Mas era Barísio quem recebia o tratamento mais hostil. Cada vez que ele pegava na bola durante o aquecimento, a adeptos gritavam insultos em português e espanhol. “Volta para a Argentina, palhaço. É o muro vai cair hoje. Pelé vai te destruir.” Barízio parecia adorar a atenção. Ele sorria, mandava beijos irónicos para claque, fazia gestos provocatórios.
Era claro que não tinha medo, ou pelo menos queria parecer que não tinha. Os colegas de equipa olhavam para ele com um misto de admiração e preocupação. Admiração pela coragem, preocupação porque conheciam Pelé de reputação e sabiam que provocar o brasileiro era um erro que poucos cometiam duas vezes. Juan José Pizzuti, o treinador do Rassin, chamou Barísio antes do jogo começar.
Héctor, tem a certeza do que está fazendo? Tenho, porque ainda vou a tempo de se desculpar, de dizer que foi mal interpretado. O Baríio olhou para o técnico como se fosse louco. Desculpar-me? Por quê? Eu só disse a verdade. A verdade pode ter consequências, Héctor. A única consequência vai ser o Pelé, percebendo que não é assim tão bom quanto pensa. Pitsuti suspirou.
Ele tinha tentado. Não havia mais nada a fazer. Antes do apito inicial, quando as equipas se posicionaram, Baríio fez algo que chocou até os seus próprios companheiros. Caminhou até ao meio de campo, onde Pelé estava, e parou à sua frente. Os fotógrafos, percebendo que algo estava a acontecer, correram para registar a cena.
“Ei, brasileiro”, disse Barísio em espanhol, autosuficiente para quem estava perto a ouvir. Leu o que eu falei no jornal? Pelé olhou para ele sem expressão. O seu rosto era uma máscara de tranquilidade. Li. E o que achou? Achei interessante. Interessante? É interessante. Ah, eu nunca tinha conhecido alguém tão burro. Os companheiros de Pelé riram-se.
Alguns Os jogadores do Rassin também tiveram de conter o riso. Barísio ficou vermelho de raiva. Vamos ver quem é burro daqui a 90 minutos. Não vai precisar de 90. 15 são suficientes. Barísio deu uma gargalhada forçada, tentando parecer confiante, mas havia algo no olhar de Pelé que o incomodou. Uma certeza, uma promessa, uma ameaça silenciosa que era mais assustadora do que qualquer grito.
15 minutos! Repetiu Barísio, tentando soar trocista. Vamos ver. Voltou para o gol, tentando manter a pose, mas os seus passos eram menos firmes do que antes e as suas mãos quase imperceptivelmente tremiam. O árbitro apitou. O jogo começou. Nos primeiros minutos, o Rassin tentou impor o seu jogo. Vieram com uma marcação forte, agressiva, a tentar sufocar o Santos no próprio campo.
Os defesas argentinos cercavam Pelé como sombras, não o deixando respirar. Era uma tática comum contra o Santos. Todo mundo sabia que se deixasse o Pelé livre, destruía qualquer defesa. A solução era marcá-lo com dois, três jogadores ao mesmo tempo, sufocá-lo, não deixar que a bola chegar a ele. Baríio comandava a defesa a gritar ordens do golo.
A sua voz ecoava pelo campo, dirigindo os defesas, organizando a marcação. Cada vez que a bola chegava perto da área, saía com autoridade, impondo a sua presença. Aos 5 minutos, o Santos teve a primeira chance clara. Coutinho recebeu na direita, driblou um marcador e cruzou para a área. Pelé subiu para cabecear, mas Barício saiu da baliza e socou a bola para longe. Foi uma defesa espetacular.
O timing perfeito, a força do soco enviando a bola quase até ao meio de campo. Quando os dois se levantaram, Baríio sorriu aquele sorriso arrogante que o definia. É isso que tem? Que desilusão. Pelé não respondeu, apenas voltou à posição com aquela calma que começava a parecer sobrenatural.
Aos 8 minutos, surgiu outra chance. Pep lançou Pelé em profundidade. Pelé dominou no peito, livrou-se do marcador com um giro e preparou-se para finalizar. Parísio saiu como um touro, fechando o ângulo, diminuindo o espaço. Pelé rematou forte, mas Baríio defendeu com o peito. A bola bateu-lhe e subiu. Por momentos, pareceu que ia entrar, mas Baríio recuperou, saltou e espalmou por cima da trave.
De novo, o guarda-redes argentino provocou. Estás a ficar velho, Pelé. Não consegue mais acertar na baliza. A claque da Vila Belmiro estava tensa. Ah, porque é que o Pelé não estava a conseguir? Porque é que Barízio tinha razão? Os murmúrios corriam pelas bancadas. Alguns adeptos começavam a se preocupar.
E se o argentino estivesse certo? E se Pelé estivesse realmente em declínio? Mas depois, aos 11 minutos, aconteceu algo que mudou tudo. O Santos armou uma jogada pelo lado esquerdo. A bola passou de pé para pé, rápida, precisa. O toque de bola era hipnótico. Um jogador recebia, passava, outro recebia, passava. Os argentinos corriam atrás, mas chegavam sempre um segundo atrasados.
Quando a bola chegou a Pelé, este estava de costas para a baliza com um zagueiro grande e forte colado nele. O defesa se chamava-se Roberto Perfumo e era considerado um dos melhores da Argentina. Segurava a camisa de Pelé com uma mão, empurrando com a outra. A qualquer outro jogador teria tentado proteger a bola, esperar apoio, tocar pro lado. O Pelé fez outra coisa.
