PATO: A PROMESSA QUE IA SER O NOVO RONALDO E SUMIU
Bola de ouro. Essa era a conversa. Não era especulação, não era exagero de torcedor apaixonado. Era o que os maiores treinadores do mundo falavam em entrevista coletiva, com microfone na frente e câmera ligada. Era o que os scouts do Barcelona, do Real Madrid e da Juventus sussurravam nos corredores dos estádios europeus quando esse moleque entrava em campo.
Um garoto de 18 anos nascido no interior do Paraná, que chegou na Itália quase sem falar italiano e humilhou zagueiros que tinham o dobro da sua idade e três vezes o salário dele. E esse mesmo garoto que o Brasil inteiro jurava que seria o novo Ronaldo, simplesmente sumiu. não foi embora, de repente, não caiu num escândalo, não desapareceu numa noite só, foi sumindo devagar, lesão por lesão, contrato por contrato, empréstimo por empréstimo, até que um dia você olhou pro telão do estádio e percebeu que fazia anos que não ouvia o nome dele
numa grande decisão. Hoje você vai saber o que realmente aconteceu com Alexandre Pato. história completa, os bastidores que a mídia não contou, as lesões que ninguém explicou direito, a conversa que ele teve com Ronaldo Fenômeno e o que ele mesmo reconhece quando olha para trás e vê o tamanho do talento que tinha nas mãos e não conseguiu segurar.
Mas antes, irmão, você precisa entender de onde esse moleque veio. Porque a história do pato não começa em Milão, não começa no Beira Rio, não começa numa convocação da seleção. Ela começa numa cidade pequena do interior do Paraná, num campo de vársia com trave de madeira, onde um menino magrelo corria mais rápido do que qualquer criança da redondeza e finalizava com uma naturalidade que assustava os adultos que paravam para olhar.
Pato Branco, Paraná. 2 de setembro de 1989. Alexandre Rodrigues da Silva nasce num hospital público da cidade, o segundo filho de Irane Rodrigues da Silva e Roberto Silva. A família não tinha dinheiro sobrando, mas tinha o suficiente para não passar fome. O que no Brasil de 1989, com inflação na casa dos 1700% ao ano e o plano cruzado recém-fracassado já era uma vitória em si.
O pai Roberto trabalhava como mecânico. A mãe Irane cuidava da casa e dos filhos. Moravam numa casa simples de alvenaria, numa rua sem asfalto, num bairro operário de Pato Branco, uma cidade de 70.000 habitantes, encravada no sudoeste paranaense, a 450 km de Curitiba, daquelas cidades onde todo mundo se conhece, onde o padeiro sabe o nome do filho do vizinho e onde o campo de futebol da Praça Central é o ponto de encontro do bairro inteiro no fim de semana.
Aos 6 anos, o Alexandre começou a aparecer no campo de terra da rua onde morava. Era pequenininho, cabia embaixo do braço dos moleques maiores, mas quando pegava na bola alguma coisa diferente, acontecia. Não era só velocidade. Embora a velocidade dele já chamasse atenção com se anos, era uma coisa mais difícil de explicar, uma relação com a bola que parecia natural demais, como se a bola fizesse parte do corpo dele, como se ele não precisasse pensar no próximo movimento, porque o próximo movimento já estava acontecendo antes do pensamento. Os adultos que
assistiam paravam e ficavam olhando. Os moleques mais velhos queriam ele no time, mesmo sendo menor. O pai Roberto, que jogava bola aos fins de semana num time de vársia da cidade, percebeu logo que o filho tinha algo fora do comum. Guarda esse dado, irmão. Com 7 anos, o Alexandre já era chamado pelo apelido que ia acompanhar ele a vida inteira.
Os amigos do bairro começaram a chamar ele de pato, porque quando corria com a bola nos pés, ele bamboleava levemente de um lado para o outro, num jeito de correr que parecia desajeitado, mas que na prática era impossível de interceptar. O apelido pegou na rua, depois pegou na escola, depois pegou na família.
A mãe Irane chamava ele de pato na hora do jantar. O pai Roberto chamava ele de pato no campo de vársia. E quando, anos depois ele chegou no Internacional com esse mesmo jeito de correr e começou a deixar zagueiros profissionais para trás, com aquele bambolear desconcertante, o apelido já estava tão colado nele que ninguém mais lembrava o Alexandre.
Aos 9 anos, o pato foi inscrito numa escolinha de futebol de Pato Branco. Treinou ali durante dois anos com um professor chamado Agilberto, que décadas depois descreveu numa entrevista para um jornal paranaense o que era treinar aquele menino. disse que em 30 anos de trabalho com base nunca tinha visto uma criança com aquele nível de finalização, que o pato finalizava com as duas pernas, que a coordenação motora era de outro nível, que o único problema era que o menino era pequenininho e os pais dele não eram grandes. A dúvida que todo mundo tinha
era se o corpo ia desenvolver, se ele ia ganhar massa, altura, força para aguentar o futebol profissional. Com 9 anos, essa dúvida parecia razoável. O que ninguém imaginava era que essa mesma dúvida sobre o corpo do pato ia assombrar a carreira dele durante 15 anos. Em 2000, o pato tinha 11 anos quando chegou a informação que mudou tudo.
Um observador do Sport Club Internacional de Porto Alegre estava fazendo uma turnê de avaliação pelo interior do Paraná e do Rio Grande do Sul, procurando talentos em cidades menores que os grandes clubes ainda não tinham encontrado. Esse observador se chamava Luís Gustavo Oliveira e ele assistiu ao Pato num jogo da escolinha numa tarde de sábado em Pato Branco.
assistiu 20 minutos e ligou para Porto Alegre naquela mesma tarde. A mensagem foi simples: “Tinha um menino no interior do Paraná que precisava ser visto. O Internacional mandou um representante para uma segunda avaliação. O representante assistiu, confirmou e o clube fez uma proposta para a família. O Pato tinha 11 anos.
Pato Branco ficava a mais de 500 km de Porto Alegre. A família ia ter que deixar o menino ir. Esse é um momento que qualquer pai e qualquer mãe brasileira conhece de alguma forma. O momento em que você percebe que o futuro do filho está em outro lugar e que segurar ele por amor pode ser o maior erro que você comete.
O pai Roberto e a mãe Irane conversaram durante semanas. O pato queria ir. Estava com 11 anos e queria ir porque sabia que lá ia jogar futebol o dia inteiro. A família deixou. O Internacional tinha uma estrutura de base que era referência no futebol gaúcho. As categorias de base do Inter formavam jogadores com uma seriedade que poucos clubes brasileiros tinham naquele começo dos anos 2000.
