Raul Seixas Chamou Luiz Gonzaga ao Palco No Meio do Show — o Que Aconteceu Virou Lenda

Raul Seixas chamou Luís Gonzaga ao palco a meio do concerto. O que aconteceu tornou-se lenda. Em 1971, Luís Gonzagas entrou num teatro em São Paulo com a intenção firme de se sentar na última fila, assistir ao concerto de Raul Seixas, sem que ninguém o reconhecesse e ir embora antes do fim. Tinha prometido a si próprio que não ia subir a nenhum palco nessa noite.

Mas Raul Seixa sabia que ele estava ali. e tinha preparado algo que Gonzaga nunca foi capaz de recusar. O que aconteceu nas duas horas seguintes é uma história que muito poucas pessoas conhecem e as que sabem quase nunca contam completo. Luís Gonzaga nesse ano estava num lugar complicado. Não era o auge, era o avesso.

O Brasil tinha virado de cabeça para baixo. A jovem guarda e a bossa nova tinham engolido o espaço que o baião ocupava na rádio. que muita gente dentro da indústria discográfica já tratava Gonzaga como uma figura do passado, uma saudade de museu, aquele acordeonista do Nordeste que tinha feito sucesso nos anos 50. A palavra que circulava nos corredores das editoras discográficas era essa: passado.

E Gonzaga sabia, tinha ouvido isso, sentido nas vendas que caíam, nos contratos que não renovavam, nos programas televisivos que o chamavam por obrigação folclórica. Não por respeito, mas este homem tinha nascido em Exu, Pernambuco, debaixo de um sol que não pede licença para queimar. E nunca aprendeu a baixar a cabeça só porque alguém disse que era hora.

O que vai descobrir daqui a pouco é que Raul Sueixas não tinha chamado Gonzaga para aquela noite por acidente. Tinha um motivo, um motivo que Gonzaga só se soube de verdade muito tempo depois. E quando soube, ficou em silêncio e durante um bom tempo antes de falar qualquer coisa. Mas antes de chegar lá, precisa de perceber o que aconteceu naquele camarim antes do concerto começar.

Porque o que se passou entre os dois homens numa sala pequena com cheiro a cigarrilo, barato e madeira velha foi a coisa mais estranha e mais bela que aconteceu naquele teatro inteiro naquela noite. E este pormenor ficou fora de toda a entrevista. de todo o livro, de toda a reportagem que já saiu sobre os dois.

Gonzaga tinha chegado a São Paulo nessa semana, vindo de uma longa temporada no interior do Ceará. tinha feito uma série de forró nas pequenas cidades, aquelas cidades do sertão, onde o seu nome ainda valia ouro, onde os velhos, que tinham emigrado para as capitais, regressavam uma vez por ano para visitar a família e pediam para ouvir asa branca com os olhos cheios de água.

eram espectáculos humildes, palcos de madeira, por vezes nem isso, apenas um estrado improvisado numa praça de feira, com a concertina ligada num amplificador velho que cheiava nos agudos. Mas o povo ia, o povo ia sempre quando Gonzaga estava, e este contraste doía-lhe de um jeito específico. Quanto mais simples o local, mais cheio ficava.

Quanto mais requintado for o palco de S. Paulo, mais vazio se sentia. Naquela tarde, antes de ir para o teatro, Gonzaga tinha almoçado sozinho num tasco na Bela Vista, o bairro dos nordestinos em São Paulo, aquele pedaço da cidade onde o sotaque do sertão ainda sobrevivia entre uma rua e outra.

O dono do bar reconheceu-o imediatamente, trouxe uma cerveja sem pedir, sentou-se à mesa sem ser convidado e esteve a falar durante 20 minutos sobre como a sua mulher tinha chegado de São João do Cariri há 15 anos com a filha nos braços e uma foto de Gonzaga dobrada dentro da mala. A foto se estava no bolso da roupa que ela usou atravessar 200 e tal quilómetros de catinga num pau de arara.

