Durante 15 anos, o Negritude Júnior foi uma das bandas de pagode mais consistentes do país e Netinho era a sua coluna vertebral. Mas dentro deste sucesso coletivo, uma tensão silenciosa foi crescendo. Quanto mais o grupo rebentava, mais Netinho se destacava individualmente. Convites chegavam para ele, não para o grupo. A câmara encontrava o rosto dele antes de qualquer outro membro.
E em algum momento, os outros membros começaram a sentir que viviam na sombra de um colega que tinha saído do mesmo quintal. Essa atenção, ainda não declarada em 1999, ainda sem nome em 2000, explodiria em 2001, com consequências que ninguém do grupo poderia prever. Em 2001, Netinho de Paula tomou uma decisão que mudou tudo.
Depois de 15 anos a construir negritude Júnior, tijolo a tijolo, de ter dormido no mesmo tecto que os seus companheiros de grupo, de ter dividido cada palco, cada cachet, cada conquista, ele foi-se embora. Não foi uma saída negociada. Não foi um processo gradual, foi uma ruptura. E a ferida que esta ruptura abriu nunca cicatrizou completamente.
A versão oficial do O Netinho era simples. A Rede Recordas ia fez-lhe um convite irrecusável apresentar um programa de televisão. A agenda de gravações entrava em conflito direto com os compromissos do grupo. Era uma questão logística, não pessoal. Mas os membros dos Negritude Júnior não aceitaram essa explicação.
Para eles, a saída representava algo mais profundo, a confirmação de que Netinho sempre tinha encarado o grupo como um degrau, não como destino. O que a versão oficial não contava era o que se vinha acumulando nos bastidores. Segundo relatos que circulavam na época, havia um ressentimento crescente entre os membros do grupo em relação ao protagonismo absoluto de Netinho.
Ele era o que aparecia nas entrevistas, o que as emissoras queriam, o que os fãs identificavam como símbolo do Negritude Júnior. Os outros membros sentiam que trabalhavam para sustentar uma marca que cada vez mais tinha o nome e o rosto de apenas um deles. Quando o convite da chegou a televisão, a saída foi o Estopim, mas o barril de pólvora já estava cheio há anos.
O rompimento gerou um afastamento que durou mais de uma década. Não havia comunicação, não havia colaboração, não havia reconciliação à vista. Em 2014, Netinho tentou uma reaproximação com ex-membros do grupo Lino, Vaguinho e Fabinho, formando um novo conjunto inicialmente denominado negritudiando. A resposta dos membros que continuaram com o nome original foi imediata e legal.
Um processo judicial alegando que o novo nome prejudicaria comercialmente a marca Negritude Júnior. A justiça deu-lhes razão e o grupo de netinho teve de mudar o nome para a família Coab Siri, uma derrota simbólica enorme para quem tinha ajudado a fundar o original. O capítulo com o Negritude Júnior revela um padrão que se repetir-se-ia ao longo de toda a vida de Netinho.
A dificuldade de sustentar vínculos quando o interesse próprio entra em conflito com o coletivo. Primeiro o grupo, depois o partido político, depois os contratos de televisão, depois os processos judiciais, sempre a mesma dinâmica. A saída pela porta das traseiras, a justificação construída depois e os destroços relacionais deixados para trás.
Mas em 2001, quando deixou a Coab definitivamente para trás, Netinho ainda não sabia que o maior inimigo da carreira que estava prestes a construir era ele próprio. Entre 2001 e 2006, Netinho de Paula viveu o período mais brilhante da sua trajetória pública. E foi brilhante de verdade. Não brilho de assessoria de imprensa, não brilho fabricado por equipa de marketing, brilho de audiência, de penetração popular, de um apresentador que tinha encontrado exatamente o formato onde os seus talentos funcionavam na perfeição.
