clara pediu sigilo absoluto. Não queria fã na porta, não queria fotógrafo, não queria gente a saber. Chegou às 7:50 da manhã,  acompanhada de uma amiga de infância chamada Vilarinda, Lalita,  como ela lhe chamava.

E aí aconteceu uma cena que só foi contada por inteiro 40 anos depois. Antes da cirurgia teve uma discussão. O anestesista Dr. Américo Salgueiro  ao tran filho, queria fazer anestesia epidural. A Clara não aceitou. Tinha pavor de ficar paralisada se algo  corresse mal na epidural.

exigiu anestesia geral e foi firme. Disse que se não fosse geral, ela ia embora ali mesmo. O médico cedeu. Era a Clara Nunes. Ninguém ia mandar a rainha do samba para casa sem operar. Às 10:30  da manhã, ela entrou na sala de cirurgia. O anestesista olhou para ela e disse uma frase que ficou na história: “Tenha sonhos coloridos”.

Foram as últimas palavras que a Clara ouviu acordada na vida. Uma hora depois, dentro daquela sala de operações, a Clara teve uma paragem cardíaca,  choque anafilático ao alotano. O gás anestésico utilizado naquela época, o corpo dela rejeitou. O médico que o operou, o Doutor António Vieira  de Melo, contou tudo só em 2023, numa entrevista para o Fantástico. Olha as palavras dele.

O sangue dela estava um pouco escuro. Ela estava com um taque cardíaca.  Cheguei a fazer uma injeção intracardíaca de adrenalina. Ela voltou.  Estou com 58 anos de formado e nunca vi que na minha vida. A Clara voltou,  mas voltou à morte cerebral. E aqui entra um pormenor que faz qualquer um arrepiar.

A Clara permaneceu 28 dias em coma profundo dentro da CTI da clínica São Vicente. A morte cerebral tinha-se instalado imediatamente, mas só foi detectada 10 dias depois.  Por quê? Porque o tomógrafo da clínica estava partido. Pode parar e ler de novo, porque eu sei que não acreditou. O tomógrafo da clínica, onde uma das maiores cantoras do Brasil estava entubada, estava partido.

Tiveram que mandar a Clara paraa Santa Casa de Misericórdia para fazer o exame. 10 dias depois, a imprensa acampou na frente da rua Engenheiro Alfredo Duarte, no Jardim Botânico,  onde a Clara vivia com o Paulo César, e também em frente da clínica.  Os os rumores começaram a correr de uma forma que hoje conhecemos bem com o nome de fake news. Mas aquilo era 1983.

Não havia internet, não havia telemóvel. Mesmo assim, espalharam de tudo. Disseram que a Clara tinha tentado suicídio. Disseram que tinha sofrido agressão do marido. Disseram que era overdose, disseram que era um aborto mal sucedido, coisa impossível, porque tinha tirado o útero 4 anos antes. Cada boato pior que o outro.

e o Paulo César à porta da clínica ouvindo tudo.  Entretanto, dentro da CTI, o terceiro piso da clínica tornou-se ponto de peregrinação. Elisete Cardoso passou os dias a rezar. Grande hotelo apareceu. Fafá de Belém, Paulinho da Viola, Alcione, Bet Carvalho, Chico Boarque, Dona Zica do Salgueiro. Pais e mães de santo levavam ervas.

Tentaram  acupuntura com um chinês chamado Mr. Wu. Levaram um curandeiro das laranjeiras  chamado Lourival de Freitas, que ficou conhecido como o bruxo. Cada um tentando do seu jeito salvar a rainha. Não teve jeito. Na madrugada de 2  de Abril de 1983, Sábado de Aleluia, exatamente às 4:30, o coração da Clara  deixou de vez.

>> Samba está de luto com a morte de Clara Nunes, a portelense  mais famosa da escola, Madureira Chorou. >> Insuficiência cardíaca. A dona Mariquita estava ao lado  a segurar a mão da irmã e disse uma frase que ficou para história. Estou aqui, filhinha. Você  estava à minha espera, não estava? Agora pode desligar-se.

Agora podes seguir o teu caminho. A rainha do samba tinha 40 anos. O corpo da Clara saiu da clínica numa ambulância  e foi diretamente para um único lugar, o Portelão, a quadra da Portela em Madureira. Seis soldados da Polícia Militar transportaram o caixão para dentro. Mais de 5.

