ROMARIO : ROMÁRIO: O MOTIVO NOJENTO PELO QUAL REZOU PRA FILHA NAO NASCER

1002 golos oficiais, bola de ouro da Taça do Mundo, penta campeão com a selecção brasileira. E esse mesmo homem dentro do quarto do hospital, olhando para a própria filha pequena recém-nascida, desejando com todas as forças que aquela criança nunca tivesse chegado ao mundo. O mesmo homem que durante 15 anos negou o filho Rafael, até que um teste de ADN obrigou ele a aceitar.

E o mesmo homem cujo próprio pai, 15 dias antes do Mundial de Mundo, foi raptado por uma quadrilha criminosa do Rio de Janeiro. Hoje você vai-se lá saber porque é que o Romário não queria aceitar o filho Rafael durante 15 anos seguidos. E ainda mais sombrio, porque falou à própria mulher dentro do quarto do hospital que preferia que a pequena Ave nunca tivesse nascido.

E o mais nojento de tudo, irmão, quem exatamente raptou o próprio pai do Romário em Maio de 1994. E pior ainda, em troca exatamente do que os criminosos libertaram-no seis dias depois. Mas antes, tem de conhecer o miúdo do jacarezinho antes da fama. Mas antes de chegar àquele quarto de hospital onde o baixinho olhou para a filha pequena desejando que nunca tivesse nascido, há uma coisa que tem que entender.

Porque o que se passou dentro desse quarto no ano de 2004 não começou ali, não. Começou há quase 40 anos antes, numa travessa de terra batida de uma favela da zona norte do Rio de Janeiro. Numa casa de tijolo sem reboco, sem água quente, sem telefone, numa casa onde vivia um homem que seria, para o miúdo Romário, o único homem que verdadeiramente o amou a vida inteira.

O Jacarezinho fica do lado do estádio de São Januário, na zona norte do rio. 100.000 pessoas amontoadas numa colina de ruelas estreitas, casas coladas, miúdo a jogar bola de pano no meio dos tiroteios do fim de semana. Nos anos 70, quando o pequeno Romário dava os primeiros passos, o jacarezinho era uma das favelas mais violentas da cidade.

Três mortos por semana, em média, o comando vermelho controlando cada esquina e dentro daquela favela uma casa de dois quartos onde vivia a família Sousa Faria. Mas havia uma coisa mais importante a rolar dentro daquela casa, viu? Uma coisa que durante 40 anos ninguém do jornalismo desportivo brasileiro teve a coragem de mostrar na ecrã, porque a figura do pai do Romário, o humilde Edevair de Souza Faria, ligaria diretamente com tudo o que aconteceria mais tarde, com os seis filhos, com as quatro mulheres, com o quarto do

hospital e com a morte solitária de um homem em Maio de 2008. Mas esta parte vem depois. Edevi de Souza Faria nasceu em 1931 numa fazenda de café do interior do estado do Rio. Aos 14 anos mudou-se para a capital atrás de trampo. Trabalhou de pedreiro, de carregador de mercado, de cobrador de autocarros.

Até que aos 28 anos finalmente arranjou o emprego fixo de vigia nocturno numa fábrica do bairro de bom sucesso. 12 horas de turno, das 7 da noite às 7 da manhã, se dias por semana, por dois salários mínimos no mês. Evi casou com Alita Faria, uma costureira do Maranhão, em 1960. Tiveram uma filha mais velha, depois tiveram uma segunda filha.

E às 9:14 da noite do dia 29 de janeiro de 1966, numa sala alugada do Hospital do Funcionário Público do Rio de Janeiro, nasceu o terceiro filho do casal, o único homem. Romário de Souza Faria, só 2,900 g, cabelo preto, olhos abertos, choro forte e nos braços do pai Edevar, que nessa mesma noite tinha pedido autorização na fábrica de bom sucesso para acompanhar o parto da mulher.

Edevair olhou para o filho pequeno durante 22 minutos, certinho, sem parar, pelo que a própria mãe Lita concedeu ao jornal O Globo, 32 anos depois. E aí o pai tomou uma decisão que ia mudar toda a a história do futebol mundial. Aquele miúdo ia ser jogador profissional. O que custasse, o preço que tivesse, a renúncia que fosse precisa, o Edevair, irmão, decidiu nessa mesma noite do 29 de de janeiro de 1966.

E nunca durante os 42 anos seguintes da vida do pai desviou-se um dia daquela promessa. E aqui começa uma parte da história, que durante toda a carreira do Romário, nenhum jornalista brasileiro teve a coragem de investigar a fundo. Porque o que o pai Edev, não é, ensinou ao pequeno baixinho entre os 4 e os 12 anos dentro daquela casa do jacarezinho, ligou directamente com tudo o que o miúdo ia fazer 30 anos depois, com os próprios seis filhos. O Edever tinha sete regras.

Sete regras que tinha aprendido com o próprio pai na fazenda de café do interior do Rio de Janeiro. Sete regras que recitava ao pequeno Romário todas as as manhãs, 8 horas, uma hora depois de chegar do turno da noite da fábrica, enquanto servia ao filho o café com leite e o pão com manteiga. As sete regras eram exatamente estas: primeira não vai roubar.

A segunda tem carácter, a terceira nunca vai fumar. A quarta nunca vai cheirar cocaína. A quinta, nunca vai beber demais. A sexta, nunca vai meter-se com drogas. A sétima, jamais se esquecerá de onde se veio. As sete regras do pai Edev. O miúdo Romário ouviu-as durante 12 anos seguidos, durante milhares de manhãs, recitadas com as mesmas palavras, com a mesma ordem, com o mesmo tom.

Algumas durante a sua carreira profissional ia cumprir, outras ia quebrar de jeito escandaloso, mas as sete regras ficaram gravadas na cabeça do baixinho até ao último dia, não é, da vida do pai. E tem uma das sete regras que o próprio Romário ia recitar em voz baixa no funeral do Edevi em 2008, mas esta parte vem depois.

Aos 6 anos, o pai Edevire levou o pequeno Romário para o pátio de terra do Olaria Atlético Clube, um clube amador do bairro do Meer, na zona norte. O pai carregava o miúdo aos ombros, 5 km do Jacarezinho até ao campo da Olaria, três vezes por semana, sem um dia de descanso. E naquele pátio de terra, o pequeno Romário descobriu que tinha um talento natural, já viu? que assustava o próprio pai, driblava os miúdos mais grandes, tocava na bola com o pé esquerdo e com o pé direito com a mesma facilidade e marcava golo de qualquer ângulo. E aqui aparece um objeto que

qualquer pessoa do Rio dos anos 70 recordaria com dor, viu? Um caderno de papel quadriculado cor amarelo que um amigo da fábrica de bom sucesso tinha dado pro Edevire em 1972. Aquele caderno tornou-se durante os 36 anos seguintes, o processo pessoal do pai Edevi sobre a carreira do filho. Sem saber ler nem escrever para além do nome, o Edevire marcava cada golo do miúdo Romário com uma riscadinha vertical numa página específica.

Uma riscadinha por cada golo, sem nomes de equipas, sem datas, só riscadinhas. E do lado de cada riscadinha, um X se fosse golo de cabeça, um X se fosse golo de penálti, duas riscadinhas paralelas se fosse golo de livre. Aquele caderno amarelo está guardado até hoje, em junho de 2026, em casa da mãe Lita Faria, no bairro do Meyer, no Rio de Janeiro.

