Roberto Carlos Entrou no Show de Raul Seixas Sem Ser Convidado — Raul Parou a Música e Disse

Há noites que ficam guardadas na memória de quem lá estava. Não por causa de um grande evento, de um palco enorme, de milhares de pessoas gritando, mas precisamente pelo contrário, porque aconteceram num lugar pequeno, num ambiente fechado, quase secreto, perante de poucos escolhidos. E porque naquele espaço apertado, naquela noite que parecia demasiado comum para guardar qualquer surpresa, o inesperado entrou pela porta.

Rio de Janeiro, início dos anos 80. A cidade vivia uma das suas fases mais intensas, mais contraditórias, mais cheias de energia. Do lado de fora, o O Brasil respirava uma redemocratização ainda frágil, um país que tentava sacudir de si os anos duros da ditadura militar e olhar para o futuro com os olhos abertos.

E num clube fechado do Rio de Janeiro, naquela noite em particular, o palco era de Raul Seixas. Não era um espectáculo para o grande público. Não havia cartazes espalhados pela cidade, não havia fila no passeio, não havia uma reportagem marcada para cobrir o evento. Era um daqueles ambientes que existem numa zona entre o íntimo e o profissional, onde os músicos tocam com mais liberdade, precisamente porque não há câmara, não há imprensa, não há obrigação de ser perfeito.

O tipo de noite onde qualquer coisa pode acontecer e muitas vezes acontece. Raul estava em palco completamente entregue, como sempre esteve quando a música tomava conta do seu corpo inteiro. Aquele homem magro, de cabelo revolto, com uma guitarra nas mãos e uma filosofia inteira dentro do peito,  cantava como se cada nota fosse a última de toda a sua vida, como se o mundo pudesse acabar antes da próxima canção e ainda assim valesse a pena cantar essa.

O ambiente tinha aquela temperatura especial que só os pequenos concertos conseguem criar. O suor misturado ao cheiro a bebida, as vozes que se calam quando o artista começa, o silêncio coletivo que transforma um grupo de estranhos numa só respiração. Era uma dessas noites. E depois, no meio de tudo aquilo, algo mudou.

A porta do salão abriu-se lentamente. Uma figura entrou em silêncio. No início, quase ninguém deu por isso. O espectáculo continuava, a música preenchia o ar, os presentes estavam com os olhos no palco. Mas aos poucos, como uma onda que se forma longe da praia e vai chegando com suavidade à beira, um murmúrio começou a espalhar-se pelo lugar.

Cabeças que se viravam, olhares que se cruzavam, expressões que mudavam de uma forma que não era raiva nem alegria,  mas algo mais difícil de nomear, uma espécie de espanto contido. era Roberto Carlos, o rei da música brasileira, o homem que por essa altura do início dos anos 1980 já tinha vendido dezenas de milhões de discos no Brasil e no mundo inteiro.

 o artista que enchia estádios, que gravava em seis línguas diferentes, que fazia com que o Brasil inteiro parar à frente da televisão todos os meses de dezembro para assistir ao seu especial na Globo tradição, que já durava há quase 10 anos ininterruptos. Ali naquele pequeno clube, sem anúncio, sem convite, sem ninguém à espera, Raul continuou a cantar por alguns segundos.

até que se apercebeu, olhou diretamente e parou. A música interrompeu-se a meio. O o silêncio tomou conta do salão de uma forma que ninguém ali esperava. Dois mundos completamente diferentes, frente à frente. O maluco beleza e o rei, o contestatário e o romântico. O filho da Bahia que pegou no rock pela garganta e sacudiu o Brasil inteiro, e o menino de cachoeiro de Itapemirim, que tornou-se o maior ídolo popular que este país já conheceu.

E ninguém sabia o que ia acontecer. Para compreender  tudo o que aquele silêncio carregava, é preciso voltar no tempo. Muito antes dessa noite, antes de Raul Seixa ser o maluco beleza que o Brasil conheceu, antes de Roberto Carlos ser o rei, quando os dois eram ainda jovens que sonhavam com a música, como quem sonha com a vida inteira à frente, sem saber nada do que estava para vir.