Gonzaga ouviu tudo, comeu devagar. Quando foi embora, não cobrou o almoço. O dono do boteco só se apercebeu quando foi apresentar a conta. Esse era o Gonzaga. Esta era a matéria que ele transportava no peito. Mas havia algo que ele ainda não sabia sobre aquela noite. Algo que Raul Seixas tinha armado com cuidado, com a mesma inteligência torta e criativa que O Raul colocava em tudo o que fazia.

uma armadilha, se lhe quiser chamar assim, mas do tipo que só faz bem. O Teatro Paramount ficava na rua Augusta e naquela noite de Setembro de 1971 estava com as cadeiras ocupadas por um público diferente do que Gonzásaga estava habituado a ver. Jovens de cabelo comprido, mulheres com roupas coloridas, rapazes com ar de universitário e cara de quem tinha acabado-se de descobrir que o mundo era grande, o Brasil jovem, aquele que dançava diferente, que ouvia diferente, que tinha outra relação com a música popular. Gonzaga era de outra geração,

de outro mundo quase, e sabia que quando entrou pela porta lateral e pediu para Nas não ser anunciado. Conseguiu uma cadeira no fundo, ficou ali, o chapéu de couro na mão, a concertina em casa, porque tinha jurado que não ia tocar. Só queria ouvir o Raul. Tinha ouvido falar demais daquele baiano de Salvador, que tinha jeito de maluco e alma de poeta.

e uma coragem em palco que poucos músicos brasileiros tinham. Queria ver com os seus próprios olhos. Raul Seixa subiu ao palco perto das 9 da noite. Entrou com aquela pisadela característica, meio bamboleante, o chapéu de cangaceiro que se tinha tornado marca registada, o violão zainado de uma forma que não era exatamente correto, mas soava certo do mesmo jeito.

Abriu o concerto com uma música rápida. aquele rockabil nordestino, que era a mistura mais improvável e mais genial que a música brasileira tinha produzido até então. A plateia respondeu com um calor que Gonzaga reconheceu. Reconheceu porque era o mesmo calor que ele próprio recebia nos forrosões do sertão.

Diferente na embalagem, idêntico na alma. E é aqui que a história começa a puxar numa direção que ninguém esperava. Uns 20 minutos de concerto, Raul pára a meio de uma música. Para de verdade. Deixa o violão quieto. Olha paraa plateia com aquele sorriso rasgado que tinha, aquele sorriso que parecia que sabia alguma coisa que não sabia e disse: “Antes de continuar, preciso de fazer uma coisa importante. A plateia fica quieta.

Raul vira-se para o lado do palco, para o fundo, e grita um nome. Grita o nome de Gonzaga. Não pergunta se ele está lá. Grita como quem sabe, como quem avisou o pessoal dos bastidores para ficar de olho na entrada e enviar recado quando o velho chegasse. Gonzaga lá ao fundo sentiu o sangue subir.

Não de envergonhamento, de raiva quase. Tinha prometido para si mesmo. Tinha prometido que não ia subir palco nenhum nessa noite. Mas as pessoas em redor já tinham começado a olhar, a rodar o pescoço, a procurar. Alguém o reconheceu, depois outro, depois outro. E começou aquela coisa que quem já viveu numa festa nordestina conhece bem.

A voz que passa de boca em boca, o sussurro que se transforma em murmúrio, que transforma-se em grito. Gonzaga. O Gonzaga está lá. Ficou parado por uns segundos, o chapéu de couro nas mãos, a cabeça baixa e depois levantou-se devagar, passou-os pelas cadeiras com aquele andar pesado e tranquilo que tinha e foi em direção ao palco.

O que aconteceu quando ele subiu os degraus daquele palco? O que Raul disse em voz baixa antes de empurrar o microfone para ele e o que Gonzaga respondeu antes de pegar. A concertina que tinha aparecido do nada nos braços de um técnico. Isto vem daqui há pouco, porque antes disso há uma parte da história que a maioria das das pessoas salta e que muda completamente o que vai sentir quando chegar ao final. Não.

