O Horrível Segredo por Trás do Sorriso de Ana Maria Braga

Primeiro de novembro de 2020, o homem que passou 24 anos ao lado de Ana Maria Braga foi encontrado morto no chão de casa. Três dias antes, ele gravou um áudio que a sua família resume numa palavra: veneno. Fica até ao final, porque vai perceber por que o Brasil chegou a discutir desenterrar este corpo e o que o sorriso dela escondia há 50 anos.

 O que será que cabe atrás de um sorriso que todo o Brasil vê há quase 30 anos, todas as manhãs e nunca aprendeu a ler? Para responder isso, precisa de sair daquele domingo de novembro e recuar 70 anos até uma pequena cidade do interior de São Paulo chamada São Joaquim da Barra, porque este sorriso nasceu atrás de um muro e o muro tinha freiras.

 Ela veio ao mundo de abril de 1949, filha única de um italiano chamado Natalie José Mafez e de uma brasileira chamada Lurdes Braga. Em casa, o pai mandava e o pai tinha uma ideia muito clara do que uma filha podia e do que uma filha não podia fazer. A infância dela foi passada em internatos do interior paista, lugares de muro alto, onde as freiras vigiavam até o modo de andar no corredor.

 Uma menina que aprendeu cedo a guardar o que sentia, porque ali dentro ninguém perguntava. Quando ela cresceu e disse que queria faculdade, que queria uma vida do tamanho da própria cabeça, o pai respondeu com uma só palavra: “Não, mas existe um tipo de pessoa que ouve um não e transforma esse não em combustível.

 Numa noite, aos 18 anos, A Ana Maria abriu a janela do quarto na casa de família, olhou para trás uma última vez e saltou. fugiu de casa para matricular-se na Faculdade de Ciências Biológicas em São José do Rio Preto, sem a bênção do pai e sem plano B. Pragar os estudos foi trabalhar e o trabalho que apareceu ficava em frente de uma câmara de televisão.

 Pouco depois, em 1971, casou pela primeira vez com um homem chamado António Drausio Badã. Dur. Poul. Foi o primeiro de cinco maridos numa vida em que o amor sempre chegou com pressa e quase sempre se afastou do mesmo jeito. Guarde essa imagem da janela, porque 52 anos depois essa mesma mulher vai fugir outra vez. Só que, dessa vez de um casamento e o homem de quem ela vai fugir guardava um caderno que ela não sabia que existia.

 A menina que saltou a janela ainda não sabia, mas tinha acabado de assinar um contrato silencioso com a própria vida. Tudo o que ela quisesse ia conseguir e tudo o que conseguisse ia cobrar um preço que ela só viria a descobrir décadas depois, numa manhã de domingo com um telefone tocando. A câmara gostou dela antes do Brasil.

 No estúdio da TV Tupi em São Paulo, a estudante de biologia que tinha fugido pela janela descobriu uma coisa sobre si mesma. Na frente das lentes, ela não travava. foi contratada para pagar as contas e acabou por apresentar o telejornal e um programa feminino ao vivo. A biologia foi ficando pequena, ela mudou de curso, foi estudar jornalismo e o plano de vida mudou de endereço.

 Mas em Julho de 1980, a Tupi fechou as portas e levou consigo o emprego dela. Ana Maria tinha 31 anos, um recém-cçado casamento com o economista Eduardo de Carvalho e uma carreira para reconstruir de raiz. Ela atravessou para o outro lado do balcão, passou os anos 80 dentro da editora Abril, subindo degrau a degrau nas revistas femininas até à sala de diretora comercial, cuidando de títulos do peso da Cláudia.

E aí aprendeu a lição que sustentaria os 30 anos seguintes. Quem percebe o que a dona de casa brasileira, que era às 8 da manhã, tem o país todo na mão? Só que há uma pergunta que ninguém fazia naquela época. O que acontece com uma pessoa que aprende a vender felicidade todos os dias quando a vida dela começa a desmontar por dentro? Em 1992, o casamento com Eduardo terminou.

 12 anos, dois filhos, Mariana e Pedro, e uma separação que ela atravessou da forma que atravessaria todas as outras trabalhando. No ano seguinte, o telefone tocou com a proposta que mudou tudo. A Record queria a executiva de volta para a frente das câmaras. Em 1993, estreou o note e anote e o Brasil conheceu uma apresentadora diferente de todas.

Ana Maria Braga ganha programa no horário nobre da Globo - 16/10/2024 - Outro Canal - F5

 Ela cozinhava, entrevistava, ria, chorava e vendia. vendia de panela a curso por correspondência ou seguidas ao vivo, sem teleponto para os sentimentos. Tornou-se a maior máquina de merchandising da televisão brasileira. Os anunciantes faziam fila e em 1996 a Record dobrou a aposta e entregou-lhe um segundo programa, desta vez com o nome dela no título.

 Eram horas de ar por dia, cinco dias por semana, dois programas ao mesmo tempo. O descanso não fazia parte do contrato e a mulher que o pai tinha proibido de estudar agora dava expediente perante milhões. Foi nessa engrenagem que entrou um rapaz de 20 e poucos anos. cujo nome de batismo era Newton Veiga Júnior, mas que todos chamava Tom.

 A sua vida até ali tinha sido de quem corre atrás. Trabalhou de moto boy, conduziu ambulância, organizava feiras de artesanato para sobreviver. Foram precisamente estas feiras que atravessaram o caminho dos dois por volta de 1995. O note e a note divulgavam os acontecimentos que ele montava. O rapaz prestável caiu nas graças da produção e acabou por ser contratado como assistente de palco.