  Salvador, Baía. Anos 50. Um menino chamado Raul Santos Seixas crescia numa cidade que ainda não percebia bem o que era o rock. Filho de Raul Varela Seixas, engenheiro de caminhos de ferro e de Maria Eugénia. Rauzito, como todos lhe chamavam, era uma criança irrequieta, curiosa, que preferia os livros da biblioteca do pai a qualquer coisa que a escola pudesse oferecer.

Chegou a ser reprovado três vezes no colégio, não por falta de inteligência, mas porque a mente dele voava em direções que as salas de aula simplesmente não conseguiam alcançar. O primeiro ídolo de Raul tinha um nome, Elvis Presley. Quando o rock chegou ao O Brasil na segunda metade dos anos 50, aquele menino baiano sentiu como se o mundo tivesse mudado de cor de uma hora para outra.

Juntamente com o seu amigo Valdir Serrão, fundou na capital baiana o Elvis Rock Club, uma espécie de gangue jovem que se fantasiava com blusões de couro e topetes esculpidos, saindo pelas noites de Salvador atrás de aventura e de música em volume alto. E assim, aos poucos, foi formando a banda que marcaria os seus primeiros passos.

 Primeiro os relâmpagos do Rock, depois The Panthers e, finalmente, Rausito e os Panteras. Naquele tempo em Salvador havia um lugar onde tudo isto acontecia. O Cine Roma, um cinema que a Irmã Dulce tinha cedido para concertos de rock, se transformou numa espécie de território sagrado para os jovens que ouviam rock em Salvador.

 Nas domingueiras do Cine Roma, num Brasil que ainda olhava para o rock com desconfiança, Rausito e os seus Panteras eram a referência. O melhor conjunto de baile da capital baiana. Jovens cheios de energia, tocando Beatles com alma nordestina. E foi precisamente aí que a história que está a ouvir começou a tomar forma. Estávamos no dia 6 de junho de 1965.

Roberto Carlos, que nesse ano estava no início daquela que seria a maior carreira da música popular brasileira, chegou a Salvador para uma série de concertos. Naquela época, era comum os artistas viajarem sem banda própria, necessitando de músicos locais para os acompanhar. E a escolha recaiu sobre Rausito  e os seus Panteras, o melhor grupo da cidade.

Roberto chegou de táxi ao Cine Roma. Raul e os outros músicos foram até ao carro para o ajudar a descer com a guitarra e um amplificador felpa. Ficaram juntos no camarim até à hora do show. Dois jovens músicos, um de 24 anos de Salvador, o outro de 23 anos do Espírito Santo, a conversar num camarim antes de um espectáculo, sem ideia nenhuma de que aquele momento seria o início de algo que duraria décadas.

O espetáculo foi um sucesso. Rauzito e os seus panteras tocaram com a precisão e a energia que tinham de sobra. Roberto Carlos cantou para uma plateia de jovens baianos que gritavam como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. E naquele camarim partilhado, naquele palco dividido por uma noite, algo ficou plantado entre os dois artistas.

Algo que ainda não tinha nome, mas que era real. Dois anos depois, no Rio de Janeiro, este primeiro encontro daria um fruto que mudaria a vida de Raul Seixas. Rauzito e os seus panteras chegaram ao rio com pouco. Raul vivia em Ipanema, num apartamento partilhado, passava fome em dias difíceis, ia a pé do bairro até o centro da cidade, tentando vender as suas músicas nas editoras discográficas e conseguir uma chance.

 A recepção era fria, como o vento do inverno carioca. Executivos ocupados, portas fechadas, corredores longos por onde ninguém passava sem ter sido convidado. Foi num desses corredores da CBS que a história ganhou um novo rumo. Rauzito e os Panteras tentavam chegar ao director da editora, Jairo Pires, sem conseguir passar da recepção. A chance parecia escorrer-lhe pelos dedos.

Até que de dentro de uma sala, de de repente saiu Roberto Carlos. Já era o rei ou quase. A Jovem guarda estava no ar. O programa de domingo na TV Record reunia multidões. Os discos vendiam-se como nunca antes na história da música brasileira. Roberto Carlos podia ter passado em frente, podia ter dado um aceno educado e seguiu em frente, como tantos  fazem quando já chegaram, e não precisam mais olhar para quem ainda está chegando. Mas não foi o que aconteceu.