Raul Seixas tinha 18 anos na primeira vez que ouviu Luís Gonzaga no rádio. Vivia em Salvador, numa casa de família com menos dinheiro do que orgulho. O tipo de família baionense que rezava forte e pagava uma conta em atraso. O rádio era um Philips de caixa de madeira. Ficava na sala de jantar e a programação era aquilo que tinha.

música saloio, bolero e nos finais de tarde, por vezes o baião que subia do nordeste pelas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O Raul ouvia e parava tudo. Parava o que estava a fazer e ficava olhando para a rádio como quem olha para uma coisa viva. A voz de Gonzaga tinha aquele timbre que enchia o quarto, aquela pronúncia que era de toda a gente e de ninguém, o arguido arrastado, o ritmo que sentíamos antes de entender a letra.

Raul não era nordestino, mas algo naquilo batia-lhe igual. Mais tarde, muito mais tarde, quando Raul já era um nome grande na música brasileira e tinha dinheiro para comprar quantos Philips quisesse, disse numa conversa com um produtor musical que a primeira coisa que ele entendeu sobre a música de verdade veio daquelas tardes a ouvir Gonzaga no rádio.

Disse que o Gonzaga tinha uma coisa que a maioria dos músicos brasileiros não tinha. Ele cantava como quem estava contando uma coisa que tinha acontecido com ele. Não uma história bonita, uma coisa real que doía, que ele tinha vivido no corpo. E é aqui que a história dessa noite de 1971 começa a fazer mais sentido, porque o Raul não tinha chamado Gonzaga ao palco para fazer um número de homenagem.

tinha chamado por outro motivo, um motivo que Gonzaga demorou um bom tempo para compreender completamente. E quando entendeu, disse-es que foi uma das poucas coisas na vida que o deixaram sem resposta na ponta da língua. Mas o que aconteceu no palco antes de qualquer explicação foi assim. Gonzaga subiu os degraus. A plateia explodiu.

Raul afastou-se do microfone, deu dois passos para trás, abriu os braços, como quem entrega um presente. O técnico de palco, um rapaz com cerca de 20 e poucos anos, que depois contou esta história a filha, que cresceu e contou para muita gente. Disse que trouxe a concertina de um armário dos bastidores onde ela estava guardada há horas.

Guardada lá por ordem de Raul. Raul sabia que Gonzaga ia aparecer. Gonzaga pegou na concertina, ficou um momento a olhar para a plateia. Aqueles jovens de cabelo comprido e roupas coloridas, aqueles estudantes universitários que provavelmente nunca tinham pisado um forró de sertão, que provavelmente conheciam Gonzaga mais de nome do que de música, e apertou a acordeão contra o peito.

O Raul se aproximou-se, falou baixo, tão baixo que quem estava perto do palco não conseguiu ouvir direito. O que se ouviu foram fragmentos. Canta o que quiseres. Pode começar. Eu fico aqui ao lado. O técnico de palco disse que ouviu mais uma coisa, mas essa parte vai ficar para mais adiante, porque ela muda tudo o que está a pensar sobre essa história.

Gonzaga abriu a concertina e puxou asa branca, mas puxou de forma diferente. Puxou devagar, quase como quem se está a lembrar, não como quem está a apresentar. O primeiro verso saiu baixo, quase para dentro, como a voz de um homem. que está falar com alguém que se foi embora há muito tempo, quando olhei para a terra a arder, qual a fogueira de São João? Eu perguntei a Deus do céu: “Ai, por que tamanha punição?” E o público, aquele plateia de jovens que vieram ouvir outra coisa, ficou em silêncio. Um silêncio

que o técnico de palco descreveu assim: “Era o tipo de silêncio que cai quando o coisa à nossa frente é maior do que a gente.” Gonzaga foi crescendo, a voz foi engrossando, a concertina foi abrindo e quando chegou à parte da despedida, quando chegou àquele trecho que todo o nordestino, que já apanhou um camião de retirante para São Paulo, carrega no peito como uma cicatriz, qualquer coisa aconteceu com aquele teatro.

Homens de fato que tinham vindo fazer charme deixaram de cruzar as pernas. Mulheres que nada tinham a ver com o Nordeste meteram a mão na boca. Raul Seixas, de pé ao lado de Gonzaga, ficou a olhar para o chão. O técnico de palco teve de ir para o fundo dos bastidores porque disse que não conseguia estar de frente.