O pato chegou em Porto Alegre em 2001, foi morar no alojamento da base do clube, numa casa com outros meninos de várias partes do Brasil, todos longe da família, todos dividindo quarto e saudade numa cidade que não era a deles. Tinha 11 anos. Dormia com foto da família embaixo do travesseiro. Ligava para a mãe toda a noite de um orelhão que ficava na esquina da rua do alojamento.
A ficha telefônica que o clube dava por semana não era suficiente e o pai Roberto mandava fichas extras pelo correio numa carta toda semana junto com uma nota de R$ 10 dobrada dentro do envelope. No campo, o pato crescia num ritmo que assustava os treinadores da base. Nas categorias de base do Internacional, ele passou pelo sub-1, sub-13, sub-15 e sub-17, deixando rastro de gol e assistências que os mais velhos do clube ainda comentam.
Em 2004, com 15 anos, já treinava esporadicamente com o sub-20. Em 2005, com 16 anos, foi promovido definitivamente para o sub-20 e começou a ser observado de perto pela comissão técnica do profissional. O técnico do profissional do Internacional naquela época era Murici Ramalho, um dos treinadores mais respeitados do futebol brasileiro, um cara que tinha olho clínico para talento jovem e que não costumava se impressionar fácil.
Murici viu o Pato treinar uma tarde e mandou incluir ele nas atividades do elenco principal. O pato tinha 16 anos, pesava menos de 60 kg e estava no meio de jogadores profissionais que jogavam no Campeonato Brasileiro de Série A. Não intimidou, driblou, finalizou, correu. Os mais velhos do elenco começaram a olhar diferente.
Em 2006, o Internacional vivia um momento histórico. O Clube gaúcho tinha conquistado a Copa Libertadores em 2006, batendo o Barcelona de Guiaquil na final e depois foi campeão mundial de clubes em dezembro daquele ano, batendo o Barcelona de Ronaldinho Gaúcho na final disputada no Japão. era o Inter mais vitorioso da história.
E foi justamente nesse contexto de glória que o Pato, com 17 anos, fez a sua estreia no time profissional. A estreia oficial foi em 2006, no Campeonato Gaúcho. O Pato entrou como reserva num jogo que o Inter vencia com tranquilidade. Ficou em campo menos de 30 minutos, mas nesses menos de 30 minutos fez uma jogada individual que parou o Beira Rio.
Recebeu a bola de costas para o gol, girou em cima do zagueiro com uma velocidade que o defensor simplesmente não conseguiu acompanhar, ajeitou no pé direito e finalizou no canto. O gol foi anulado por impedimento milimétrico, mas o estádio inteiro viu a jogada. Nos dias seguintes, nos bares do Rio Grande do Sul, nos programas de rádio esportiva de Porto Alegre, o assunto era um só.
Quem era aquele menino que tinha feito aquilo? Irmão, para você entender o que o Pato representou naquele momento, precisa lembrar do que o Brasil estava vivendo no futebol em 2006. A Copa do Mundo da Alemanha tinha acabado de acontecer e tinha sido uma decepção enorme. O Brasil caiu nas quartas de final paraa França com um Ronaldinho apagado, um Ronaldo gordo e lento e uma seleção que não convencia desde o primeiro jogo.
A torcida brasileira estava de coração partido e aí aparece esse garoto de 17 anos com aquele jeito de correr, aquela velocidade, aquela finalização precisa. E o povo brasileiro, que precisava de um motivo para voltar a sorrir com o futebol, encontrou no pato a resposta para a pergunta que estava na cabeça de todo mundo.
Quem vai ser o próximo? Em 2007, o Pato explodiu. Com 17 para 18 anos, foi titular no Internacional e começou a fazer gols em sequência. Não eram gols de qualquer jeito, eram gols com qualidade técnica, com senso de posicionamento, com aquela capacidade de aparecer no lugar certo, no momento certo que os grandes atacantes têm e que não se ensina, que nasce.
Eram gols que faziam os comentaristas de televisão pausar e repetir o replay três, quatro vezes. Em 23 jogos pelo Inter em 2007, marcou 12 gols. 12 gols com 17 e 18 anos num dos principais campeonatos do Brasil. O número chama a atenção até hoje. A Europa já estava de olho desde 2006, mas em 2007 o olho virou proposta concreta.
O Milan, o grande Milan italiano, clube que tinha formado Maldini, Barezi, Van Basten, Gullit, Chevichenko, que tinha sido campeão europeu oito vezes, mandou seus observadores ao Brasil para avaliar o Pato pessoalmente. Os relatórios que voltaram para Milão foram unânimes. O menino tinha o perfil físico e técnico para ser um dos maiores atacantes do mundo.
A recomendação foi clara, fechar o negócio antes que outro clube chegasse. Em agosto de 2007, o Milan e o Internacional fecharam o acordo. O valor pago foi de 22 milhões de euros. Uma quantia que para a época era considerada altíssima para um jogador de 18 anos que ainda não tinha jogado uma temporada completa no futebol europeu.
Para você ter uma dimensão, irmão, 22 milhões de euros em 2007 era o tipo de investimento que os clubes europeus faziam em jogadores consagrados de 25, 26 anos, não em garotos de 18 que nunca tinham saído do Brasil. O Milan estava apostando no futuro e o futuro se chamava Alexandre Pato. Mas antes de embarcar para al Itália, o Pato fez uma visita que não entrou muito nas notícias da época, mas que quem estava perto dele naquele período conta como um momento marcante.
Ele foi até a casa da família em Pato Branco. Ficou três dias. Dormiu no quarto de sempre, comeu o feijão da mãe Irane, jogou o baralho com o pai Roberto na mesa da cozinha. Na manhã do dia em que pegou o avião para Porto Alegre para depois embarcar para Milão, a mãe levantou às 4 da manhã para fazer um café e uma tapioca.
Os dois ficaram sentados na mesa da cozinha no silêncio daquelas 4 da manhã de interior, sem falar quase nada. Quando o táxi chegou na porta, a mãe Irane segurou o filho pelo braço e falou uma frase que o pato repetiu anos depois, numa entrevista ao programa Esporte Espetacular da TV Globo.
A frase foi: “Vai lá, meu filho, mas não esquece de onde você veio.” Simples assim: 4 da manhã, interior do Paraná, uma mãe e um filho de 18 anos. E uma frase que qualquer brasileiro que já saiu da cidade pequena para tentar a vida em outro lugar entende de dentro do peito. O pato chegou em Milão em agosto de 2007. O clube tinha preparado um apartamento para ele perto do centro de treinamento de Milanelo, a famosa estrutura de treinamento do Milan, que é considerada uma das melhores do mundo.