Roberto viu o grupo, parou, cumprimentou e foi diretamente ao diretor da editora. O guitarrista Eládio, que ali se encontrava nesse dia, contou anos mais tarde no documentário Moleques Maravilhosos. A gente estava no corredor a tentar falar com o diretor. A gente não conseguia passar do corredor e depois sai de uma porta o Roberto Carlos, que já era o rei.

 Ele viu-nos, parou e cumprimentou. Roberto Carlos falou com Jairo Pires e Rauzito  e os Panteras entraram imediatamente no estúdio. Roberto ficou por ali enquanto gravavam os observando. Da CBS, o  grupo foi encaminhado para gravar pela Odeon e o disco saiu em 1968, o único álbum de Raito e os Panteras, enquanto Raul era ainda Rauzito.

Para quem lá esteve naquela tarde,  era impossível não sentir o peso daquele gesto. Para um grupo de jovens baianos que tinha chegado ao rio sem dinheiro, sem contactos e sem certeza de que havia futuro, aquele momento valeu mais do que qualquer contrato poderia valer. Mas a história entre os dois não era feita apenas de gestos generosos.

Havia uma tensão lá em baixo, quieta, que respirava devagar e, por vezes, vinha à superfície sem avisar. Raul Seixas passou os anos seguintes aprendendo o ofício dos bastidores da música brasileira com uma velocidade impressionante. Trabalhou como produtor na CBS, ocupou-se das carreiras de artistas da Jovem Guarda, compôs música para outros cantores, fez o disco conceptual Vida e obra de Johnny McCartney  em 1971, o primeiro disco nacional gravado em oito canais.

Aprendeu, como ele próprio disse mais tarde, todos os truques do estúdio. Aprendia a fazer música fácil, comercial, intuitiva, que levava direitinho o que queremos dizer. Mas dentro de si crescia uma inquietação que a produção de outros artistas não era capaz de satisfazer. E havia uma ferida. Antes de rebentar como cantor, ainda nos anos em que compunha artistas para sobreviver,  Raul escreveu uma música especialmente para Roberto Carlos, uma composição que poderia ter alterado completamente a sua situação

financeira naquele momento difícil, que poderia ter aberto portas que continuavam fechadas. Roberto Carlos, por alguma razão que nunca foi completamente explicada, acabou por não gravar. Imagina o silêncio que ficou depois disso. A música devolvida ou simplesmente não respondida. O artista que mais admira, aquele que abriu a porta da sua carreira com um gesto generoso, ignorando algo que fez especialmente para ele.

Este é o tipo de dor que não grita, que assenta lentamente no fundo do peito e fica quieta ali. E mesmo assim, quando precisava de falar com Roberto Carlos, Raul tomava um tranquilizante para se acalmar, porque a a admiração era maior do que o orgulho, porque a gratidão era maior do que a mágoa. Esta é a dimensão mais humana desta história. A que ninguém vê de fora.

Em 1973,  com o lançamento do álbum Krigh Bandolo, Raul Seixas deixou de ser apenas um nome dos bastidores e tornou-se um fenómeno nacional. O disco trazia músicas que o Brasil inteiro começou a trautear: metamorfose ambulante, ouro de tolo, mosca na sopa. Era uma voz nova, estranha, provocadora, que misturava rock americano com baião nordestino e filosofia de Almanque, e colocava tudo isto num embrulho que o Brasil não sabia direito como receber, mas não conseguia ignorar.

E foi nesse mesmo 1973 que Roberto Carlos disse em público o que pensava do maluco Beleza. Numa entrevista ao radialista Bolinha, no interior de Santa Catarina, Roberto foi questionado sobre as diferentes correntes da música popular brasileira. De um lado, Elis Regina e Maria Betânia. Do outro, Raul Seixas com ouro de tolo e outros artistas novos e contestatários.

E Roberto Carlos, que a crítica especializada já começava a tratar como símbolo de um Brasil musical conservador, respondeu com uma generosidade que talvez até o próprio Raul não esperasse”, disse o Roberto. Raul Seixas fala de uma forma muito interessante. É uma forma de inverter os valores. Isto tudo foi lançado pelos hips, pelo Bob Dylan, mas agora no Brasil o Raul Seixas é o primeiro a falar destas coisas desta forma.

E acrescentou: Raul Seixas abordou este tipo de música com muita categoria e muita inteligência, porque ele é um rapaz realmente muito inteligente e sobretudo muito culto, porque conheço o Raul pessoalmente da CBS. Havia uma delicadeza nestas palavras que ia para além do elogio. Era um reconhecimento. Era o rei a dizer: “Eu sei quem és.

