Rejeitado 3 Vezes Pela Mesma Gravadora. Quando Finalmente Chamaram, Luiz Gonzaga Disse Não tc
Em 1947, Luís Gonzaga entrou pela terceira vez no corredor da Gravadora Atlântica, no Rio, com uma fita que ele tinha a certeza que iria mudar tudo. O homem que o recebeu nem abriu a porta da sala. Na quarta vez que aquela editora mandou chamar o Gonzaga, foi ele quem mandou dizer: “Não ia”.
Mas para perceber o tamanho deste não, para perceber porque é que este não pesou mais do que qualquer sim que Gonzaga recebeu na vida inteira, é preciso saber o que aconteceu dentro daquele corredor antes. Porque o que Gonzaga viveu naquela terceira recusa não foi simplesmente uma porta fechada.
Foi uma cena que ele carregou no peito durante mais de 4 anos sem contar a ninguém. Uma cena que só uma pessoa para além de Gonzaga testemunhou do princípio ao fim e que esta pessoa levou guardada no silêncio por razões que fazem com que esta história ser ainda maior do que parece. Esse homem chamava-se António Ferreira, mas toda a gente que trabalhava na gravadora atlântica conhecia-o como seu Toinho.
Era cearense de Iguatu. tinha chegado ao rio em 1933, fugindo de uma seca que comeu tudo o que a sua família tinha. Passou 15 anos a varrer o corredor daquela gravadora, servindo café para executivos que não sabiam o seu nome, invisível como a mobília, presente como uma parede.
E estava lá quando Gonzaga chegou pela primeira vez e estava lá na terceira. E o que ele viu nesta terceira vez, guardou-o no peito durante mais de 20 anos antes de contar a alguém. A pergunta que o vai acompanhar aqui é esta: o que foi que o Cláudio Bessa fez naquele corredor em outubro de 1947 que Luís Gonzaga nunca esqueceu? O que foi tão pesado que um homem habituado ao sofrimento mais duro do Brasil, um homem que tinha crescido na seca do sertão, que tinha comido pedra, que tinha bebido água de cacimba. O que é que este
homem viveu nesse dia que a seca nunca tinha conseguido fazer com ele? E a segunda questão é ainda mais estranha. Porque é que o seu Toinho esperou mais de 20 anos para contar? Porque um homem simples não guarda um segredo durante duas décadas à toa. Alguma coisa o prendia. E quando ele finalmente falou, o que veio à tona não era apenas a história de uma humilhação, era a história de uma traição que vinha de um lugar que Gonzaga nunca teria suspeitado.
Mas o que vem agora é ainda mais forte, porque esta história não inicia-se em 1947, ela começa do anos antes, quando Luís Gonzaga ainda não era rei de coisa nenhuma. O verdadeiro problema estava apenas começando. Era 1945 e o Rio de Janeiro vivia uma febre de música que não tinha nada de nordestina.
O que dominava a rádio era samba, era bolero, era marchinha de carnaval com letra de tasco carioca. As grandes editoras não queriam saber de baião, de shote, de acordeão do interior. Queriam música urbana, palatável. cosmopolita. O Nordeste para eles era um problema geográfico, social, um assunto de jornal sobre a seca e a fome.
Não era produto, não tinha mercado. Luís Gonzaga tinha chegado ao Rio em 1939 com a concertina do pai e um sotaque que não conseguia esconder nem quando tentava. tinha dormido numa pensão barata em São Cristóvão, tocado em tasco, feito baile de clube nos fins de semana para ganhar o pão.
Aprendeu do maneira mais dura que o rio tolerava o nordestino, desde que ele deixasse o nordeste enterrado na memória, que o certo era tocar o que o carioca queria ouvir. Gonzaga aprendeu isso e fez. Tocou o tango, tocou samba. tocou o que pedissem. Mas quando a noite fechava e ficava sozinho no quarto da pensão com a concertina no colo, o que saía era o que tinha aprendido em Exu, em casa do pai Januário, nas noites de festa do sertão, aquele ritmo que arrastava e repicava ao mesmo tempo, aquela melodia
que tinha saudade e coragem misturadas sem precisar de explicação. aquilo a que mais tarde o mundo chamaria de baião, mas que Gonzaga chamava simplesmente música, porque era a única que conhecia verdadeiramente. Em 1945, foi pela primeira vez a editora Atlântica.
tinha conseguido a indicação de um músico amigo que conhecia um assistente de Cláudio Bessa. Numa tarde de quarta-feira, com céu carregado, Gonzaga apresentou-se na recepção. Chapéu na mão, roupa de domingo com cheiro a naftalina, a concertina num couro surrado que ele tinha arranjado com linha grossa.
A recepcionista mal levantou os olhos. Conzaga disse que queria falar com o senhor Bessa. Esperou. Ficou sentado numa cadeira dura enquanto o tempo passava com aquela lentidão que os corredores de escritório têm quando está do lado de fora, esperando que alguém do lado de dentro lembre-se que você existe. Esperou 3 horas.
Quando Bessa apareceu, foi durante 2 minutos. Era exatamente o tipo de homem que Gonzaga tinha aprendido a reconhecer no rio. Fato claro, cabelo com brilhantina, anel de ouro no dedo mindinho que reluzia à luz do corredor. Olhou para Gonzaga com um tipo de olhar que não vê uma pessoa, vê uma interrupção. Perguntou o que ele queria tocar.