 Ele carregava cenário, ajeitava microfone. Ninguém olhava duas vezes para ele. Até amanhã, de 6 de março de 1997, a produção tinha encomendado um boneco novidade para o programa, um papagaio verde de bico amarelo batizado de Louro José. E vários candidatos testaram para dar vida a ele. Nenhum servia. Faltava alguma coisa em todos, até que o assistente de palco pegou no boneco.

 A voz que dali saiu era dele. O improviso funcionou tão absurdamente bem que se tornou quadro fixo. E o quadro fixo tornou-se fenómeno. Tom cresceu junto, de assistente de palco a gerente de estúdio e daí a produtor executivo do programa. O homem das feiras de artesanato tinha virado ao mesmo tempo o braço direito dela atrás das câmaras.

 e a estrela escondida à frente delas. E existe uma fina ironia ali escondida que quase ninguém percebe. A menina que saltou a janela para estudar os animais, a bióloga formada que sonhava com a zoologia, acabou por passar a vida ao lado de um papagaio. O destino devolveu o sonho dela em forma de pano e deboche. O papagaio dizia-lhe na cara o que nenhum funcionário teria coragem de dizer e ela respondia no mesmo tom.

 E o Brasil não conseguia parar de assistir àquela mãe a lutar com aquele filho. A dupla cresceu tanto que até a Disney entrou na história queixando-se que o papagaio lembrava demasiado o Zé Carioca. O boneco sobreviveu à gigante americana e seguiu no ar. Guarde bem este nome, Tom Veiga, porque 23 anos depois dessa estreia, ele vai pegar no telemóvel e gravar um áudio de poucos segundos para um amigo, um áudio que nunca deveria ter saído daquela conversa.

 Vamos voltar a ele e quando voltarmos, vais entender porque esta gravação tirou o sono a uma família inteira. Em 1999, a Globo bateu à porta. A emissora queria as manhãs e queria que fossem dela. Na segunda-feira, 18 de outubro de 1999, estreavam mais você e a Ana Maria atravessou a ponte levando o papagaio e o homem dentro dele.

 A mudança azedou nos bastidores. Houve até disputa pelo registo da marca do Louro José, com a antiga casa tentando segurar o que podia do fenómeno que escapava. O boneco sobreviveu a tudo. A mesa do café posta todos os dias, a chávena a fumegar, o pão na chapa, o louro José gritando o nome dela.

 Aquilo deixou de ser um programa de televisão e tornou-se um hábito nacional. Da mesma família do despertador e do rádio de pilha. Tom deixou de ser um funcionário e passou a ser tratado como gente de dentro, quase um filho. Eram os dois todas as manhãs durante mais de duas décadas. O Brasil envelheceu vendo aquela dupla e aqui vive a primeira contradição desta história.

 O Brasil inteiro pensava que conhecia a vida daquela mulher porque ela contava tudo todas as manhãs com a chávena na mão. Mas a parte mais pesada nunca passou pela mesa do café, porque enquanto o país aprendia a amar o sorriso, o corpo dela já tinha apresentado a primeira fatura. Tinha sido anos antes, em 1991, quando ainda ninguém apontava câmaras para a vida pessoal de Ana Maria Braga.

Um diagnóstico dito em voz baixa num consultório, cancro de pele. Ela tratou, venceu e guardou. O público só ficaria sabendo muito tempo depois. Foi a primeira vez que ela escondeu uma doença atrás do trabalho. Não seria a última. Durante 10 anos, aquele episódio de 1991 ficou soterrado debaixo da rotina.

 O programa crescia, os índices de audiência engordavam, o José virava-se febre entre as crianças. Por fora, a A vida dela parecia um anúncio de margarina em loop. Por dentro, o relógio estava a correr e havia um casamento novo nesta fotografia. Em 1997, no mesmo ano em que o papagaio nasceu, Ana Maria tinha subido ao altar pela terceira vez.

 O escolhido era Carlos Madrulha, o segurança particular dela, 13 anos mais novo. O Brasil dos anos 90 recebeu a notícia como um escândalo delicioso. A rainha das manhãs a casar com o próprio segurança, um homem que o público conhecia de vista, parado atrás dela nas aparições públicas, não deu a menor satisfação.

 tinha 48 anos, dois filhos criados e a convicção de quem já tinha saltado uma janela na vida. Quando o diagnóstico de 2001 chegou, era madrulha, o marido que estava em casa. Era ele quem assistia de perto ao tratamento. E em 2002, com o seu cabelo voltando a crescer, o casamento acabou. Venceu a doença e perdeu o marido quase no mesmo calendário.

 E presta atenção nisso, porque esta mulher tem um padrão que atravessa a vida inteira dela. As maiores vitórias e as maiores as perdas chegam sempre de mãos dadas. Você vai ver este padrão repetir-se cada vez mais cruel até ao último minuto deste vídeo. A manhã que inaugurou tudo isto foi a de 26 de Julho de 2001.

 Nesse dia, a Maria sentou-se diante das câmaras do mais, tu sabendo de uma coisa que o Brasil não sabia. Os exames tinham encontrado um cancro colorretal com empenho que chegava à região da virilha. Ela podia ter desaparecido do ar, soltou uma nota fria pela assessoria, tratado tudo entre quatro paredes, como fez em 1991.

Mas desta vez a doença era maior, o tratamento seria visível e ela tomou uma decisão que nenhum manual de televisão recomendava. Olhou para a câmara ao vivo no horário das 8 da manhã e contou. disse ao país com voz firme e mão na mesa do café que estava doente. Milhões de pessoas souberam no mesmo segundo juntamente com parte da própria equipa.

 Mas o pior não é isso. O pior é o que aconteceu nos cco meses seguintes, longe das câmaras. De agosto a dezembro de 2001, ela afastou-se para tratar. O programa tornou-se uma colxa de repetições e episódios gravados e a cadeira dela ficou ali à espera. A quimioterapia veio com tudo o que a quimioterapia cobra.