Não fui indiferente, mas havia também algo mais complicado circulando por baixo, porque o Ouro de Tlo, a canção que todo o Brasil estava a cantar nesse ano, carregava dentro de si uma crítica que muitos Os investigadores apontam como direcionada exatamente ao estilo de artista que Roberto Carlos representava.

O historiador do rock nacional, Júlio Etori, explicou que a música foi deliberadamente composta com uma batida que lembrava o estilo pop romântico da época. Como se o Raul dissesse com ironia: “Eu poderia fazer isto fácil. Eu poderia pegar na fórmula que funciona, embrulhar numa melodia que todos aceitam, vender milhões de exemplares e calar.

Mas prefiro ser a metamorfose ambulante. Prefiro mudar de ideias quando quiser. Prefiro ser louco. Prefiro ser verdadeiro. E, no entanto, quando o Brasil perguntava a Roberto Carlos o que achava de Raul Seixas, este respondia com elogios genuínos. E quando o Raul precisava de falar com Roberto, tomava o tranquilizante, porque é essa a natureza das relações humanas mais complicadas e mais verdadeiras.

 A admiração e o ressentimento podem viver na mesma casa sem se destruírem. Se gosta de ouvir histórias como que, contadas com emoção e respeito, se subscrevam o canal, porque ainda existem muitos capítulos da vida de Roberto Carlos que continuam a tocar o coração do Brasil. Os anos passaram, Roberto Carlos construiu um dos maiores impérios da música latina.

 Nos anos 1980, enquanto Raul Seixas lutava contra si mesmo, Roberto estava no auge de uma expansão internacional que o Brasil inteiro acompanhava com orgulho. Em 1981, gravou o seu primeiro disco em inglês, depois vieram álbuns em espanhol, italiano, francês. Em 1982, ganhou o prémio Globo de Cristal para artistas que venderam mais de 5 milhões de de discos no estrangeiro.

 Em 1988, ganhou o Gramy americano de melhor cantor latino-americano. A canção Camionista de 1984 foi tocada mais de 3.000 vezes nas rádios brasileiras num só dia. Um recorde que foi ultrapassado no ano seguinte por verde e amarelo com 3500 execuções em 24 horas. O especial de fim de ano na Globo, que começara timidamente em 1974 com 22 canções e a participação de Erasmo Carlos e das personagens do programa infantil Rua Sésamo, já era naquele início dos anos 80 uma das tradições mais sólidas da televisão brasileira.

Em 1983, foi transmitido com transmissão ao vivo direto do ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, com perguntas dos fãs enviadas pelo país inteiro. Este era o Roberto Carlos dos anos 80, um artista no pico da sua relevância internacional, construindo um legado que já ultrapassava largamente as fronteiras do Brasil.

Um homem que o Brasil olhava como símbolo de sucesso, de disciplina, de generosidade discreta e que em algum momento daquele início de década resolveu aparecer num pequeno clube do Rio de Janeiro para assistir ao concerto de um amigo que estava mal. Porque é que Raul Seixas estava mal? Não é fácil dizer isto, mas é verdade.

 E a história exige que seja dita. O Raul dos anos 1980 era um homem diferente do Raul dos anos 1970. O brilho selvagem de Krigh a grandiosidade filosófica de Guita, a poesia feroz de há 10.000 anos, tudo aquilo pertencia a uma fase que tinha ficado para trás. A parceria com Paulo Coelho tinha arrefecido.

 Os grandes discos, as canções que o Brasil cantou como hinos de uma geração inteira já eram história. E no lugar de tudo aquilo, havia uma deterioração que as pessoas próximas de Raul acompanhavam com o coração partido. Em 1978, o álcool já tinha corroído tanto  o pâncreas de Raul que foi necessária uma cirurgia para retirar parte do órgão. Os médicos foram claros.

Ele precisava de parar de beber. E o Raul não conseguiu. Não era fraqueza de carácter. Era a doença que se tinha apoderado de uma forma que ia além da força de vontade individual. O médico Luciano Estanca, que cuidou de Raul nos anos seguintes, descreveu o que via. Tinha uma perna grossa, muito inchada.