O garoto de 18 anos, que nunca tinha saído do Brasil, se viu de repente num apartamento em Milão, com tudo pago, num clube com mais de um século de história, ao lado de jogadores que ele tinha visto na televisão quando ainda usava short e jogava descalço no campo de vársia de Pato Branco. No elenco do Milan de 2007 estava um Kaká que naquele mesmo ano ia ganhar a bola de ouro.
Sedorf, Pirlo, Gatuzo, Nesta, Maldini no último ano de carreira, um elenco de lenda. E o garoto brasileiro de 18 anos, que mal falava italiano, tinha que se encaixar nesse grupo sem piscar. A adaptação foi mais rápida do que o clube esperava e o crédito para isso tem um nome e sobrenome. Ricardo Isseon do Santos Leite, o Kaká.
Kaká adotou o pato desde o primeiro dia. Levou ele para jantar, apresentou para a família, ajudou com a língua, explicou como funcionava o dia a dia do clube, como eram os hábitos dos europeus, o que se esperava de um jogador no nível do Milan. Tinha uma diferença de 7 anos entre os dois. E Kaká funcionou como uma espécie de irmão mais velho dentro do vestiário.
Essa relação foi fundamental para que o pato não se perdesse nos primeiros meses na Itália. A estreia oficial pelo Milan foi em setembro de 2007, numa partida pela Série A italiana contra a Udinese. O Pato entrou no segundo tempo com o Milan vencendo e deu uma assistência que gerou o gol do resultado final.
Na partida seguinte contra o Parma, foi titular pela primeira vez e marcou um gol de perna direita num contra-ataque que o canal italiano Skysport colocou nos melhores momentos da rodada. A internet, que em 2007 já tinha o YouTube funcionando há 2 anos, fez o vídeo circular pelo mundo em 48 horas. O garoto brasileiro virou o assunto em fóruns de futebol de Portugal, Espanha, França, Alemanha.
Os comentários eram na linha do que o Brasil já sabia. Esse menino é diferente. Em 2008, com 18 e 19 anos, o Pato viveu a melhor temporada da carreira até aquele momento. Marcou 15 gols em 30 jogos pela Série A. Números impressionantes para um atacante de 19 anos jogando no campeonato italiano. Historicamente, um dos mais difíceis do mundo para atacantes pelo nível defensivo que os clubes da Itália sempre apresentaram.
Os zagueiros italianos são famosos por serem duros, táticos, experientes. O pato driblava eles com uma facilidade que desconsertava. tinha uma aceleração nos primeiros 3 m que era quase impossível de acompanhar. Quando pegava espaço, não havia recuperação. Pep Guardiola, que em 2008 assumia o Barcelona após um período de domínio do time catalão, foi perguntado numa entrevista coletiva sobre quais atacantes do futebol mundial ele admirava.
citou Messi, citou Henry, que estava no próprio Barcelona, e citou o Pato. Disse que o garoto brasileiro tinha qualidades que raramente se viam juntas numa pessoa tão jovem. José Mourinho, que naquela época estava na Inter de Milão e era o maior rival do Milan no campeonato italiano, perguntado sobre o Pato num programa de televisão, deu uma resposta que rodou o Brasil inteiro.
Disse que se pudesse roubar um jogador do elenco do Milan, roubava o Pato. Não o Kaká, que já era bola de ouro, o Pato. Na seleção brasileira, o técnico Dunga convocou o Pato pela primeira vez em 2008 para um amistoso. A estreia foi no dia 19 de novembro de 2008, num jogo contra Portugal em Lozan, na Suíça.
O Pato entrou no segundo tempo e marcou dois gols em 30 minutos. Dois gols na estreia pela seleção. A última vez que um jogador brasileiro tinha marcado dois gols na estreia pela seleção havia sido décadas antes. Dunga, que era conhecido por ser rígido e economizar nos elogios, disse na coletiva depois do jogo, que o Pato era o atacante do futuro do Brasil, que naquele momento já dava para ver que ele ia ser o protagonista da seleção nos anos seguintes. Guarda esse dado, irmão.
Em dezembro de 2008, com apenas 19 anos, Alexandre Pato tinha conquistado a Série A italiana com o Milan. Estava na seleção brasileira com dois gols na estreia. Era titular num dos maiores clubes do mundo, ao lado de Kaká, que seria eleito o melhor jogador do planeta naquele mesmo mês. E a imprensa esportiva europeia colocava o nome dele ao lado dos de Messi e Cristiano Ronaldo como os atacantes que iam dominar o futebol mundial nos próximos 10 anos.
tinha 19 anos, irmão. 19 anos. A maioria dos brasileiros com 19 anos ainda está terminando o ensino médio ou começando a faculdade. E foi exatamente nesse ponto, no auge desse brilho todo, que o corpo começou a falhar. A primeira lesão muscular grave aconteceu em março de 2009.
Um estiramento na coxa direita durante um treino em Milanelo. Parecia simples no começo. O clube informou o prazo de três a qu semanas para recuperação. Virou seis semanas, depois virou dois meses. O pato perdeu a reta final da temporada. Não era um drama ainda, era uma lesão pontual, acontecia com qualquer jogador, mas ali estava o início de um padrão que ia se repetir com uma frequência assustadora nos anos seguintes.
Em Tent mais duas lesões musculares, uma na coxa esquerda em janeiro e outra na panturrilha direita em setembro. em 2011, uma lesão ligamentar no joelho direito que tirou ele de campo por quase 4 meses. Em 2012, duas lesões na coxa, sendo uma delas numa partida oficial pelo Milan contra o Napoli, quando o Pato caiu no gramado segurando a perna com uma expressão de dor que qualquer torcedor que assistiu não esquece.
O padrão era sempre o mesmo. Jogava bem, marcava gols, aparecia como o melhor de campo e então o músculo cedia e começava a contagem regressiva para a próxima lesão. Os médicos do Milan trabalhavam com uma hipótese que o clube nunca confirmou oficialmente, mas que circulou nos bastidores. O pato tinha chegado na Europa muito jovem, com uma estrutura muscular que não estava completamente desenvolvida para suportar o volume de jogos e treinos de um calendário europeu de alto nível.
O futebol italiano é particularmente exigente fisicamente. Os treinos são pesados, o ritmo dos jogos é alto, a temporada é longa. Para um garoto de 18 anos que veio do futebol brasileiro, onde o calendário é diferente e os métodos de preparação física são distintos, a adaptação física tinha um risco real e esse risco se materializou.