Gonzaga disse: “Chapéu ainda na mão. Um baião, doutor. Uma coisa que o senhor nunca ouviu antes.” Bessa respondeu sem parar de andar, já dobrando o corredor. Traz uma fita gravada e deixe com a recepcionista. Se estiver interessado, a gente entra em contacto. Gonzaga não tinha forma de gravar fita, não tinha estúdio, não tinha dinheiro para pagar hora de gravação.
Disse que preferia tocar ao vivo. Bessa já tinha desaparecido. Essa foi a primeira recusa. Não foi com palavras, foi com ausência. O tipo de recusa mais cruel, porque não te dá nem a dignidade de um não direto. Te deixa no corredor como uma coisa que ninguém pediu. Naquela noite, Gonzaga voltou paraa pensão em São Cristóvão de Eléctrico, sentou-se na janela, a olhar para a rua.
Não tocou a concertina, ficou só a olhar com a música dentro do peito e o rio do lado de fora. Dois mundos que ainda não se tinham entendido. Mas Gonzaga já sabia com a clareza de quem cresceu, onde cada gota de chuva tem de ser aproveitada, porque não se sabe quando vem a próxima que ia voltar.
Não por teimosia, por certeza. O que não imaginava era o que estava sendo armado dentro daquela editora enquanto esperava a hora de regressar. Em 1946, alguma coisa mudou. Gonzaga tinha conhecido Humberto Teixeira, um cearense de boa viagem, advogado formado, compositor por vocação, que tinha ido a um pequeno concerto de Gonzaga num clube de nordestinos no subúrbio e ficou parado depois da música terminou, sem conseguir sair do lugar.
O homem ao lado perguntou se estava bem. Humberto disse: “Estou a tentar perceber como é que um negócio destes ainda não tomou conta do Brasil inteiro. Os dois começaram a compor juntos e o que saía daquela parceria era diferente de tudo o que existia no mercado.
Era nordeste puro com arrumação inteligente. Era ritmo que movia o corpo involuntariamente e letra que apertava o peito com uma pressão que reconhecias mesmo sem nunca ter pisado no sertão. Era aquela coisa rara que acontece quando duas inteligências complementares encontram-se na hora certa. Alguma coisa nova que estranhamente parece que sempre existiu.
Com a ajuda do Humberto, Gonzaga conseguiu uma fita de demonstração gravado num pequeno estúdio em Botafogo. Equipamento velho, som abafado. Você ouvia campainha de Bonde a passar no meio das músicas, mas ouvia-se o que ali estava. E o que ali estava era fogo. Em março de 1946, Gonzaga regressou à Gravadora Atlântica, desta vez com hora marcada, com a fita, com Humberto ao lado, porque Humberto sabia comunicar no idioma dos executivos cariocas, com uma articulação que Gonzaga ainda estava a aprender a usar naquele rio,
que continuava a não ser o seu. Bessa recebeu-os numa sala pequena. sem janela, com um gira-discos velho, sem café, sem aperto de mão caloroso, cruzou os braços, colocaram a fita. Ele ouviu menos de 2 minutos antes de tirar a agulha. “Isso é muito regional”, disse, como quem constata um defeito técnico numa peça de máquina.
“Não há mercado [de música] fora do norte. No Rio, ninguém compra isso. Humberto, com calma de advogado, disse que estavam dispostos a conversar sobre arranjo, sobre a produção, sobre o que a gravadora achasse necessário adaptar, que o ritmo tinha força suficiente para resistir a qualquer ajuste.
Bessa abanou a cabeça devagar. Não é questão de arranjo, é uma questão de público. O público do Rio quer modernidade. Isto aqui cheira a distância, cheira a passado. Gonzaga ficou em silêncio do início ao fim. Pegou na fita do gira-discos com cuidado. Aquele cuidado de quem maneja alguma coisa que tem valor que a outra pessoa não viu.
colocou debaixo do braço, levantou-se, saiu, mas no corredor, antes do elevador, parou, ficou parado 3 segundos a olhar para a parede. O senhor Toinho, que estava a varrer o corredor naquele momento, viu o momento. Gonzaga estava a ouvir alguma coisa que acontecia dentro. Depois entrou no elevador. Humberto Teixeira contou num depoimento dado muitos anos depois que no elevador a descer para o térrio, Gonzaga disse uma coisa mais para dentro do que para fora.
Eles vão pedir um dia vão pedir. Humberto não respondeu. O elevador abriu. Os dois saíram à rua com o sol a bater na cara, como se nada tivesse acontecido. Aqui é onde precisas de ficar atento, porque entre esta segunda recusa e a terceira, aconteceu alguma coisa dentro da editora Atlântica que Gonzaga não sabia.
Uma coisa que explica por a terceira recusa ter sido diferente das duas anteriores, mais pesada, mais calculada, com uma crueldade que não era acidente nem insensibilidade de quem não vê. Era crueldade que sabia exatamente o que estava a fazer. Havia alguém dentro daquela editora que conhecia o Gonzaga. Não de aperto de mão e boa tarde. Conhecia de verdade.