Ele deu um toque por cima do próprio corpo, fazendo a bola passar por cima do defesa surpreso. O movimento foi tão rápido, tão inesperado, que o Perfumo ficou parado sem perceber o que tinha acontecido. Depois, Pelé rodou em torno do defesa, como se estivesse a dançar, apanhou a bola do outro lado e ficou frente a frente com Barízio.
O guarda-redes saiu do gol imediatamente. Os dois estavam a menos de 10 m de distância. Era a hora da verdade. E assim Pelé fez algo que ninguém esperava. Ele parou. Simplesmente parou com a bola no pé, olhando nos olhos de Barízio. O tempo pareceu gelar. 23.000 pessoas sustiveram a respiração. Os jogadores das duas equipas pararam onde estavam. Até o árbitro parou.
Barísio hesitou, não sabia o que fazer. continuar a sair, esperar, voltar. Pelé estava ali parado com a bola, a olhar para ele. Porque é que ele não chutava? Era um duelo psicológico e Baríio esteve a perder por 2 segundos, 3 segundos, 4 segundos, os dois ficaram assim. Pelé parado, sorrindo levemente. Barísio dividido, confuso, começando a suar.
E então, nesta hesitação, Pelé agiu. Deu um toque suave para o lado. A bola passou a centímetros da mão esticada de Barísio, que se tinha atirado tarde demais, e entrou na baliza, 1-0. A Vila Belmiro explodiu, 23.000 pessoas gritando ao mesmo tempo. O estádio inteiro a tremer. O barulho era tão forte que os jogadores mal conseguiam ouvirem-se uns aos outros.
Pelé não festejou de forma efusiva, não correu, não saltou, não foi abraçar os companheiros, apenas virou-se para Barízio, a que estava caído no chão, e disse: “Faltam 14 minutos”. Barízio levantou-se vermelho de vergonha e raiva. O rosto dele estava contorcido. Ele apanhou a bola dentro do golo e chutou-a com força para o meio de campo.
“Foi sorte!”, gritou, a voz rachando. Por acaso não vai acontecer de novo. Mas aconteceu aos 13 minutos, apenas 2 minutos depois, o Santos recuperou a bola no seu terreno de defesa. Uma troca rápida de passes levou a bola até Pelé, que estava à entrada da área. Desta vez não tinha nenhum defesa marcando de perto.
Perfumo tinha escorregado segundos antes, tentando intercetar um passe. Elé estava livre. Baríio saiu do golo novamente. Ele veio rápido, determinado, querendo corrigir o erro anterior. Queria mostrar que o primeiro golo tinha sido um acidente, que ele ainda era o muro. Pelé olhou para ele e fez a mesma coisa de antes. Parou, esperou, deixou Barizio vir.
Era como se Pelé estivesse a brincar com ele. Como um gato brinca com um rato antes de lhe dar o bote final. O Barísio correu 5 m, 3 m, 2 m. Ele ia buscar a bola, ia mostrar quem mandava. E depois, quando o guarda-redes se atirou, esticando o corpo todo para apanhar o bola, Pelé simplesmente tocou por cima dele.
A bola subiu, passou pelo corpo esticado de Barísio e caiu dentro do golo. Mansinha, quase em câmara lenta. 2 aos 0. 13 minutos de jogo, dois golos e Barísio começava a desmoronar-se. A adeptos cantavam agora o nome de Pelé e também troçava de Barízio. Os cantos eram cruéis, impiedosos, lembrando as declarações que tinha dado pro jornal. É o muro caiu. É o muro caiu.
Onde está o guarda-redes que ia parar o Pelé? Regressa a Buenos Aires. Ah, palhaço. Os jogadores argentinos olhavam para o guarda-redes com uma mistura de piedade e frustração. Ele tinha provocado, tinha colocado pressão desnecessária em cima de si mesmo e agora estava a pagar o preço. Perfumo.
O defesa aproximou-se de Barízio. Precisa de se acalmar. Ainda tem muito jogo. Eu estou calmo. Não, você não tá. Estás deixando ele entrar na a sua cabeça? Ele não está na minha cabeça, mas estava. Pelé tinha-se instalado na mente de Barísio como um parasita e estava a devorar tudo o que encontrava. Mas o pior ainda estava para vir.
Tranquilo porque Pelé tinha marcado dois golos espetaculares. Mas depois veio o que destruiu Barízio para sempre. Aos 15 minutos exatos, o Santos armou mais um ataque. A bola chegou a Pelé pela esquerda. Ele dominou com a planta do pé, olhou para o golo e viu Barísio posicionado. O guarda-redes estava a tremer, literalmente a tremer.
As suas mãos não paravam quietas. Seus olhos estavam arregalados, como os de um animal encurralado. Pelé apercebeu-se e decidiu fazer algo que entraria para a história. Em vez de pontapear direto, como qualquer jogador faria nessa posição, começou a driblar. Passou por um defesa com uma finta de corpo, depois por outro com uma pedalada.
Entrou na área driblando como se estivesse num treino. Os defensores caíam como dominós. Cada um que tentava pará-lo era deixado para trás, humilhado, sem compreender o que tinha acontecido. A claque gritava a cada drible, o ruído aumentava a cada defensor superado. Era como uma onda crescendo, crescendo, prestes a quebrar. E então Pelé ficou frente a frente com Barízio pela terceira vez em 5 minutos.
O guarda-redes não saiu, não conseguia se mover. A estava paralisado de medo, de vergonha, de um misto de emoções que nunca tinha sentido antes. Suas pernas não obedeciam, o seu corpo não respondia. Ele queria sair, queria fazer alguma coisa, mas não conseguia. Pelé chegou a menos de 3 metros dele, tão perto que podia ver o suor a escorrer pelo rosto do guarda-redes, tão próximo que conseguia ver o medo nos olhos dele.