Mas tem uma parte dessa história que raramente aparece quando se fala das lesões do Pato e que precisa ser dita com honestidade. O próprio Pato, em entrevistas que deu ao longo dos anos, reconheceu que na fase do Milan havia uma dificuldade que ia além do aspecto físico. A pressão de ser chamado de próximo Ronaldo, de carregar aquela comparação com o fenômeno, tinha um peso que ele não sabia como administrar com 18, 19, 20 anos.
Ronaldo Fenômeno era o maior jogador do mundo. Era o herói do pentacampeonato de 2002. Era o cara que o Brasil inteiro amava de um jeito que ultrapassava o futebol. Ser comparado com esse cara quando você tem 18 anos e acabou de sair do interior do Paraná não é um elogio simples, é um fardo.
É uma expectativa que pesa em cada treino, em cada jogo, em cada entrevista. Pato falou sobre isso numa entrevista que deu ao canal Sport TV em 2018, quando já estava mais maduro e conseguia olhar para aquele período com mais distância. Disse que chegou o momento em que antes de entrar em campo ele pensava no Ronaldo, nas comparações, no que as pessoas esperavam dele e que isso atrapalhava.
que um jogador jovem precisa de liberdade mental para expressar o talento e que essa liberdade ele não tinha nos anos de Milan, porque o peso da comparação era onipresente. Toda semana tinha alguma matéria, algum comentarista, algum torcedor nas redes sociais medindo o pato com a régua do Ronaldo.
E quando você mede um menino de 19 anos com a régua do maior atacante da história do futebol brasileiro, a conta raramente fecha. A relação com o Ronaldo Fenômeno, o próprio, é uma parte dessa história que pouca gente conhece em detalhe. Os dois se encontraram algumas vezes ao longo da carreira do Pato, tanto em eventos da CBF, quanto em ocasiões sociais que aconteceram quando Ronaldo ainda jogava e depois quando os dois se cruzaram em eventos de futebol no Brasil.
Numa dessas ocasiões, numa reunião que aconteceu em São Paulo em 2011, quando o Pato estava numa das fases mais difíceis das lesões no Milan, Ronaldo disse para ele uma coisa que o Pato repetiu em mais de uma entrevista depois. disse que parasse de tentar ser o próximo Ronaldo e tentasse ser o primeiro pato, que o futebol não precisava de outro Ronaldo, já tinha tido um e um era suficiente.
O que o futebol precisava era de um pato completo, sem as lesões atrapalhando, e que para isso acontecer, ele precisava ouvir o próprio corpo e não o calendário do clube. Se você está gostando deste vídeo, se inscreva no canal para não perder nada do que vem por aí. O conselho do Ronaldo era bom, irmão. Mas aplicar conselho quando você está dentro de um contrato milionário com um clube europeu que tem a expectativa de que você jogue toda semana não é simples.
O Milan pagou 22 milhões de euros pelo pato. O clube queria retorno. E retorno no futebol europeu significa estar em campo, significa jogar. E o pato, mesmo com as lesões, mesmo com os médicos pedindo cautela, voltava antes do tempo, porque o clube precisava dele e porque ele mesmo não conseguia aceitar ficar de fora.
Esse ciclo de lesão, recuperação apressada, nova lesão, foi se tornando um padrão que o corpo do pato não conseguia quebrar. Em 2011, num evento que aconteceu durante uma das recuperações, o Milan chamou um especialista em preparação física de um clube alemão para avaliar o pato. O especialista fez uma análise detalhada e entregou um relatório que o clube não tornou público.
O que vazou para a imprensa italiana meses depois, por fontes internas que preferiram não se identificar, era que o relatório apontava para uma combinação de fatores que juntos criavam um risco muscular elevado. O pato tinha uma estrutura muscular que precisava de um volume de trabalho preventivo específico. Diferente do protocolo padrão que o clube aplicava para todos os jogadores.
O programa de prevenção que o Milan usava com os outros atacantes não era o programa certo para o Pato. E durante anos ninguém tinha ajustado isso. Você já parou para pensar, irmão, quantos talentos brasileiros foram desperdiçados não por falta de gênio, mas por falta de apoio certo na hora certa.
O Brasil tem uma capacidade de produzir jogadores de futebol que é única no mundo, mas nem sempre os jogadores chegam ao topo acompanhados do suporte técnico, psicológico e físico que precisariam ter. O pato é um exemplo doloroso disso. Em 2012, com 23 anos e um histórico crescente de lesões, o Milan começou a considerar um empréstimo.
O clube tinha investido muito no garoto e o retorno estava sendo comprometido pelos problemas físicos que se repetiam. Em dezembro de 2012, foi fechado o empréstimo do Pato para o Corinthians, o clube campeão do mundo naquele mesmo mês que tinha acabado de vencer o Chelsea na final do Mundial de Clubes no Japão. O empréstimo era válido por um ano.
No Brasil, o recebimento do Pato foi de furacão. O Corinthians, que estava no auge do sucesso e da glória, trouxe o Pato com uma campanha de apresentação que parou o Parque São Jorge. Milhares de torcedores foram ver a apresentação. A imprensa esportiva foi de helicóptero e câmera de drone.
O pato chegou com 23 anos sorridente, dizendo que estava recuperado, que as lesões eram passado e que ia mostrar no Brasil o jogador que tinha sido em Milão. A temporada de 2013 pelo Corinthians foi irregular. Teve momentos bons, gols importantes, jogadas que lembravam o menino de 17 anos que tinha explodido no Inter, mas o ritmo não se mantinha.
Havia jogos brilhantes seguidos de partidas apagadas e as lesões, embora menos graves do que no período europeu, ainda apareciam e interrompiam sequências. O Corinthians foi campeão paulista em 2013 e o Pato fez parte daquele título. Mas a esperança de ver o pato do Milan, o que Guardiola e Mourinho tinham elogiado, não se concretizou completamente naquele período.
Em 2013, o Corinthians também foi campeão brasileiro e o Pato contribuiu. Mas a percepção de quem acompanhava o futebol brasileiro naquele período era a de que o Pato era um jogador muito bom, que tinha os instrumentos para ser extraordinário, mas que alguma coisa dentro ou fora de campo impedia que aquele nível extraordinário se sustentasse por tempo suficiente para se tornar uma realidade permanente.