Você ainda não sabe o que o Raul disse em voz baixa para Gonzaga antes de ele começar a tocar. Essa parte vem e quando vem vai fazer tudo o que acabou de ouvir ganhar outro peso. Gonzaga cantou quatro músicas nessa noite. Quatro músicas que não estavam programadas, que não tinham ensaio, que não tinham nome de produtor nem contrato de cachet.

Depois de Asa Branca, velho, baião. É depois shot das meninas. E a última foi uma que raramente cantava em concertos daquela época, uma que ficava mais para as apresentações do interior, para as feiras livres, para quando o público era de gente que tinha vivido o sertão de verdade.

A quarta música era o regresso da asa branca. E quando Gonz cantou aquela música nessa noite, quando cantou o regresso, a chuva que veio, o nordestino que regressa, porque a terra chama alguma coisa no teatro Paramount em São Paulo. Em setembro de 1971, tornou-se diferente para sempre e para todo o mundo que lá estava. Mas aqui há uma coisa que quase ninguém sabe sobre esta quarta música, uma coisa sobre o que o Raul fez durante ela.

Isso vem daqui a pouco, porque antes precisa de perceber o que aconteceu no camarim depois de Gonzaga ter descido do palco, porque foi ali, naquela sala pequena de madeira velha e cigarro barato, que as coisas a sério foram ditas. Gonzaga desceu do palco com as mãos a tremer. Não de nervoso. As mãos de Gonzaga tremiam sempre um pouco depois de tocar.

Uma coisa que a concertina fazia nos seus braços depois de tantos anos. Sentou-se num banco de madeira, pôs a concertina no chão, tirou o chapéu de couro e ficou a olhar em frente por um tempo. O técnico de palco trouxe água. O Gonzaga bebeu. Raúl apareceu alguns minutos depois. ainda com a adrenalina do espectáculo no corpo, aquele jeito agitado que tinha, e fechou a porta do camarim.

Os dois ficaram sozinhos por quase 40 minutos. O que ali foi dito é o coração desta história. E chegou até hoje da forma como as coisas chegam quando não tem gravação e não tem testemunha. pela boca de uma pessoa que soube de outra, que soube de outra. Mas as partes que batem, as partes que se repetem em cada versão, estes têm consistência e é essa consistência que importa.

Raul chegou direto ao assunto. Disse que tinha chamou Gonzaga ao palco por um motivo que ele ia explicar, mas que primeiro queria ouvir uma coisa. Perguntou o que Gonzaga sentia quando estava a tocar em pequenos lugares do interior, naqueles espectáculos de feira, naquelas praças de cidade que tinha 300 pessoas no máximo? Gonzaga olhou para ele, disse: “Sinto que estou em casa, meu filho”.

Raul ficou um momento quieto, depois disse que era exatamente isso, que era exatamente essa a razão de ter chamado Gonzaga ao palco nessa noite, porque O Raul estava a tentar entender uma coisa sobre música que nenhum livro tinha conseguido explicar-lhe. E ele pensava que Gonzaga era a única pessoa capaz de ensinar. Hum.

Queria saber como Gonzaga fazia para estar em casa em todos os o local onde tocava, como a música podia ser maior do que o palco, maior do que a fama, maior do que tudo o que o mercado fonográfico estava a fazer com o baião naquele momento. Gonzaga ficou em silêncio durante um bom tempo antes de responder, e quando respondeu, o que disse não foi o que o Raul esperava ouvir.

Mas aqui o que é preciso dizer é outra coisa. Porque há um pormenor dessa conversa no camarim que saiu numa pequena publicação de Salvador nos anos 80, uma dessas revistas de música regional que circulavam em banca de jornal e desapareciam em três dias e que um investigador achou décadas depois num acervo de biblioteca pública.

Esse detalhe é a peça que faltava para montar tudo. E ele contradiz uma parte da história que provavelmente já ouviu contar. A versão que circulou nos anos seguintes, que entrou em algumas biografias, que se tornou uma espécie de mito consolidado, dizia que Raul e Gonzaga encontraram-se pela primeira vez nessa noite, que a chamada ao palco foi um insulso generoso de Raul, um gesto espontâneo de um jovem músico homenageando um velho mestre.