E em vez de rematar, Pelé fez uma embaixadinha, uma embaixadinha no meio de um jogo em frente ao guarda-redes. Ele levantou a bola com o pé direito, deixou ela subir até à altura do peito e cabeceou para a baliza. A bola passou por cima da cabeça de Barízio, que nem se mexeu, e entrou no canto direito. 3 a 0.
15 minutos. O estádio enlouqueceu. 23.000 pessoas perderam a razão. O barulho era tão intenso que se ouvia a quilómetros de distância. A Mas Pelé não estava a olhar para a torcida, estava olhando para Barízio. O guarda-redes argentino tinha caído de joelhos, as mãos na cara, os ombros a tremer. Ele estava a chorar na frente de 23.
000 pessoas, à frente dos companheiros de equipa, na frente dos adversários. Barísio, Elmuro, o guarda-redes imbatível, estava a chorar como uma criança. O treinador do Rassin, Juan José Pitsuti, viu a cena do banco. Ele levantou-se e começou a caminhar em direção ao campo, mas o árbitro impediu-o. O jogo não parou, disse o árbitro.
Não pode entrar. O meu guarda-redes tá tendo um colapso. Eu não posso fazer nada. O jogo continua. Barísio levantou-se devagar. As lágrimas ainda a escorrer pelo rosto, deixando marcas no suor e no pó, e fez algo que ninguém esperava. Ele caminhou até à linha lateral e parou na frente do técnico. Mentira, disse em espanhol a voz trémula.
Por favor, me tira do jogo. Pitsuti ficou em choque. O quê? Quer sair? Eu não consigo mais. Não consigo olhar para ele. Por favor, tira-me. Héctor, são 15 minutos, ainda faltam 75. Eu não me importo. Tira-me, por favor, eu estou te implorando. Os jogadores do Rassin olhavam sem acreditar. O grande Barízio é o Muro. O guarda-redes imbatível, estava a implorar para sair do jogo aos 15 minutos.
Pitsuti olhou para o campo, viu Pelé parado no meio, a observar a cena. Viu a claque ainda em festa, viu os jogadores do Santos sorridentes. Ele não tinha escolha, fez sinal ao árbitro e pediu a substituição. Baríio saiu de campo de cabeça baixa, chorando, sem olhar para ninguém. A adeptos da vila Belmiro, que minutos antes odiava-o com toda a força, o a agora estava em silêncio.
Não tinha mais graças o arar um homem destruído. Não tinha mais satisfação em ver um adversário tão completamente derrotado. Era como assistir a um acidente horrível, mas impossível de desviar o olhar. O guarda-redes reserva, um jovem chamado Agostimas, entrou em campo visivelmente assustado. Tinha 20 anos e nunca tinha jogado contra Pelé e acabara de ver, com os seus próprios olhos, o que Pelé tinha feito com o titular.
Sejas era um rapaz magro, de cabelo claro, que mal tinha barba na cara. Ele tinha sido convocado para essa excursão como experiência, para aprender com os veteranos. Nunca imaginou que teria de jogar. Quando passou pelo Baríio a ir para a baliza, ele tentou dizer alguma coisa, alguma palavra de conforto, de solidariedade, mas Barísio nem sequer olhou para ele, apenas continuou a andar, chorando a em direção ao túnel.
O jogo recomeçou e Pelé continuou a fazer o que fazia melhor. Aos 22 minutos, novo golo. 4-0. Um remate de fora da área que o jovem Sejas nem viu passar. Aos 31, outro. 5 a 0. Uma cabeçada após cruzamento de Coutinho. Aos 40 mais 1, 6-0. Uma jogada individual que começou no meio de campo e terminou com a bola no fundo da rede.
O primeiro tempo terminou com o resultado de 6 a 0 para o Santos. Pelé tinha marcou todos os seis golos. Era algo que nunca tinha acontecido. Nenhum jogador em nenhum lugar do mundo tinha marcado seis golos num primeiro tempo contra uma defesa que incluía jogadores da seleção argentina. No intervalo, o balneário do O Racing era um velório.
Os jogadores não conseguiam acreditar no que tinha acontecido. Tinham vindo ao Brasil confiantes, pensando que podiam competir e estavam sendo massacrados. Barísio estava sentado a um canto sozinho, a cabeça entre as mãos. Ninguém falava com ele, ninguém sabia o que dizer. O que se diz a um homem que acabou de ter a sua carreira destruída na frente de 23.
000 pessoas? Pitsuti tentou reorganizar a equipa, mas a sua voz não tinha convicção. Precisamos de manter a dignidade, não deixa o marcador aumentar mais. Mas toda a gente sabia que era impossível. Pelé estava possuído e não havia nada que pudessem fazer. No vestiário dos Santos, o clima era completamente diferente.
Alegria, celebração, piadas sobre os argentinos. Mas Pelé estava calado. Coutinho apercebeu-se e aproximou-se. Seis golos no primeiro tempo. Está bem? Pelé olhou pró companheiro. Havia algo de estranho no olhar dele. Não era alegria, era outra coisa. Eu exagerei disse o Pelé. Exagerou? Você tá a brincar? Foi incrível. Não, eu exagerei.
Viu o Barísio? Você viu o que fiz com ele? Coutinho não entendeu. Fez o que tinha que fazer. Ele provocou. Ele provocou com palavras. Eu respondi, destruindo a sua carreira. Pelé, tu não sabe se lhe destruiu a carreira. Pelé abanou a cabeça. Eu sei, vi nos olhos dele. Ele nunca mais vai ser o mesmo. A conversa foi interrompida por Lopes, o técnico, que veio dar instruções para o segundo tempo.