 O enjou que não escolhe hora e o cabelo loiro, marca registada de uma carreira inteira, saindo aos punhados no travesseiro. E, mesmo assim, na fase final do tratamento, ela fez uma exigência que diz tudo sobre quem é. voltou a apresentar quadros em direto direto da própria casa. Montaram o esquema de transmissão na residência desta e o O Brasil passou a entrar na sala de uma mulher em tratamento, sem saber que estava a entrar num hospital disfarçado de cenário, doente, careca debaixo do lenço, com o país a pensar que ela estava apenas descansando. O sorriso continuava

em pé. Quem o segurava por dentro era outra história. E então a equipa dela fez uma coisa que ela nunca esqueceu. Apareceram todos com uma t-shirt com uma palavra escrita no peito: “Guerreira”. Vários colegas rasparam a própria cabeça em solidariedade. Anos depois, ela ainda falava daquela t-shirt como uma das lembranças mais fortes da vida. “Guarde essa t-shirt.

” Ela regressa no final desta história de um forma que não espera. Imagine por um momento que fosse alguém da sua família. Imagine a sua mãe a perder o cabelo num tratamento agressivo e tendo que decidir se aparece assim perante 50 milhões de desconhecidos num horário em que todos estão a tomar café. Ana Maria Braga decidiu aparecer.

 Numa manhã de 2001. Entrou no ar de cabeça raspada. sem peruca, sem lenço diante do Brasil inteiro. E foi nesse dia que o país descobriu pela primeira vez o que existia por detrás do sorriso mais famoso das manhãs. Uma mulher que apresentava receita de bolo de manhã e encarava agulha de quimioterapia à tarde. O sorriso era o seu uniforme de trabalho.

Ela vestia o uniforme todos os dias, doente ou não, destruída ou não. E o que precisa de entender agora é que aquele dia de 2001 não foi excepção na vida de Ana Maria Braga, foi um ensaio, porque 19 anos depois ela teria de vestir o mesmo uniforme no pior mês da vida dela. Só que desta vez o que ela estava a esconder atrás do sorriso era muito maior do que uma doença.

 Ela venceu o cancro colorretal. Em abril de 2002, regressou para um programa renovado, com um novo cenário e abertura nova, e para uma audiência que agora a amava de uma forma diferente, com aquele amor que só se tem por quem vimos cair e levantar. Anos mais tarde, o pulmão entrou na lista.

 Ela própria contaria ao vivo que enfrentou dois pequenos tumores naquele órgão ao longo daquela década. Um saiu no bisturi, o outro foi tratado com rádiocirurgia. Batalhas travadas com tamanha descrição que parte do público nem sequer registou que existiram. Por esta altura, o Brasil já se tinha habituado à ideia de que Ana Maria Braga era indestrutível.

 E é exatamente quando todos se habitua-se que esta história dá o pior nó. Segunda-feira, 27 de janeiro de 2020. Nos minutos finais do Mais você, com o Louro José ao lado dela na bancada, Ana Maria anuncia em direto mais um cancro, um adenocarcinoma no pulmão e desta vez nas palavras dos próprios médicos, agressivo demasiado para cirurgia, demasiado agressivo para radioterapia.

 O país prende a respiração, mas 11 dias depois, no dia 7 de fevereiro, ela faz uma coisa que ninguém viu chegar. Se casa na sala da própria casa em São Paulo com um empresário francês que o público mal conhecia, um homem chamado Johnny Lucet. O Brasil aplaudiu de pé, uma mulher de 70 anos a lutar contra o cancro mais perigoso da vida dela, encontrando o amor.

 Parecia o capítulo mais bonito da novela. Ninguém sabia que dentro daquela casa existia um caderno e que nesse caderno, dia após dia, alguém anotava em segredo cada passo que ela dava. Para perceber o que era aquele casamento, precisa de voltar alguns meses antes do anúncio. Depois de Madrulha, ainda houves uma união longa com o empresário Marcelo Frisone, que começou em 2007 e terminou longe dos holofotes.

Quando chegou 2019, Ana Maria Braga tinha 70 anos, uma agenda de ministra e as noites vazias de quem vive numa casa demasiado grande. Foi quando ela fez uma coisa que surpreenderia qualquer pessoa que a conhecesse apenas pela televisão. Entrou numa aplicação de namoro. Ela mesma contaria isso mais tarde, rindo numa entrevista a Pedro Bial.

 Estava aberta para a vida de novo. E foi nesta fase que apareceu um empresário francês nasceu em Agen, no sul de França, a roçar os 60 anos. O seu nome era Johnny Lucy. O namoro andou rápido, depressa demais para algumas pessoas próximas que mal tiveram tempo de conhecer o homem. Mas a Ana Maria estava feliz e janeiro de 2020 chegou como o mês mais insano da vida dela.

 No dia 24, no Hospital BP Mirante, em São Paulo, recebeu o primeiro ciclo de um tratamento que combinava quimioterapia e imunoterapia. Nessa mesma data, a sua filha, Mariana, casava. A Ana Maria saiu de uma sessão de veneno controlado nas veias e foi à festa da filha. De sorriso pronto, sem contar nada a ninguém.

 Três dias depois veio o anúncio ao vivo que já conhece com o Louro José ao lado dela na bancada. E 11 dias depois do anúncio, o vestido de noiva. Aquele anúncio de 27 de Janeiro merece ser visto de perto, porque é uma aula do método dela. Ela não escondeu nada do que era técnico. Deu o nome científico do tumor, explicou porque não havia cirurgia possível, contou desde o primeiro ciclo de tratamento e avisou que pretendia seguir no ar entre uma sessão e outra.

 pediu as orações do público e nas redes, horas depois, agradeceu o carinho com uma frase que resume o personagem que ela construiu no meio século de televisão. A luta é minha, mas é bom contar com este apoio. No programa seguinte da grelha, Fátima Bernardes abriu o encontro mandando força em direto, dizendo ter a certeza de que ela ia ganhar mais esta etapa.