Essa versão é incompleta. Os dois dois já tinham falado antes, não em palco, não em evento oficial. Tinham-se cruzado num estúdio de gravação no Rio de Janeiro. Meses antes daquela noite de setembro. tinham ficado uns 20 minutos conversando num corredor enquanto esperavam cada um pela sua sessão de gravação.

E naquela conversa no corredor, Raul tinha feito a Gonzaga uma pergunta diferente. Tinha perguntado uma coisa sobre o sertão, uma questão específica, pessoal, que Gonzaga achou estranha vinda de um baiano de Salvador que nunca tinha posto os pés no semiárido. Gonzaga tinha dado uma resposta rápida, a resposta de quem está apressado e não se quer comprometer.

E tinha ido embora para a gravação sem pensar mais sobre o assunto. Meses depois, no camarim do teatro Paramount, Raol trouxe aquela mesma pergunta de volta, palavra por palavra, igual como quem não esqueceu, como quem estava à espera da hora certa. E essa hora certa, esse momento em que Raul repetiu a pergunta com toda a plateia, ainda a aplaudir do outro lado da porta.

Foi o momento mais pesado de toda a noite, porque Gonzaga entendeu que a chamada ao palco, a acordeão guardado no armário, o espetáculo inteiro, era apenas o caminho para chegar até ali. Era a preparação para aquele momento específico num camarim de madeira com cheiro a cigarro barato. A pergunta que o Raul fez, a mesma pergunta das duas vezes, era sobre o sertão, mas não sobre a seca, não sobre a pobreza, não sobre a migração, era sobre outra coisa.

Era sobre uma dor que Gonzaga nunca tinha posto em música de um jeito direto. Uma dor que ficava debaixo de tudo, que a concertina sugeria, mas nunca dizia. O Raul perguntou o que era pior, sair do sertão ou voltar? Gonzaga ficou a olhar para ele e desta vez não tinha gravação para fazer do outro lado da porta. Desta vez tinha tempo.

O que Gonzaga disse como resposta a esta pergunta é a revelação central desta história. E antes de lá chegar, você precisa de saber uma coisa sobre o ano de 1971 e o lugar em que Gonzaga estava emocionalmente. Porque a resposta que ele deu naquele camarim não é a resposta que teria dado 10 anos antes ou 10 anos depois.

É uma resposta que só podia ter saído daquele momento específico, daquele homem que carregava aquele peso específico. Luís Gonzaga tinha 53 anos em 1971. tinha saído de Exu com 17 numa madrugada de segunda-feira, sem avisar o pai, sem deixar recado. O pai era Januário, acordeonista de feira, homem duro e orgulhoso, que tinha ensinado o filho a tocar e depois ficado à espera que o filho ficasse. Ficou à espera.

O filho foi e o silêncio que se manteve entre os dois durante anos, aquele silêncio que é o tipo mais pesado, porque não é uma luta, é ausência. Este silêncio Gonzaga carregou toda a vida. Tinha voltado para Exu algumas vezes, não tantas como podia ter voltado, sempre com a desculpa do trabalho, dos concertos do Rio de Janeiro, que não parava, mas a desculpa tinha outra coisa por baixo. E ele sabia.

Voltar para Exu significava olhar pro velho Januário e ter de responder a uma pergunta que nenhum dos dois tinha conseguido formular por palavras, mas que estava lá cada vez que os dois se sentavam-se na mesma mesa. Januário tinha Faleceu em 1969, 2 anos antes da noite de teatro Paramount.