Sabia de onde ele vinha. Sabia o que ele tocava. sabia o quanto estava a crescer nas rádios mais pequenas, nos programas de talentos, nas festas de nordestinos espalhados pelo subúrbio carioca. E esse alguém estava alimentando a opinião de Cláudio Bessa com palavras escolhidas. Não mentiras gritantes, mentiras pequenas e cirúrgicas, do tipo que se encaixam nos preconceitos que a pessoa já tem, que confirmam o que ela já quer acreditar.
Quem era essa pessoa? Isto vai aparecer daqui a pouco nessa história. Por hora, guarda esse nome, Galdino Santos, porque quando ele aparecer de novo, tudo o que achou que estava entendendo vai reorganizar-se de outro jeito. Recuemos a outubro de 1947. Gonzaga tinha crescido. Já não era o retirante de fato desajeitado a chegar com fita emprestada.
tinha tocado na Rádio Nacional, tinha feito espectáculos maiores. O baião começava a vazar das fronteiras nordestinas de uma forma que qualquer pessoa com o ouvido aberto podia sentir. Não era só um nordestino a bater o pé agora. Havia cariocas a bater o pé também, sem saber muito bem porquê. Mas batendo era o cheiro a temporal que chega devagar. Cláudio Bessa também sentia.
E foi por isso que enviou o recado para Gonzaga. A editora discográfica estava disposta a ouvir de novo. Havia interesse genuíno dessa vez. Gonzaga recebeu o recado com desconfiança. Humberto disse que talvez fosse diferente. Gonzaga não estava convicto, mas foi. Em outubro de 1947, numa tarde de terça-feira com sol amolecendo o asfalto, Luís Gonzaga entrou pela terceira vez no corredor da gravadora Atlântica.
Levava uma fita nova gravada num estúdio melhor, com músicas que viriam a ser pilares da música nordestina. A gravação estava boa, estava mais do que boa. Era irrecusável para qualquer pessoa com ouvido honesto. O Sr. Toinho estava no corredor, reconheceu Gonzaga e sentiu no ar algo que não soube nomear imediatamente. Depois, quando contou esta história muitos anos mais tarde, disse que era como o cheiro que vem antes de uma trovoada seca no sertão.
O céu está limpo, mas o seu corpo já sabe. O seu O Toinho foi devagar com a vassoura. Gonzaga entrou no gabinete de Bessa. Dessa vez, Bessa estava lá desde o início, sentado atrás de uma mesa larga de Mógno, com dois homens que Gonzaga não conhecia sentados nos cantos da sala. Não foram apresentados. ficaram ali como quem está a assistir a um espetáculo que já sabe como vai terminar.
Gonzaga colocou a fita na vitrola. Ligou a música preencheu aquela sala sem janela com uma potência que fazia tremer ligeiramente. Era o baião num grau de maturidade que as fitas anteriores não tinham. Era a voz de Gonzaga com aquela textura de areia e vento e saudade que nenhum estúdio do mundo teria como fabricar.
Era a concertina com aquele arrastar e repicar que lhe sentia no peito antes de ouvir com os ouvidos. Bessa ficou a olhar para o teto, tamborilou os dedos na mesa de Mogno três vezes devagar. E quando a música parou, fez uma coisa que o Gonzaga não estava esperando. Ele riu. Não foi riso de surpresa. Não foi riso nervoso.
Foi um riso lento, construído com cuidado, escolhido como uma ferramenta específica para um trabalho específico. O tipo de riso que existe só para fazer a outra pessoa saber que está a ser ridícula. Os dois homens nos cantos riram também. um pouco depois, como músicos que entram no compasso certo.
E Bessa disse em voz alta e clara, sem qualquer esforço de descrição. Sabes o que me faz lembrar? Me faz lembrar aquelas festas de colono do interior que ouvimos de longe quando passa de comboio. Você sabe que existe, sabes de onde vem o barulho, mas tu não tens vontade nenhuma de mandar o maquinista parar. Um dos homens dos cantos riu-se mais alto.
O seu tuinho estava do lado de fora, a porta entreaberta, dois dedos. Ele ouviu tudo. Viu pela fresta. Viu Gonzaga de pé no meio da sala, com a fita na mão, o chapéu pressionado contra o peito com as duas mãos, como quem segura alguma coisa por dentro para não deixar vazar. Peça continuou a olhar para janela e não mais para Gonzaga.
Deixa-me ser honesto. Isto que você faz pode ter um público muito pequeno lá no seu canto, mas no Rio, no mercado que realmente importa, isso não vai funcionar nunca. O rio não quer saber de barracas de feira, quer sofisticação, quer modernidade. Gonzaga ainda não tinha dito nada. Bessa depois olhou para ele pela primeira vez desde que a música parou.
Olhou de cima para baixo com a expressão de quem não vê uma pessoa, vê um equívoco. E disse a última coisa que disse naquele encontro. Devia considerar mudar de estilo ou, se não houver jeito, mudar de profissão? Os dois homens nos cantos não se riram dessa vez. ficaram em silêncio. Até eles tinham compreendido que aquilo tinha ido longe demais.
Gonzaga pegou na fita do gira-discos devagar, olhou para ela um segundo, colocou-o debaixo do braço, virou as costas e saiu. O seu Toinho recuou da fresta quando ouviu os passos. fingiu que estava varrendo um canto longe. Conzaga atravessou o corredor com uma passada firme, sem apressar, sem olhar para os lados.