 O Brasil inteiro se organizou em volta dela. Ninguém se organizou em torno do que ela não contava. Agora guarde esses números, porque nunca ninguém os colocou lado a lado. Três casamentos gravitaram em torno daquele estúdio numa questão de semanas. O da sua filha no dia 24 de janeiro, o dela no dia 7 de fevereiro e um terceiro celebrado numa festa em janeiro de 2020 que ainda não sabe de quem é.

Destes três casamentos, dois iam terminar da pior maneira que um casamento pode terminar. O casamento de O dia 7 de fevereiro decorreu na sala da mansão dela e tem um pormenor de calendário que ninguém podia prever. Faltavam poucas semanas para o mundo inteiro fechar as portas. A lua de melqual foi engolida pela pandemia.

 Em vez de viagem, quarentena. Em vez de descoberta, convivência forçada. 24 horas por dia numa casa que de repente passou a ser também estúdio de televisão. Não existe teste de relacionamento mais cruel do que este e o casal de 2 meses foi-lhe atirado sem aviso. No dia 24 de abril de 2020, com o mundo fechado em casa pela pandemia, Ana Maria apareceu numa conversa em directo com Fátima Bernardes e soltou a notícia que parecia fechar o ciclo. estava curada.

 Três meses de tratamento contra um tumor que os médicos consideravam demasiado agressivo paraa cirurgia e ela tinha vencido uma vez. O Brasil respirou em conjunto. A história agora tinha tudo. A heroína recuperada de volta às manhãs com um marido novo na casa cheia. O mais, adaptou-se à pandemia e ela passou a apresentar de casa com o francês a circular ao fundo e o público a achar aquilo um final feliz transmitido em capítulos diários.

 Mas dentro da casa a temperatura era diferente. Segundo o que colunistas como Fabíola Heert e órgãos como o Jornal Extra publicariam depois, o comportamento dos Lucette com os seus empregados azedava o ambiente. O homem sem que sorria nas fotos oficiais tratava com aspereza as pessoas que cuidavam da rotina da Ana Maria havia anos.

 Ela via e fazia o que tinha aprendido a fazer toda a vida quando alguma coisa doía dentro de casa. aparecia no ar na manhã seguinte com um sorriso no lugar, como se nada estivesse acontecendo. E é agora que esta história começa a descer para o local mais escuro, porque tudo o que viu até aqui foi a metade iluminada de 2020. A outra metade estava a ser escrita à mão, com data e pormenor, num caderno que ninguém tinha visto.

 E num cartório notarial, um documento assinado em dezembro de 2019 aguardava em silêncio a hora de explodir. O ano de 2020 caminhava para o fim com o Brasil, convencido de que conhecia a história. A apresentadora, curada, casada, de regresso às manhãs, o papagaio fazendo piada ao lado dela. era a fotografia perfeita. E como toda a fotografia perfeita desta história, ela tinha duas verdades escondidas fora do enquadramento.

 A primeira estava no quarto ao lado. A segunda estava no Rio de Janeiro, em casa de um homem que todo o mundo amava e que ninguém estava de facto enxergando. Começamos pelo quarto ao lado. Quando o casamento do Diana Maria com Johnny Luu, o próprio francês deu uma entrevista ao Balanço Geral. da Record.

 E nessa entrevista revelou, com a naturalidade de quem não vê problema nenhum no que está a dizer, que mantinha diários sobre o casamento, um caderno onde anotava tudo o que o casal fazia dia após dia, registo após registo, a vida da mulher mais vigiada do Brasil, sendo também vigiada dentro da própria casa, a caneta em segredo. A procuradora Eliana Passarelli, consultada pela coluna do portal Metrópolis, deu nome ao que aquilo configurava: violência psicológica.

 Enquanto o país aplaudia o conto de fadas da apresentadora de 70 anos que tinha encontrou o amor, o príncipe do conto documentava cada movimento dela num caderno que ela não sabia que existia, mas não solta essa informação ainda porque o segundo golpe vem do outro lado da bancada. Recorda o terceiro casamento de janeiro de 2020? Aquele que eu te pedi guardar era o de Tom Veiga.

 O homem dentro do O Louro José tinha feito uma festa de casamento em janeiro desse ano com uma empresária chamada Sibell. Hermínio, namorada desde fevereiro de 2019. E um mês antes da festa, em dezembro de 2019, Tom tinha entrado num cartório notarial e registado um testamento. Nesse documento, metade de tudo o que ele tinha construído em mais de 20 anos de televisão ficava para Sabelle.

 A outra metade seria dividida entre os quatro filhos dele, 12,5% para cada um. Havia ainda, segundo o que a coluna de Leo Dias revelaria depois, uma pensão de 18.000 R$ 1.000 prevista para ela ao longo de um ano. O Tom assinou tudo isto saudável e apaixonado, sem qualquer motivo aparente para pensar na própria morte.

 O casamento dele durou 7 meses. Pensa na simetria doentia do que acabou de ouvir. As duas pessoas daquela bancada, a apresentadora e o homem do papagaio, casaram com poucas semanas de diferença. Os dois casamentos desabaram no mesmo ano, mas só um dos dois ia estar vivo para ver o desfecho. A vida de Tom naqueles meses era uma ponte aérea de exaustão.