O Domingo da gente, exibido pela Rede Record, foi o veículo dessa ascensão. O programa não era apenas entretenimento dominical, era uma plataforma política e social disfarçada de auditório. Et usava o horário nobre de domingo para colocar em cena personagens que a televisão brasileira mainstream sistematicamente ignorava.
Moradores de periferia, famílias negras, pessoas da comunidade sem visibilidade. O quadro Dia de Princesa transformava a vida das mulheres simples num espetáculo de dignidade. Uma limousine, um dia de beleza, uma máquina fotográfica apontada para quem nunca tinha sido visto pela televisão. O Brasil parou para assistir.
Os números confirmavam o que a intuição já dizia. O Domingo da gente entrou em rota de colisão direta com dois dos programas mais consolidados da televisão brasileira, o Domingão Legal do SBT e o Domingão do Faustão da Globo. Rivalizar com o Faustão no horário nobre da tarde de domingo não era façanha para amadores. Netinho fazia isto com consistência, semana após semana, sustentado por uma ligação com o público periférico que nenhuma das As emissoras concorrentes conseguiam replicar.
Em paralelo ao sucesso na televisão, Netinho expandiu a sua atuação para o campo empresarial. Em Novembro de 2005, fundou a TV da Gente, apresentada como a primeira estação de televisão do Brasil dirigida especificamente para o público negro. A iniciativa tinha parceiros angolanos e brasileiros e chegou a transmitir em estados como São Paulo, Ceará e Bahia.
Era um projeto de construção de legado, não apenas de negócio. Um homem da COAB criando uma emissora para dar visibilidade a quem tinha sido invisível. O projeto não sobreviveu à falta de patrocínio e encerrou as atividades sem atingir o seu potencial, mas o gesto de fundar a estação revelava uma ambição que ia muito para além do palco.
Foi também neste período que Netinho viveu a relação mais comentado da sua vida pessoal. Ele namorou durante 4 anos com a atriz Araújo, que naquele momento vivia a sua própria explosão de popularidade com a novela Chica da Silva da Globo. Os dois eram juntos uma imagem de representatividade negra no topo do entretenimento brasileiro.
Ele dominando o domingo na Record, ela a dominar o horário nobres na Globo. Mesmo após o término, Netinho nunca deixou de elogiar a ex-companheira publicamente. Esse detalhe humano contrasta com o que viria a seguir. Porque 2005 não foi apenas o ano da TV da gente e do pico de audiência, foi o ano em que tudo começou a desmoronar-se.
Fevereiro de 2005, Netinho de Paula estava no auge. Programa no ar, audiência sólida, empresário de televisão, ex-namorado de Thaísa Araújo, fundador de uma estação de televisão. A imagem pública era de um homem que tinha saído da Coabento, pela garra, pela representatividade. E depois Sandra Mendes apareceu diante das câmaras com hematomas pelo rosto e pelo corpo, e a imagem desmoronou em tempo real.
A denúncia foi direta e documentada. Sandra Mendes de Figueiredo, então esposa de Netinho, registou o boletim de ocorrência detalhando agressões físicas severas. Ela apresentou fotografias dos hematomas. A media reproduziu as imagens com amplitude nacional. O rosto roxo, os hematomas no braço, as marcas que não deixavam espaço para a interpretação alternativa.
Netinho era naquele momento o apresentador do programa que colocava mulheres simples em limusinas para um dia de princesa e a sua mulher tinha sido agredida. A reação inicial de Netinho piorou tudo. Primeiro negou, depois tentou minimizar, alegando que Sandra tinha-se ferido com uma porta durante uma discussão.
A versão era inverosímil perante as imagens e o público não aceitou. Pressionado, recuou e admitiu o erro, mas o dano já estava feito. Em entrevistas posteriores, as suas As próprias palavras tornaram-se documentos comprometedores. Como ela provocou, eu agredi. Independentemente, deveria ter tido sangue frio e ido para a rua. Não era um pedido de desculpas, era uma confissão com reserva, uma admissão temperada por justificação.