 O edema tomava até espaço abdominal, já usava cinta.  A diabetes exigia um controlo rigoroso. A hipoglicemia era um risco real de morte. Em 1980, Raul lançou o álbum Abre-te Sésamo e logo de seguida ficou sem gravadora. O mercado musical, que tinha aplaudido de pé nos anos 1970,  começava a tratá-lo como alguém demasiado complicado para ser produto.

Silvio Passos, fundador do Fã, Clube oficial de Raul, e um dos poucos que ficaram ao seu lado sem pestanejar, descreveu aquela fase com palavras que cortam. Ele entrou num processo de não gerir a própria carreira. Ele dizia que não queria ser um artista falso e ficar giro na televisão, sendo que a sua realidade era viseral.

 E completou  no final da sua vida, por esta postura de autenticidade, estava a ser mal visto pelos empresários. Como ganhar dinheiro com um gajo pedrado, doidão e que dizia coisa que não podia. Em 1982 aconteceu um dos episódios mais dolorosos e absurdos da história da música brasileira. Raul foi fazer um concerto a Caieiras, em São Paulo.

 Estava em tal estado de embriaguez  que os fãs na plateia, cerca de 300 pessoas, não conseguiram acreditar que aquele homem em palco estava o verdadeiro Raul Seixas. Pensaram que era um impostor. A situação escalou. Raul foi ameaçado de espancamento e acabou por ser levado à delegacia para provar que era ele próprio, o pai do rock brasileiro, detido numa esquadra interiorana para provar a sua própria identidade.

Kika Seixas, que viveu esses anos ao lado de Raul e depois escreveu sobretudo no livro Coisas do Coração, disse algo que ficou gravado. Era como se a bebida trouxesse uma espécie de outro Raul, o personagem. Regressava a casa e já já não era aquele homem amoroso. O palco queria isso dele. Quando vi que não teria mais jeito, fui-me embora.

E houve algo que Kika revelou com uma delicadeza devastadora que vai para além da qualquer análise clínica ou artística. Um dia ela apercebeu-se que Raul se trancava na casa de banho para tomar o álcool de limpeza que ela comprava no supermercado. Aquele homem que tinha cantado, que preferia ser louco a ser normal,  estava na intimidade da sua casa, bebendo álcool de limpeza para sobreviver a mais um dia.

Era a personagem a engolir o homem e o homem não tinha forças para lutar de volta. Em 1983,  O Raul estava inativo e sem perspetivas. O rock nacional vivia um novo apogeu comercial, com novos artistas que enchiam estádios e rádios. E o nome de Raul Seixas era invocado como referência fundador por todos eles, mas ele próprio estava de fora daquela festa.

A investigadora Ana Maria Baiana, num artigo para o jornal O Globo nessa época escreveu sobre o paradoxo: “Raul fez um espetáculo e descobriu que tinha 10.000 fãs exaltados, um fã,  clube organizado e ainda gostava de se apresentar ao vivo, mas ele não se reconhece muito na nova maré de rock que assola o país.

” Raul comentou: “Acho tudo uma palhaçada enorme,  muito ingénuo de todos. Só gosto do Miúdo Vinil. Estávamos em 1985, quando aconteceu a humilhação que mais doeu de todas, o rocking rio. O maior evento de música da história do país até aquele momento, juntando artistas internacionais e praticamente todos os grandes nomes do rock nacional, Raul Seixas, o pai do rock brasileiro, não foi convidado.

Ficou de fora enquanto artistas que bebiam na sua fonte, que citavam o seu nome nas entrevistas como influência primeira. subiram ao palco para centenas de milhares de pessoas no Maracanã. Era este o Raul Seixas da época do espectáculo que Roberto Carlos foi assistir sem ser convidado. Não o lendário, não o intocável.

O Raul, que acordava com dores, que subia ao palco por vezes em estado que assustava os músicos, que viviam aquela contradição cruel de ser amado por multidões e, ao mesmo tempo, sentir que o sistema musical o tinha descartado. O Raul, que, segundo o guitarrista de estúdio, Rick Ferreira, chegava a dias de gravação sem conseguir fazer com que as vozes guias,  porque estava em estado impossível de gravar.

 Havia dias que era impossível, disse Ferreira. E, no entanto, naquelas noites em que conseguia subir ao palco com alguma estabilidade, quando a música tomava conta do corpo e aquele fio invisível entre o artista e o público acendia-se, Raul Seixas  era ainda capaz de fazer algo que nenhum artista da nova geração conseguia fazer.