Chegou ao elevador, pressionou o botão, ficou parado à espera com o chapéu, ainda pressionado contra o peito. E nesse momento de espera, enquanto o elevador subia, o seu toinho viu algo que dizia nunca ter esquecido enquanto viveu. Viu o queixo de Luiz Gonzaga tremer por um segundo apenas.
Um tremor rápido e involuntário, como o relâmpago que passa antes de teres certeza de que viu. E depois passou. O rosto voltou ao que era. O elevador abriu. O Gonzaga entrou e desapareceu. É preciso entender o que era aquele queixo a tremer para entender o que vinha depois.
Gonzaga tinha crescido em Exu, filho de Januário. Um homem cuja dureza era o resultado de um sertão que não perdoa a fraqueza porque simplesmente não tem como sustentá-la. Aprendeu desde menino que o choro fica por dentro, que homem de sertão engole a dor e segue, porque a dor que não te mata tem que se tornar combustível. tinha passado fome a sério.
Tinha andado léguas ao sol sem água, tinha dormido na terra. Não era um homem que deixava o exterior mostrar o que o interior sentia. Aquele queixo a tremer num corredor de A gravadora do Rio de Janeiro não era fraqueza. Era a medida exata do tamanho da humilhação que aquele homem tinha engolido e da raiva que ficou.
Uma raiva que não gritou, não partiu nada, não disse uma palavra que fosse pro fundo e ficou ali quieta e viva, como brasa em cinzento, que parece apagada, mas não está. O que vem agora é a parte que quase ninguém sabe. Gonzaga não foi paraa casa nessa noite, não foi ao Bud King, não foi à procura Humberto, foi para a Lapa.
A lapa dos anos 40 era o rio que o rio oficial não queria ser, mas não conseguia evitar. E nessa lapa havia um pequeno estúdio numa rua de [pigarreia] paralelepípedo, operado por um músico chamado Edmundo Vilas, que alugava a hora de gravação a preço que um acordeonista de botiquim podia pagar.
Paredes que não vedavam o ruído da rua, microfone em segunda mão, mas era um estúdio e estava aberto. Gonzaga foi lá nessa noite. Edmundo reconheceu-o e abriu sem fazer pergunta. Das 10 da noite até perto das 3 da madrugada, Gonzaga gravou sozinho, sem acompanhamento, sem arranjador, sem ninguém do lado de dentro para além dele, a concertina e aquilo que estava no peito.
Naquela noite de Outubro de 1947, Edmundo Vilas guardou a fita. Não porque soubesse o valor do que estava ali. Guardou porque era o tipo de coisa que se guarda, mesmo sem perceber porquê. Porque alguma coisa em si reconhece que não pode ser deitada fora. Guarda esse nome. Lapa. Outubro de 1947. Uma gravação que ninguém sabia que existia, porque ela vai aparecer outra vez e quando aparecer vai mudar tudo o que acha que percebeu sobre este, não que Gonzaga deu.
Por agora, voltemos ao que aconteceu com o Brasil nos anos seguintes, porque o que aconteceu foi exatamente o que Cláudio Bessa tinha dito, que nunca poderia acontecer. O baião começou a tomar conta do Brasil de uma forma que ninguém dentro das grandes gravadoras tinha previsto. Não foi explosão repentina, foi infiltração lenta e constante, como a água que entra por baixo da porta.
Começou nas rádios mais pequenas do Nordeste, chegou ao Recife, a Fortaleza, em Salvador, e depois veio para o rio pelas mãos dos retirantes que enchiam São Cristóvão, Madureira, Bangu, aqueles homens e mulheres que tinham largado o Nordeste porque não havia forma de ficar, mas que transportavam o Nordeste dentro com uma fidelidade que nenhuma distância dissolvia.
Em 1946, mesmo antes da terceira rejeição, Gonzaga tinha lançado Baião com Humberto Teixeira pela RCA Victor, que tinha aceitado o risco. O resultado não foi apenas um sucesso de vendas, foi um fenómeno. Era a primeira vez que um ritmo nordestino tomava as rádios nacionais e fazia gente que nunca tinha pisado Pernambuco bater o pé e querer ouvir mais.
Os retirantes que enchiam as periferias do rio e de São Paulo ouviam Gonzaga e sentiam o que o sul nunca tinha dado a eles. O reconhecimento de quem são, a sensação de que a terra que tinham deixado para trás não era lugar de vergonha, mas de origem, que migrar não apagava quem se é. só acrescentava quilómetros entre si e o lugar que te formou, sem tirar nada do que esse lugar pôs dentro de si.
Um camionista de Juazeiro do Norte, em depoimento radiofónico anos depois disse que ouviu asa branca pela primeira vez num alojamento dos trabalhadores e parou com a enchada na mão a chorar. Não de tristeza, de reconhecimento. Era como se alguém tivesse falado o meu nome em voz alta num lugar onde ninguém sabia que eu existia.
Isso era o que a editora Atlântica não tinha conseguiu ouvir quando Gonzaga entrou com a fita. Mas o mercado tem uma forma implacável de cobrar o que os executivos não viram na hora certa. Em 1948, as vendas das gravações de Gonzaga pela RC Victor bateram recordes que nenhuma gravadora do Rio tinha nos seus registos.