 A casa ficava na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O papagaio trabalhava em São Paulo. Ele atravessava o país para fazer rir o Brasil de manhã e regressava a um apartamento onde o casamento se afundava. A queda foi assenciosa para o público e ruidosa por dentro. Em outubro de 2020, Sibell confirmou ao jornal Extra que os dois estavam separados há um mês, falando em questões que não conseguiram alinhar, sem detalhar quais.

 Meses depois, a coluna de Leo Dias publicaria conversas de WhatsApp entre Tom e um amigo próximo e surgiriam acusações duras de pessoas do círculo dele, sugerindo que o casamento tinha episódios de agressão contra Tom. Cibelle sempre negou tudo com todas as letras. Disse publicamente que nunca houve violência.

 O que ninguém discute é o estado em que Tom estava naquelas últimas semanas, separado após 7 meses de casamento, a viver sozinho, trocando mensagens com amigos sobre o tamanho da roubada em que sentia ter-se metido. E havia um pormenor jurídico que pesava mais do que tudo. O casamento civil tinha sido selado em regime de separação total de bens num cartório notarial poucas semanas antes do anúncio da separação.

Pensa no tamanho desta esquisitice. Eles oficializaram a união praticamente na porta de saída da mesma. Ninguém nunca explicou bem o porquê. E o testamento de dezembro de 2019 continuava de pé intacto, registado. Separação não anula testamento. Enquanto aqueles papéis existissem, metade de tudo o que Tom tinha continuava prometida para a mulher de quem ele estava a divorciar-se. Ele sabia disso.

As versões publicadas divergem mesmo sobre o calendário da reação dele. A coluna de Leu Dias falou numa tentativa de tirar o nome dela do inventário. Cerca de 20 dias antes da morte. O jornal Extra documentou os áudios dos últimos três dias. As duas versões apontam para o mesmo lugar.

 Nas últimas semanas de outubro de 2020, aquele papel tinha tornou-se uma obsessão. Lembras-te do áudio que te prometi lá no começo? O áudio que tirou o sono a uma família inteira? Chegou a hora dele, porque entre os dias 29 e 30 de outubro de 2020, Tom Veiga pegou no telemóvel, abriu uma conversa com um amigo chamado Gabriel e gravou as mensagens que iam transformar a sua morte num dos casos mais discutidos da televisão brasileira.

O que o Tom pediu naquelas mensagens e o que lhe aconteceu menos de 72 horas depois é o motivo de ter clicado nesse vídeo. Quinta-feira, 29 de outubro de 2020, no Rio de Janeiro, Tom Veiga pega no telemóvel e abre a conversa de WhatsApp com o amigo Gabriel. O assunto era o testamento de dezembro de 2019, aquele papel que prometia metade de tudo para a mulher de quem estava se separando.

 Entre essa quinta-feira e a sexta-feira, dia 30, Tom escreveu mensagens que o jornal Extra publicaria meses depois e numa delas fez um pedido direto ao amigo. Pode ir lá comigo para cancelar essa merda. Ele queria uma testemunha para alterar o documento no cartório notarial. Segundo as conversas reveladas, o plano era resolver isso em poucos dias, já na semana que vinha pela frente.

 Tom tinha pressa e a vida estava prestes a mostrar que nem toda a pressa chega a tempo. Existe um pormenor desta sexta-feira, 30 de outubro, que passou despercebido na época e que hoje gela a espinha de qualquer pessoa que conheça a cronologia. Foi nesse dia que o Louro José apareceu no ar pela última vez. O O Brasil riu-se com o papagaio naquela manhã sem desconfiar de nada.

 Ana Maria se despediu-se dele como se despedia toda a sexta-feira com piada e bom fim de semana. Ninguém naquele estúdio fazia ideia de que o boneco verde nunca mais ia abrir o bico. Nem o próprio Tom, que naquele mesmo dia digitava mensagem sobre cancelar o testamento, sabia que estava fazendo a última sessão da sua vida.

 E é exatamente aqui que esta história para de ser triste e começa a ser perturbadora. Guarde a ordem dos factos na sua cabeça, porque daqui a pouco a A família dele vai fazer a mesma conta que já está a começar a fazer. Veio o fim de semana. Tom precisava de viajar do Rio para São Paulo por causa do programa, como fazia sempre.

 Só que desta vez não deu sinal de vida. No Domingo, 1 de Novembro de 2020, amigos e gente da produção foram a casa dele na Barra da Tijuca, atrás de resposta. Encontraram um Tom Veiga morto no chão aos 47 anos. O relatório preliminar do Instituto Médico Legal apontou um aneurisma seguido de um acidente vascular cerebral.

 Não houve qualquer aviso e não houve tempo. As mudanças que ele tinha previstos para a semana seguinte ficaram só no plano. O notário nunca recebeu a visita dele. O papel de dezembro de 2019 continuava a valer palavra por palavra. Naquele domingo de manhã, um telefone tocou em São Paulo, a chamada que abriu este vídeo.

 Do outro lado da linha, Ana Maria Braga recebeu a notícia de que o companheiro de 24 anos, o homem que ela tratava como um filho, tinha sido encontrado sem vida. Ela estava com 71 anos, acabada de sair do tratamento mais agressivo da sua vida, casada com um homem que registava os passos dela num caderno.

 E agora tinha de fazer a coisa mais difícil que a televisão pode pedir a alguém, transformar o pior luto em conteúdo do pequeno-almoço. Na segunda-feira, 2 de novembro, ela entrou no ar sem o papagaio, sem ensaio, com o rosto de quem não dormiu. Ela mesma resumiu o estado em que se encontrava. Eu não podia deixar de estar aqui, moída por dentro.

 Contou em direto, como soube da morte, por um telefonema em que não conseguiu acreditar. comparou a dor com a de uma mãe que perde um filho, porque era assim que ela via os dois, o homem e o boneco, como filhos que ela viu nascer. Disse que em 24 anos de convivência, os dois nunca tinham brigado uma única vez, que eram confidentes um do outro.