Em 2014, o Pato voltou ao Milan, mas o clube que encontrou não era o mesmo. O Milan de 2014 estava em crise financeira com o proprietário Silvio Berlusconi cortando investimentos e o elenco que tinha sido um dos melhores da Europa havia poucos anos estava desmontado. Kaká tinha ido para o Real Madrid, Pirlo tinha ido para a Juventus, Sidorf tinha saído.
O Milan vivia um processo de declínio lento e doloroso que levou anos para se reverter. E o Pato, num clube em crise, sem o apoio dos companheiros de referência que tinha tido nos primeiros anos, teve uma temporada 2013 e 2014 abaixo do esperado. A Copa do Mundo de 2014 era no Brasil. A seleção brasileira jogaria em casa pela primeira vez desde 1950.
Era o torneio que o Brasil inteiro sonhava, o que todos esperavam desde que a FIFA anunciou o Brasil como sede em 2007. E o Pato, que em 2008 tinha estreado com dois gols e era apontado como o futuro da seleção, foi para a Copa de 2014 como reserva, sem o protagonismo que parecia inevitável alguns anos antes.
Felipão, o técnico da seleção, tinha dúvidas sobre o estado físico e o nível de jogo do Pato. No torneio, o Pato entrou em alguns jogos, mas não marcou e não teve o impacto que a torcida esperava. O Brasil caiu nas semifinais da Copa de 2014 para a Alemanha num resultado histórico que até hoje é difícil de mencionar sem que qualquer brasileiro sinta um aperto no peito.
O 7 a 1 no Mineirão. 7 a 1 em casa. Desnecessário desenvolver mais o assunto, irmão. Quem viveu aquela noite sabe o que é. E o pato estava no banco naquela noite. Observou os 90 minutos de dentro do banco sem entrar. Foi uma das noites mais duras do futebol brasileiro do século XX e o Pato assistiu de camarote no pior sentido possível.
Depois de 2014, a carreira do Pato tomou um rumo que seria difícil de prever para alguém que tinha visto aquele menino de 18 anos driblar zagueiros italianos com a leveza de quem estava numa escolinha de bairro em 2014 e 2015. empréstimo para o São Paulo, onde o rendimento foi inconsistente. O Pato tinha jogos em que parecia ter 18 anos de novo, onde a velocidade aparecia, onde o drible saía natural, onde a finalização era precisa e depois passava semanas sem esse brilho aparecer.
Os torcedores do São Paulo tinham sentimentos mistos, gostavam do que viam quando estava bom, se frustravam com a irregularidade. Em 2015, uma transferência que chamou atenção. O Pato foi para o Vila Real da Espanha por empréstimo. Seis meses na Espanha, 11 jogos, dois gols. Não foi mal, mas não foi o que a torcida esperava de um atacante que havia sido comparado com Ronaldo Fenômeno.
Em 2016, o Chelsea da Inglaterra pagou pela contratação do Pato em empréstimo durante o mercado de inverno europeu, o Chelsea de José Mourinho, o mesmo Mourinho que anos antes tinha dito que roubaria o pato do Milan se pudesse. Mas o Mourinho de 2016 não estava mais no Chelsea. O técnico era Gus Hiding interino.
E o Pato passou 4 meses em Londres sem fazer nenhum gol e jogando pouquíssimos minutos. O empréstimo terminou e o Pato voltou ao Brasil. Em 2016 assinou com o São Paulo. Em 2017 foi para o Timão de novo, agora por contrato definitivo. Os gols apareciam, mas o clube e a torcida sabiam que não era mais o pato do Milan, não era mais a promessa que ia mudar o futebol mundial.
Era um bom jogador que em dias bons ainda exibia lampejos do que um dia foi, mas que os dias bons não eram todos os dias. Em 2018 e 2019, foi para o México, para o Timão de Monterrey, o Tigres, onde teve uma temporada razoável e marcou gols importantes. Em 2020 foi para os Estados Unidos, para o Orlando City da MLS, a Liga Americana de Futebol, onde jogou durante uma temporada inteira.
Na MLS, o Pato ainda tinha qualidade técnica acima da média do campeonato, mas era um torneio de ritmo diferente, menos intenso que o europeu. E a comparação com o que havia sido e o que poderia ter sido era inevitável para quem acompanhava de fora. Em 2021, voltou ao Brasil, assinou com o Atlético Paranaense, Clube do Estado do Paraná, o estado onde tinha nascido. Tinha 31 anos, jogou pouco.
As lesões ainda apareciam, nunca tinham sumido completamente. Em 2022, foi para o São Paulo mais uma vez o terceiro período no clube. Em 2023, rescindiu e ficou sem clube por um período, treinando individualmente enquanto avaliava propostas. Ao longo de todos esses anos, o que o Pato disse publicamente sobre a própria carreira revela um homem que processou muita coisa e que hoje consegue falar com uma honestidade que respeita.
Numa entrevista ao podcast Pod em 2022, uma das entrevistas mais longas e abertas que deu, o pato falou sobre as lesões com uma clareza que não tinha tido antes. Disse que errou em muitas coisas, que às vezes voltou cedo demais para o campo quando o corpo ainda não estava pronto, porque não conseguia aceitar ficar de fora.
que a pressão das comparações com o Ronaldo pesou mais do que ele admitia na época, que havia dias no Milan em que acordava e sentia aquela aceleração no peito, aquela ansiedade de provar que merecia o apelido que tinham colado nele e que essa ansiedade não é boa para um atleta. Atleta precisa de calma, precisa de confiança, precisa poder errar sem sentir que o mundo inteiro está anotando.
Falou também sobre a vida pessoal que nos anos de Milan foi tumultuada. Em 2012, o pato teve um relacionamento com Bárbara Berlusconi, filha de Silvio Berlusconi, o dono do Milan. O relacionamento durou cerca de um ano e terminou antes do empréstimo ao Corinthians. Dentro do clube, a situação era delicada.
Um jogador que namorava a filha do presidente tinha uma posição sugêneres dentro do ambiente. Quando o relacionamento terminou, a saída para empréstimo aconteceu pouco tempo depois. Os bastidores dessa situação nunca foram completamente esclarecidos publicamente, mas quem conhecia o ambiente interno do Milan naquele período fala que a combinação de lesões com a complexidade da situação pessoal contribuiu para que a relação entre o Pato e o clube esfriasse de um jeito que tornou o empréstimo a solução mais lógica para todos os lados. O Pato nunca entrou em
detalhes sobre esse período em entrevistas. Quando perguntado, costumava dizer que a vida pessoal é separada do futebol e que preferia manter assim. Mas qualquer pessoa que já trabalhou num ambiente onde as relações pessoais e profissionais se misturam, sabe que separar é mais fácil de dizer do que de fazer.