Exatamente o tipo de declaração que nenhum advogado recomendaria e que nenhum fã consegue defender. Mas o que poucos sabiam naquele momento e que os processos judiciais revelaram depois era o contexto que desencadeara a briga. Segundo Sandra, a discussão tinha começou quando ela se recusou a assinar documentos que a fariam abdicar de os seus direitos sobre os bens do casal.
Ela não estava apenas a recusar-se a uma formalidade burocrática, estava protegendo o que lhe pertencia legalmente dentro do casamento. E essa recusa terá sido o rastilho da agressão. O episódio deixou de ser apenas uma tragédia doméstica e revelou uma dimensão adicional, a de um homem que recorreu à violência física quando perdeu o controlo de uma negociação financeira.
Netinho seguiu apresentando o domingo da gente após o escândalo, mas a audiência já o via com outros olhos. A estação manteve o contrato por mais um ano, mas a relação havia mudado. O apresentador, que simbolizava dignidade e visibilidade para a periferia, passou a ter um boletim de ocorrência e fotografias de hematomas associados ao seu nome.
E 2005 ainda não tinha terminado, porque naquele mesmo ano, uma assistente de bordo também apresentou queixa contra ele por agressão e ganhou o processo em tribunal. Um padrão estava a formar-se e ninguém poderia mais alegar que se tratava de acidente isolado. Se Fevereiro de 2005 tinha sido o primeiro terramoto, o que aconteceu em Novembro de 2005 foi a réplica que derrubou o que ainda estava de pé.
Desta vez, não havia versão para construir, não havia porta para culpar, não havia contexto que suavizasse o que todo o Brasil assistiu com os próprios olhos. Netinho de Paula desferiu um soco na cabeça de um repórter em direto e as câmaras gravaram tudo. O evento era o Troféu Raça Negra, uma celebração do dia da consciência negra, que também marcava o lançamento da TV, a estação que Netinho fundara dias antes.
Era um momento que deveria ser de triunfo, o homem da Cohab inaugurando a primeira televisão negra do Brasil. O O repórter Rodrigo Escarpa, conhecido por vesgo do extinto programa Pânico na TV, cobria o evento com o estilo de humor provocatório, que era a marca do programa, fez uma pergunta de duplo sentido.
Era exatamente o tipo de abordagem que qualquer assessor de imprensa orientaria o seu cliente a desviar com um sorriso? O Netinho não desviou. Avançou sobre o repórter e desferiu um soco direto na orelha de Rodrigo Escarpa. As imagens rodaram o país em lupe durante dias. Não havia ambiguidade possível, não havia ângulo favorável, não existia qualquer montagem enganosa.
Era um homem público num evento público, agredindo um profissional de imprensa perante múltiplas câmaras. O vesgo registou o boletim de ocorrência, interpôs um processo civil e Netinho perdeu. Foi condenado a pagar indemnização por danos morais, mais uma sentença judicial, mais uma dívida acumulada no passivo crescente da sua vida.
O que torna este episódio ainda mais devastador do ponto de vista simbólico é o timing. Netinho havia acabado de fundar uma emissora cujo propósito declarado era dar voz e dignidade ao povo negro. horas depois, agredia um repórter em direto. A contradição entre o discurso de representatividade e a conduta violenta tornou-se o principal argumento de todos os que passaram a questionar a autenticidade da personagem pública que tinha construído.
A questão que os os jornalistas começaram a fazer em voz alta era simples e devastadora. O homem que dizia defender a periferia tratava as pessoas que o rodeiam com o mesmo respeito que exigia para si. Em 2006, a Rede O Record terminou o contrato. O domingo da gente saiu do ar. Netinho deixou a emissora onde tinha construído o seu maior sucesso televisivo, carregando três processos ativos.