000 pessoas já ali estavam esperando. Às 6 horas da manhã,  as as rádios cariocas passavam o disco Nação sem parar. As estações de TV interromperam a programação. O Brasil parou. Ao longo daquele sábado de aleluia, 50.000 pessoas passaram pelo velório na quadra da Portela. 50.000. >>  >> Para terem uma ideia, é quase a lotação do Maracanã num jogo do Flamengo.

Tudo isto para uma cantora que morreu aos 40, sem televisão, dando flash a toda a hora, sem internet, sem rede social, apenas boca a boca e rádio. E depois houve a coincidência mais arrepiante de toda esta história. A Clara tinha gravado anos antes uma música chamada A Última Morada. A letra dizia assim: “Quando eu morrer, quero uma batucada para me levar à minha última morada”.

Naquele dia, foi exatamente o que aconteceu. A Portela acompanhou o caixão dela, cantando, batendo tamboril, levando a rainha pro cemitério de São João Batista em Botafogo, debaixo de aplauso. Era a profecia se cumprindo palavra a palavra, na voz dela própria. A Clara foi sepultada às 6 horas da tarde, coberta com cinco bandeiras: clube do samba, Portela, Mangueira, Caprichosos de Pilares e Império Serrano.

As escolas inimigas do carnaval carioca, todas juntas cobrindo o caixão dela. Mas a história da Clara Nunes não terminou ali no São João Batista,  porque o que ela deixou para trás é tão impressionante que demorou décadas a vir à tona. E o que aconteceu  com o legado da Clara depois daquele sábado de aleluia é uma história que pouca gente no Brasil conhece direito.

E aí fica a questão que ninguém respondeu correctamente durante anos. O que resta de uma rainha que morreu aos 40 anos no auge da sua carreira? A maioria das pessoas quando ouve falar em artista famoso que morreu jovem pensa imediatamente em mansão de luxo, em jóia cara, num carro importado,  numa conta bancária milionária.

Faz sentido pensar assim, porque é o que a gente vê acontecer com a maioria dos grandes artistas deste país. Sílvio Santos,  Roberto Carlos, Xuxa. Toda a gente conhece o tamanho do património que estas figuras construíram. Só que com a Clara, a história era completamente diferente. A Clara nunca foi figura de ostentação.

Não tinha mansão, não tinha jacto,  não tinha carro de luxo importado, não tinha jóias caras em cofre, não tinha conta bilionária guardada fora do Brasil. Ela vivia numa casa simples, na rua Engenheiro Alfredo Duarte, no Jardim Botânico do Rio, com vista paraa Lagoa Rodrigo de Freitas.  Casa boa, casa de classe média alta, mas não casa de rainha.

Não tinha nada semelhante ao que o brasileiro imaginava. E depois veio a primeira surpresa. Não houve disputa  de herança, não houve quezília familiar na justiça, não teve advogado, não teve escândalo na imprensa. Como a Clara não tinha um filho, o espólio ficou principalmente com o Paulo César Pinheiro, o viúvo, e com os irmãos sobreviventes.

E o Paulo César tomou uma decisão que mostra o tamanho do homem. Entregou praticamente tudo o que era da Clara. Fotografia, disco de ouro, vestido, documento, troféu, instrumento, tudo à dona Mariquita, a irmã mais velha, a mesma que  tinha criado a Clara depois de os pais morrerem. E aqui é que esta história fica realmente impressionante.

A dona Mariquita levou tudo para Caetanópolis,  lá no interior de Minas, e começou a guardar tudo,  pedaço a pedaço, com um cuidado que só uma irmã teria. Guardou-o na sua própria casa e ficou guardando durante décadas. Pode prestar atenção ao que vou contar agora, porque é a parte da história que faz qualquer brasileiro abrir a boca de espanto.

A quantidade de objeto que a Clara deixou e que a dona Mariquita conservou na casa dela em Caetanpolis passa de 6.000 peças. 6.000? Para ter uma ideia do tamanho deste, são mais peças do que muito museu de cidade grande tem no acervo. E tudo isto ficou parado na casa da irmã durante mais de 30 anos.

E o que tem dentro deste acervo é coisa de arrepiar. Tem disco de ouro original, daqueles certificados que a MI dava na época. Tem o Troféu Roquete Pinto e o Troféu Imprensa dos anos do programa do Sílvio Santos. Tem fotografia da infância, do casamento, dos bastidores, das gravações. Tem documento pessoal, passaporte, carta, postal, tem partitura escrita à mão, tem um turbante utilizado em apresentação histórica,  tem um vestido branco rendado, sandália, chinelo, bolsa, tem fios de conta, búzio, concha do mar, tem

instrumento musical, a tabacque, a gogô. E há uma coisa que é talvez a mais íntima de todas, o oratório doméstico da Clara, aquele cantinho de fé que ela tinha em casa.  E olha o pormenor, no mesmo oratório, dividindo o mesmo altar, tinha Nossa Senhora Aparecida e tinha uma imagem de Oxum, de Yansã, de Ogogum, de Oxalá, tudo junto, sem separação, sem hierarquia.