Tem um momento em que as duas coisas se tocam e quando elas se tocam fica difícil. Mas, irmão, há uma parte dessa história que vai além das lesões, além das comparações com Ronaldo, além das complicações pessoais. Há uma pergunta que fica no ar quando você olha para a carreira do pato com frieza e honestidade. O que teria acontecido se o pato tivesse chegado na Europa com 21 ou 22 anos, com o corpo completamente formado, com a cabeça mais madura, com mais experiência de futebol profissional no Brasil antes de enfrentar a pressão de um grande clube
europeu? Essa é uma pergunta sem resposta, irmão, porque a história é o que foi. Mas ela aponta para algo que o futebol brasileiro ainda discute pouco, a velocidade com que exportamos jovens talentos antes do tempo. O Brasil é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo.
Segundo dados da CS Fballory, o Brasil tinha em 2023 mais de 1700 jogadores atuando em ligas estrangeiras. Número que nenhum outro país alcança nem de longe. Mas junto com essa exportação vem um padrão que se repete com frequência perigosa. Talentos extraordinários saem jovens demais antes de estar prontos e muitos deles chegam na Europa sem o suporte físico, psicológico e técnico necessário para suportar a pressão que um grande clube europeu representa.
Alguns dão certo, outros se perdem e o pato ficou numa zona dolorosa entre os dois. foi longe o suficiente para mostrar que o talento era real, mas não chegou longe o suficiente para realizar todo o potencial que tinha. O International, que formou o pato, foi rápido demais em vendê-lo. 22 milhões de euros em 2007 para um clube brasileiro era uma quantia que resolvia problemas imediatos de caixa e que nenhum dirigente ia recusar.
Mas e se o Inter tivesse ficado mais um ano com ele? E se o pato tivesse passado 2007 e 2008 no futebol brasileiro, ganhando massa muscular, desenvolvendo o corpo, construindo uma base física mais sólida antes de enfrentar os treinos pesados de um clube como o Milan? Mais uma pergunta sem resposta, irmão.
Mas uma pergunta importante. A história do Pato tem um eco que vai além do futebol. Ela ressoa com qualquer brasileiro que já foi muito longe e muito cedo, que chegou num lugar grande antes de estar pronto, que carregou uma expectativa que não coube nos ombros. O Brasil tem um jeito de criar gênios e de não saber exatamente como cuidar deles, de amar os talentos com uma intensidade que às vezes sufoca, de pedir muito cedo o que deveria vir com o tempo.
Hoje, com 35 anos, o Alexandre Pato é um homem que olha para a própria história com uma mistura de orgulho e melancolia. O orgulho vem do que conquistou. foi campeão da Libertadores com o Internacional, campeão da Série A italiana com o Milan, campeão paulista e brasileiro com o Corinthians, jogou pela seleção brasileira, marcou gols nos maiores estádios da Europa.
Não é pouca coisa, é a carreira que a maioria dos jovens que chutam bola no campinho do bairro nunca vai ter. A melancolia vem do que podia ter sido e não foi, do Balondor que Guardiola colocou no horizonte das copas do mundo em que ele poderia ter sido protagonista. e foi coadjuvante ou ficou no banco dos gols que o corpo não deixou que ele marcasse porque estava na fisioterapia.
Numa das últimas entrevistas que deu ao canal Desimpedidos no YouTube em 2023, o pato foi perguntado diretamente sobre arrependimentos. ficou um momento em silêncio antes de responder. Depois disse que não usa a palavra arrependimento, porque arrependimento pressupõe que você fez algo de propósito, que tudo o que fez fez com a intenção de acertar, que as lesões não foram escolha, que a pressão das comparações não foi escolha, que as decisões que tomou na carreira tomou, acreditando que eram as certas naquele momento. Mas que sim, havia coisas que
faria diferente, que talvez tivesse escutado mais os médicos e menos a vontade de jogar quando o corpo pedia descanso, que talvez tivesse pedido mais ajuda nos momentos difíceis em vez de tentar resolver sozinho, que talvez tivesse aprendido a ser o pato mais cedo, sem precisar que o Ronaldo Fenômeno falasse isso para ele numa conversa em São Paulo.
Essa última parte, irmão, é a que fica. A conversa com o Ronaldo, a frase de ser o primeiro pato em vez de o próximo Ronaldo é a síntese de uma das histórias mais bonitas e mais trágicas do futebol brasileiro da última geração. Bonita porque o talento era real, porque os gols foram reais, porque os momentos de brilho foram reais, trágica porque nunca durou o suficiente, porque cada vez que parecia que o pato tinha encontrado o caminho, o corpo ou as circunstâncias interrompiam.
E talvez seja por isso que o Pato até hoje tem um lugar especial no coração de quem viveu aquela época, não só pelos gols que marcou, mas pelos gols que poderíamos ter visto e não vimos. Existe uma saudade específica do talento que não se realizou completamente, uma saudade do futuro que não veio. O Brasil tem essa saudade pelo pato.
E qualquer torcedor que assistiu aquele garoto de 18 anos correr com a bola nos pés num campo de milão com aquele bambolear que começou nos campos de vársia de Pato Branco, entende o que essa saudade significa. Quantos nomes você lembra, irmão, de talentos que pareciam inevitáveis e sumiu antes de chegar? escreve nos comentários.
Talvez você surpreenda a gente com algum nome que a gente não lembrava mais. A bola de ouro que o mundo projetou no pato nunca chegou. O pentacampeonato que ele poderia ter protagonizado na seleção nunca se materializou com ele como personagem central. O legado que ficou é menor do que o talento prometia e maior do que às vezes se reconhece.
Porque carregar o peso de ser chamado de próximo Ronaldo com 18 anos e ainda assim conquistar o que conquistou, marcar os gols que marcou, percorrer os países que percorreu, diz algo sobre o caráter do garoto que saiu de Pato Branco numa madrugada fria, depois de tomar café com a mãe. A mãe Irane, naquela madrugada de 2007, antes do embarque para Milão, disse para ele não esquecer de onde veio e o pato não esqueceu.
Isso é o que fica quando você remove a saudade do talento não realizado e olha para o homem que ele se tornou. Alguém que veio do interior do Paraná, chegou num dos maiores clubes do mundo aos 18 anos, viveu uma carreira cheia de cicatrizes literais e figuradas e saiu do outro lado, ainda capaz de sentar numa câmera e falar sobre tudo isso com honestidade e sem rancor.