A denúncia de violência doméstica de Sandra Mendes, a ação da assistente de bordo e a condenação pelo murro no vesgo. Anos mais tarde, em 2018, ainda perderia outro processo a Rodrigo Escarpa, desta vez, por difamação. Após sugerir publicamente que o repórter era racista, a justiça entendeu que a acusação era infundada e condenou o Netinho novamente.
Uma única briga gerou duas derrotas judiciais separadas por mais de uma década. Depois do colapso na televisão, qualquer analista razoável diria que Netinho de Paula precisava de um período de reconstrução silenciosa, recuperar a imagem, liquidar as dívidas judiciais, manter um perfil baixo. Em vez disso, decidiu entrar na política e o eleitorado são-brasense, talvez por memória afetiva do domingo da gente, respondeu com entusiasmo surpreendente.
Em 2008, Netinho se candidatou-se a vereador de São Paulo pelo PCD B. Somou 80.432 votos, um número expressivo para o cargo que revelava que a sua base popular na A periferia paulista permanecia intacta, apesar de todos os escândalos. Eleito, assumiu o mandato em 2009. Dois anos depois, em 2010, tentou voos mais altos e concorreu ao Senado Federal.
recebeu uns impressionantes 7,7 milhões de votos em todo o estado de São Paulo. Não foi suficiente para a segunda vaga, que foi para Marta Suplici, mas o número demonstrava que a sua rejeição entre a elite mediática não se traduzia em rejeição popular. Em 2012, foi reeleito o vereador com folga. Desta vez, porém, não chegou a exercer o mandato diretamente.
O então presidente da Câmara Fernando Hadad, hoje ministro das Finanças do Governo Lula, nomeou-o secretário municipal da promoção da igualdade racial. Era o tipo de cargo que completava o arco narrativo de um menino da COAB, que tinha dedicado a sua carreira a falar sobre a representatividade negra. Na teoria, era uma escolha coerente e simbólica.
Na prática, foi onde Netinho cometeu os seus erros mais graves e mais documentados. Enquanto ocupou cargos públicos, Netinho utilizava verbas do gabinete de vereador para obter reembolsos mediante faturas de empresas fantasmas, as chamadas notas frias. A investigação do Ministério Público apontou ainda a compra de equipamento informático para uso pessoal com dinheiros públicos.
Em novembro de 2015, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo caçou o seu mandato por infidelidade partidária após ele se desfiliar do PCDB, que tinha bancado mais de 50% das suas despesas de campanha e migrar para o PDT sem justificação política reconhecida pela justiça. A votação em tribunal foi unânime.
A condenação por improbidade administrativa veio em 2016 pela quinta vara da Fazenda Pública de São Paulo. A justiça determinou que Netinho ressarcisse aos cofres públicos R$ 275.000, valor que com juros, coimas e correção monetária atingiu os R$ 275.000 em 2020. Pagou parte, parcelou o restante, deixou de pagar as prestações e em junho de 2023 o Ministério Público de São Paulo e a Câmara Municipal de São Paulo solicitaram a penhora das suas contas bancárias.
O homem que tinha sido secretário municipal responsável pela igualdade racial terminou com as contas bloqueadas pela mesma justiça do estado onde governou. Entre todos os processos que Netinho de Paula acumulou ao longo da vida, há um que se destaca não pela gravidade jurídica, mas pela crueldade humana que ele revela.
Um caso que iniciou-se em 2001, tramitou na justiça por mais de duas décadas, gerou penhoras em 2023 e culminou na apreensão do passaporte em dezembro de 2024. Um caso que envolve uma mulher comum, um rim, uma limousine e um apresentador que confundiu emoção com coerção perante milhões de espectadores.
A história começou no Domingo da Gente, no quadro Dia de Princesa, o mesmo segmento que tinha projetado Netinho como símbolo de dignidade popular. Uma mulher enviou uma carta ao programa a pedir ajuda financeira para custear o transplante de rim da irmã. A mãe da menina estava na fila de espera há muito tempo, sem perspetiva de dador compatível.