Não era só o Nordeste comprar, era o Brasil. Os espectáculos enchiam teatros que não tinham sido construídos a pensar na música nordestina. As rádios pediam baião, forró e shot com uma frequência que alterou a grelha de emissoras que dois anos antes não teriam equacionado tocar naquilo.
E Cláudio Bessa ficou sabendo. Claro que ficou. É impossível trabalhar no mercado fonográfico de um país e não perceber quando um artista que lhe recusou três vezes começa a dominar as tabelas com o ritmo que chamou de barraco de feira. É o tipo de informação que aparece em todo o lado, nos números, nas conversas, nos olhares dos outros executivos que sabem que te sabe que errou.
E foi aí que voltou o nome que ficou guardado. Galdino Santos era músico de Campina Grande, na Paraíba. Tinha chegado ao rio alguns anos antes de Gonzaga. Fazia arranjos para gravadoras. Tinha uma posição pequena, mas estabelecida no mercado. Tinha talento real. Mas quando Gonzaga começou a aparecer com o baião, Galdino viu uma coisa que o aterrorizou.
Um concorrente que era maior do que qualquer concorrente que te ganha com mais trabalho. O tipo que só se ganha se ele não chegar onde precisa de chegar. Se alguém fechar a porta antes. Então Galdino não abriu porta no próprio nome, foi trabalhar para as fechaduras das portas de Gonzaga.
Conhecia Cláudio Bessa de serviços prestados. E entre a segunda visita de Gonzaga e a terceira, foi alimentando be impressões, não acusações. Dúvidas plantadas com cuidado de quem sabe que semente de desconfiança bem colocada não precisa de regra para crescer. que Gonzaga era demasiado teimoso com o arranjo, que o baião tinha um tecto de mercado muito baixo, que quem conhecia o interior nordestino sabia que aquilo era uma moda passageira, verdades parciais misturadas com pequenas mentiras
que chegavam ao ouvido de BA com a autoridade de quem vem do mesmo lugar e supostamente conhece os limites do que vem de lá. Bessa não precisou de esforço para acreditar. Já acreditava antes de Galdino confirmar. O o preconceito não necessita de prova, precisa apenas de alguém que chegue com aparência de autoridade e diga: “Tinhas razão.
” Isso era o que o seu O Toinho sabia. tinha ouvido conversas que não eram para ele, em corredores, onde era invisível, como sempre tinha sido. Tinha visto Galdino Santos aparecer na gravador em dias sem razão aparente. Tinha juntado os pedaços num silêncio de 15 anos que ninguém suspeitava, porque ninguém presta atenção no que o homem que varre o chão está a ouvir.
e não tinha falado porque tinha medo. Não medo abstrato, medo concreto. Galdino tinha contactos que chegavam em lugares que um cearense, sem apelido famoso, não alcançava. No Rio de Janeiro, onde um nordestino pobre dependia de boa vontade para manter o emprego, este tipo de receio não precisava de ameaça dita em voz alta.
Bastava a possibilidade. Depois ficou calado até à semana depois da terceira rejeição. Aqui é onde tudo o que achou que estava a compreender muda completamente. O senhor Toinho foi procurar o Gonzaga num tasco em São Cristóvão, que sabia que Gonzaga frequentava. Foi numa sexta-feira à noite.
Gonzaga estava sozinho numa mesa de canto com um copo de cachaça e a concertina no chão ao lado da cadeira, quieta. O Seu Toinho pediu licença, sentou-se, ficou em silêncio durante um tempo comprido. O rádio atrás do balcão tocava alguma coisa que nenhum dos dois estava a ouvir e depois disse com o sotaque de Iguatu que o rio nunca tinha tirado.
Com Zaga, trabalhei nessa editora há 15 anos. Eu sei o que aconteceu lá dentro. Eu estava do lado de fora da porta. Eu ouvi tudo. Gonzaga levantou os olhos devagar, olhou para o senhor Toinho, esperou. O seu O Toinho contou o que tinha visto e ouvido.
A gargalhada de Bessa, os dois homens nos cantos, a frase do comboio passando de largo. E depois contou a parte que Gonzaga não sabia. Galdino Santos, as conversas no corredor, o veneno das impressões plantadas, a forma como um nordestino tinha usado o que sabia do Nordeste para fechar a porta a outro nordestino.
Gonzaga ouviu tudo sem interromper uma vez. bebeu o copo todo, ficou a olhar paraa mesa de madeira velha do botequim por um tempo que o teu tuinho não soube medir e então disse: “Porque é que o senhor me tá contando isso agora?” O Sr. Toinho respondeu sem hesitar: “Porque eu souarense e porque sei o que custa chegar aqui com o que se carrega e ter de engolir o que engoliu.
Isto não é certo e eu não consigo mais estar calado.” Gonzaga ficou mais um tempo em silêncio, bebeu o fundo do copo, olhou para o rádio e disse: “O Senhor fez-me um enorme favor esta noite, mas não vou fazer nada com ele agora. Não é o momento. Quando for, já sei o que fazer. Os dois ficaram mais um tempo em silêncio.
Depois, o senhor Toinho pagou a cachaça, disse boa noite e foi-se embora. Gonzaga ficou sentado e depois foi para a Lapa. Não foi por acidente, foi deliberadamente com a concertina, porque depois de ouvir o que o senhor Toinho contou, alguma coisa nele percebeu que aquilo precisava de ir para dentro da música antes de se tornar cicatriz fechada.