Mas as palavras de Pelé ficaram a ecoar na cabeça de Coutinho. O segundo tempo foi menos brutal, mas apenas porque Pelé abrandou o ritmo. Ele tocou mais, driblou menos, deixou os companheiros participarem. Ah, era como se tivesse decidido que já tinha provado o seu ponto. Ainda assim, o Santos marcou mais dois golos. O jogo terminou 8-2.
Pelé marcou sete dos oito golos do Santos. Era até àquele momento a sua maior atuação num único jogo pelo clube. Depois do jogo, os jornalistas cercaram Pelé no balneário. Queriam saber o que que achava da atuação, o que tinha sentido ao ver Barísio implorar para sair. Pelé respondeu com aquela classe que o definia, mas havia algo de diferente na voz dele. Uma sombra.
Eu não tenho nada contra o Barísio. Ele é um bom guarda-redes, mas este cometeu um erro. Ele achou que me podia subestimar. Achou que podia dizer coisas sobre mim sem consequências. Hoje aprendeu que não pode. Acha que foi demasiado duro com ele? Pelé pensou por um momento. Mais tempo do que o normal. Eu fui honesto.
Ah, mostrei quem eu sou. Se isso foi demais para ele aguentar, o problema não é meu. E sobre a carreira dele, acha que isso vai afetar? Pelé ficou em silêncio. Aquela pergunta era mais difícil. Aquela pergunta tocava em algo que não queria admitir publicamente. Eu espero que não. Eu espero que ele aprenda com isso e continue a jogar bem.
Mas isso depende dele, não de mim. A resposta de Pelé foi diplomática. cuidadosamente diplomática, mas a realidade foi muito mais cruel. A A carreira de Héctor Baríio nunca mais foi a mesma depois desse dia. Barízio voltou paraa Argentina como um homem destruído. No avião não falou com ninguém.
ficou a olhar pela janela, vendo as nuvens passar, pensando em tudo o que tinha acontecido. Os seus companheiros de equipe tentaram consolá-lo. Diziam que podia acontecer com qualquer pessoa e que Pelé era simplesmente bom demais, que não era culpa dele. Mas Barísio sabia a verdade. A culpa era dele, sim. Ele tinha provocado, tinha aberto a boca, tinha cavado a própria cova.
Quando o avião aterrou em Buenos Aires, havia jornalistas à espera. A notícia do que tinha acontecido já tinha chegado e os os jornalistas queriam sangue. Barízio, o que tem a dizer sobre os sete golos? Ainda acha que o Pelé está acabado? Como se sente depois de ser humilhado daquela forma? Barísio passou pelos jornalistas sem responder.
Entrou num táxi e foi directamente para casa. Trancou a porta e não saiu durante três dias. Nos jornais do dia seguinte, as manchetes eram cruéis. “É o muro que ruiu”, dizia o Clarim. “Pelé construiu uma estrada por cima de Almuro.” dizia o Lanacion. Barísio de herói a piada em 15 minutos dizia a revista EGáfico. A revista EGáfico foi particularmente brutal.
Publicaram uma foto de Barísio, ajoelhado no relvado, chorando com a manchete. O momento em que um guarda-redes morreu era sensacionalismo, era cruel, era o jornalismo desportivo da época. Os adeptos do Rassen, que antes o idolatravam, agora eram divididos. Alguns ainda o apoiavam, dizendo que qualquer guarda-redes teria sofrido contra aquele Pelé.
Outros culpavam-no, dizendo que ele tinha trazido isso para si com as declarações. No primeiro treino depois do regresso, Baríio sentiu a diferença. Os companheiros tratavam-no de forma diferente, mais distantes, mais cuidadosos, como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. E quando foi para o golo, para fazer os exercícios normais de aquecimento, algo de estranho aconteceu.
Ele não conseguia concentrar-se. A cada bola que vinha na sua direção, via o rosto de Pelé. Cada finalização, ele lembrava-se daquele toque suave passando por cima do seu corpo. Cada embaixadinha dos atacantes no treino, revivia a humilhação do terceiro golo. Ele falhou. Falhou em defesas simples que antes fazia de olhos fechados.
Falhou em saídas de baliza que antes eram automáticas. Os companheiros perceberam, o técnico apercebeu-se e Barísio apercebeu-se que tinham percebido. Depois do treino, Pits chamou-o ao escritório. Héctor, precisa de tempo. Tempo para quê? Para recuperar, pro que aconteceu no Brasil. Eu não preciso de tempo. Eu preciso de jogar.
Você não está bem, Héctor. Eu vi no treino. Eu tô ótimo. Foi só um dia mau. A Pitsuti não insistiu, mas escalou o reserva para o próximo jogo e para o jogo depois e para o jogo depois desse. Barisio assistiu do banco, roendo as unhas, vendo sejas, o miúdo de 20 anos, fazer defesas que ele deveria estar a fazer.
Um mês depois, finalmente voltou a jogar. Um jogo pequeno contra uma equipa do interior era para ser fácil, era para ser a hipótese de recuperar a confiança. Ele levou quatro golos. Não eram golos de Pelé, eram golos de jogadores comuns de uma equipa de meio de tabela. Eram golos que o Baríio de antes defenderia sem esforço, mas o Baríio de antes já não existia.
Em seis meses, perdeu a posição de titular no Rassing. O clube tentou emprestá-lo a outras equipas, mas a fama do que tinha acontecido o perseguia. “Quer contratar o guarda-redes que o Pelé destruiu?”, perguntavam os dirigentes. “Boa sorte! Em um ano foi dispensado definitivamente. Tentou jogar em equipas mais pequenas, em divisões inferiores.