O que a participante queria era ajuda financeira para o procedimento. O que ela encontrou no estúdio foi algo completamente diferente. Diante das câmaras e de milhões de espectadores, Netinho conduziu o encontro numa direção que a mulher não tinha autorizado. Ele voltou o foco para ela como potencial dadora do próprio rim para a irmã. A participante resistiu.
Explicou que não podia ausentar-se do trabalho. Tinha duas filhas para sustentar. estava inscrita em concurso público, dependia do emprego. Netinho insistiu. Segundo os autos do processo, chorou diante dela. Usou o peso emocional do momento, a pressão do estúdio, o olhar de milhões de pessoas para duplicar a resistência de uma mulher que tinha ido ao programa pedir socorro financeiro, não autorização moral para abdicar de um órgão.
Ela cedeu, doou o rim e perdeu tudo o que tinha dito que perderia. O emprego foi-se antes mesmo da cirurgia. O concurso público ficou para trás. Sem rendimentos, sem o órgão que havia doado, sem a estabilidade que tentava proteger, ela processava o Netinho por danos morais. A justiça de São Paulo julgou o caso em 2003 e condenou o apresentador a pagar R$ 15.000 em indemnização.
Valor pequeno, mas simbólico. Netinho não pagou, recorreu. O processo tramitou durante anos. Com juros, coima e correção monetária acumulados ao longo de duas décadas, a dívida atingiu os R$ 100.000 em 2024. Em junho de 2023, a justiça determinou a penhora de R$ 83.000 em ativos de netinho, consórcios, títulos, qualquer bem rastreável.
O valor foi bloqueado, mas a dívida não foi integralmente liquidada. Em 29 de novembro de 2024, o juiz Marcos Gadelho Júnior deu um passo mais duro, ordenou que a Polícia Federal bloqueasse e apreendesse o passaporte de Netinho. O homem que tinha planeado uma turnê europeia com mais de 16 concertos pelo projeto Samba 90º.
passando por países da Europa e das Américas a partir de abril de 2025, descobriu que não podia sair do Brasil por causa de uma dívida a uma mulher a quem tinha constrangido em direto em 2001 e nunca indemnizado de forma completa. A mulher, segundo informações do processo, ainda não tinha recebido o valor integral até ao momento da apreensão do passaporte.
Tudo o que veio antes, a violência doméstica, o soco em direto, a improbidade administrativa, o passaporte apreendido, poderia ser lido como uma série de erros graves de um homem incapaz de controlar os impulsos e honrar compromissos. Mas o que veio à tona em fevereiro de 2025 colocou o nome de Netinho de Paula num território completamente diferente.
Não era mais uma briga de casal ou uma fatura defraudado, era o PCC. A revelação chegou através de uma denúncia do Ministério Público de São Paulo, obtida pela TV Globo e confirmada pelo portal Metrópoles, com acesso a documentos da Polícia Federal. O grupo de atuação especial de combate ao crime organizado, o Gaeco, tinha denunciado 12 pessoas por envolvimento com a maior facção criminosa do Brasil, branqueamento de dinheiro, tráfico, corrupção e associação criminosa.
Entre os denunciados estavam oito polícias civis e Ademir Pereira de Andrade, apontado como operador financeiro do PCC. E nas conversas extraídas do telemóvel de Ademir estava o nome de Netinho de Paula. A investigação da Polícia Federal revelou que Netinho mantinha bastante proximidade com Ademir e realizava empréstimos regulares com ele.
A quantidade de operações era tão significativa que o cantor tinha dado um apelido ao agiota banco da gente. O nome não era coincidência, era uma referência direta ao programa que tinha sido o maior sucesso de netinho na televisão, um homem que tinha construído a sua marca em torno da palavra gente. agora utilizava esse mesmo termo para se referir ao operador financeiro do Primeiro Comando da Capital.