Morreu numa manhã de terça-feira em Exu, sem que Gonzaga conseguisse chegar a tempo. Gonzaga estava em São Paulo quando recebeu o recado. Apanhou o primeiro transporte que pôde, não chegou. Essa perda ficou nele de uma forma que nenhuma entrevista chegou perto de descrever bem. Ficou no lugar onde as palavras não chegam, mas a concertina às vezes chegava.

ficou no timbre que a sua voz tinha naquele noite de setembro de 1971, quando cantava asa branca devagar, quase para dentro, como quem está a falar com alguém que se foi embora. E foi esse peso, este peso específico de 2 anos que Gonzaga carregava quando Raul fez a pergunta no camarim. O que era pior, sair do sertão ou regressar? Gonzaga ficou em silêncio, pôs o chapéu de couro no banco ao lado, cruzou as mãos grandes e disse uma coisa que o Raul repetiu para poucas pessoas ao longo da vida, mas repetiu da mesma forma, todas as vezes, com as

mesmas palavras, como quem não quer que a frase mude. Gonzaga disse: “Sair é mal, meu filho, mas sair fazes uma vez. Voltar faz-se a vida toda. Toda noite em que dorme longe, volta. E cada vez que volta no sonho, você tem de sair novamente de manhã. Raul ficou a olhar para ele. Gonzaga completou mais baixo.

O pior é que com o tempo começa a não saber mais o que é pior e depois fica-se perdido nos dois locais ao mesmo tempo, sem chegar a nenhum. O silêncio que se instalou depois deste durou um tempo que os dois contariam diferente, porque era o tipo de silêncio que estica. O Raul não disse nada imediatamente, não quando falou, foi só uma coisa.

Disse que era exatamente esse o sentimento que ele estava a tentar compreender, que era exatamente isso que queria colocar na música, mas que não conseguia porque nunca tinha vivido o sertão, nunca tinha saído de lá, nunca tinha feito aquela viagem de camião que Gonzaga tinha feito aos 17 anos. E depois disse a terceira coisa dessa noite que mudou, o que cada um dos dois estava pensar sobre o próprio trabalho.

Disse: “Mas o senhor consegue fazer eu sentir cada vez que o senhor toca, eu sinto como se tivesse saído de um lugar de onde nunca saí.” Gonzaga ficou a olhar para ele por um momento longo. Depois fez uma coisa que o técnico de palco, que tinha regressado com mais água e ficado à porta sem ser mandado embora, descreveu como a coisa mais inesperada da noite.

Gonzaga riu-se, não um riso curto de educação, um riso verdadeiro, demorado, que sacudiu os ombros e disse: “Então já está nordestino, o meu filho, só não sabe ainda. Tem uma última parte desta história que ficou guardada durante muito tempo. Uma parte que envolve a quarta música, o regresso da asa branca. E o que Raul fez durante ela, que quase ninguém notou porque toda a gente estava olhando para Gonzaga.

Quando Gonzaga começou a cantar o regresso da Asa Branca, Raul não ficou ao lado dele ao microfone. Raul recuou, foi para a beira do palco, para o lado, e ficou ali de costas para a plateia, olhando para Gonzaga. O técnico de palco que estava nos bastidores com uma visão lateral do palco, viu o que aconteceu. Raul chorava discretamente, do forma como os homens choram quando não querem que ninguém veja.

Mas o ombro trai. Ficou lá do princípio ao fim da música, de costas paraa plateia, de frente a Gonzaga. Ninguém na plateia viu. Todos olhavam para Gonzaga. O técnico viu e não contou durante muitos anos. Quando contou, foi à filha que cresceu e contou a muita gente, como contei-lhe agora. Raul Seixas e Luís Gonzaga se encontraram outras vezes depois daquela noite. Não muitas.

A vida dos dois seguiu em direções diferentes, os diferentes projetos, os públicos diferentes, os anos diferentes. Mas em Z em pelo menos duas ocasiões distintas, O Raul mencionou aquela noite do teatro Paremount, mencionou a conversa no camarim, mencionou a frase sobre sair e voltar, Gonzagra. Quando questionado sobre Raul em entrevistas, dizia sempre a mesma coisa com pequenas variações.

que o Raul era um artista que compreendia o Brasil de uma forma que poucos artistas entendiam, que era um homem com alma de retirante, mesmo sendo baiano. Uma vez, numa entrevista radiofónica dos anos 80, o entrevistador perguntou se Gonzaga e Raul tinham alguma amizade próxima. Gonzaga respondeu: “Conhecemo-nos de uma forma que não precisa de amizade frequente para ser verdadeira.