A fé da Clara inteira cosida na mistura mais brasileira que existe. Aquele oratório, o Paulo César contou em  entrevista, foi o que o inspirou a escrever a música por tela na avenida. Durante décadas, este acervo ficou na casa da dona Mariquita. Ela tratava de tudo, como se fosse a coisa mais sagrada do mundo.

Quem chegava a Caetanpolis e queria ver, ela mostrava. Mas era tudo guardado na própria casa dela, sem museu, sem visitação oficial, sem nada. Até que em agosto de 2012, na véspera do que seria o sepago aniversário da Clara, finalmente inauguraram o Memorial Clara Nunes, em Caetanpolis, na rua Fernando  Lima, número 250, no centro da cidade.

O sobrinho da Clara doou o imóvel. Conseguiram 250,00 R$ 1.000 de verba para reformar. Uma equipa da Universidade Federal de São João Del Rei passou anos a higienizar e catalogando aquele acervo todo.  Mais de 6.000 mil peças catalogadas com mais algumas centenas ainda a ser enumeradas até hoje. Em 2017, a dona Mariquita morreu, tinha cumprido a missão da sua vida, guardou a irmã para eternidade.

O acervo passou para o sobrinho da família, o Márcio Guima, músico. Em 2022, a câmara municipal de Caetan restaurou a casa onde a Clara viveu na infância e abriu à visitação como ponto turístico cultural. E aquele teatro que a Clara fundou em Vida em 1977 no Shopping da Gávia está lá a funcionar. Foi reformado em 2018, aumentou a capacidade para 743 lugares e continua a receber espetáculo no Rio de Janeiro até hoje, mais de quatro décadas depois de ter sido inaugurado.

O nome da Clara em cima do palco, todos os dias sem parar. Mas há uma coisa que ficou  da Clara, que vai para além da qualquer memorial, vai para além de qualquer teatro. E é uma coisa que tem de ser contada com cuidado, porque envolve devoção, fé, mas também envolve um problema grave que aconteceu recentemente, quando a Clara foi sepultada naquele sábado de aleluia de 1983  no cemitério de São João Batista em Botafogo.

Ninguém imaginava o que ia acontecer ali nas semanas seguintes.  aquele túmulo no meio do cemitério mais famoso do rio, começou a receber gente, muita gente. E depois veio o detalhe arrepiante. Não era só fã que ia visitar, eram filhas. E filhos de santo levando vela, levando flor branca, levando oferenda.

Pais e mães de santo de  terreiro de todo o Rio, de Minas, de São Paulo, começaram a chegar lá. Porque para este pessoal a Clara não tinha morrido.  A Clara tinha tornou-se uma coisa que no Candombles chama ser de luz. Tinha-se tornado entidade, energia ancestral. E até hoje é assim, décadas depois, o túmulo da Clara tornou-se um dos pontos mais visitados do São João Batista.

Para terem ideia, é o segundo túmulo mais visitado do cemitério inteiro. Só perde para o Duas que está enterrado ali também. Há poucos metros da Clara.  Coincidência ou não, dois ídolos brasileiros que morreram jovens, deitados perto um do outro, recebendo flor todos os domingos de pessoas que nunca os conheceu na vida. Mas em julho de  2023, este túmulo tornou-se notícia por um motivo bem diferente.

Algum vagabundo invadiu o cemitério,  foi diretamente na campa da Clara e arrancou as argolas de bronze do túmulo, levou-o para vender por uns trocos, provavelmente como ferro velho. 40 anos depois de morta, a Clara teve de aturar aquilo, argola arrancada da sepultura. E até hoje ninguém foi preso, ninguém respondeu, ninguém devolveu.

O caso simplesmente desapareceu do radar. Aí fica a pergunta: quem deve cuidar disso? A família que vive em Minas? A escola de samba que a herdou como símbolo, a câmara municipal do Rio? Há quem diga que é responsabilidade da família? Tem quem argumente que é dever da cidade preservar quem se tornou património do Brasil.