 E explicou ao público uma coisa que só quem viveu aquela ancada podia explicar. Para ela, o louro era real. Quando ela falava com o louro, ela estava a falar com o louro. O tom era o tom, o louro era o louro. Naquele domingo, ela tinha perdido os dois de uma só vez. A Globo inteira parou à volta dela. Naquela mesma segunda-feira, o encontro tornou-se uma homenagem com Fátima Bernardes e Tony Ramos a recordar o Tom ao vivo.

 E nos dias seguintes, Zumais, você se transformou num álbum de despedida. Os melhores momentos da dupla repetidos. Um a um, 24 anos de piadas revistos em câmara lenta, com ela a assistir junto com o público, rindo e chorando dentro da mesma frase. Havia ainda outro pormenor que o luto trouxe à tona. A família de Tom, segundo contou um amigo ao jornal Extra, apenas descobriu que o testamento existia no dia do velório.

 O homem foi enterrado juntamente com um segredo de notário que nem as pessoas mais próximas conheciam. Agora imagine esta cena na sua vida. Imagine voltar ao seu trabalho na manhã seguinte ao enterro de alguém que lhe amava e descobrir que a sua função é fazer sorrir os outros. Era esse o expediente dela? Porque fica a questão que a sua família não conseguia tirar da cabeça.

 O que faz um homem de 47 anos sem qualquer doença conhecida pelo público, morrer sozinho num domingo, dias depois de anunciar que ia reescrever o próprio testamento, a despedida decorreu em duas cidades, como tinha sido a sua vida. Na terça-feira, 3 de novembro, os amigos e familiares despediram num velório no condomínio onde vivia, no Rio de Janeiro.

 No dia seguinte, quarta-feira, 4 de novembro, o corpo atravessou pela última vez a ponte aérea que Tom Cruzou há mais de duas décadas e foi enterrado no cemitério Orto Florestal, em São Paulo. O velório paulista durou cerca de uma hora numa cerimónia restrita aos familiares em plena pandemia. A Ana Maria estava ali no meio da agitação, enterrando em silêncio o homem que tinha conhecido carregando o cenário.

 E foi ali, entre o caixão e os abraços de máscara, que as duas pontas da vida dos Tom cruzaram-se. De um lado, os quatro filhos e as ex-mulheres. Do outro, Sibell, a viúva de um casamento de 7 meses, que tinha acabado dois meses antes, mas que no papel continuava de pé. A separação nunca tinha sido oficializada em notário e a lei é fria nesses casos.

Ana Maria Braga abre sua casa para a Quem • Ana Maria Braga

 Sem divórcio assinado, a viúva continua a ser viúva com tudo o que a palavra carrega de direitos. O testamento de dezembro de 2019 seguia intacto. Metade de tudo continuava prometida para ela. A Ana Maria atravessou aquelas semanas em piloto automático que tinha construído toda a vida. De manhã, o sorriso no ar, as homenagens, a gratidão pelo carinho do público.

 No resto do dia, um casamento a desmoronar-se em silêncio dentro de casa e a ausência de Tom a ecoar no estúdio. Quem olhava de fora via uma mulher forte, segurança exemissora nas costas. Quem conhecia a história por dentro via outra coisa. Uma mulher a fazer de novo o que fez em 2001, doente de outra doença, escondendo a gravidade atrás do uniforme.

 Mas o luto dela ainda ia ganhar um capítulo que ninguém previu. Porque quando os papéis que Tom deixou vieram ao de cima, o choro passou a ser desconfiança. E a A desconfiança tornou-se uma palavra dita em voz alta, repetida em colunas e estampada em manchete, veneno. A guerra começou pelo dinheiro e terminou no corpo.

 Primeiro vieram as batalhas que todo o inventário conhece, os quatro filhos de Tom de um lado, a viúva do outro e no meio um património que o O jornalista Felipe Campos estimou em cerca de R$ 1 milhão deais, somando imobiliário em São Paulo e no Rio de Janeiro. As ex-mulheres entraram na luta pela imprensa. Alexandra Veiga, mãe de uma das filhas e companheira de Tom durante 14 anos, acusou publicamente Saibell de ter devastado a sua vida desde que nela entrou e cravou na televisão uma frase que fez manchete.

Chegaste com essa carinha de anjo. Sibell contrapôs chamando tudo de mentira e acusando a outra de criar polémica para vender livro. O Brasil assistia pelo retrovisor entre uma homenagem e outra. ao papagaio. Só que em abril de 2021, 5 meses depois do enterro, este briga de família deixou de ser sobre dinheiro.

 No dia 6 desse mês, a coluna de Leo Dias publicou uma informação que parou a internet brasileira. Segundo pessoas próximas de Tom, havia quem suspeitasse dentro da própria família que tivesse sido envenenado e que se cogitava o impensável para tirar a dúvida, desenterrar o corpo. A palavra fez uma ação dominou os portais por dias.

 A base da desconfiança era a sequência que já conhece. O testamento demasiado generoso assinado em dezembro de 2019, o casamento que ruiu em 7 meses, as conversas de WhatsApp em que Tom chamava ao próprio testamento de merda e marcava cancelar tudo. E a morte súbita dias depois, sozinho, num domingo, os prints das mensagens tornaram-se o coração das reportagens que sustentavam a suspeita.

 Mas depois veio a revira-volta dentro da revira-volta. Dois dias depois da publicação, o portal R7 ouviu Alessandra Veiga, os filhos e os irmãos de Tom. E negaram conhecer qualquer pedido de esumação. A A própria família estava dividida sobre a própria dúvida. Do outro lado, Saibell negou cada acusação, sempre em todos os tons.