A mais cada vez que entrava em campo, os Os adeptos adversários lembravam o que tinha acontecido. Sete golos. Sete golos. Baríio levou sete golos. O canto perseguia-o de cidade em cidade, de estádio em estádio. Era impossível escapar. Em 1967, com apenas 31 anos, Héctor Baríio se retirou-se do futebol profissional.
Ele deu uma última entrevista antes de desaparecer da vida pública. A entrevista foi para uma revista desportiva argentina chamada Solo Futebol. E nela ele finalmente falou sobre o que tinha acontecido naquele dia. “Cometi o maior erro da a minha vida”, disse Barísio, a voz carregando o peso de do anos de sofrimento.
Eu pensava que podia intimidar Pelé. Pensei que se falasse alto, se eu mostrasse confiança, ele ia ficar nervoso. Mas eu estava enganado, completamente errado. O entrevistador, a um jovem jornalista chamado Carlos Ferreira, perguntou sobre o momento em que pediu para sair do jogo. Baríio fechou os olhos como se estivesse revivendo a cena. O seu corpo estremeceu.
Olhei para ele depois do terceiro golo. Ele estava ali parado a olhar para mim. Não estava a celebrar, não estava a provocar, só olhando. E vi algo nos olhos dele que nunca esquecerei. O quê? Pena. Ele estava a sentir pena de mim. E naquele momento entendi que já não era um jogo, era uma execução.
E eu era a vítima. Por isso é que pediu para sair? Eu não pedi, implorei porque sabia que se eu ficasse, ele ia continuar, ia marcar 5, 6, 10 golos até não aguentar mais psicologicamente. A sair foi a única forma de preservar o pouco de sanidade que me restava. E arrepende-se das declarações que fez antes do jogo? Barísio abriu os olhos.
Por momentos, pareceu que ia chorar de novo, mas ele controlou-se. Eu arrependo-me todos os dias. Cada manhã quando acordo, a primeira coisa que lembro-me é daquele dia, das palavras que eu disse, da forma como provoquei um homem que eu não tinha capacidade para enfrentar. Fez uma pausa, respirou fundo. Eu destruí a minha carreira com aquelas palavras.
Não foi o Pelé que me destruiu, fui eu próprio. Pelé só mostrou a verdade que eu não queria ver. Esta entrevista foi a última vez que Baríio falou publicamente sobre futebol. Depois disso, desapareceu. Alguns diziam que ele tinha voltado para a cidade natal da família, no interior da província de Córdova. Outros diziam que ele tinha ido paraa Europa, tentando recomeçar longe das memórias.
Alguns mais cruéis diziam que ele tinha se entregado à bebida. Ninguém sabia ao certo e durante quase 20 anos ninguém procurou descobrir. Mas a sua história tornou-se lenda. Era contada em balneários, em bares, em programas de rádio. Era usada por técnicos para ensinar jovens jogadores sobre a humildade. “Nunca provoques um adversário que te não pode ganhar”, diziam os treinadores.
“Ou pode acabar como barísio.” Era um aviso, uma parábola, a história do guarda-redes que desafiou o rei e pagou com a própria alma. Pelé, por sua vez, raramente falava sobre aquele jogo. Quando questionado, dava respostas vagas, dizendo que tinha sido apenas mais uma partida. Mas os que conheciam Pelé de perto sabiam que aquele jogo tinha significado mais do que ele deixava transparecer.
Coutinho, o seu parceiro de ataque por tantos anos, contou uma história numa entrevista décadas depois. Na noite do jogo com o Rassin, depois de toda a celebração, encontrei o Pelé sozinho no balneário. Todo mundo já tinha ido embora. Ele estava sentado num banco, olhando para o nada. Perguntei se tava tudo bem.
Ele demorou a responder. Parecia estar muito longe, perdido em pensamentos. Depois de um longo silêncio, disse: “Coutinho, destruí aquele homem hoje. Não a carreira dele, a alma dele. Eu vi nos olhos dele quando caiu de joelhos. Eu vi que ele nunca mais vai ser o mesmo.” Fiquei sem saber o que dizer. Depois perguntei-lhe se ele se sentia culpado. Ele abanou a cabeça devagar.
Culpado não, provocou. Ele trouxe isso para si próprio. Mas isso não significa que não sinta nada. Eu sinto porque sei o que é amar o futebol e acabei de tirar isso de alguém. Esta conversa nunca foi publicado enquanto Pelé jogava. Coutinho guardou-a durante décadas, revelando só depois de os dois já estarem aposentados.
E ela mostra um lado de Pelé que poucos conheciam. O lado que entendia o peso das suas próprias ações. O lado que sabia que, por vezes, vencer completamente significava destruir alguém para sempre. Mas a história de Barísio tem mais capítulos que precisam de ser contados. Em 1985, 20 anos depois daquele fatídico jogo, a um jornalista brasileiro chamado Roberto Melo decidiu fazer uma reportagem especial sobre jogadores que tinham defrontou Pelé e nunca recuperou.
Melo era um repórter de investigação, conhecido por ir atrás de histórias que outros jornalistas ignoravam. Ele tinha ouvido falar de Barísio, do guarda-redes que tinha sido destruído na Vila Belmiro, e ficou obsecado em descobrir o que tinha acontecido com ele. Passou meses a pesquisar, entrevistando ex-jogadores, ex-treinadores, familiares.