Isso, irmão, também é uma forma de vencer. Mas tem uma parte dessa história que ainda não foi contada, irmão. Uma parte que fica nos bastidores, nos vestiários, nas conversas que não entram nas entrevistas oficiais, nos detalhes que só aparecem quando você junta os pontos com calma e olha para o quadro inteiro.
Porque a trajetória do pato tem camadas que a narrativa das lesões e das comparações com o Ronaldo não cobre completamente. E uma dessas camadas começa num lugar que pouca gente associa à carreira do pato, a cidade de Milanelo, numa tarde de outubro de 2009, quando um médico do Milan pediu para conversar com ele em particular depois do treino.
O nome do médico era Jeanierre Merseman, um belga que trabalhava no Milan desde o início dos anos 2000 e que era considerado um dos maiores especialistas em medicina esportiva da Europa naquele período. Mersman tinha criado no Milan um método de monitoramento físico dos atletas que o clube chamava internamente de Milan Lab, um sistema que usava análises de sangue, testes de força muscular e monitoramento de frequência cardíaca para prever com antecedência o risco de lesões nos jogadores.
O MilanLab foi pioneiro nesse tipo de abordagem preventiva e chegou a ser estudado por universidades europeias como modelo de gestão física de atletas de alto rendimento. Naquela tarde de outubro de 2009, depois da segunda lesão muscular grave do pato em menos de um ano, o Merseman se sentou com ele e mostrou os dados que o Milan Lab tinha coletado durante os dois primeiros anos do atacante no clube.
Os números contavam uma história que o pato não esperava ouvir. O sistema indicava que o perfil muscular dele era de risco elevado para lesões do tipo que vinha sofrendo e que esse risco tinha sido identificado ainda em 2008, no primeiro ano. A questão que Mirsman colocou naquela tarde de forma direta e sem rodeios era porque o protocolo de prevenção não tinha sido ajustado quando os dados apareceram.
A resposta para essa pergunta nunca veio de forma oficial. O que se sabe por relatos de pessoas que estavam próximas ao clube naquele período é que o Milan de 2008 e 2009 estava numa fase de pressão por resultados. O clube tinha sido campeão da Série A em 2004 e em 2011 voltaria a ser campeão. Mas o período entre 2005 e 2010 foi de turbulência, com a Inter de Milão dominando o campeonato italiano e o Milan precisando de desempenho imediato para se manter competitivo.
Num ambiente assim, um jovem atacante de 19 anos com o talento do pato era usado ao máximo quando estava disponível, sem a margem de cautela que o perfil físico dele talvez exigisse. O Milan Lab tinha os dados, mas os dados competiam com a pressão do calendário e com a necessidade de resultados que um clube grande nunca deixa de ter.
O pato saiu daquela conversa com Mercieman carregando uma informação pesada. Sabia que o próprio corpo tinha um mapa de risco que o clube conhecia e que, por razões que nem o médico explicou completamente, não tinha sido integralmente respeitado. Não havia culpado o único nessa história, irmão. Não era o Milan que deliberadamente prejudicou o pato.
era uma combinação de fatores, a pressão do calendário, a juventude do atleta, a falta de um protocolo individualizado suficientemente rigoroso que criou as condições para que as lesões se repetissem. Mas saber disso não torna a situação menos dolorosa para quem está no meio dela. Tem um dado que circula entre pessoas ligadas ao futebol italiano daquele período e que ajuda a entender a dimensão do que o Pato perdeu fisicamente.
Entre 2009 e 2014, o Pato perdeu por lesão o equivalente a quase duas temporadas completas de futebol. Não foram duas temporadas seguidas. Foram semanas aqui, meses a colar, períodos de recuperação espalhados por 6 anos que somados chegam a algo entre 18 e 22 meses de jogos que ele não disputou. Para um atacante que tinha chegado na Europa aos 18 anos e que precisava de continuidade para se desenvolver, para criar ritmo, para construir confiança e liderança dentro do elenco, perder dois anos em pedaços foi devastador de uma forma que os
números de gols não conseguem capturar completamente. Porque futebol, irmão, não é só gol, é ritmo, é sequência. É a confiança que você constrói quando joga bem três partidas seguidas e entra na quarta sabendo que está bem. É o entendimento que se desenvolve com os companheiros quando você treina junto semana após semana sem interrupção.
É o reconhecimento do adversário que começa a estudar você, a te respeitar. E esse respeito em si abre espaço para jogadas que antes não existiam. Tudo isso se constrói com continuidade. E continuidade era exatamente o que as lesões roubavam do pato repetidamente. Há um aspecto da história do pato que raramente entra na discussão sobre a carreira dele e que merece atenção.
O impacto da fama precoce num jovem que não teve tempo de se preparar para ela. Pato chegou na Itália em 2007 como um garoto de 18 anos que até poucos meses antes vivia num alojamento de base em Porto Alegre e ligava para a mãe de um orelhão. De repente, estava num apartamento em Milão, ganhando um salário que era incompreensível para qualquer padrão de pato branco, com fotógrafos na porta do centro de treinamento, com entrevistas em televisões de vários países, com torcedores italianos pedindo autógrafo numa língua que ele mal entendia. Nenhum
clube europeu de 2007 tinha uma estrutura de suporte psicológico para jovens atletas que chegassem de outro continente com esse nível de exposição. A psicologia esportiva existia nos grandes clubes, mas era voltada principalmente para desempenho em campo. Ninguém cuidava de como um garoto de 18 anos do interior do Paraná processava acordar famoso numa cidade que não era a dele, sem a família por perto, num idioma que não dominava, com o peso de ser a maior promessa do futebol mundial numa geração. Essa dimensão humana da
história do pato ficou invisível durante anos, porque o que aparecia na televisão era o sorriso, os gols, as comemorações. O que acontecia dentro do apartamento de Milão nas noites em que o jogo tinha ido mal ou em que a lesão tinha voltado, isso ficou guardado. O pato falou sobre solidão numa entrevista que deu ao jornalista Mauro Betin em 2019.
Disse que havia períodos no Milan em que a solidão era física, concreta. que o Kaká ajudou muito, mas que o Kaká tinha família em Milão, tinha filhos, tinha uma vida estruturada e que depois do treino, quando cada jogador ia para a própria casa, o pato ficava num apartamento vazio com o celular na mão, ligando para a mãe em Pato Branco, com a diferença horária de 4 horas, ouvindo a voz dela por 5 minutos e depois voltando para o silêncio do apartamento.