 Disse que nunca houve violência no casamento e que as histórias contadas sobre ela eram mentira desde o início. O relatório oficial seguia de pé, a neurisma, seguido de um AVC hemorrágico. Nunca nenhuma autoridade apontou crime. Nenhuma acusação formal foi feita contra ninguém. O corpo nunca saiu do túmulo e a pergunta ficou onde perguntas assim costumam estar aberta e sem dono.

 No dia 1 de novembro de 2021, primeiro aniversário da morte, a vida deu mais uma prova de que não estava disposta a dar tréguas. A Ana Maria nem sequer pôde marcar a data no estúdio. Estava afastada do programa, a recuperar de um acidente doméstico. A homenagem saiu pelas redes num texto curto em que ela chamou o tom de companheiro de todos os dias e comparou de novo a dor com a de perder um filho, fechando com quatro palavras que dizem tudo. O vazio que deixaste.

Um ano depois da morte, a mulher mais usocupada da televisão brasileira ainda contava aquela ausência no presente. Em janeiro de 2023, a guerra ganhou um novo capítulo nos tribunais. A pedido dos quatro filhos, a justiça tirou a Sibell o poder de administrar o espolho de Tom e entregou a função à Amanda Veiga, filha do seu primeiro casamento.

 A mensagem dos herdeiros era clara nos altos. Não confiavam na viúva, nem para gerir os bens do pai. No mesmo processo, corria o pedido mais pesado, o de anular o testamento por completo, com uma audiência marcada para 14 de março de 2023. Era tudo ou nada. Ou o papel de dezembro de 2019 caía, ou a viúva de 8 meses demorava metade de uma vida de trabalho.

 Sibell reagiu em público, dizendo que aquilo fazia parte do processo, que era um direito das crianças e seguiu sustentando que nunca não tinha feito nada de errado. A novela jurídica corria em paralelo com outra em São Paulo, que o público também acompanhava sem compreender o tamanho, porque a vida de Ana Maria descia a própria espiral.

 Em junho de 2021, 7 meses depois de enterrar Tom, ela apareceu no ar sem a aliança. A A colunista Fabiola Hapert confirmou no balanço geral, o casamento com Johnny Lucette tinha acabado. E aqui esta história entrega uma das cenas mais surreais de todas. Segundo o que foi contado no próprio programa, foi a produção da Record que ligou para o francês perguntando-lhe se sabia que estava separado.

 O marido de Ana Maria Braga descobriu o fim do próprio casamento numa chamada de jornalista. Foi nessa mesma conversa que contou do caderno. Depois voltou para Lolé, no sul de Portugal, onde tinha família e um filho de 11 anos. Parecia o fim de um capítulo mau. Era só o início dele, porque há uma coisa que quase ninguém sabe sobre a mulher mais famosa das manhãs do Brasil.

 Ela passou 3s anos presa no papel a um homem que vivia em outro continente. A mulher que o país via livre e sorridente todas as manhãs não conseguia sequer assinar o próprio divórcio. Lucette recusava-se a assinar. A versão dele dada à imprensa, era de um homem atropelado. Tinha viajado a Portugal para ver a família e cuidar dos negócios quando descobriu que ela tinha dado entrada com o pedido de divórcio sem avisar.

Em 2022, a produção do Balanço Geral chegou a exibir em direto no ecrã da Record documento de intimação para ele comparecer num fórum em Portugal numa tentativa de conciliação. O papel apareceu na televisão. A assinatura nunca. Ana Maria apresentou o pedido de divórcio na justiça portuguesa e recebeu uma negativa.

 Em março de 2024, a novela completava 3 anos e nessa altura o pormenor era constrangedor. Ela já vivia um novo relacionamento enquanto continuava legalmente casada com o homem do caderno. Quando você somar tudo, o retrato torna-se difícil de encarar. Entre 2020 e 2024, Ana Maria Braga enfrentou o cancro mais agressivo da vida.

 enterrou o companheiro de 24 anos, descobriu o diário do marido e lutou anos para se livrar legalmente dele e apresentou o programa quase todas as manhãs. Guarde este placar na cabeça, porque agora vem a parte em que todas as datas desta história se encaixam, uma por uma, de uma forma que ninguém gostaria que encaixasse. Lembra-se do padrão que te pedi para guardar? O das vitórias e perdas que chegam de mãos dadas.

 Agora é visível por inteiro. Em 1997, ela ganhou o papagaio e um marido no mesmo ano. Em 2002, venceu o cancro e perdeu esse marido no mesmo calendário. Em 2020, o padrão atingiu a forma mais cruel que uma vida pode desenhar. Ela se curou do tumor mais perigoso de todos. Casou de véu e tudo na própria sala. E antes do ano, Acabar estava a enterrar o filho, que não era de sangue, a dormir em casa de um homem que a vigiava a caneta.

 A menina da janela virou a mulher da bancada e a bancada nunca soube de nada. Foi assim toda a vida e é por isso que a última cadeia de datas desta história precisa de ser ouvida com atenção. Agora deixa-me colocar todas as datas na mesma mesa, porque é assim que a família de Tom passou a ver esta história e é assim que vai decidir o que pensa dela.

Dezembro de 2019, Tom regista em notário um testamento que entrega metade de tudo a Saibelli. Janeiro de 2020, a festa de casamento. Setembro de 2020 a separação. Ao fim de 7 meses. 29:30 de outubro. Tomando as mensagens ao amigo Gabriel pedindo companhia para cancelar essa merda com o cancelamento combinado para os dias seguintes.