A raiva, a humilhação, a traição, tudo aquilo precisava de sair por onde saía sempre, que era a concertina. Porque quando a dor fecha sem sair, ela transforma-se em peso. E Gonzaga não podia se dar ao luxo disso. Das 10 da noite às 15 da madrugada, gravou na Lapa. Edmundo vi-las atrás do vidro, sem compreender completamente o que estava a acontecer, mas sabendo que era certo ficar quieto e deixar rolar.
O que saiu naquela noite era diferente de tudo o que Gonzaga tinha gravado antes. Era voz sem armadura, acordeão sem arranjo que mediasse entre o músico e o som. Era tudo direto, exposto, cruémolvida. A fita ficou numa caixa de cartão no fundo de um guarda-roupa. Sobreviveu a mudanças de morada, a um alaramento de 1954, que destruiu metade do que havia no estúdio ao fecho do lugar em 1961 e ficou ali quieta à espera.
Enquanto isso, o Brasil não esperou por ninguém. Em 1949, Gonzaga era um fenómeno. Em 1950, era o rei do baião. Título dado pelo povo, não por editora nenhuma. pelos retirantes que enchiam os concertos, pelas mulheres que pediam as músicas nas rádios, pelos camionistas que cantavam juntos na estrada vazia, pelo Brasil profundo que o rio chamava de interior, mas que era a maioria do país.
Gonzaga não estava só a tocar música, estava dizendo em cada nota de acordeão que o nordestino tinha dignidade, que o sertão não era vergonha, que se podia estar a 2000 km de casa a trabalhar numa obra de São Paulo e ainda assim ser exatamente o que sempre foi. um homem com raiz, com origem, com uma cultura que não necessitava de aprovação de executivo de fato para existir e valer.
Aquele queixo que tremeu no corredor da Atlântica Gravadora transformou-se nos anos seguintes em centenas de concertos onde homens velhos levantavam-se da cadeira com a voz quebrada de emoção, onde mulheres pressionavam a bolsa contra o peito, como se estivessem a segurar alguma coisa que ia escapar.
onde o Brasil, que ninguém tinha encontrado digno de emoldurar, via finalmente o próprio rosto refletido numa música que dizia: “Não tem vergonha nenhuma do que é”. E em 1950, Cláudio Bessa tinha os números que confirmavam tudo que em folha de cálculo, os registos informais de uma reunião interna deste período, notas que um assistente salvou e que décadas depois chegaram às mãos de um investigador que nunca publicou o livro que pretendia escrever. mostram
que Bessa disse, sem cerimónias que a gravadora Atlântica precisava de Gonzaga no catálogo. A questão era como chegar nele. Um dos outros diretores perguntou como abordar um artista que a editora discográfica tinha recusado três vezes. Bessa respondeu com a proposta certa, números corretos.
Qualquer artista compreende este idioma. Era o maior erro de leitura que cometeria na carreira. Porque Bessa ainda via Gonzaga pela mesma lente da sempre, a lente que transforma tudo em transação, em cálculo de custo e benefício, na equação simples de quem precisa de dinheiro e de quem tem dinheiro para oferecer.
Não estava a compreender e nunca tinha entendido que o que estava em causa para Gonzaga não era só dinheiro. Era o que tinha acontecido no corredor do elevador naquele mês de outubro de 1947. Era o queixo a tremer que o seu toinho viu. Era a noite na lapa e o que saiu daquela concertina sozinha às 3 da madrugada.
Era uma conta de um tipo que não se paga com número algum, porque não é este o tipo de moeda que resolve. Em março de 1951, um representante da editora discográfica Atlântica foi ao teatro onde Gonzaga se apresentaria nessa noite. Teatro com todos os bilhetes vendidos, com dias de antecedência. Fila à porta de gente que não tinha entrado e que esperava de qualquer jeito, como quem espera por alguma coisa de bom, simplesmente por estar perto de onde ela está a acontecer.
O representante chamava-se Paulo Macedo, jovem educado, o tipo que a A Atlântica enviava quando necessitava de alguém que soubesse se comportar. Bessa não foi pessoalmente, tinha calculado que chegar ele próprio seria arriscar uma rejeição direta e Paulo Macedo seria mais fácil de desculpar se as coisas não fossem bem. Paulo foi ao camarim antes do concerto.
Gonzaga estava a preparar-se. O chapéu de couro, a roupa que se tinha tornado a sua marca, a concertina do lado como companheiro de estrada. estava de costas quando o Paulo entrou com o recado. Proposta formal, números concretos. O senhor Bessa Gostaria de agendar uma reunião conveniente.
Conzaga não se virou imediatamente, ficou de costas durante uns segundos. Paulo Macedo disse mais tarde, contando esta história a um amigo, que aqueles segundos de costas foram os mais longos que viveu em serviço. Gonzaga se virou-se devagar, olhou para o Paulo Macedo com uma calma que Paulo descreveu como a calma mais desconfortável que tinha encontrado num homem.
Não era frieza, não era raiva, era o tipo de calma que vem depois de tudo que precisava de ser sentido já foi sentido e o que sobrou foi clareza. e disse no sotaque de Exu que o rio nunca tinha tirado. Diga ao seu Dr. Bessa que Luís Gonzaga agradece a consideração e que Luís Gonzaga tem contrato assinado com quem soube ver quando ver era difícil.
Manda lembranças do rei do baião. Paulo Macedo voltou com o recado. Bessa tentou mais uma vez. Enviou uma carta com números maiores, depois enviou outra com um adiantamento generoso pelos padrões do mercado. Gonzaga não respondeu às cartas. Aqui você talvez esteja pensando que a história acaba assim. Gonzaga disse: “Não, o Bessa ficou sem ele.
O rei do baião provou que estava certo, uma história de vitória e de orgulho, mas a história real é maior, e a parte que a faz maior ainda não chegou, porque Gonzaga não ignorou simplesmente as cartas, fez com elas algo que ninguém sabia até o seu Toinho finalmente abrir a boca. 22 anos depois, em 1969, seu Toinho tinha-se reformado.
70 anos, a viver com um sobrinho em São Cristóvão. Galdino Santos tinha desaparecido do mercado musical do rio há anos. O medo que tinha mantido o seu toinho calado durante tanto tempo tinha envelhecido juntamente com ele e virado outra coisa. O peso de guardar uma verdade durante demasiado tempo.
O tipo de peso que cresce com os anos em vez de diminuir. Num sábado de agosto de 1969, num botequim junto à feira de São Cristóvão, o senhor Toinho contou a história pela primeira vez a mais alguém para além de Gonzaga. contou a um homem chamado Fausto Ribeiro, jornalista e investigador musical, que tinha chegado até -lo por uma série de ligações improváveis enquanto tentava escrever sobre as gravadoras do rio nos anos 40 e 50. O Sr.
Toinho contou tudo. Bessa, a sala de Mogno, a riso, os dois homens nos cantos, a frase do comboio. contou Galdino Santos, as conversas no corredor, o veneno plantado, e depois contou a última parte, a parte que Fausto não estava esperando. Depois da noite do botequim, em 1947, Gonzaga tinha enviado uma carta ao seu toinho escrita à mão com a letra de quem aprendeu tarde, mas com cuidado, pesando cada palavra.
O seu O Toinho tinha essa carta. guardou durante mais de 20 anos na mesma caixa de ferro onde guardava os documentos da família. Fausto pediu para ver. O senhor Toinho foi a casa buscar. A carta dizia copiada depois por Fausto com a sua própria mão no caderno de pesquisa. Seu Toinho, o Senhor deu-me esta noite uma coisa que nenhuma editora me deu.
A verdade, guardo-a. O que o Bessa tem é uma sala com mesa, cara ouvidos que não ouvem. O que eu tenho é o sertão todo dentro do peito. Um dia ele vai compreender que foi ele que perdeu. E nesse dia já não vai importar mais, porque o mundo inteiro já saberá o que eu sempre soube. Obrigado, Gonzaga.
Fausto ficou em silêncio depois de copiar. Depois disse ao senhor Toinho que tinha uma outra peça dessa história, algo que tinha descoberto por outro caminho antes de o encontrar e que agora finalmente fazia sentido encaixar. tinha ido falar com Edmundo Vilas, o músico da Lapa, para um artigo sobre os estúdios independentes do Rio.
Edmundo tinha mencionado uma noite de outubro de 1947, em que um acordeonista pernambucano chegou tarde e gravou sozinho até de madrugada. tinha ido buscar a caixa de cartão, tinha posto a fita a tocar. Fausto ouviu-o e ficou parado do princípio ao fim, sem conseguir falar. O que estava nessa fita era Gonzaga em Outubro de 1947.
Voz e acordeão, sem arranjo, sem produção, sem nada entre o músico e o microfone. Era a voz que Gonzaga utilizava quando não tinha público, quando não tinha executivo a julgar. A voz que existia só para ele e para a música e para aquilo que estava a ser colocado para fora, porque não tinha mais onde ficar dentro.
Era mais funda do que tudo que constava nos discos. era exposta de uma forma que os discos não eram. Era a voz de alguém que tinha acabado de ouvir, que devia mudar de profissão, e foi gravar sozinho de madrugada, porque era a única resposta que fazia sentido dar. Fausto disse para o seu tuinho. Gonzaga gravou sozinho nessa noite na lapa.
Depois de falar com o senhor no botiquim. O seu tuinho ficou em silêncio por um tempo longo, olhou para o copo e depois disse uma coisa que Fausto anotou no caderno. Não foi gravar para ninguém ouvir. Ele foi gravar para não esquecer, para ter dentro de uma fita a prova do que aquilo era antes que o mundo o tentasse convencer de que era outra coisa.
Agora está a entender o que foi aquele não. Não foi orgulho de artista famoso que resolve vingar-se de quem o recusou. Não foi um capricho, não foi uma negociação de Casscique à espera de proposta maior. Foi uma decisão tomada numa noite de outubro de 1947 numa mesa de tasco em São Cristóvão, quando um cearense chamado o seu Toinho olhou nos olhos um pernambucano chamado Luís Gonzaga e os dois partilharam uma cachaça e uma verdade que nenhum dos dois tinha poder suficiente no Rio de Janeiro daquele
tempo, para dizerem voz alta a todo o mundo. A decisão foi tomada ali e quando a hora chegou, em 1951, Gonzaga só executou o que estava decidido há 4 anos. Fausto Ribeiro nunca publicou o artigo que planeava. As razões são o tipo de razão que os investigadores têm às vezes e que não precisam de ser explicadas para serem entendidas.