Solidão de um tipo que nenhum dinheiro resolve. A solidão de quem está no lugar mais iluminado do mundo e ainda assim não tem onde se sentir em casa. Essa solidão, irmão, tem consequências físicas que a medicina esportiva leva muito a sério hoje. Embora em 2007 e 2008 ainda não fossem amplamente reconhecidas. O isolamento social e emocional afeta o cortisol, que é o hormônio do estresse.
Níveis elevados de cortisol de forma prolongada afetam a recuperação muscular, aumentam o risco de lesões e reduzem a capacidade do sistema imunológico de responder adequadamente ao esforço físico intenso. Um atleta que treina muito e dorme mal e tem estresse emocional elevado de forma crônica, lesiona mais do que um atleta com o mesmo volume de treino, mas que tem estabilidade emocional e sono de qualidade. Hoje sabemos isso.
Em 2008, poucos clubes europeus aplicavam esse conhecimento de forma sistemática no acompanhamento dos atletas. Não estou dizendo, irmão, que a solidão causou as lesões do pato. Seria simplista demais. As lesões tinham causas físicas identificáveis, problemas de sobrecarga muscular, protocolo de prevenção insuficiente, retorno precoce após recuperação.
Mas estou dizendo que o contexto emocional em que o pato vivia naqueles primeiros anos em Milão criava um ambiente interno que não ajudava o corpo a se recuperar e a se manter íntegro da forma que deveria. e que um clube que investiu 22 milhões de euros num garoto de 18 anos poderia e talvez devesse ter cuidado melhor dessa dimensão. Pensa comigo, irmão.
Quando você vai ao médico com uma dor no corpo e o médico só trata a dor sem perguntar como está o seu sono, seu estresse, sua alimentação, sua vida em casa, ele está vendo só metade do problema. O pato foi tratado durante anos como um conjunto de músculos e tendões que precisavam de fisioterapia, quando na verdade era também um garoto de 18 anos longe de casa, que precisava de estrutura humana para atravessar uma das fases mais exigentes que qualquer ser humano pode viver.
Depois do Milan, quando voltou ao Brasil e passou pelo Corinthians, pelo São Paulo, pelo período no Vila Real e no Chelsea, o pato começou a construir uma vida pessoal mais estável. Em 2016, começou a namorar Rebeca Abravanel, filha do empresário e apresentador Silvio Santos, uma das figuras mais reconhecidas da televisão brasileira. O relacionamento chamou a atenção da imprensa por envolver duas personalidades públicas conhecidas.
Os dois se casaram em 2019 numa cerimônia em São Paulo que reuniu familiares e amigos próximos. Em 2021, tiveram o primeiro filho, Benjamin. A paternidade, o pato disse em múltiplas ocasiões, mudou a perspectiva dele, sobretudo. Disse que quando segurou o filho nos braços pela primeira vez, entendeu coisas sobre a própria história que antes não conseguia ver com clareza.
entendeu o que o pai Roberto sentia quando ia ao campo de vársia assistir ele jogar em Pato Branco. Entendeu o que a mãe Irane sentiu na madrugada em que preparou o café antes do embarque para Milão. entendeu que a carreira, por maior que fosse, era uma parte da vida, não a vida inteira, e que ele havia passado anos tratando o futebol como se fosse tudo, e que essa confusão entre parte e todo havia contribuído para algumas das decisões mais custosas que tomou, incluindo a de voltar cedo demais de lesão quando o corpo pedia mais
tempo. O Benjamin nasceu no mesmo ano em que o pato estava no Atlético Paranaense, no Paraná, no estado onde havia nascido. Tem uma simetria bonita nisso, irmão. O garoto que saiu de Pato Branco com 11 anos para um alojamento em Porto Alegre, que foi para Milão com 18, que percorreu São Paulo, Espanha, Inglaterra, México, Estados Unidos, voltou para o Paraná aos 31 anos com um filho nos braços.
O círculo não se fechou completamente, mas se aproximou de um jeito que qualquer brasileiro que entende de saudade de terra natal reconhece. Há uma última coisa sobre a história do Pato que merece ser dita com a atenção que merece e que às vezes fica perdida no meio do debate sobre lesões e potencial desperdiçado.
Em toda a carreira do Pato, em todas as entrevistas que deu, em todos os depoimentos de companheiros de equipe, em todos os relatos de treinadores que trabalharam com ele, não existe um único registro de problema de atitude. Não existe uma história de jogador que não treinava, que desrespeitava companheiro, que chegava atrasado, que não dava o máximo que tinha disponível em campo.
Os técnicos que trabalharam com ele de Murici Ramalho no Internacional a Massimiliano Alegre, no Milan, falaram todos de um profissional dedicado que queria aprender, que ouvia as orientações e tentava aplicar. Isso importa, irmão, porque uma narrativa que às vezes se cria em torno de carreiras que não chegaram ao máximo é a de que o atleta não quis, que tinha talento, mas não tinha garra.
No caso do Pato, essa narrativa não tem sustentação. O problema nunca foi vontade. O problema foi uma combinação de fatores. Juventude precoce numa estrutura que não estava preparada para recebê-lo adequadamente. perfil físico de risco que não foi gerenciado com a precisão necessária nos anos decisivos e o peso psicológico de uma comparação que ninguém deveria carregar com 18 anos, que criaram condições impossíveis de contornar completamente, mesmo com toda a vontade do mundo.
E talvez seja por isso que a história do pato merece ser contada com essa nuance toda, irmão. Não como a história do talento que desperdiçou a própria carreira, porque isso seria injusto com um homem que deu tudo o que tinha. Mas como a história de um sistema que não estava preparado para cuidar adequadamente de um talento daquele tamanho que chegou antes do tempo, o pato foi extraordinário quando pôde ser e quando não pôde, os motivos eram mais complexos do que qualquer manchete de jornal conseguia capturar em três linhas. Hoje com 35 anos, Alexandre
Rodrigues da Silva, o pato, o garoto que bamboleava nos campos de Pato Branco, que driblou zagueiros italianos aos 18 anos, que marcou dois gols na estreia pela seleção brasileira e que o mundo inteiro achou que seria o próximo Ronaldo. É pai, é marido, é um homem que carrega a própria história sem amargura.
E essa capacidade de carregar sem amargura, irmão, num Brasil que tantas vezes tira mais do que devolve aos seus filhos mais talentosos, pode ser a conquista mais difícil de todas. Você conheceu alguém assim? Alguém que tinha tudo para chegar muito longe e alguma coisa pelo caminho não deixou? Conta nos comentários.
Às vezes, a história de um jogador de futebol é o espelho de histórias que a gente conhece muito mais perto de casa do que a gente imagina. M.