Sexta-feira, 30, a última aparição do Louro José no ar. Primeiro de novembro, Tom é encontrado morto. E aqui entra o pormenor que faz qualquer pessoa gelar. O divórcio dele estava previsto sair quatro dias depois da morte. Quatro dias. Se Tom tivesse vivido uma semana a mais, Sibell não seria viúva e o testamento provavelmente nem existiria mais.

 Morreu na única janela de tempo em que aquele papel ainda valia tudo. A justiça demorou quase 3 anos para responder e em 2023 deu a palavra final. O testamento foi anulado. A herança inteira ficou com os quatro filhos e a viúva saiu sem nada. Sobre a outra pergunta a que estampa a capa deste vídeo, a resposta oficial nunca mudou. A neurisma e AVC. Foi veneno.

 A justiça diz que não há crime. A família nunca teve a certeza que pedia. E Ana Maria Braga acordou todas as manhãs destes tr anos, sentou-se diante da câmara ao lado do lugar vazio do amigo e sorriu-lhe sem deixar escapar uma palavra do tribunal que transportava por dentro. Esse é o horrível segredo por detrás do sorriso.

 Esteve sempre à vista do país inteiro, todas as manhãs, 8 horas, disfarçado de bom dia. O tempo que cobrou-lhe tanto também devolveu alguma coisa. O louro José nunca foi substituído. Ela recusou. Em 2022, apareceu na bancada um filhote, o louro Mané, com outra voz e outra alma, porque a do Tom era dele e foi-se embora com ele. No início de 2024, comemorando 25 anos de mais você, ela fez uma conta em voz alta que diz mais do que qualquer homenagem.

 Já eram 828 programas sem o tom. Ela contou um por um e depois o destino repetiu o truque favorito dele nesta história. Mandou alguém pelos bastidores nos corredores da Globo. Ainda nos tempos de pandemia, de máscara no rosto, ela cruzou com um jornalista discreto que trabalhava atrás das câmaras, um antigo editor de imagens do desporto chamado Fábio Arruda.

 Anos depois, no domingão, ela explicaria o que aconteceu naquele corredor. Ele não olhou para mim como a Ana Maria Braga. Olhou para a mulher. Depois de um marido que registava cada passo dela num caderno, apareceu um homem com Instagram trancado e menos de 300 seguidores, que não queria aparecer, que não queria postar, que não queria nada dela para além dela.

 Ela fez o que faria qualquer repórter apaixonada, pediu ajuda da equipa para investigar quem era o rapaz e passou a dar voltas pelos corredores, esperando esbarrar nele de novo. O namoro só se tornou público em Janeiro de 2023 numa viagem à África do Sul. E na sexta-feira, 4 de abril de 2025, com o divórcio do francês finalmente resolvido, os dois casaram numa cercimónia civil na sua mansão em São Paulo, com cerca de 50 convidados e festa marcada para julho na quinta de Atibaia, na capela que ela própria construiu para Nossa Senhora de Fátima.

Era o quinto casamento. Meses depois, ela assumia um novo reality no horário nobre da Globo. A menina que saltou a janela em São Joaquim da Barra continua saltando janelas. A dúvida é quanto cada salto custou. Lembra-se da t-shirt? Aquela que a equipa vestiu em 2001 com a palavra guerreira no peito quando ela rapou a cabeça diante do Brasil? A palavra estava certa.

 O que todos errou foi o tamanho da guerra. O público pensava que era contra o cancro e o cancro era apenas a parte visível. A guerra de verdade era acordar às 4 da manhã com a vida em ruínas e dever ao país um sorriso às 8. era enterrar um filho que não era de sangue e voltar ao trabalho com a sua cadeira vazia no campo de visão, sendo a mulher mais acompanhada do Brasil e a mais só do próprio quarto.

 A fama tem um contrato que ninguém assina por escrito. Ela dá-te o amor de 50 milhões de pessoas e cobra-te o direito de desabar à frente delas. Ana Maria Braga pagou esse contrato em dia, durante décadas, sem se atrasar uma única manhã. Cinco homens assinaram papel de casamento com ela ao longo da vida. Nenhum se aproximou da relação mais longa que ela teve.

 O público é consigo que ela está há quase 30 anos de manhãs seguidas. E foi a si que ela escolheu contar cada doença, cada cura e cada despedida. Talvez por isso o sorriso nunca tenha caído. Ninguém deszaba na frente de quem mais ama. E existe um fio que atravessa toda esta vida e que começa naqueles internatos do interior. A menina que aprendeu cedo, que ninguém perguntava o que ela sentia, virou a mulher que o Brasil inteiro ouve todos os os dias e a quem ninguém verdadeiramente pergunta como está.

 Talvez a parte mais dolorosa desta história não esteja nos cartórios, nos relatórios, nem nos tribunais. está na possibilidade de que a gente nunca tenha visto o rosto verdadeiro dela, apenas o uniforme. Amanhã, às 8 da manhã, ela vai lá estar outra vez. A mesa posta, o café a fumegar, o louro Mané a gritar o nome dela, o bom dia de sempre.

 Milhões de pessoas vão assistir como assistiram toda a vida. Mas você que chegou até aqui vai assistir diferente. Vai olhar para aquele sorriso e vai ver a janela de São Joaquim da Barra, a cabeça rapada de 2001, o caderno do francês, o telefonema de um domingo de novembro. Vai ver uma mulher de 77 anos que atravessou tudo isto e ainda acha que merece um bom dia.

Bem dado. Esse conhecimento não estraga o sorriso. Ele transforma o sorriso na coisa mais corajosa da televisão brasileira. Se esta história te fez lembrar de alguém que sorride mais, alguém que sente que carrega mais do que mostra, envia este vídeo para essa pessoa hoje. Por vezes, a única coisa que um guerreiro precisa é de alguém que perceba a guerra. Amen.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *