Roberto Carlos ZOMBOU de Luiz Gonzaga o chamando de “quadradão” — O que Luiz fez CHOCOU todo o país s

Roberto Carlos ZOMBOU de Luiz Gonzaga o chamando de “quadradão” — O que Luiz fez CHOCOU todo o país s

Roberto Carlos estava a conceder uma entrevista para uma revista de música no Rio de Janeiro em 1967, quando o jornalista perguntou o que achava do baião de Luís Gonzaga e O Roberto respondeu com aquela descontração de quem não está calculando o peso do que vai dizer. Baião é coisa de quadradão.

 A frase saiu publicado na revista, chegou às bancas de todo o Brasil e chegou também aos olhos de Luís Gonzaga, que estava a ler aquela edição, num hotel do Rio de Janeiro. O que fez o Luiz nos meses seguintes entrou para a história não como resposta, mas como obra. Estávamos em 1967. Roberto Carlos tinha 26 anos e estava no pico de uma popularidade que enchia estádios e dominava as tabelas com aquela energia específica de artista jovem que sente o seu próprio poder e que às vezes diz o que não devia porque ninguém à volta tem coragem de pedir

que pense antes. Luiz tinha 54 anos e estava num período difícil da sua carreira. Os anos em que o baião tinha sido empurrado para fora das grandes rádios e das televisões pela bossa nova primeiro e pela Jovem Guarda depois. E havia nesse período uma invisibilidade que doía mais do que qualquer crítica direta, porque a crítica ao menos reconhecia que existias.

Roberto Carlos tinha crescido em Cachoeiro de Itapemiirrim no Espírito Santo e tinha chegado ao Rio de Janeiro, jovem com a guitarra e a voz que o Brasil inteiro ia conhecer. E havia em tudo o que representava naquele momento uma modernidade específica de 1967, que se definia em parte pelo que não era.

 Não era o tradicional, não era o regional, não era o que tinha vindo antes. O programa Jovem Guarda na a televisão era o espaço deste mundo novo, com as suas motos e as suas guitarras e os seus cabelos compridos e as suas calças boca de sino. E havia no sucesso daquele programa uma energia que tinha varrido o baião das grandes cidades, com aquele velocidade das modas que chegam prontas e que não pedem licença para ocupar o espaço que encontram disponível.

 A pergunta do jornalista sobre Luís Gonzaga tinha chegado àquele contexto com aquela leveza de quem está a fazer uma pergunta para ter uma resposta interessante. E o Roberto tinha dado a resposta sem calcular que havia do outro lado da página impressa 54 anos de sertão e de acordeão, que iam ler o que foi dito com toda a clareza de quem aprende desde cedo a ouvir o que não é dito para ele.

 O Luís estava sentado numa cadeira do quarto de hotel com a revista aberta no colo quando a frase chegou aos olhos. e havia no rosto de Luís naquele momento, segundo o músico do conjunto que estava no mesmo quarto e que contou a história anos mais tarde, uma expressão que não era raiva e que não era mágoa e que era algo mais difícil de nomear.

 a expressão de alguém que recebeu uma informação que estava à espera sem saber que estava à espera e que esta informação tinha chegado de uma forma que tornava a resposta inevitável antes de qualquer decisão consciente. Luiz ficou em silêncio durante alguns minutos depois que leu a frase e depois fechou a revista devagar.

 Ficou parado por momentos, olhando para o teto com aquela calma de sempre. E então disse para o músico que estava ao lado com aquela voz tranquila, que não tinha rancor, mas que tinha uma clareza que pesava. “Vou fazer uma música.” O músico perguntou sobre o quê? E o Luiz respondeu com aquele sorriso tranquilo que tinha dentro de si, algo que era ao mesmo tempo ironia e afeto. Sobre cabeludo.

 Luiz saiu do hotel no dia seguinte e foi até ao Crato, no Ceará, onde tinha ouvido falar de um compositor chamado Zé Clementino, que trabalhava nos correios e que compunha músicas com aquela precisão de cronista popular que Luís reconhecia como Rara. Encontrou o Zé Clementino num bar da cidade com aquela naturalidade de quem não necessita de apresentação formal para chegar ao ponto.

 E depois de conversar durante algum tempo, [a música] pediu ao compositor música que falasse da moda dos cabeludos, com aquele humor específico de quem não está a atacar, mas que está a dizer o que pensa, com a clareza suficiente para que todos compreender o que está a ser dito. disse que queria uma letra que descrevesse o cabeludo com cinturinha de pilão, calças justas, saltos altos, medalhão ao pescoço e que contrastasse aquilo com o cabra macho do sertão, que brigou com Lampião e que amançava um burro brabo e que trabalhava sol a sol. Zé

Clementino ouviu tudo com aquela atenção de compositor, que está a receber um pedido e que já está a compor antes que o pedido termine. Zé Clementino apresentou a canção uma semana depois, com aquela velocidade de compositor que encontrou o caminho logo na primeira tentativa.

 E havia no shot dos cabeludos uma letra que fazia exatamente o que O Luís tinha pedido, mas que o fazia com uma qualidade que ia do pedido. Porque havia na construção de Zé Clementino uma precisão cómica e uma afirmação cultural que não era panfleto nem era ataque pessoal. Era a voz do sertão dizendo o que pensava da moda nova com aquele humor de quem não tem inveja do que não quer ser.

 O Luís leu a letra, ficou em silêncio por um momento e depois disse com aquela calma de sempre: “É esta a música foi gravada com aquela eficiência de quem tem uma coisa para fazer e que sabe o que precisa de fazer para que seja feita direito.” E quando saiu do estúdio, havia no shot dos cabeludos algo que Luiz sabia que tinha antes que qualquer rádio tocasse.

 A qualidade de música que chega antes de ser explicada, porque diz algo que as pessoas já estavam a querer ouvir antes de saber que estavam querendo. O shot dos cabeludos foi lançado no [canção] disco Olha eu aqui de novo em 1967, com aquela abertura de acordeão que tinha dentro dela, o humor e a firmeza ao mesmo tempo.

 E as rádios que há anos não tocavam Luiz Gonzaga, com aquela frequência de antes, começaram a receber os primeiros pedidos antes de o mês de lançamento terminasse. Havia na música algo que funcionava em dois níveis ao mesmo tempo. nível de quem ouvia, sem saber o contexto, e que se ria da caricatura do cabeludo com cinturinha de pilão e medalhão ao pescoço, e o nível de quem conhecia o contexto e que entendia que havia naquela letra uma resposta que não necessitava de nome para ser reconhecida por quem necessitava reconhecer. O verso que abria a música

dizia que ali ia o desabafo de um quadradão. E havia nesta escolha de palavra uma elegância específica de quem apanha o insulto que recebeu e o transforma em bandeira. Antes que o insulto tenha tempo de chegar onde queria chegar, Luís tinha chamado a si mesmo de quadradão, antes de qualquer rádio precisasse de explicar porque é que a palavra estava na música.

 E essa inversão chegou a cada ouvinte que conhecia a entrevista, com aquela clareza das respostas que dizem tudo sem precisar de argumento. As As rádios do Nordeste foram as primeiras a abraçar o shot dos cabeludos com aquela velocidade das músicas que chegam a um público que [a música] estava à espera por elas sem saber que estava à espera.

E depois as rádios do Rio e de São Paulo foram seguindo com aquela progressão específica dos sucessos que não necessitam de campanha porque se movem sozinhos. Havia na letra uma precisão de imagem que qualquer brasileiro de qualquer região reconhecia. O cabeludo com salto alto e pulseira a contrastar com o cabra macho que amançava burro bravo e que rezava ao padre Cícero.

 E essa imagem chegava primeiro ao humor antes de chegar em qualquer análise cultural. E o humor abria a porta a tudo o que vinha depois. Os jovens que seguiam a Jovem Guarda, ouviam e riam de si próprios com aquela leveza de quem não se leva tão a grave quanto parece. E os nordestinos que tinham saído do sertão e que viviam nos subúrbios das grandes cidades ouviam e sentiam aquela afirmação de identidade que o baião sempre tinha oferecido, mas que chegava àquela música com uma atualidade que os anos de ostracismo não tinham conseguido apagar. Roberto Carlos

soube da música pelas pessoas em redor, com aquela velocidade que a informação têm nos meios artísticos, onde todo o mundo conhece toda a gente e onde nada que acontece a alguém demora muito tempo para chegar a qualquer outro. Ouviu o shot dos cabeludos com aquela atenção de artista que está a ouvir uma música que tem o seu nome nas entrelinhas, mesmo sem ter o seu nome em lado nenhum.

E havia na descrição do cabeludo com cinturinha de pilão e medalhão no pescoço, uma precisão que chegou em Roberto, com aquela clareza das mensagens que não necessitam de endereço, porque o destinatário reconhece antes de abrir o envelope. Não fez qualquer declaração pública sobre a música, não respondeu, nem confirmou, nem desmentiu nenhuma ligação.

 E havia naquele silêncio a resposta mais inteligente disponível, porque qualquer palavra que dissesse ia amplificar o que já estava sendo amplificado sozinho. Os jornalistas que perguntavam sobre a relação entre a entrevista e a música recebiam de Roberto um sorriso e uma mudança de assunto com aquela habilidade de artista experiente que sabe que há momentos em que não dizer é a única diz que não tem qualquer custo.

A música foi crescendo pelo Brasil com aquela consistência de coisa que não para quando começa. E havia no sucesso do shot dos cabeludos algo que ia para além da polémica que o contexto da entrevista tinha criado, porque a polémica podia explicar a atenção inicial, mas não explicava a permanência.

 E a permanência vinha da música em si, da letra que tinha aquele humor preciso de quem descreve o que vê com exatidão suficiente para que a descrição seja engraçada antes de ser qualquer outra coisa. Luís Gonzaga regressou às rádios das grandes cidades nesse ano de 1967, com aquela naturalidade de quem nunca tinha saído, mas que estava a voltar para o local onde o mercado tinha decidido que não havia espaço.

 E havia nessa volta algo que não era triunfo calculado, mas consequência natural de uma música que tinha chegado à hora certa, com a verdade certa. Os programas de televisão que há anos não convidavam Luiz começaram a ligar com aquela regularidade dos convites que chegam quando o mercado decide que alguém voltou a ser relevante e Luís aceitava os convites com aquela calma de sempre, sem comentar a entrevista, sem referir Roberto Carlos, sem transformar o contexto em espetáculo.

 Numa dessas aparições televisivas, um apresentador perguntou a Luís diretamente se o shot dos cabeludos era uma resposta a alguém específico. E Luiz ficou parado por um momento com aquela expressão tranquila de sempre e depois disse com aquela voz que chegou a cada televisor sintonizado nesse canal: “Shote dos cabeludos é um desabafo de quadradão e quadradão sou eu.

” Havia naquelas palavras uma recusa de nomear que era em si mesma a resposta mais completa que qualquer nome teria sido. Porque ao chamar-se de quadradão, o Luiz estava a dizer que havia recebido o insulto, que tinha ouvido e que a resposta estava na música para quem quisesse ouvir e que, além disso, não havia mais nada a dizer.

 O apresentador ficou parado por um segundo, sem saber como continuar. Então, a plateia aplaudiu com aquele aplauso que não era só para resposta, mas era para tudo que a resposta carregava dentro. E havia naquele aplauso de estúdio de televisão em 1967 algo que dizia que o quadradão tinha chegado de volta.

 Roberto Carlos e Luís Gonzaga nunca discutiram publicamente o episódio da entrevista, nem a ligação com o shot dos cabeludos, e havia nesse silêncio partilhado algo que era mais eloquente do que qualquer declaração teria sido. Porque o silêncio de Roberto dizia que havia compreendido a mensagem e o silêncio de O Luís dizia que a mensagem tinha sido entregue e que não havia mais nada a acrescentar.

 Os dois encontraram-se em eventos do meio musical ao longo dos anos seguintes com aquela cordialidade de artistas que pertencem ao mesmo país, mas a universos diferentes. E havia nestas ocasiões uma qualidade de relação que as pessoas que rodeiam percebiam como algo que tinha história antes de ter presente, a qualidade específica de duas pessoas que tiveram um momento entre si que nenhuma das duas vai referir, mas que nenhuma das duas esqueceu.

 Roberto Carlos disse em entrevistas ao longo da carreira que Luís Gonzaga foi um dos maiores artistas que o Brasil tinha produzido com aquele precisão de elogio que chega depois de um entendimento. E havia nessas declarações uma generosidade que os que conheciam a história da entrevista de 1967 recebiam com mais uma camada de significado do que quem não conhecia.

 O shot dos cabeludos ficou no repertório de Luís Gonzaga por todo o resto da carreira, com aquela permanência das músicas que chegam a um lugar que não envelhece. E havia em cada apresentação em direto uma resposta da audiência, que não era apenas a resposta a uma música, mas a resposta a tudo o que a música representava, a afirmação de que o baião não era coisa de quadradão ou que se era de quadradão.

 Assim, o quadradão era exatamente o que havia de mais necessário naquele momento. Zé Clementino continuou a compor parceria com o Luiz para os anos seguintes e havia entre os dois uma clicidade específica de compositor e intérprete que nasce quando uma música funciona de verdade. A cumidade de quem sabe que encontrou algo junto que nenhum dos dois teria encontrado sozinho.

 O Luís nunca deixou de acreditar Zé Clementino como autor do shot dos cabeludos, com aquele honestidade de sempre, dizendo que havia pedido a música, mas que a música era de Clementino e que havia uma diferença entre ter a ideia e ter o talento para fazer com que a ideia se tornasse o que virou, e que essa diferença tinha nome e o nome era Zé Clementino.

 O que aquela sequência de acontecimentos revelava era algo que a trajetória de Luís Gonzaga inteira confirmava, que a resposta mais poderosa a quem te diminui não é o argumento, nem o confronto, é a obra. Luís não foi à imprensa desmentir Roberto Carlos, nem pediu espaço para se defender.

 Foi ao Crato encontrar um compositor, pediu uma música, gravou, lançou e deixou que o shot dos cabeludos dissesse o que tinha a dizer sem precisar de explicação. Havia nesta sequência uma sabedoria que não dependia de estratégia para funcionar, porque não era estratégia, era a resposta natural de alguém que entende que o único local onde tem autoridade real é [a música] dentro da própria música.

 e que é dentro da própria música que qualquer resposta verdadeira precisa de ser dada. O insulto tinha chegado a uma página de revista e a resposta tinha chegado numa gravação de sanfona. E havia entre os dois suportes uma assimetria que dizia tudo sobre o que dura e o que passa, porque a página de revista de 1967 estava em algum ficheiro empoeirado que já ninguém abria.

 E o shot dos cabeludos estava nas festas juninas de todo o Brasil, décadas depois, sendo cantado por gente que não não sabia nada da entrevista, mas que sabia cada verso da canção de cor. Essa história ensina-nos que quando alguém usa uma palavra para te diminuir, a resposta mais poderosa que pode dar é pegar nessa palavra, colocá-la na própria boca antes que ela chegue onde queria chegar e transformá-la em algo que ninguém esquecerá.

 Luiz Gonzaga não se defendeu de ser chamado de quadradão. Ele próprio abriu a música dizendo que era o desabafo de um quadradão. E nesta inversão simples estava a única resposta que tornava o insulto impossível de continuar a ser insulto. Porque quando você nomeia o que foi dito sobre si com aquela calma de quem não tem medo do que foi dito, a palavra perde o poder que tinha antes de ser dita.

 Há momentos na sua vida em que alguém vai usar uma palavra para te colocar num lugar mais pequeno. E nesses momentos, a história do shot dos cabeludos tem uma instrução direta. Não gaste energia a disputar a palavra. Gaste criando algo com ela, porque o que cria com o que foi dito para te diminuir vai durar muito mais do que quem disse e do que o lugar onde foi dito.

 E o shot dos cabeludos ainda está nas festas juninas do Brasil inteiro para provar que este é verdade. Se esta história o tocou de alguma forma, deixa aqui o teu like por baixo e subscreva o canal para não perder os próximos vídeos. São histórias como esta que a gente faz questão de trazer-lhe com cuidado e respeito por quem viveu cada uma delas.

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