Ele fazia com que a sala parasse de respirar. Foi numa dessas noites que Roberto O Carlos entrou pela porta. O que significa um rei aparecer no programa de alguém sem ser convidado? Para compreender este gesto, é preciso perceber o que era Roberto Carlos naquele início dos anos 80. Um homem que tinha construído uma disciplina de vida quase monástica em torno da sua carreira, que tinha um transtorno obsessivo compulsivo diagnosticado, que regia cada detalhe de cada dia, a cor da roupa, a disposição dos móveis, a porta por onde entrava nos

lugares, as palavras que nunca pronunciava, um homem que controlava a sua agenda com precisão, que raramente aparecia em lugares sem que aquela presença tivesse sido planeada e pensada. aparecer num clube pequeno, sem aviso, em plena noite, no concerto de um artista que vivia longe do mundo em que Roberto tinha construído o seu trono, este gesto tinha um peso que ia muito para além de uma visita casual.

Segundo quem estava presente naquela noite, Roberto tinha sido informado do espectáculo por alguém do círculo musical carioca e tinha decidido aparecer sozinho, discretamente, como quem vai ver, como um velho conhecido está a passar. Não havia câmara, não havia necessidade de aparecer, não havia nada a ganhar publicamente com aquela presença.

Havia apenas o gesto de um homem que se lembrou-se de onde veio e de quem encontrou pelo caminho. Quando Raul se apercebeu que Roberto Carlos tinha entrado no clube, o silêncio que caía sobre o salão não era apenas surpresa, foi a sensação de que o passado inteiro de duas carreiras havia entrado pela porta ao mesmo tempo.

Salvador, 1965, o cinema Roma. O camarim partilhado antes do concerto, os jovens músicos ajudando o outro a carregar o amplificador do táxi,  o corredor da CBS, a música que ficou sem resposta, os anos que passaram cada um do seu lado, tudo aquilo estava naquele silêncio. E Raul, o maluco beleza, o contestatário de tudo e de todos, o homem que tinha cantado, que preferia a incerteza a verdade pronta, que tinha enfrentado a ditadura militar, que tinha sido preso e exilado e voltado e continuado a cantar

naquele momento, ficou imóvel. Não por medo, não por raiva, mas pela mesma razão que fazia aquele homem tomar um tranquilizante antes de falar com Roberto Carlos, porque havia ali uma emoção que não cabia em nenhuma das músicas que tinha composto, que não tinha fórmula filosófica que a explicasse, que era simplesmente humana e enorme.

Raul quebrou o silêncio da única forma que era dele. Com a voz, com as palavras que vinham de dentro sem filtro, não havia script, não havia performance calculada, havia apenas o que um artista diz quando o a música pára e o coração fala. E o que o Raul disse naquele momento não era a crítica velada de ouro de tolo.

Não era a ironia filosófica de mosca na sopa, não era o questionamento existencial de metamorfose ambulante. Era a voz de Rausito, o rapaz de Salvador, falando ao homem que tinha abriu a porta da CBS um dia em que Rauzito não conseguia passar do corredor. Era gratidão,  era reconhecimento, era a verdade mais simples e mais difícil de dizer em voz alta.

 Você importou? Raul disse ao público, ao ambiente inteiro, que Roberto Carlos era maior do que o Brasil entendia, que havia uma grandeza naquele homem que os discos não cabiam e que a televisão não mostrava, que era a grandeza de alguém que não esquece quem encontrou pelo caminho, independentemente de onde cada um chegou.

Roberto Carlos, na forma quieta e elegante, que sempre foi a sua marca, respondeu com aquela calma de quem carrega o mundo às costas, sem mostrar o peso, e caminhou para mais perto do palco. O espetáculo continuou, mas era outro espetáculo agora. Raul tocou com uma intensidade diferente daquela que surge quando alguém na plateia vê realmente o que está a fazer.

 E Roberto Carlos assistiu em silêncio, presente, como quem cumpre uma obrigação que o coração impôs sem pedir autorização.  Nessa noite, duas versões do Brasil musical estavam no mesmo ambiente pequeno. O Brasil que dançava e o Brasil que questionava, o Brasil das melodias que faziam chorar e o Brasil das guitarras que faziam pensar.