E depois fica a discussão para si nos comentários. Mas há uma coisa que continua viva da forma que a Clara ia gostar. A Portela. A escola que a Clara amou em vida nunca a esqueceu. No carnaval de 1984, no primeiro carnaval depois da morte, a A Portela levou para a avenida  o enredo Contos de Areia, em homenagem direta à Clara.

foi campeã  do domingo de Carnaval e desde então tornou-se tradição na escola. Cada vez que precisa de inspiração,  cada vez que tem dificuldade, a Portela invoca o nome da Clara. Inventaram até um verbo. Quando o samba não está a fluir na quadra, eles falam: “Precisa de clarear e todo o Portelense entende.

” Em 2019, a Portela levou a Clara Nunes como enredo central na Sapucaí. Na madure moderníssima, ei sempre de ouvir cantar um tordo, sonho antigo da comunidade, que demorou décadas para acontecer e não se ficou por aqui, porque a influência da Clara passou para geração seguinte de cantora brasileira, Mariene de Castro, Maria Rita, Teresa Cristina, Roberta Sá, Fabiana Cosa,  Mônica Salmazo, todas se reconhecem como herdeiras da Clara.

Em outubro de 2025, a Ivete Sangalo subiu em palco em São Paulo com uma digressão inteira inspirada na Clara. O nome da digressão é Ivete Clareou. As cinco primeiras datas venderam mais de 54.000 bilhetes. Numa entrevista, a Ivette disse uma coisa que mostra o tamanho do que a Clara construiu.

Falou que o Conto de Areia foi a primeira canção que ela aprendeu a cantar inteira na vida. ainda criança.  Então, repara só, uma menina órfã que nasceu numa pequena cidade do interior mineiro em 1942 e que morreu aos 40 anos numa cirurgia de varizes.  Ainda hoje, mais de 40 anos depois, enche o teatro, vende bilhetes, inspira a escola de samba, recebe flor no  cemitério todas as semanas e tem um memorial inteiro guardando 6.

000 mil pedaços da vida dela em Caetanópolis.  E depois, depois de tudo isto, você para para pensar uma coisa.  Todo o mundo entrou neste vídeo querendo saber o que havia de absurdo no que a Clara Nunes deixou para trás. E faz sentido pensar assim, porque nós vivemos numa época em que o sucesso se tornou sinónimo de património, de imóvel, de número em conta bancária.

Só que a Clara nunca jogou esse jogo. Não tinha mansão, não tinha um jacto, não tinha o cofre cheio de joia. O que ela deixou foi outra coisa. Uma coisa que dinheiro nenhum compra. Deixou  Turbante transformado em peça de museu. Deixou fios de conta virado património cultural brasileiro. Deixou uma irmã a guardar cada vestido dela com lágrima nos olhos durante mais de 30 anos.

Deixou  um túmulo no rio onde pessoas que ela nunca conheceu acende vela todas as semanas há mais de quatro décadas. deixou a Ivete Sangalo  a subir ao palco em 2025 e dizendo que aprendeu a cantar ouvindo-a, deixou a Portela inteira  inventando um verbo só para ela, clarear.

E depois você para para pensar: “Quanta gente hoje em dia se mata para deixar dinheiro, herança bem material.” À Clara, que poderia ter feito isso, optou por deixar outra coisa. escolheu deixar a voz, a fé e o amor de um  povo inteiro que nunca esqueceu-se dela. O verdadeiro luxo da A Clara não estava no que tinha, estava naquilo que ela era.

E talvez seja por isto que ela continua viva no Brasil até hoje. Agora conta-me nos comentários qual a música da Clara Nunes que mais te marcou na vida. Morena de Angola, conto de Areia, o mar Serenou, canto das três  raças. Escreve lá em baixo qual delas te leva. Direto para alguma recordação da sua casa, do seu carro, da sua  família.

E aproveita para responder também: “Quem é que achas que deveria cuidar  do túmulo de uma artista que se tornou património do Brasil? a família, a escola de samba, a autarquia do Rio, porque desde 2023 ninguém foi preso pelo vandalismo e o caso simplesmente desapareceu. Se essa história tocou-te, deixa um like.

Isso ajuda demasiado o canal a chegar em mais gente que viveu essa época. E se você ainda não está inscrito, carrega lá no botão por baixo para não perder os próximos vídeos. E no próximo vídeo vamos contar a história de outro artista que marcou o Brasil, que viveu a glória e a tragédia na mesma intensidade da Clara e que tem um  segredo nos bastidores que pouca gente conhece.

Te espero  lá. M.

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