Viajou para a Argentina três vezes, falou com dezenas de pessoas que conheciam Barísio e finalmente descobriu onde ele estava. Barísio vivia numa cidade pequena chamada Vila Maria, no interior da província de Córdoba, Argentina. Tinha 60 anos e trabalhava como zelador numa escola primária local.
Melo viajou até lá. Encontrou Barísio num fim de tarde de Outono, varrendo o pátio da escola enquanto as crianças brincavam ao redor. O homem que encontrou era muito diferente do guarda-redes arrogante de 1965. Barísio estava magro, envelhecido, com cabelos completamente brancos. As mãos que antes defendiam pontapés poderosos, seguravam agora uma vassoura velha, mas os olhos ainda tinham algo, uma intensidade, uma profundidade, o olhar de um homem que tinha visto coisas que nunca conseguiu esquecer.
Senr. Barísio? Perguntou Melo em espanhol hesitante. O velho deixou de varrer, olhou para o jornalista com desconfiança. Quem quer saber? O meu nome é Roberto Melo. Sou jornalista brasileiro. Estou fazendo uma reportagem sobre jogadores que enfrentaram Pelé. A menção do nome fez Barísio estremecer.
Por um momento, os seus olhos fecharam-se, como se sentisse dor física. Pelé, murmurou, faz 20 anos e tu ainda veio até aqui por causa dele. O senhor aceitaria conversar comigo sobre o que aconteceu nesse dia? Barício ficou em silêncio durante um longo momento. Melo pensou que ele ia recusar, que ia mandá-lo embora, que ia fechar-se como provavelmente tinha-se fechado para tantos outros.
Mas depois algo mudou no rosto do velho. Uma decisão, uma aceitação. “Senta-te ali”, disse, apontando para um banco debaixo de uma árvore antiga. Acabo de varrer e a gente conversa. A entrevista durou quase 3 horas. O solôs durante a conversa e eles continuaram no escuro, iluminados apenas pela luz que vinha das janelas da escola.
Barísio falou sobre tudo, a sua infância nos bairros pobres de Buenos Aires, os tempos da Vársia, quando descobriu que era bom no Gol, a ascensão no Rassen, os anos de glória, a fama de Almuro. Falou sobre as declarações pro jornal, sobre a arrogância que o cegou, sobre a certeza absoluta de que podia travar qualquer atacante. e falou sobre o jogo, sobre cada momento, cada golo, cada humilhação.
Era a primeira vez em quase 20 anos que ele falava de futebol de uma forma tão aberta. As palavras saíam como água represada, encontrando-se finalmente uma saída. “Quer saber o que aprendi naquele dia?”, perguntou Barísio quando a entrevista estava a chegar ao fim. Melo assentiu. Aprendi que existem pessoas no mundo que são simplesmente melhores do que a pessoas, não um bocadinho melhores, não marginalmente superiores, incomparavelmente melhores.
E quando encontra uma pessoa assim, tem duas opções: admitir a superioridade dela e aprender com isso. Ou tentar derrubá-la e ser esmagado. E tentou derrubar? Tentei com palavras, com arrogância, com estupidez e fui eu que caiu. Porque Pelé não é apenas um jogador. Pelé é uma força da natureza. Não se derruba uma força da natureza.
Só pode admirar ou ser esmagado por ela. O senhor ainda lhe guarda rancor? Barízio deu uma gargalhada amarga, mas não era amarga de raiva, era amarga de tempo, de anos passados. Rancor? Não, pelo contrário, com o tempo passei a respeitá-lo ainda mais, porque fez o que qualquer grande jogador faria.
Ele respondeu à provocação da única forma que um génio sabe responder, com génio absoluta. E se o senhor pudesse voltar atrás no tempo, faria algo diferente? Barísio suspirou. Um suspiro longo, carregado de décadas. Eu não teria abriu a boca. Eu teria entrado em campo quieto, feito o meu trabalho e talvez tivesse levado apenas dois ou três golos em vez de sete.
Talvez tivesse mantido a minha carreira. talvez tivesse tido uma vida diferente. Fez uma pausa, mas a a arrogância cegou-me e a cegueira tem um preço. Eu paguei o meu. A reportagem de Melo foi publicada numa revista desportiva brasileira em 1986. Era uma matéria longa, detalhada, emocionante. Tinha fotos de Barísio nos tempos de Rassen, contraste com fotos dele como zelador.
Tinha depoimentos de ex-companheiros, de familiares, de pessoas que tinha assistido ao jogo. A reportagem teve grande impacto tanto no Brasil como na Argentina. Foi traduzida para espanhol e publicada em revistas argentinas. foi citada em programas de televisão, tornou-se referência para qualquer discussão sobre Pelé e os seus adversários e e uma das pessoas que leu foi o próprio Pelé.
Alguns meses depois da publicação, Barísio recebeu uma carta. Não tinha remetente no envelope, apenas um selo brasileiro com a imagem do Cristo Redentor. Dentro havia uma folha de papel branca com uma mensagem curta, escrita à mão com uma caligrafia elegante. Héctor, li a entrevista que deu pro jornalista brasileiro.
Li várias vezes e sei que os últimos 20 anos foram difíceis para si. Eu sei que aquele dia na Vila Belmiro foi o início de tudo o que veio depois. Eu não me arrependo-me do que fiz em campo. Você provocou. Eu respondi. É assim que o futebol funciona? É assim que eu funciono. Mas arrependo-me de não ter conversado consigo depois do jogo, de não ter estendido a mão, de ter deixado você carregar esse peso sozinho por todos estes anos.