O entrevistador foi mais longe na entrevista sem perceber bem o que isso significava. Mas quem conhece a história do teatro Paramount compreende. Há uma coisa que ficou pendente nesta história e que precisa de ser dita antes do fim. Aquela pergunta do Raul sobre o que era pior, sair ou voltar, não saiu do nada.

Havia uma razão para Raul fazer aquela questão específica, uma razão que tem a ver com algo que o Raul estava vivendo no seu próprio trabalho naquela altura, uma tensão que não conseguia se resolver e que achava que a resposta de Gonzaga podia ajudar a clarificar. Raul se estava prestes a tomar uma decisão que ia mudar completamente o rumo da carreira dele, uma decisão que as pessoas que com ele conviviam sabiam.

que estava a chegar. Mas ninguém tinha coragem de discutir abertamente uma decisão sobre onde ficar, onde pertencer, que tipo de artista ele queria ser dentro de um Brasil que estava a mudar demasiado rápido para qualquer pessoa conseguir acompanhar. E a resposta de Gonzaga, aquela frase sobre estar perdido nos dois lugares ao mesmo tempo, entrou nesta tensão de Raul de uma forma que ele não esperava.

Entrou como um espelho, não como um conselho, como retrato de alguma coisa que ele já sentia, mas não tinha encontrado palavras para nomear. O que o Raul fez com isso? Depois torna-se outra história, uma história que tem São Paulo, Salvador, o Rio de Janeiro e uma série de escolhas que Raul foi fazendo ao longo dos anos 70 com a marca daquela conversa em algum lugar por baixo.

Esta história não cabe aqui, mas ela existe. O que aqui cabe é o que ficou daquela noite de Setembro de 1971 no Teatro Paramount. Ficou uma plateia que veio ver o Raul e saiu falando de Gonzaga. Ficou um técnico de palco que durante décadas não contou o que viu à beira do palco. Ficou uma acordeão guardado num armário de bastidores horas antes do início do espetáculo.

Ficou uma pergunta feita duas vezes em diferentes lugares por um baiano de Salvador, que queria compreender uma dor que não era dele, mas que a música de Gonzaga tinha plantado nele quando ele tinha 18 anos e ouvia rádio na sala de jantar. E ficou uma frase curta, nordestina, sem espaço para enfeite. Todas as noites que dorme longe, você volta.

E cada vez que volta no sonho, tem de sair de novo de manhã. Esta frase é o coração desta história e é o coração de uma parte da música brasileira que não tem nome definido, que não cabe num só género, que é feita do sertão e da migração e da saudade que não passa mesmo quando a vida melhor. A música de Gonzaga sempre soube disso.

Raul soube disso depois de ouvir Gonzaga. E quem está a ouvir essa história agora, quem quem cresçan rádio, quem traz no peito o nome de uma cidade do Nordeste, mesmo vivendo a 1000 km de distância, este sabe do que estou falando sem que eu tenha de explicar. Esta coisa que está no peito, esta que dói orgulho ao mesmo tempo, esta que nem tempo nem a distância conseguem diminuir, esta tem um nome, chama-se Luís Gonzaga.

E naquela noite de 1971, um jovem músico de Salvador, que um dia seria o rei do rock, percebeu que a coroa que Gonzaga usava era feita de uma matéria diferente, mais pesada, mais antiga, mais difícil de arrancar. Se viveu alguma parte dessa história no próprio peito, se você ou alguém que adorou fez aquela viagem de camião ou de autocarro, saindo do Nordeste com uma mala pequena e uma saudade que foi crescendo com o tempo, conta aqui por baixo de onde és e o que o nome de O Gonzaga faz quando se ouve. O que você

acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada. Porque um dia, numa entrevista em direto, Silvio Santos olhou para Luís Gonzaga bem nos olhos e fez uma pergunta que ninguém tinha feito antes daquela maneira. Perguntou por que o Nordeste? Perguntou de um modo que não era protocolo de apresentador, que saiu diferente, mais direto, mais pesado.

E a resposta de Gonzaga calou todos no estúdio. Calou a equipa, calou os outros convidados. calou Sílvio. Teve um momento de silêncio ao vivo que durou mais do que um silêncio de televisão, costuma durar. A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, tem mais histórias como esta à sua espera aqui no canal. Yeah.

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