As notas ficaram em caderno, o caderno em caixa, a caixa em família, a fita da lapa no guarda-roupa de Edmundo Vilas. E o nome de Galdino Santos ficou guardado também, sem confronto, sem acusação pública, sem vingança deliberada. Gonzaga nunca usou aquilo que o senhor Toinho contou como arma.
não foi para a imprensa, não chamou ninguém para acertar conta, ficou com aquela informação dentro do peito como quem guarda algo que não precisa de mostrar a saber que tem. Galdino Santos foi perdendo espaço no mercado gradualmente, não por perseguição de Gonzaga, mas pela lógica do talento real, que é implacável com quem tenta enganá-la.
Desapareceu do Rio nos anos 50. Ninguém que pesquise música nordestina deste período encontra rasto dele depois de 1958. Cláudio Bessa saiu da editora Atlântica em 1955. A Atlântica fechou em 1961. Bessa viveu até 1973. Um homem que tinha sobrevivido o suficiente para saber que tinha errado em coisas que importavam, mas que tanto quanto se sabe nunca escreveu nem disse nada sobre o Gonzaga.
Não não há glória em ser a editora que recusou o rei do baião por três vezes e não há redenção para quem não a procurou. Mas há uma última coisa que precisa ser dita. Em 1953, Luís Gonzaga foi a Exu. O seu pai, Januário estava velho, a saúde começava a ceder. Os dois ficaram numa tarde sentados à sombra de uma árvore no quintal, a catinga aberta na frente.
O silêncio do sertão que não é vazio, é cheio de vento, de bicho, de terra. A concertina encostada à parede da casa da Taipa, como terceiro presente que não precisa de falar para fazer parte. Januário perguntou como é que as coisas estavam no rio. Gonzaga ficou a olhar pro horizonte antes de responder.
Aquele horizonte de Exu que tinha aprendido a ver desde que os seus olhos foram grandes suficiente para alcançar. Pai, tem gente que não acreditou. Há gente que fechou porta, que tentou convencer que o que eu fazia não prestava, que devia mudar ou parar. Januário esperou, não apressou, mas a música não precisou deles para existir e o povo não precisou deles para ouvir.
Januário ficou em silêncio. Depois colocou a mão no ombro do filho, a mão velha e calejada de um homem que passou a vida a tirar coisa da terra seca e disse: “É assim que o sertão funciona, o meu filho. A chuva não pede licença para cair.” Gonzaga olhou para o sertão aberto. A catinga nua de Dezembro, antes das primeiras chuvas, cinzento e estranho e bonita, da forma que só é bela para quem foi feito dela.
E não disse mais nada, porque já não havia nada que precisasse de ser dito. O rei do baião tinha nascido naquela terra. Tinha sido rejeitado numa sala de mogno no rio por um homem que não sabia ouvir. Tinha sido traído por alguém que o deveria compreender melhor do que qualquer carioca. Tinha ouvido de um cearense invisível a verdade que mais ninguém teve a coragem de dizer.
Tinha gravado sozinho na madrugada da Lapa a música que não podia ficar presa dentro. tinha esperado os quatro anos necessários com a paciência de quem sabe que a seca não dura, que a chuva regressa, que o tempo é do lado de quem tem raiz. E quando chegou a hora de dizer não, disse: “Sem grito, sem vingança, sem discurso, com a mesma calma de quem sabe que a chuva cai quando há que cair, sem pedir licença para ninguém, sem precisar que ninguém valide que é a hora. Esse é o
Gonzaga que já sabia que existia. O homem de todo o sertão dentro do peito que nenhuma sala de Mogno do Rio de Janeiro conseguiu esvaziar. O que talvez não soubesse era o tamanho do que ele precisou de engolir antes de poder dizer aquele não de cabeça erguida. o dimensão das noites que existiram entre as rejeições e o reconhecimento, o tamanho do silêncio que carregou e da dignidade que não largou nunca, porque no fim foi ele que disse que não.
E esse não valeu mais do que todos os sims que poderia ter recebido. Se chegou até aqui, é porque é do tipo que sabe que as histórias que vale a pena ouvir são as que custam alguma coisa a quem viveu. Inscreva-se se carrega o sertão no peito e nunca esqueceu o que Gonzaga representou.
O que te acabou de ouvir não é o fim desta história, é o início de uma que é ainda mais pesada. Há um momento que poucos conhecem, registado em depoimento de músico que estava em palco ao lado de Gonzaga nessa noite, no auge da fama, no meio de um concerto lotado, Luiz Gonzaga deixou de tocar. Parou tudo, a banda parou.
A plateia ficou em silêncio porque Gonzaga tinha visto entre o público um ancião que cantava juntamente com os olhos fechados, sozinho, com uma entrega que Gonzaga disse nunca ter visto em plateia nenhuma. O que é que ele fez àquele velho? O que aquele velho disse quando compreendeu o que estava a acontecer? E o que ficou de tudo isso? Esta história está no próximo vídeo.
A história completa está neste vídeo aqui. E se já assistiu, há mais histórias como esta à sua espera aqui no canal. M.