Foste um bom guarda-redes. A melhor do que muitos que eu enfrentei. Tinha talento, coragem, presença. Não merecia o que aconteceu depois. A claque cruel, a imprensa impiedosa, os seus próprios companheiros te abandonando. Foram mais cruéis do que eu alguma fui. Eu espero que tenha encontrado paz nesta pequena cidade e espero que um dia se consiga lembrar da sua carreira pelos bons momentos, não pelo pior dia. Com respeito, Pelé.
Barísio leu a carta três vezes. Na primeira, não acreditou que era real. Na segunda, tentou encontrar alguma ironia, alguma provocação escondida. Na terceira, finalmente entendeu era genuíno. Pelé, o homem que tinha destruído ele, estava a pedir desculpa, não pelo jogo, pelo que veio depois. E pela primeira vez em 20 anos, Héctor O Baríio chorou de verdade.
Não eram lágrimas de tristeza, não eram lágrimas de raiva ou de arrependimento, eram lágrimas de alívio, de libertação, de finalmente receber algo que ele nem sequer sabia que precisava tão desesperadamente. Reconhecimento. conhecimento de que ele tinha existido, de que tinha sido bom, de que, apesar de tudo, merecia respeito.
Guardou a carta no bolso e nunca mostrou a ninguém, nunca contou aos filhos, para a esposa, para os poucos amigos que tinha na cidade. Era algo só dele, um segredo entre ele e o homem que tinha mudado a sua vida para sempre. apenas contou sobre ela a Melo, quando o jornalista voltou para uma entrevista de acompanhamento em 1990.
“Pelé mandou-me uma carta”, disse Barísio, tirando o papel amarelado do bolso. Passados 20 anos, pediu desculpas. Melo ficou em choque. Pelé pediu desculpa. Por quê? Ah, ele não não fez nada de mal no campo. Não pediu desculpa pelo jogo. Pediu desculpas por não ter falado comigo depois, por me ter deixado sozinho com a humilhação, por não ter estendido a mão quando mais precisava.
E o que sentiu quando o leu? Barísio sorriu. Era a primeira vez que Melo via-o sorrir de verdade, um sorriso que chegava aos olhos. Eu senti que finalmente podia deixar aquele dia para trás, que o homem que me destruiu também era o único que me podia reconstruir. E fê-lo com uma carta de algumas linhas, com algumas palavras escritas num papel.
Você respondeu: “Não, o que é que eu ia dizer? Obrigado por me ter humilhado e depois pedido desculpa. Não tinha resposta possível. A carta em si era a resposta. A carta era o fecho que eu precisava. Barísio guardou a carta de volta no bolso e com cuidado. Eu leio-a toda vez que começo a sentir-me amargo, toda a vez que a raiva tenta voltar.
E ela me recorda que no final Pelé era humano também, um humano extraordinário, capaz de coisas que os comuns mortais não conseguem, mas humano. Héctor Barisio faleceu em 1997. aos 61 anos. Ataque cardíaco enquanto assistia a um jogo de futebol na televisão. O jogo era entre a Argentina e o Brasil pelas eliminatórias da Copa do Mundo.
Irónico, de certa forma, morreu vendo os dois países que tinham definido a sua vida se enfrentando mais uma vez. Entre os pertences dele, a família encontrou uma caixa de sapatos velha debaixo da cama. Dentro da caixa havia recortes de jornais amarelados, fotos antigas dele nos tempos de racing, a medalha de um campeonato que tinha ganho em 1963 e uma carta dobrada cuidadosamente, a protegida por um plástico transparente, uma carta com um selo brasileiro.
A família, sem compreender a importância, quase deitou tudo fora. Mas um dos filhos que sabia um pouco de português, leu a carta e percebeu quem a tinha escrito. Doaram a carta a um museu de futebol em Córdoba. Ela está lá até hoje numa vitrina de vidro junto a uma foto de Barísio nos tempos de glória. A placa ao lado conta a tal história resumida.
Carta de Pelé ao guarda-redes Héctor Barízio. 1986. Um gesto de reconciliação 20 anos depois de um confronto histórico. Mas a história completa, a história de um homem que provocou o rei e pagou com a própria carreira e depois foi redimido por uma carta de poucas linhas. Essa história merece ser contada em todos os os seus detalhes.
Porque não se trata só de futebol, é sobre a arrogância e a humildade, sobre consequências e redenção, sobre o preço que pagamos quando achamos que podemos desafiar algo maior do que nós próprios. E sobre a possibilidade de cura mesmo décadas depois, Pelé não destruiu Barísio por maldade.
Destruiu porque era que fazia quando provocado. Quando desafiado, ele superava. Quando insultado, respondia: “Era a natureza dele forjada nas ruas de Bauru, aperfeiçoada nos campos do mundo inteiro. Mas Pelé era também humano, também sentia o peso das suas vitórias. também entendia que, por vezes, vencer completamente significava destruir alguém que não merecia ser destruído tão completamente.
A carta que enviou 20 anos depois mostra isso. Mostra que, apesar de toda a a glória, apesar de todos os títulos e recordes, nunca esqueceu o homem que tinha deixado de joelhos naquele relvado. E mostra que a verdadeira grandeza não está apenas em vencer. Está na forma como trata os derrotados depois.
Está na capacidade de reconhecer que o seu triunfo pode ter causado dor. Está na humildade de pedir desculpa, mesmo quando não fez nada de errado. Mas a história do jogo de 1965 teve outros efeitos que poucos conhecem. Agostim Sejas, o guarda-redes reserva que substituiu Barísio nesse dia, teve uma reação completamente diferente à experiência.