 O amor cantado com todas as cores e o questionamento sussurrado entre as notas. E os dois, por aqueles minutos, respiravam o mesmo ar. Esta história guarda um pormenor que muito poucas pessoas se apercebem quando a escutam pela primeira vez. É esse. Raul Seixas e Roberto Carlos passaram décadas a ser usados ​​pelo Brasil como símbolos opostos.

Como se a música de um anulasse a do outro, como se gostar de Roberto Carlos e gostar de Raul Seixas fosse uma contradição impossível. A crítica musical dos anos 1970 e 1980 fazia questão de separar os dois em campos distintos. De um lado, a música popular que agradava a todos e não incomodava ninguém.

 Do outro,  a música contestatária que questionava tudo e pagava o preço por isso. Mas a vida não funciona nos campos separados. E os dois homens, na intimidade das suas histórias reais, nunca se encaixaram neste esquema que o Brasil queria construir para eles. Roberto Carlos tinha sido rocker antes de ser rei romântico.

 Havia subido ao palco ao lado dos Sputnicks, havia imitado Elvis Presley em programas de caloiros, tinha cantado rock em Salvador com Rausito e os Panteras. A transição para o romantismo foi uma escolha calculada sobre o mercado, não uma traição à música que amava. E havia, dentro do Roberto Romântico e bem comportado que o Brasil adorava, um homem que sabia exatamente o que Raul Seixas representava, porque tinha sido um pouco o Raul também, num tempo mais jovem.

E Raul Seixas, o contestatário, o filósofo do rock, o homem que ironizava o sucesso fácil, tinha passado anos nos bastidores da CBS compondo música romântica para artistas da Jovem Guarda, incluindo o maior sucesso de Jerry Adriane. Havia aprendeu a arte de fazer música popular de uma forma que chegasse ao coração das pessoas sem assustar.

e nunca foi ingénuo o suficiente para achar que Roberto Carlos era menos artista do que ele por o fazer com maestria. A atenção entre os dois era a atenção do Brasil consigo mesmo e o respeito entre os dois era o respeito que a verdade impõe quando se conhece a história real de alguém de perto. Os anos seguintes foram difíceis para Raul.

 Em 1986, sem gravador com a saúde deteriorada, foi Marcelo Nova dos Camisa de Vênus,  quem apareceu para estender a mão. Assim como Roberto tinha aparecido no corredor da CBS décadas antes, Marcelo apareceu quando Raul precisava de alguém que acreditasse que ainda havia música a ser feita. Os dois gravaram a Panela do Diabo juntos e fizeram uma série de concertos pelo Brasil em 1989.

que mostraram ao país que o maluco beleza ainda  estava viva, ainda tinha fogo, ainda tinha garra. Em abril de 1989, houve outro reencontro emocionante que o Brasil vai guardar para sempre. Raul Seixas e Paulo Coelho, os parceiros que haviam criado a Gita, Sociedade Alternativa, Eu nasci há 10.

000 anos atrás. Uma das parcerias mais criativas da história da música brasileira se reencontraram num concerto no Canecão do Rio de Janeiro. Depois de anos afastados, cheios de rancores e mal entendidos, estavam ali juntos de novo. O jornalista André Barcinski esteve presente e fotografou o momento um registo que se tornou histórico.

Poucos meses depois, a 21 de agosto de 1989, Raul Seixas morreu no seu apartamento em São Paulo. Tinha 44 anos. O seu corpo foi encontrado pela criada às 8 horas da manhã. Ao lado da cama estavam um copo de whisky, medicamentos para a diabetes e livros de ocultismo. O último álbum A Panela do Diabo, tinha chegado às lojas dois dias antes.

 Ele não chegou a ver as reações. No cemitério do Jardim da Saudade em Salvador, milhares de pessoas foram prestar as suas homenagens. Sem combinação, sem organização, a multidão começou a entoar maluco beleza enquanto o caixão passava. como se houvesse uma canção certa para aquele momento e toda a gente soubesse qual era.

Raul tinha cantado durante anos que o sonho não acabou. E ali, naquele cemitério de Salvador, na voz de milhares de pessoas que nunca o conheceram pessoalmente, o sonho provou que era maior do que o homem. Roberto Carlos soube da morte, como o O Brasil inteiro soube, pela rádio, pela televisão, pela correria repentina de um dia comum, que deixa de  repente porque uma notícia altera o peso do ar e é impossível saber com exatidão o que sentiu.