Os diálogos entre Ademir e Netinho obtidos após a quebra do sigilo telemático do telemóvel do AGTA, segundo o MP, evidenciam a prática criminosa de empréstimo a juros. Em mensagens datadas de maio de 2023, Netinho mencionava dois empréstimos, um de 500.000$ e outro de R$ 2 milhões deais. Num dos áudios transcritos na investigação, o cantor dizia ao Agiota: “Vamos-nos acertando aí e no que diz respeito às questões dos juros, vou-lhe pagando o que for dando aí.
Pode ficar descansado, tá bom?” Uma frase que soava a conversa corriqueira entre dois conhecidos de longa data, não como o primeiro contacto de um artista com um criminoso desconhecido. Além dos empréstimos, a denúncia revelou uma articulação ainda mais grave. Ademir terá pedido a Netinho ajuda para organizar inspeções na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde os dirigentes do PCC estavam presos, entre eles Bécio Português e Fuminho.
O cantor teria enviado ao agiota informações sobre visitas técnicas de organismos de direitos humanos ao estabelecimento prisional federal. Se confirmado, isso significaria que Netinho não era apenas cliente de um agiota do PCC, era um canal de informação privilegiada sobre o sistema prisional federal para a cúpula da facção.
Quando a denúncia do Ministério Público veio a público em fevereiro de 2025, Netinho de Paula não ficou em silêncio. Ele respondeu em múltiplas frentes, redes sociais, entrevistas, notas de advogados, com uma narrativa de defesa que seguia uma lógica consistente. Ele conhecia a Ademir, sim, fez negócios com ele, sim, mas desconhecia por completo qualquer envolvimento do Agiota com o PCC.
Ao portal Léo Dias, Netinho declarou que conhecia Ademir Pereira de Andrade há aproximadamente 8 anos, que era um fã que o tinha contratado para concertos em eventos corporativos na região de Igaratá, no interior de São Paulo, e que os empréstimos tinham sido motivados pelas dificuldades financeiras geradas pela pandemia de Covid-19. Segundo o cantor, tinha procurado os bancos tradicionais primeiro e as taxas de juros cobradas por Ademir eram consideravelmente mais baixas.
Netinho afirmou ter ficado surpreendido ao descobrir o envolvimento de Ademir com atividades ilícitas, reforçando que a relação entre os dois era estritamente profissional e financeira. Em vídeo publicado nas redes sociais, o cantor foi mais emotivo. Eu posso ser tudo e fazer tudo, mas o meu povo sabe de onde vim.
Sabe que sempre fui contra as coisas erradas. Não sou perfeito, mas falar de facção nesta altura da vida é vergonhoso para vocês. A defesa jurídica reforçou que Netinho não era alvo de inquérito. O investigado era o Ademir, não ele. No programa Primeiro Impacto da SBT, o cantor repetiu esta distinção com ênfase.
O seu nome havia aparecido na acusação como citado, não como arguido. A diferença jurídica é real. A diferença de imagem, no entanto, é muito mais difícil de sustentar. Menos de duas semanas após a explosão do escândalo do PCC, na noite de 25 de fevereiro de 2025, Netinho foi vítima de um assalto violento na auto-estrada dos imigrantes enquanto regressava do litoral para São Paulo.
Dois homens armados fecharam-lhe o carro, desferiram-lhe um soco na cara e levaram o seu telemóvel, um iPhone 16. O cantor publicou um vídeo nas redes sociais exibindo a marca do golpe no rosto, agradecendo por estar vivo. O aparelho foi recuperado três dias depois, encontrado dentro de um saco preta em frente a uma igreja em Vila Esperança, em Cubatão.
Nenhum suspeito foi detido. O episódio do assalto condensou de forma quase cinematográfica a situação atual de Netinho de Paula. Um homem de 55 anos com passaporte apreendido pela Polícia Federal, contas penhoradas pelo Tribunal de Justiça, nome citado em acusação do Ministério Público sobre o PCC, agredido numa auto-estrada e sem segurança para mostrar ao mundo o próprio rosto magoado numa rede social.
O menino que saiu da Cohab a vender doces em estação de comboio tinha chegado longe. O problema era a direção que tinha escolhido para essa viagem. Há uma questão que atravessa toda a trajetória de Netinho de Paula e que nenhuma entrevista, nenhum vídeo nas redes sociais e nenhuma nota de advogado nunca respondeu de forma satisfatória.
Porque é que um homem com tanto talento, tanta visibilidade e tanto potencial de legado tomou repetidamente as piores decisões possíveis nos momentos mais críticos da sua vida? A resposta não está em conspiração, não está em racismo estrutural que o perseguiu. Embora o racismo seja real e documentado no entretenimento brasileiro, não está em perseguição mediática.
Está num padrão de comportamento que se repete com precisão cronométrica desde 2001. a incapacidade de aceitar limites impostos por outros, sejam esses limites: a autonomia de uma esposa sobre os seus bens, a resistência de uma mulher em doar um órgão, as regras de um partido político, as obrigações de um mandato de vereador ou os juros de um empréstimo com um banco legítimo.
Quando foi condenado por improbidade administrativa, a justiça concluiu que Netinho tinha utilizado faturas falsas para obter reimbursos por serviços não prestados e adquirido equipamento de informática para uso pessoal com dinheiros públicos. Não foi um erro de assessoria contabilística, foi uma escolha deliberada de usar o cargo público como extensão do orçamento pessoal.
exatamente o tipo de comportamento que tinha denunciado durante anos nos seus programas de televisão ao dar voz às populações que o sistema tinha marginalizado. O homem que falava em igualdade desviava dinheiro que deveria financiar políticas de igualdade. A denúncia do Ministério Público sobre os empréstimos junto do PCC é o capítulo mais grave desta história, porque não envolve apenas dinheiro ou ego, envolve a segurança pública.
Independentemente de Netinho saber ou não da origem criminosa dos recursos, o facto documentado é que apanhou 2,5 milhões deais emprestados a um operador financeiro da maior fação criminosa do O Brasil, enquanto tinha processos ativos, contas penhoradas e passaporte prestes a ser bloqueado.
E chamava a este homem de banco da gente, com a naturalidade de quem fala de um amigo de longa data. Hoje, Netinho de Paula tem 55 anos, sete filhos e nove netos. Segue-se na música com o projeto Samba 90º, em parceria com Xiririgor e Márcio Arte, e com o grupo familiar Os de Paula. Lançou o single namoro proibido em fevereiro de 2025, dias antes do escândalo do PCC dominar os noticiários.
Não pode sair do Brasil sem autorização judicial. Não liquidou a dívida com a mulher do rim em mais de duas décadas. não ressarciu integralmente os cofres públicos pelos desvios do mandato. É um homem que construiu um império sobre a palavra pessoas e que quando precisou de escolher entre esta gente e o próprio interesse, escolheu sempre o mesmo lado.
Metinho de Paula não foi destruído pela fama, foi destruído pela versão de si mesmo que escolheu ser quando ninguém estava a ver e às vezes quando todo o o Brasil estava a olhar. da COAB de Carapicuíba ao PCC, do Domingo da gente ao passaporte bloqueado pela Polícia Federal, do ídolo da periferia ao nome citado em denúncia do Ministério Público.
Cada passo desta queda teve um autor e esse autor assinou por baixo com o próprio punho. O que fica é a questão que fica depois de o documentário termina. Quantos netinhos existem por aí? Homens que constroem uma imagem de representatividade enquanto traem em privado exatamente as pessoas que dizem defender. Deixe o seu like se este documentário trouxe algo que não sabia.
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