Sejas tinha 20 anos quando entrou em campo para defrontar Pelé. Ele tinha acabado de ver o seu ídolo, o grande Barísio, ser completamente destruído. E estava aterrorizado. As suas pernas tremiam quando correu para o golo. As suas mãos suavam dentro das luvas. O seu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir os companheiros. Mas algo mudou quando pisou o relvado e olhou paraa frente.
Ah, ele viu o Pelé e em vez de ver um monstro, viu um homem. Um homem extraordinariamente talentoso. Sim, um homem capaz de coisas sobrehumanas, sem dúvida, mas ainda assim um homem de carne e osso. E sejas decidiu naquele momento que não ia ter medo. Se ele fosse ser humilhado, seria tentando.
Se fosse para sofrer golos, seria dando tudo de si. Ele não ia se ajoelhar, não ia chorar, não ia implorar para sair. Nos restantes 75 minutos do jogo, Sejas defendeu tudo o que era humanamente possível defender. Ele levou dois golos, sim, mas também fez defesas espetaculares. Defesas que fizeram os adeptos da Vila Belmiro, que estava ali para ver o Santos massacrar, aplaudir de pé.
Uma defesa em particular ficou na memória de todos. Aos 28 minutos da segunda parte, Pelé recebeu a bola à entrada da área. Driblou dois defesas, a como já tinha feito tantas vezes nesse dia, e rematou no canto esquerdo. Era um pontapé perfeito, colocado, impossível de defender. Mas sejas voou, literalmente voou.
O seu corpo esticou-se no ar como se desafiasse as leis da física e a ponta dos dedos tocou na bola, desviando-a pro travessão. A bola bateu na trave e saiu. O estádio inteiro ficou em silêncio por um segundo, incrédulo. E depois algo surpreendente aconteceu. Pelé aplaudiu. O maior jogador do mundo, que tinha acabado de ter um golo em fora de jogo, estava a aplaudir o guarda-redes reserva de 20 anos que tinha feito a defesa.
Sejas não sabia como reagir. Ficou parado, olhando para Pelé, esperando alguma provocação que nunca chegou. Depois do jogo, Pelé procurou sejas no balneário do Rassen. “Jogou muito bem”, disse Pelé, estendendo a mão. Ah, especialmente considerando a situação. Sejas apertou a mão ainda em choque. “Obrigado”, murmurou. “Tem talento.
Não deixa que o que aconteceu hoje te assustar. Use isso como aprendizagem. Aprenda com o erro do barísio. Não repita-o.” Sejas guardou aquelas palavras como um tesouro e usou-as como combustível pro resto da carreira. Nos anos seguintes, tornou-se o goleiro titular do Rassen. Ganhou campeonatos, foi convocado paraa seleção argentina, construiu uma carreira sólida que durou quase duas décadas.
Em 1969, 4 anos depois daquele jogo traumático, Sejas enfrentou novamente Pelé. Dessa vez, numa partida da Libertadores, o Santos venceu, mas por apenas 2-1. E Sejas defendeu um penálti cobrado pelo próprio Pelé. Quando a bola bateu nas as suas luvas e saiu pela linha de fundo, Sejas olhou para Pelé.
O brasileiro sorriu e levantou o polegar. era o reconhecimento definitivo, a confirmação de que tinha aprendido, evoluído, se tornado melhor. Depois do jogo, os dois trocaram de camisola e Pelé disse algo que Sejas carregou para o resto da vida. Eu sabia que ias crescer. Eu vi isso nessa tarde em Santos. Barísio tinha recebido a destruição porque tinha provocado.
Sejas tinha recebido o incentivo porque tinha mostrado coragem e resiliência. Era o mesmo Pelé, a fazer coisas completamente diferentes para pessoas diferentes. Destruidor implacável quando desafiado. Mentor generoso quando via potencial. Esta dualidade é o que fazia Pelé tão fascinante, tão complexo, tão humano, apesar de parecer sobre-humano em campo.
O Campeonato do Mundo de 1970 foi o ápice de tudo isso. O Brasil jogou o melhor futebol da história e conquistou o tricampeonato. No balneário, antes da final contra o Bra Itália, Pelé olhou para os companheiros e disse: “Vamos ganhar esta Copa, mas vamos ganhar com dignidade, sem destruir ninguém para além do necessário, sem humilhar mais do que o jogo exige.
” Tinha aprendido algo entre 1965 e 1970. tinha compreendido que a verdadeira vitória não precisa de aniquilar o derrotado. O O Brasil venceu por 4-1 e Pelé, fiel à as suas palavras, festejou com alegria, mas sem provocações. Héctor Baríio assistiu à final de uma televisão pequena no interior da Argentina.
Quando viu Pelé levantar a taça, não sentiu raiva, sentiu admiração. “Ele é o maior”, murmurou para si mesmo. “E tive o privilégio de o enfrentar, mesmo que tenha sido o pior dia da minha vida. Depois foi também o dia em que eu Estive mais perto da grandeza.” Era uma forma estranha de ver as coisas, mas era a paz que Baríio tinha finalmente encontrado.
Esta é a história que eu queria contar hoje. A história de um guarda-redes que desafiou Pelé e pagou com a carreira. A história de outro guarda-redes que enfrentou o mesmo desafio e saiu fortalecido. A história de um génio capaz de destruir e de curar. Pelé fez muitas coisas extraordinárias, mais de 1000 golos, três Campeonatos do Mundo, melhor do séc.
Mas talvez a coisa mais extraordinária não esteja em nenhuma estatística. Está nessa carta de poucas linhas enviada 20 anos depois. está no aperto de mão, oferecido a um guarda-redes reserva assustado. Está na capacidade de ser implacável e compassivo ao mesmo tempo. Se você chegou até aqui, deixe um comentário contando.
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