Este tipo de coisas fica guardado dentro de um homem que aprendeu desde criança  a não mostrar as feridas em público. Mas é possível imaginar. Possível porque aquele homem tinha aparecido num pequeno clube sem ser chamado, tinha ficado até ao fim do concerto, tinha respondido ao olhar de Raul com aquela calma enorme que não é indiferença, mas a sua forma de dizer que está presente.

30 e poucos anos depois, o legado de Raul Seixas vive de uma forma que ele nunca poderia ter calculado. Em 2025, o A Globalop estreou uma série biográfica sobre a sua vida com oito episódios. celebrando os 80 anos que nunca completou. O circo voador no Rio de Janeiro recebeu um concerto de tributo que reuniu músicos de gerações diferentes num lugar que Raul teria adorado pequeno, íntimo, carioca, exactamente o tipo de ambiente onde a música ainda tem cheiro a verdade.

A exposição O Baú do Raul inaugurou no Museu da Imagem e do Som Paulo  com manuscritos originais, instrumentos, roupas, diários. O acervo de um homem que viveu como se cada dia pudesse ser o último e criou como se a eternidade dependesse de cada palavra. E Roberto Carlos. Roberto Carlos chegará aos 85 anos em abril de 2026, ainda reinando, fazendo ainda o Brasil inteiro sentar-se em frente da televisão em dezembro, lançando ainda rosas ao público nos concertos, como faz desde 1978.

ainda a gravar, ainda a cantar, ainda sendo aquela voz que não tem substituto em nenhum lugar do mundo. E em dezembro de 2022, no especial de fim de ano na Globo, gravado no Qualistage, na Barra da Tijuca, Roberto Carlos prestou uma emocionante homenagem ao amigo Erasmo Carlos, que tinha falecido um mês antes.

 mudou a letra de amigo, onde dizia: “É muito bom saber que és meu amigo” e cantou: “É muito bom saber que Erasmo é meu amigo”. O Brasil inteiro chorou junto, porque esta é a medida do Roberto Carlos, que o O Brasil raramente vê, mas sente sempre. Um homem que não abandona as pessoas que ama, nem quando já cá não estão para ouvir.

É impossível não pensar perante este nessa noite no pequeno clube do Rio de Janeiro, naquela porta que se abriu, naquele silêncio que se abateu sobre a sala, naquelas duas vidas que se cruzaram em 1965 num cinema de Salvador e nunca esqueceram completamente o que tinham sido uma para a outra. A canção mais bonita que Roberto Carlos e Raul Seixas fizeram juntos nunca foi gravada.

Não existe em disco, não tem letra publicada, não tem um arranjo definido. Ela existe apenas nas histórias de quem estava presente naquelas noites em que o mais inesperado é precisamente o mais verdadeiro. Quando um rei aparece sem aviso num palco que não é o dele. Quando um maluco pára de cantar para olhar para os olhos de quem chegou.

 Quando o silêncio diz mais do que qualquer nota poderia dizer. A vida de Roberto Carlos é feita destas histórias, das que aparecem nos discos e das que ficam guardadas no coração dos quem lá estava. Das que o Brasil conhece e das que o Brasil nunca soube, das que fazem parte da lenda e das que fazem parte do homem. E, por vezes, a mais importante das duas é a segunda.

Porque qualquer pessoa pode construir uma lenda com trabalho, com talento, com tempo suficiente, com boa sorte ou com má sorte, que se transforma em combustível. Uma lenda constrói-se, mas um homem que aparece no momento certo, sem câmara, sem aplauso, sem ter de que o mundo saiba, este tipo de homem não se constrói. Esse nasce.

Roberto Carlos nasceu assim e aquela noite, naquele pequeno clube do Rio de Janeiro, foi uma das muitas provas silenciosas de que o rei não é só a coroa, é tudo o que existe debaixo dela. E se esta história mexeu consigo, existe aqui no canal um outro capítulo da vida de Roberto Carlos, que também vai tocar o seu coração de uma forma que você não esperava.

 É a história de um showman que desafiou uma pessoa aleatória da plateia, sem saber que aquela pessoa era Roberto Carlos. Uma noite que aquele homem nunca esqueceu.

 

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