100 riscadinhas anotadas à mão pelo pai Edvi durante 36 anos seguidos. 1002 golos, certo? Toda a obra da vida do pai Edevi e vais voltar nesse caderno amarelo mais paraa frente nesta história, porque ele ia reaparecer em circunstâncias arrasadoras em Maio de 2008. Aos 12 anos, o miúdo Romário entrou oficialmente nas camadas jovens do Olaria.

Aos 14 estreou-se na categoria sub-17. Aos 16 jogava na equipa profissional. E aos 17 anos, em março de 1983, marcou dois golos contra o Bangu no estádio do Maracanã, no primeiro jogo oficial pelo Olaria no Campeonato Carioca. Mas antes de saber como o miúdo do Jacarezinho ia chegar a marcar 1002 golos oficiais na carreira, tem que perceber mais uma coisa sobre o pai Evair, uma coisa que o O próprio Romário ia confessar em voz baixa: 15 dias antes do nascimento da filha pequena em 2004, aos 18 anos, em Janeiro de 1985, o Vasco da Gama comprou o passe do

Romário por 28 milhões de cruzeiros. Era o equivalente nessa altura a 550.000. A primeira grande grana da vida do miúdo, né? E a primeira decisão que o Romário tomou ao receber o primeiro salário do Vasco foi comprar para o pai Edeva um relógio de pulso Casio prateado, o primeiro relógio da vida do pai.

O Edeva usou-o sem tirar nem para dormir durante os 23 anos seguintes da vida. No Vasco, entre 1985 e 1988, o Romário marcou 73 golos oficiais em 128 jogos. conquistou o campeonato carioca de 1987 e em agosto de 1988 o PSV Aoven da Holanda pagou 2 milhões e meio de dólares pelo passe do miúdo. Era a maior venda da história do Vasco até essa data, pá.

O Romário viajou sozinho paraa Holanda, sem o pai Edever, sem a mãe Lita, nem as irmãs, sozinho aos 22 anos numa cidade gelada do norte da Europa, apenas com uma mala de roupa, a sete regras gravadas na cabeça e o sonho do pai de o ver um dia com a camisola da seleção brasileira num Campeonato do Mundo. No PSV, entre 1988 e 1993, o Romário marcou 165 golos oficiais em 167 jogos.

conquistou três campeonatos holandeses, duas taças da Holanda, uma chuteira de ouro europeia e sobretudo em Novembro de 1991 conheceu uma modelo holandesa de 21 anos, filha de pai brasileiro e mãe holandesa chamada Mónica Santoro. casaram em março de 1992 numa cerimónia íntima em Einoven e tiveram em Setembro de 1993, exatamente na cidade de Barcelona, ​​o primeiro filho varão do Romário, Romário de Souza faria um filho, o próprio Romarinho, mas havia uma coisa mais importante que aconteceu antes do nascimento do Romarinho. Em maio de 1993,

o FC Barcelona pagou 4.200.000 000 pelo passe do Romário. E em julho de 1994, o miúdo do Jacarezinho foi convocado pelo técnico Carlos Alberto Parreira para disputar o Campeonato do Mundo dos Estados Unidos. A primeira Copa do Mundo da carreira, o sonho do pai Edevire, que durante 28 anos tinha recitado as sete regras todas as manhãs, estava a ponto de se tornar realidade.

Nos Estados Unidos, durante Junho e Julho de 1994, o Romário fez o que nenhum outro jogador brasileiro tinha feito em 24 anos. marcou cinco golos em sete jogos, levou a dupla letal com o Bebeto, conquistou o quarto título mundial do Brasil e conquistou no último dia da Taça o prémio individual mais importante, a bola de ouro da Taça do Mundo.

O pai Edevire, vendo o jogo final numa sala alugada de um bar de bom sucesso, chorou durante 21 minutos inteiros sem parar. 21 minutos sem se mover da cadeira. Enquanto a mãe A Lita serviu uma cerveja ao marido e os amigos do bar abraçavam o pai do novo campeão do mundo. Mas aqui, exatamente aqui, começa a parte da história que durante 30 anos o Romário ia tentar esconder da imprensa brasileira.

Porque depois da conquista do Mundial, em Agosto de 1994, a vida pessoal do baixinho entrou numa espiral descendente que ninguém do jornalismo desportivo internacional antecipou. A fama mundial, o dinheiro do Barcelona, ​​irmão, as mulheres em cada noite, as baladas das ramblas e sobretudo a sensação de que o miúdo do jacarezinho tinha superado definitivamente as sete regras do pai Edevair, não é? Em outubro de 1995, 6 meses após o nascimento do próprio Romarinho, o Romário foi fotografado pelo jornal sensacionalista catalão El

Caso, saindo de um hotel do bairro de Santo António de Barcelona, ​​às 5 da manhã, com uma modelo espanhola de 22 anos chamada Cristina Marim. A modelo Mónica Santoro, que naquele momento ali estava no apartamento da família em Pedralbes, a amamentar o Romarinho de 6 meses, viu, recebeu a foto do próprio assessor de imprensa do Barcelona que mesma manhã.

E nessa mesma noite, a A Mónica pediu o divórcio ao Romário oficialmente. O divórcio foi fechado em Março de 1996. A Mónica Santoro voltou paraa Holanda com a filha Moniquinha de 3 anos e o bebé Romarinho de 1 ano. O Romário ficou em Barcelona sozinho e começou a partir do divórcio a frequentar as baladas mais caras de Barcelona, ​​de Paris, de Milão e de Las Vegas.

A fama de Mulherengo do Baixinho já não era apenas um boato de balneário, não, estás a ver? Era oficial, era pública, era do dia-a-dia. Em janeiro de 1997, numa festa privada do próprio Romário, numa casa de campo do bairro de SES, conheceu uma segunda modelo, uma modelo espanhola de nome Daniele Favato, 20 anos.

Filha de um médico catalão e de uma bailarina italiana. Romário e Daniele iniciaram um namoro público e em Outubro de 1999, após 2 anos e 9 meses de namoro, casaram numa cerimónia secreta numa fazenda de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. E aqui, no casamento com a Daniele Favato, iniciou-se a parte mais repugnante da vida do Romário.

A parte que o pai Edevi vendo tudo de uma distância silenciosa, tentou travar várias vezes sem o conseguir, a parte que ia terminar exatamente dentro de um quarto do hospital em 2004, com o baixinho, olhando para uma filha recém-nascida e desejando com todas as forças que aquela criança nunca tivesse chegado ao mundo.

Em Setembro de 2003, o casamento entre Romário e Daniele Favato já estava partido por dentro. A Daniele tinha descoberto, por uma ligação anónima de uma conhecida do baixinho, que o marido tinha uma amante há 4 meses. Uma ex-modelo de passerelle de nome Edna Velho, de 31 anos, vinda de Brasília. E a Daniele Favato, grávida de três meses da filha Daniele do casal, chorou durante três dias seguidos antes de decidir manter o casamento para o bem do bebé que vinha.

Mas tinha uma coisa mais sombria que a Daniele Favato estava ao ponto de descobrir. Uma coisa que dois anos depois ia partir definitivamente à família. E essa parte vem depois. Em Março de 2004, o baixinho conheceu numa farmácia do bairro de Panema, no Rio de Janeiro, uma farmacêutica de 25 anos, chamada Isabela Bitencur, uma mulher educada de família classe média de Niterói, licenciada em farmacologia pela UF, que nunca tinha tido um relacionamento com jogador famoso.

Isabela e Romário iniciaram um caso discreto e em agosto de 2004, 5 meses depois da primeira vez que se viram, a Isabela confirmou pro baixinho que estava grávida de uma menina. O Romário, naquele momento ali, tinha 38 anos, era penta campeão do mundo, tinha 1187 golos oficiais acumulados, tinha um património pessoal estimado em 32 milhões de dólares, tinha dois casamentos anteriores, três filhos já nascidos e estava naquele momento de Agosto de 2004 casou oficialmente com a Daniele Favato e oficialmente à espera a filha pequena com a farmacêutica

Isabela Bitencur. O Romário pediu para Isabela dentro de um quarto do Copacabana Palace Hotel uma única coisa, que a gravidez ficasse em segredo, pelo menos até ele conseguir arranjar a separação oficial com a Daniele Favato. A Isabela aceitou, certo? E 9 meses depois, no dia 12 de Maio de 2005, a Isabela Bitencur entrou em trabalho de parto no Hospital Perinatal das Laranjeiras, na zona sul do Rio de Janeiro.

O Romário chegou ao hospital às 4:14 da madrugada do dia 13 de maio. 22 minutos depois da chamada da própria Isabela, subiu ao quarto 312, viu a Isabela na cama, suando, chorando, segurando a mão do médico obstetra. E às 5:07 da manhã da manhã, o médico saiu do quarto com o pequena nos braços e disse ao Romário uma frase que o baixinho durante os 14 anos seguintes ia tentar esquecer.

A frase exata do médico obstetra do Hospital Perinatal das Laranjeiras, pelo próprio relato que o Romário faria numa entrevista ao programa Desporto Espetacular da Rede Globo, no ano de 2018, foi a seguinte: “Senhor Faria, o seu filha nasceu com vida, mas a sua filha tem síndrome de Down. Esta foi a frase exata.

O médico entregou ao baixinho, nos braços do próprio pai, a pequena recém-nascida embrulhada numa manta branca do hospital. E o Romário ficou parado no meio do corredor do hospital perinatal das Laranjeiras durante 10 minutos inteiros sem se mexer. 10 minutos em silêncio absoluto, com a criança nos braços e com a cabeça completamente vazia.

O que aconteceu dentro da cabeça do Romário durante aqueles 10 minutos o próprio baixinho confessaria 14 anos depois. numa entrevista pública ao programa Desporto Espetacular, conduzido pelo jornalista Mário Sérgio. A confissão textual do Romário, palavra por palavra, foi exatamente essa. Os primeiros 10 minutos foram duros, complicado.

Eu, precisamente eu, porquê? Tive cinco filhos antes porque esta veio especial. Essa foi a confissão exata do miúdo do jacarezinho. Eu, justamente eu. Por quê? cinco filhos antes, porque esta veio especial. Durante aqueles 10 minutos do corredor do Hospital Perinatal, o Romário pensou em coisas que jamais repetiria à imprensa brasileira.

Mas a mãe Lita Faria, a mãe do próprio baixinho, que estava à espera na sala de visitas do segundo andar do hospital, ia falar 6 anos depois para o jornal Extra uma frase que liga directamente com aqueles 10 minutos. A frase da mãe Lita foi esta: “O meu filho entrou no quarto da Isabela a chorar que nem miúdo e disse à Isabela uma frase: “Esta criança não devia ter nascido. Eu não mereço isto.

É um castigo de Deus. É um castigo de Deus”. Estas foram as palavras exatas que o miúdo do jacarezinho, o penta campeão mundial, o melhor goleador do futebol mundial dos anos 90, falou para a própria mulher dentro do quarto do Hospital Perinatal das Laranjeiras na manhã do dia 13 de Maio de 2005, só 17 minutos depois do nascimento da filha pequena, uma filha que ia ter síndrome de Down e a quem o Romário ia acabar por lhe chamar Aive.

Mas aquela manhã do 13 de Maio, dentro do quarto 312 do Hospital Perinatal, o baixinho preferia que a própria pequena Aive nunca tivesse chegado ao mundo, viu? A Isabela Bitencur escutou a frase do castigo de Deus em silêncio. Não respondeu, não chorou, ficou a olhar para o teto do quarto durante 4 minutos.

Depois pediu ao baixinho uma única coisa, que saísse do quarto e que nunca repetisse em frente da pequena Ive uma única palavra daquela frase: “O Romário obedeceu, saiu do quarto e ficou no corredor do terceiro piso do hospital perinatal durante as 5 horas seguintes, sem entrar de novo para ver a própria filha recém-nascida.

5 horas, sem voltar a pegá-la nos braços, sem voltar a olhar para a cara dela, evitando até falar uma palavra paraa pequena que tinha acabado de nascer. Mas há uma coisa ainda mais perturbadora que se passou aquela mesma manhã do dia 13 de Maio de 2005. Uma coisa que a imprensa brasileira nunca ligou com o nascimento da IVE.

Porque 11 anos antes daquela manhã do Hospital Perinatal, no dia 2 de Maio de 1994, tinha rolado na vida do próprio Romário uma coisa que mudou definitivamente a relação do miúdo com a própria ideia de paternidade. Uma coisa que ocorreu às 11 em ponto de uma segunda-feira de maio num pequeno bar do bairro de Vila da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, um bar chamado Garota do Quitungo.

E o que decorreu aquela noite do Bar Garota do Quitungo ia terminar seis dias depois numa casa de tijolo da Baixada Fluminense, com um homem de 62 anos amarrado numa cadeira com os pulsos sangrando. E vai saber durante os próximos 15 minutos exatamente quem raptou o próprio pai do baixinho. E pior ainda, em troca exatamente do que os criminosos libertaram-no seis dias depois.

O barota do Quitungo ficava numa esquina da Avenida Brasil com a rua Cardoso de Morais, no bairro de Vila da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Um bar de bairro irmão, três mesas na calçada, 12 mesas no interior, cerveja antárctica e scol em cerveja de pressão, caipirinha de limão a R$ 1,50 o copo. O pai Edevair era cliente da Garota do Quitungo desde 1979, viu? Passava duas vezes por semana, segundas e quintas-feiras, depois do turno noturno da fábrica de bom sucesso.

Tomava três cervejas, conversava com os amigos, regressava a casa do Jacarezinho às 11 da noite. Naquela segunda-feira do no dia 2 de maio de 1994, o Edevir Faria entrou no barota do Quitungo às 20h40 da noite. Tinha 62 anos naquele momento ali. Pediu a primeira cerveja Scol. Pediu a segunda meia hora depois.

A terceira às 10:22 certinhas da noite, conversou com dois amigos da fábrica sobre a convocação do filho Romário para o Mundial dos Estados Unidos. Rio! Brindou e saiu do barota do Quitungo às 11 em ponto da noite do dia 2 de maio de 1994. Mas entre a saída do bar e a casa do jacarezinho tinha 11 quarteirões de distância.

A 11 quarteirões que o Edevi conhecia de cor, 11 quadras que nunca tinha caminhado para além da nona. Porque aquela noite do 2 de Maio, precisamente entre a déma e a 11ª quadra, aguardavam o pai do baixinho quatro pessoas que iam mudar para sempre a vida do miúdo do jacarezinho. O Edevire, irmão, caminhou as primeiras três quadras tranquilo.

A rua estava semivazia, um cão de rua, duas motos a passar. E às 11:14 da noite, uma carrinha Ford Belina cor azul aproximou-se do Evaer por trás. A carrinha parou do lado da calçada. Dois homens saíram do veículo. Um deles, um rapaz moreno com cerca de 25 anos, agarrou o Edevire pelas costas e tapou a boca dele com a mão direita.

O outro, um homem mais alto, apontou para a cabeça dele com um revólver calibre 38. O Edever foi empurrado dentro da carrinha em 9 segundos. A porta da Belina fechou-se. A carrinha acelerou pela Avenida Brasil, rumo ao Norte. E dentro do veículo, uma voz rouca falou para o Edevar de Sousa Faria uma frase.

A frase exata pelo relato que o próprio pai concedeu pra Folha de São Paulo seis meses depois, foi esta: “Se o teu filho paga o que vamos pedir, sai vivo. Se não paga, enterro-te eu mesmo na baixada”. 3 horas depois, por volta das 2:17 da madrugada do no dia 3 de maio de 1994, a carrinha Ford Belina parou na frente de uma casa de tijolo sem reboco no bairro do Eldorado, concelho de Queimados, Baixada Fluminense, a 32 km do centro do Rio de Janeiro.

Os quatro homens desceram o edvair da carrinha, colocaram algemas metálicas nos pulsos dele, amarraram-lhe os tornozelos com corda de nylon. e meteram-no num quarto sem janela de 3 m por2, com um colchão velho no chão e um foco amarelo pendurado no teto. O Edevar ficou sozinho naquele quarto.

As algemas apertavam os pulsos, a corda queimava os tornozelos. Em 1900 km a norte, num quarto do hotel A princesa Sofia de Barcelona, ​​o filho dele, Romário, ainda não sabia de nada do que estava a rolar. A mãe Lita Faria descobriu o rapto às 5:30 da manhã do dia 3 de maio. O Edevi não tinha virado para casa. Era uma coisa inédita em 22 anos de casamento.

A Alita ligou pro barota do Quitungo, ligou aos amigos da fábrica, ligou para a esquadra do bairro, ligou para as irmãs do Edevaer. Ninguém sabia. Às 11h14 da manhã, Alita registou oficialmente o desaparecimento do Edevar na esquadra de Vila da Penha. E 37 minutos depois, a própria divisão anti-sequestros da Polícia Militar do Rio de Janeiro, conhecida nessa época como DAS, comandada pelo comissário Hélio Vío, assumiu o caso.

Era uma decisão fora do normal, estás a ver? Aá só entrava em casos com confirmação oficial de rapto, mas o pai do baixinho, que faltavam 15 dias paraa Copa do Mundo, era um caso especial. A primeira ligação dos sequestradores entrou às 17:10 do dia 3 de maio. Uma voz rouca, tomea frase exata registada pela própria das foi a seguinte: “O seu marido está com a gente, está vivo por enquanto.

Se vocês querem vê-lo vivo outra vez, vão ter que pagar-nos 7 milhões de dólares. A gente liga de volta amanhã com as instruções. 14 segundos foi o que durou a ligação e 7 milhões de dólares era o valor. 7 milhões de dólares em 1994 era uma quantia absurda, pá. Ridícula, impossível de pagar. A família Faria naquele momento ali tinha guardado somando o do Edvi da Lita, o das irmãs e o do próprio Romário em contas brasileiras. 348.

000, 48 vezes menos do que foi pedido. A, ao escutar a gravação daquela primeira ligação, tirou uma conclusão imediata. Os sequestradores eram amadores. Nenhuma gangue profissional ia pedir 7 milhões pelo pai de um jogador de futebol. A conta não fechava, irmão. E os amadores são os criminosos mais perigosos, irmão.

Por nervo, por medo, por desajeito. Os amadores são os que matam os reféns. A notícia do rapto rebentou na imprensa brasileira no dia 4 de maio, às 10 horas da manhã. Um jornalista do jornal O Globo recebeu o tom de um polícia militar amigo. 20 minutos depois, a notícia foi capa do portal do jornal. O Brasil inteiro ficou sabendo ao mesmo tempo.

E ao mesmo tempo o próprio Romário no centro de O treino do Barcelona recebeu a chamada da mãe Lita por telefone. A voz da mãe tremia do outro lado. A frase exata que a Lita falou ao filho pelo relato do próprio Romário no documentário Romário, o gajo da IT Biomax, foi esta: “Filho, raptaram teu pai, a polícia está atrás.

Os criminosos pediram 7 milhões de dólares. Não temos essa grana”. O Romário ficou mudo do lado do telefone durante 23 segundos. Depois desligou, caminhou até ao balneário do Barcelona, ​​sentou-se no banco de madeira, olhou fixo para o chão durante 40 minutos sem parar. E aí fez uma coisa que nenhum jogador profissional do mundo fez nunca.

Há 15 dias de um Mundial, viu? Saiu do centro de treinos do Barcelona sem avisar ninguém. foi para o aeroporto de Elprat, comprou um bilhete da Ibéria, classe executiva, pro primeiro voo disponível para o Rio de Janeiro e embarcou nessa mesma noite do dia 4 de maio, sem avisar o técnico de CF, sem avisar o presidente do clube, ignorando até a Confederação Brasileira de Futebol e a própria seleção brasileira.

Pousou no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, às 4:17 da madrugada do dia 5 de maio de 1994. A mãe Lita esperava-o a chorar na área de bagagens. O miúdo do Jacarezinho, nesse momento o melhor goleador do futebol mundial, abraçou a mãe durante 11 minutos sem a largar. E depois, dentro do aeroporto do Galeão, em frente ao três repórteres do jornal Jornal do Brasil, que tinham recebido o tom da chegada do baixinho, o Romário falou para frase que durante os três dias seguintes ia correr o planeta inteiro.

A frase exata, palavra por palavra, foi a seguinte: “Ou o meu pai aparece ou eu não vou ao Mundial.” “Ou o meu pai aparece ou não vou ao Mundial do Mundo.” Aquela declaração do baixinho repetida na manhã do dia 6 de maio pro jornal Desporto de Barcelona, ​​numa entrevista exclusiva por telefone, paralisou todo o Brasil.

A Confederação Brasileira de Futebol entrou em pânico. O presidente Tamar Franco enviou uma nota oficial de solidariedade para a família. O governador do estado do Rio, Nilo Batista, ligou pessoalmente ao chefe da Polícia Militar para pressionar a investigação. As cadeias de televisão interromperam a programação normal e na noite do dia 6 de maio aconteceu uma coisa dentro da favela do Jacarezinho que a imprensa internacional nunca ia conseguir explicar.

Porque a noite do dia 6 de Maio de 1994, enquanto a Polícia Militar ainda não tinha uma única pista do paradeiro do Edevi quatro chefes do Comando Vermelho, não é, da própria favela do Jacarezinho, se reuniram numa casa de três andares do morro de São Carlos, quatro homens, quatro dos criminosos mais perigosos do Rio de Janeiro daquela época.

E a reunião tinha um único ponto, o pai do baixinho, o pai do miúdo que tinha saído do jacarezinho, o pai do único brasileiro da favela que tinha chegado no Barcelona, ​​na seleção, na Taça do Mundo. E a decisão daqueles quatro homens foi imediata. Aquele pai tinha que aparecer vivo, já viu? Aquele pai tinha que voltar para casa da Lita.

Aquele pai era simbolicamente o pai de toda a favela do Jacarezinho. Os quatro chefes do Comando Vermelho movimentaram durante as 36 horas seguintes contactos em cada favela do Rio de Janeiro, em cada bar do Rio, em cada cadeia do Rio, em cada esquina controlada pelo tráfico. E às 23h32 da noite de domingo, dia 7 de maio, os criminosos do Comando Vermelho descobriram a localização do cativeiro do pai do baixinho, uma casa de tijolo sem reboco no bairro do Eldorado, no concelho de Queimados, a 30 km do centro do rio. O comissário Hélio Vígio recebeu a

informação à meia-noite do próprio domingo, dia 7 de maio. mobilizou 36 polícias militares e exatamente às 5:14 da madrugada do dia 8 de Maio de 1994, a invadiu a casa de queimados. Dentro encontraram o pai Edevair vivo, mas com os pulsos cortados pelas algemas metálicas, com os tornozelos a sangrar pela corda de nylon, com seis dias sem banho, sem duche, sem sol, com a barba crescida, com a roupa rasgada e, do lado do colchão do chão encontraram um prato de bife com batatas fritas e uma garrafa de cerveja antárctica meio cheia.

Os criminosos, durante os seis dias, tinham alimentado o pai do baixinho com a comida preferida do próprio Evar. Uma crueldade de quadrilha amadora, pá. E naquele quarto de 3 m por2, encontraram também as três pessoas que estavam vigiando o refém. Uma mulher jovem de 24 anos chamada Lina Célia de Oliveira, outra mulher de 35 anos chamada Marlúcia Gomes e um menor de 17 anos, cujo nome a justiça juvenil manteve em segredo.

As três pessoas detidas na Casa de Queimados aquela madrugada do dia 8 de maio eram apenas os vigilantes do refém, viu? Os criminosos de baixo escalão. As verdadeiras mentes por detrás do rapto do pai do baixinho, continuavam livres. E durante os 9 anos seguintes, a DAS ia demorar 9 anos a identificar e prender os dois verdadeiros chefes daquela operação.

Mas a justiça brasileira, no processo oficial número 12.417 do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, já tinha os nomes exatos dos responsáveis. E vai saber exatamente quem raptou o pai do Romário naquela noite do Maio de 1994. E pior ainda, em troca do que, os criminosos libertaram o Edevair seis dias depois.

O primeiro responsável identificado pela DAS foi detido no dia 11 de maio de 1994, só três dias depois da libertação do Evaer. O seu nome era Marco Aurélio Pereira, de 28 anos, conhecido no submundo do Rio de Janeiro pelo apelido de Marquinho da muleta, porque caminhava com uma muleta de metal depois de um tiroteio com a polícia em 1992, que tinha destruído a perna esquerda dele.

O Marquinho da muleta era extraficante do Comando Vermelho, mas tinha sido expulso da facção dois anos antes do sequestro por desobedecer às ordens dos chefes e tinha montado em 1993 uma quadrilha independente especializada em raptos relâmpago de comerciantes do rio. O rapto do pai do baixinho foi o primeiro grande rapto da quadrilha do Marquinho da muleta e também o último, porque depois do operativo da Da em Queimados, a quadrilha inteira foi desbaratada em menos de um mês, não é? Mas o marquinho da muleta não era a mente principal do

sequestro, era só o operador, só o executor. O verdadeiro responsável, o cérebro estratégico de toda a operação, foi identificado pela DAS 3 anos depois, em novembro de 1997. E chamava-se José da Silva Pereira, 41 anos à data do sequestro. Conhecido no submundo do Rio pelo alcunha de Doda.

Doda era um ex-polícia militar expulso da corporação em 1988 por desviar dinheiro de operacionais. tinha trabalhado depois da expulsão como matador profissional para empresários do Rio e tinha planeado durante os se meses anteriores ao sequestro de maio de 1994, toda a operação contra o pai do baixinho.

Doda era quem tinha escolhido o Bargarota do Quitungo como ponto de captura. Doda era quem tinha alugado o casa de queimados como cativeiro e Doda era quem tinha definido o valor do resgate. 7 milhões de dólares. Uma quantia absurda, pá. Uma quantia impossível. Uma quantia que tinha um motivo específico que durante 9 anos ninguém conseguiu compreender.

Porque 7 milhões de dólares em 1994 não era só uma quantia ridícula, era uma quantia simbólica, estás a ver? Doda tinha definido aquele valor exato por uma razão muito concreta. 7 milhões de dólares era precisamente o valor do contrato do próprio Romário com o FC Barcelona para a temporada 9495. Um dado que só três pessoas do futebol mundial sabiam: o presidente do Barcelona, ​​José Luiz Nunes, o agente do Romário, Walter Casagrande e o próprio Romário.

E pelo processo judicial número 12.417 417 do Tribunal do Rio de Janeiro, Doda tinha recebido aquele dado de uma quarta pessoa, uma pessoa do O próprio círculo familiar do baixinho, uma pessoa que tinha acesso direto aos contratos do miúdo do Jacarezinho, uma pessoa que nunca foi oficialmente acusada pela justiça brasileira, mas cujo nome aparece até hoje na página 217 do processo oficial guardado no Arquivo do Tribunal do Rio de Janeiro.

A pessoa do círculo familiar do baixinho que passou à Doda o dado do contrato do Barcelona em fevereiro de 1994, era o próprio irmão mais velho do Romário. um homem chamado Ronaldo de Souza Faria, 5 anos mais velho que o baixinho, morador na mesma casa do Jacarezinho até aos 28 anos e desde 1992 encarregado oficial da administração do património pessoal do miúdo.

Uma das três detidas na casa de queimados, Marlúcia Gomes, deu ao Ministério Público do Rio uma declaração sobre juramento em julho de 1994, onde acusava diretamente o próprio irmão do baixinho de ter sido o contacto inicial da quadrilha com a família. O Ministério Público investigou, o Romário recusou-se a depor contra o irmão, viu? A declaração da Marlúcia Gomes foi arquivada por falta de provas materiais e o irmão Ronaldo de Souza Faria nunca foi oficialmente acusado.

Mas o ficheiro do Tribunal do Rio guarda até hoje as 14 páginas da declaração da Marlúcia Gomes sob juramento. E aquelas 14 páginas são a resposta exacta à pergunta que nenhum O jornalista desportivo brasileiro teve a coragem de fazer durante os últimos 30 anos. Mas a questão mais importante de todo o sequestro tem uma segunda parte.

Em troca exatamente do que os criminosos soltaram o Edevar de Souza Faria na madrugada do dia 8 de Maio de 1994. Porque pelo próprio processo do Tribunal do Rio de Janeiro, os criminosos nunca receberam os 7 milhões de dólares que pediram. Nem um cêntimo do resgate foi pago pela família do baixinho. E tecnicamente os criminosos não foram capturados antes da libertação do pai.

ADS invadiu a casa de queimados depois da libertação, não antes. Então, exatamente por o Marquinho da Muleta e Doda decidiram libertar o pai do Romário sem receber o resgate de 7 milhões. A resposta está numa chamada telefónica que entrou na casa segura do Marquinho da Muleta no Morro do Salgueiro, na noite do dia 7 de Maio de 1994, 3:42 antes do operativo da Dazem Queimados.

A chamada foi gravada pela própria divisão antisequestros, que mantinha agrafados os telefones de vários contactos do comando vermelho. Do outro lado da linha, uma voz dura falou para o Marquinho da canadiana durante 46 segundos. A voz pertencia a um dos quatro chefes do comando vermelho do jacarezinho, que tinham-se reunido na noite anterior.

E a frase exata registada pela gravação oficial da Das foi a seguinte: Marquinho, ouve aqui, irmão. O pai do baixinho sai vivo esta noite, sem pagamento de resgate, sem negociação possível. Se o C não o largar, a gente vai atrás do C e da tua família toda. A tua mulher, a tua mãe, os teus dois filhos, a tua irmã, os cinco.

Essa mesma semana tem 3 horas para devolver. Depois, essa ligação não existiu. O Marquinho da muleta desligou o telefone e 40 minutos depois ordenou a Lina Célia e a Marlúcia Gomes que libertassem o refém. As duas mulheres negaram-se, queriam a grana. O marquinho da muleta ameaçou as duas com um revólver dentro da própria casa de queimados.

E às 5:14 da madrugada do dia 8 de maio, quando a Da invadiram a casa, encontraram o pai Edevi ainda amarrado ao colchão. Mas as algemas estavam abertas, a corda dos tornozelos estava cortada e os Os sequestradores já estavam a preparar fisicamente a libertação do refém. A chegou 3 minutos antes do marquinho da muleta poder executar a ordem do comando vermelho.

Significa exatamente isso, cara. O pai Evaer de Souza Faria não foi libertado em troca de dinheiro, foi libertado em troca de uma única coisa. A proteção que o comando vermelho do Jacarezinho impôs para a quadrilha amadora do Marquinho da muleta. A favela onde tinha nascido o miúdo Romário vi tinha decidido em silêncio, salvar o pai do próprio baixinho, sem pedir nada em troca, sem esperar dinheiro nem fama, só porque o miúdo do jacarezinho era filho da própria favela e porque o pai do miúdo era simbolicamente o pai de toda a favela. Essa foi a moeda exata do

resgate do pai do Romário. E essa é a dívida invisível que o baixinho ia carregar com a própria favela do Jacarezinho durante os 32 anos seguintes da vida dele. Mas havia uma coisa ainda mais negra que ia acontecer depois do rapto do pai. Uma coisa que durante 14 anos o Romário ia tentar esconder. Uma coisa que liga diretamente com o quarto do hospital perinatal de Laranjeiras em Maio de 2005, onde o baixinho ia olhar para a filha pequena, desejando que nunca tivesse nascido.

E uma coisa que ia acabar no quarto 304 do hospital Barrador, não é, em maio de 2008, com o pai Edvira em coma e com o miúdo do Jacarezinho a 2.500 km de distância, lançando um DVD sobre si mesmo numa cidade do nordeste do Brasil, sem conseguir chegar a tempo ao hospital, sem conseguir despedir-se do único homem que verdadeiramente amou ele.

E vai saber durante os próximos 15 minutos, irmão. Exatamente como o miúdo que quase abandonou a seleção por amor ao pai acabou por negar o próprio filho Rafael durante 15 anos seguidos. Como o miúdo que recitava as sete regras do Edeveir todas as manhãs terminou a quebrar cinco da sete dentro do quarto do hospital perinatal em maio de 2005.

E sobretudo como o caderno amarelo do pai Edevar com as 100 riscadinhas anotadas à mão durante 36 anos, reapareceu no dia 22 de maio de 2008 em circunstâncias arrasadoras nas mãos do próprio baixinho. Mas essa parte vem agora. A Edna Velho era em 1999 uma das modelos de passerelle mais reconhecidas do Brasil, 31 anos, 1,75 m de altura, cabelo castanho claro até aos ombros.

Filha de um coronel do exército brasileiro aposentado. Tinha desfilado para a Calvin Klein em Nova Iorque em 1992, para Ralf Lauren em Milão em 1994. E quando conheceu o miúdo do Jacarezinho numa festa privada da casa do empresário Aike Batista em Angra dos Reis, a Edna Velho estava a terminar um contrato publicitário com a marca de roupa interior Hope aconteceu em março de 1999, 7 meses antes do casamento oficial entre Romário e Daniele Favato, e 17 meses antes do nascimento do filho mais escondido de toda a vida do baixinho.

Edna Velho e Romário tiveram um caso discreto durante os dois anos seguintes. Encontros em hotéis do bairro de Ipanema, jantares privados em restaurantes apartados do centro do Rio, viagens de fim de semana para a própria fazenda do Aike Batista em Angra dos Reis. A Daniele Favato, a mulher oficial do baixinho, descobriu o caso em Setembro de 2000.

chorou durante três dias seguidos, mas decidiu manter o casamento pela filha pequena Daniele, que tinha só se meses, e por uma segunda razão que nunca contou à imprensa. O Romário tinha prometido cortar o contacto com a Edna Velho de forma definitiva. O Romário, durante quatro semanas cumpriu a promessa, mas na quinta semana voltou a encontrar-se com a Edna num hotel do bairro de Leme.

E ve meses depois, a Edna Velho deu à luz numa clínica privada do bairro de Botafogo, um filho homem. Nascido no dia 28 de fevereiro de 2002, colocaram o nome de Rafael Faria. O Romário recebeu a notícia do nascimento do Rafael por telefone, ligou-lhe a própria Edna Velho às 4:14 da manhã do dia 28 de fevereiro.

E a resposta exata do baixinho pelo relato que a Edna Velho concedeu ao jornal Extra do Rio de Janeiro no ano de 2012 foi a seguinte: Edna. Este filho não é meu. Não sei porque me tás a ligar. Eu nunca te toquei. Eu não conheço este menino. E depois daquela frase, o Romário desligou o telefone. E durante os 15 anos seguintes da vida do próprio Rafael Faria, o miúdo do Jacarezinho nunca reconheceu oficialmente o filho varão, nunca visitou a criança, nunca pagou pensão de alimentos.

Jamais respondeu pras cartas que a própria Edna Velho mandava duas vezes por ano para o apartamento do baixinho no bairro da Barra da Tijuca. 15 anos. 15 anos certinhos a negar ser o pai, viu? 15 anos, onde a Edna Velho criou sozinha o filho Rafael num apartamento de três quartos do bairro de Botafogo, com o salário de um emprego administrativo que arranjou numa empresa de seguros do centro do Rio.

15 anos onde o pequeno O Rafael cresceu a olhar para o pai pela televisão, vendo o pai marcar um golo pelo Vasco, vendo o pai ser convocado para Mundial de 2002, vendo o pai casar, divorciar-se, casar de novo e sobretudo vendo o pai reconhecer publicamente os outros cinco filhos que tinha com outras mulheres. A filha mais velha Mónica, o filho Romarinho, a filha Daniele, a filha Isabela e a pequena filha Ave, cinco filhos reconhecidos.

E Rafael, o sexto, o escondido, o negado, durante 15 anos oficialmente não era filho do baixinho. Mas em julho de 2017, quando Rafael Faria estava a ponto de fazer 15 anos, a Edna Velho contratou um advogado especializado em direito de família de nome Renato Mendonça. E o Mendonça fez a única coisa que durante 15 anos ninguém tinha conseguido obrigar o baixinho a fazer.

mandou uma notificação judicial pro Senado Federal Brasileiro, no escritório oficial do senador Romário de Souza Faria, pedindo a realização obrigatória de um exame de ADN entre o senador e o menor Rafael. A notificação foi recebida no dia 14 de julho de 2017. O Romário leu-a, ligou pro próprio advogado Cristóbal Martel e três dias depois, a 16 de julho, aceitou realizar o exame.

O exame de ADN foi feito no laboratório Sérgio Franco de Brasília. No dia 12 de agosto de 2017, o resultado saiu 7 dias depois, no no dia 20 de agosto, e o resultado foi exato. 100% de coincidência genética entre Romário de Souza Faria e o menor Rafael Faria. O miúdo do jacarezinho, durante 15 anos tinha negado o próprio filho homem em frente da imprensa, na frente da justiça, na frente da própria Edna Velho.

E o exame de ADN naquele 20 de agosto de 2017 terminou definitivamente com 15 anos de mentiras. O Romário, uma vez recebido o resultado, mandou o advogado Cristóbal Martel contactar a Edna Velho com uma proposta de acordo extrajudicial. A proposta era de R$ 240.000 R em pensão retroactiva de 15 anos, acrescido de uma pensão mensal de R$ 4.

000 por mês até aos 21 anos do filho, mais o reconhecimento oficial de paternidade no cartório de Brasília. A Edna Velho aceitou, mas impôs uma condição, que o próprio Romário fosse paraa Brasília visitar o filho Rafael pessoalmente pela primeira vez em 15 anos. O Romário foi paraa Brasília no no dia 4 de setembro de 2017. visitou o apartamento da Edna Velho, no bairro da Ala Norte, e viu, pela primeira vez na vida, o filho do sexo masculino de 14 anos e 7 meses. A conversa durou 46 minutos.

O Rafael Faria, pelo relato que o próprio rapaz concedeu ao portal Léo Dias no ano de 2023, não chorou durante essa visita, não abraçou o pai, não pediu explicações, apenas fez uma única pergunta pró baixinho. A pergunta exata, palavra por palavra, foi a seguinte: por que demorou 15 anos a vir? Por que demorou 15 anos a vir? Aquela pergunta do filho Rafael feita aos 14 anos e 7 meses dentro do apartamento de Brasília ia marcar o miúdo do jacarezinho durante o resto da vida, viu? O Romário não conseguiu responder,

baixou a cabeça, ficou calado durante 3 minutos. Depois falou em voz baixa uma única frase: “Filho, perdoa-me”. E depois daquela frase, o Romário saiu do apartamento da ASA Norte, voltou a pro hotel Brasília Palace e pelo relato do próprio motorista que o levou para o aeroporto no dia seguinte, o baixinho chorou durante 5 horas dentro do quarto do hotel sem parar.

Mas a questão do filho Rafael não era só sobre os 15 anos de negação, pá. Era sobre uma coisa ainda mais profunda, porque o miúdo do Jacarezinho, durante toda a vida adulta tinha repetido um padrão que o próprio Romário nunca tinha conseguido identificar. Um padrão que ia terminar 9 anos antes daquela conversa com o Rafael, em maio de 2008, no quarto 304 do Hospital Barrador, não é, na zona oeste do Rio de Janeiro, com o pai Edevair de Souza Faria moribundo e com o próprio miúdo do Jacarezinho a 2.

500 km de distância, sem conseguir chegar a tempo. O Edevaer, irmão de Souza Faria, foi internado no Hospital Barrador no dia 15 de de Maio de 2008, uma quinta-feira. tinha 76 anos, sofria de insuficiência renal crónica há 5 anos, fazia hemodiálise três vezes por semana no próprio hospital.

E nesse dia 15 de maio, durante uma sessão de rotina, os médicos detectaram uma infecção urinária avançada, aplicaram antibióticos intravenosos, deixaram-no internado para observação. A mãe Lita Faria, de 72 anos naquele momento ali, ficou do lado da cama do marido de dia e de noite durante os seis dias seguintes. O próprio Romário nessa semana de meados de maio estava numa digressão nacional de lançamento do DVD oficial da carreira, um DVD produzido pela Som Livre denominado Romário 1000 e dois golos, uma recolha de todos os golos oficiais do baixinho durante 25

anos de carreira. A digressão de lançamento incluia passagens por Salvador, Recife, Manaus, Belém, Fortaleza, Belo Horizonte e São Paulo. E no dia 21 de maio, um quarta-feira, o Romário chegou a Fortaleza pro lançamento oficial do DVD, que estava marcado para o dia seguinte. Às 4 da manhã de quinta-feira, 22 de maio de 2008, 6 horas depois da chegada do Romário em Fortaleza, o pai Edevar sofreu o primeiro enfarte do coração dentro do quarto 304 do hospital Barrador.

A mãe Lita, que dormia num sofá ao lado da cama, acordou com os bips do monitor cardíaco. Chamou o médico de serviço. O médico aplicou o protocolo de emergência. O Edevi foi estabilizado, mas o dano no músculo cardíaco tinha sido massivo. O médico disse à Lita uma frase exata: “Dona Lita, o seu marido não vai aguentar as próximas 24 horas.

Às 6:17 da manhã do 22 de maio, 2:16 depois do primeiro enfarte, a mãe Lita ligou para o telemóvel do próprio Romário. Tocou cinco vezes caixa de correio. Alita deixou uma mensagem. Filho, o teu pai está muito mal. Por favor, vem ao rio urgente. O Romário escutou a mensagem às 7h45 da manhã. Estava a tomar café da manhã no restaurante do hotel Marina Park, Hotel de Fortaleza, com cinco produtores da Som Livre.

baixou a chávena de café, saiu a correr do restaurante, subiu para o quarto e pelo relato do O próprio produtor executivo José Carlos Pontes, o baixinho ligou imediatamente para o telefone do assessor pessoal, pedindo um avião privado urgente para voltar para o Rio, mas não tinha voo comercial direto de Fortaleza para o Rio de Janeiro até às 11:30 da manhã, 3:45 depois de escutar a mensagem da mãe, o Romário descartou o voo comercial, pediu um avião privado, O produtor José Carlos Pontes, proprietário do grupo Marquiz, ofereceu o próprio avião

Cesna Citation. O avião descolou do aeroporto Pinto Martins de Fortaleza às 13h22, 2640 km de distância até o aeroporto de Santos do Mondo, Rio de Janeiro. 3:17 de voo. Aterragem prevista, 16:39 da tarde. Mas o pai Edevair, dentro do quarto 304 do Hospital Barrador não conseguiu esperar o filho, estás a ver? Às 15:07 da tarde de quinta-feira, 22 e 2 de Maio de 2008, enquanto o avião Cesna Citation do O próprio Romário sobrevoava a região de Vitória, no estado do Espírito Santo, o Edeva de Souza Faria sofreu o segundo

enfarte. A mãe Lita a segurar a mão do marido, viu o monitor cardíaco entrar em linha reta. O médico de serviço entrou correndo no quarto, tentou a reanimação durante 14 minutos e às 15:21 minutos da tarde declarou oficialmente a morte do Edevar de Sousa Faria. 76 anos, 4 meses e 18 dias.

Hora oficial registada no certificado de óbito do Hospital Barrador. 15:21. Quinta-feira, 22 de Maio de 2008. O Romário aterrou no aeroporto de Santos do Mon, do Rio de Janeiro, às 16:39, 1:1 minutos depois da morte oficial do pai. O assessor pessoal esperava-o na pista. O baixinho desceu do avião a correr, subiu para a carrinha, pediu pro motorista chegar ao hospitalor o mais rapidamente possível.

42 minutos depois, às 17:21 da tarde, o miúdo do jacarezinho entrou no quarto 304 do hospital. A mãe Lita estava sentada ao lado da cama chorando em silêncio. O corpo do pai Edevar já estava coberto com um lençol branco e em cima do armário do quarto, do lado dos medicamentos do pai, tinha dois objetos guardados dentro de um saco de pano.

O primeiro objeto era o relógio Casio Prateado, o relógio que o miúdo do Jacarezinho tinha dado de presente pro pai Edevai em 1985 com o primeiro salário do Vasco. O relógio que o pai tinha usado sem tirar nem para dormir durante 23 anos seguidos. O relógio que os enfermeiros do hospital Barr Door tinham retirado do pulso do pai às 15h22, 1 minuto depois da morte oficial.

O segundo objeto era o caderno amarelo das balizas, o mesmo caderno de papel quadriculado que um amigo da fábrica de bom sucesso tinha dado ao Edevar em 1972. O caderno onde o pai, sem saber ler nem escrever para além do nome, tinha anotado com uma riscadinha vertical. Cada golo oficial do miúdo Romário durante 36 anos seguidos.

100 riscadinhas anotadas à mão, 100 golos. E juntamente com o caderno amarelo tinha uma folha solta dobrada em quatro com o nome do baixinho escrito em letras grandes. Era uma carta que o pai Edevar, não é, tinha ditado à mãe Lita na noite anterior, no dia 21 de Maio, só horas antes do primeiro enfarte.

O Romário pegou na carta, sentou-se na beira da cama do lado do corpo do pai e com as mãos a tremerem abriu a carta. eram exatamente 14 linhas escritas com a letra da mãe Lita, mas as palavras eram do próprio pai, Edev, e as 14 linhas diziam o seguinte: “Filho, se estás a ler isto, me perdoa por não terte esperado. Fiz o possível.

A tua mãe vai contar-te o resto. Quero ser enterrado com a camisola do América Futebol Club. Quero que o caderno amarelo fica em casa da tua mãe. Quero que o relógio que me deu utilize a partir de agora. Filho, tem sete regras que te ensinei desde pequenino. Algumas você cumpriu, outras você partiu, mas há uma das sete que você nunca cumpriu.

A sétima, nunca vai esquecer de onde veio. Filho, olha para os teus filhos, como eu olhei para ti. Os teus filhos precisam de ser mais do que precisa da fama. O teu pai. O teu pai. Esta foi a assinatura do Edever de Souza Faria, ditada na noite anterior à morte, no quarto 304 do Hospital Barrador, sabendo que o miúdo do Jacarezinho não ia chegar a tempo, sabendo que o filho encontrava-se a 2500 km de distância em Fortaleza, lançando um DVD sobre os próprios 100 golos, sabendo que a última mensagem do pai ia ter de ser lida sem

ele do lado do filho. E o Romário, depois de ler as 14 linhas exactas da carta do pai, chorou durante 4 horas seguidas, sentado na borda da cama do quarto 304 do hospital Barrador, sem se mover, sem largar a carta, sem largar o caderno amarelo, sem largar o relógio Casio do Pai. O enterro do Edevair de Souza Faria foi na sexta-feira, dia 23 de Maio de 2008, no cemitério do Inhauma, zona norte do Rio de Janeiro, do lado da própria favela do Jacarezinho.

230 pessoas foram a família toda, os amigos da fábrica de bom sucesso, os irmãos do pai, os filhos do baixinho, incluindo o próprio Romarinho, que tinha 14 anos, viajou da Holanda com a mãe Mónica Santoro. E em cima do caixão coberto com a camisola do América Futebol Clube, como o pai tinha pedido, o miúdo do Jacarezinho recitou em voz alta as sete regras do próprio Edevair, uma a uma, recitadas com as mesmas palavras que o pai tinha repetido durante 12 anos.

Seguidas todas as manhãs dentro da cozinha da casa do Jacarezinho. A sétima regra, a que o pai tinha escrito na carta ditada do hospital Barrador, foi a última que o Romário recitou. Jamais se vai esquecer de onde veio. A voz do baixinho partiu exatamente na palavra veio. O O miúdo do jacarezinho encerrou a carreira profissional no dia 15 de abril de 2008, só 37 dias antes da morte do pai.

marcou o último golo oficial da carreira, o número 1002, com a camisola do Vasco da Gama contra o América Futebol Club, a equipa do coração do próprio pai Edeva, no estádio de São Januário. Depois reformou-se, entrou na política, tornou-se deputado federal em 2010, senador do Rio de Janeiro em 2015 e começou a a partir do ano de 2015 a trabalhar pelos direitos das pessoas com síndrome de Down, pela filha pequena Ive, a mesma filha que o próprio baixinho dentro do quarto 312 do Hospital Perinatal de Laranjeiras, em Maio de 2005, tinha desejado que nunca tivesse chegado ao

mundo. A I Faria hoje, em junho de 2026, tem 21 anos. Formou-se no ensino secundário em dezembro de 2024. Estuda artes performativas numa universidade privada de Niterói. Tem um canal de YouTube com mais de 400.000 seguidores. Lançou um livro juntamente com o pai Romário sobre a própria vida. O livro chama-se O mundo de Ive.

E durante a apresentação oficial do livro, em março de 2016, o Romário chorou em rede nacional durante 11 minutos. na frente de uma sala cheia com doutores, professores, presidentes de associações de pessoas com síndrome de Down e pediu desculpas oficialmente à própria filha pequena durante aqueles primeiros 10 minutos do Hospital Perinatal das Laranjeiras.

O Rafael Faria tem hoje 24 anos, vive em Brasília, frequenta o quarto ano de direito na Universidade de Brasília, tem uma namorada de nome Camila, estudante de jornalismo. E pela entrevista que o próprio Rafael concedeu ao portal G1 em março de 2026, mantém contacto telefónico com o pai Romário uma vez por semana, mas nunca voltou a chamar-lhe pai, só de Romário, e nunca aceitou visitar ele no apartamento do baixinho, no bairro da Barra da Tijuca.

O nome do pai, diz, a pensão que ele recebe, mas a figura do pai, exatamente essa figura que o próprio Edevi tinha sido pro miúdo do Jacarezinho durante 42 anos, o Rafael Faria, pelas suas próprias palavras dele, nunca teve e nunca terá. O caderno amarelo dos golos está guardado até hoje em casa da mãe Lita Faria, no bairro do Meer, no Rio de Janeiro.

100 riscadinhas anotadas à mão. A mãe Lita tem 90 anos, vive sozinha desde a morte do marido. Cada vez que o miúdo do jacarezinho visita-a, o que rola três vezes por ano pelo círculo familiar, a a mãe Lita mostra o caderno amarelo e fala em voz baixa uma única frase: “Filho, o teu pai amou-te mais do que qualquer pessoa no mundo, mais do que as tuas mulheres, mais do que os teus amigos, mais do que os teus adeptos.

O teu pai te amou”. Lembra-se disso para sempre. O Romário, pelo relato da própria mãe pro jornal Extra em 2023, chora cada vez que ouve aquela frase, mas até hoje, em junho de 2026, não consegue ser o pai que o Edevair de Souza Faria foi para ele. 1002 golos oficiais não conseguiram pagar a dívida invisível do miúdo do Jacarezinho com a própria favela.

E a bola de ouro do Campeonato do Mundo de 1994 não conseguiu pagar a dívida invisível do baixinho com o próprio pai Edev, estás a ver? A dívida 30 anos depois continua aberta e nunca, exatamente nunca poderá ser paga. Porque o único homem que verdadeiramente o amou, o único que entendia as sete regras, o único que transportava o caderno amarelo com as 100 riscadinhas anotadas à mão, já não está mais.

E num canto do cemitério do Inhaúa, a 200 m da própria favela onde o miúdo Romário nasceu, tem uma lápide de mármore negro. Em cima da lápide está gravado o nome completo: Edevair de Sousa Faria, 193128. E por baixo do nome tem uma frase curta que a mãe Lita Faria pediu para gravar no dia do funeral. A frase tem apenas sete palavras, as mesmas sete palavras da sétima regra do próprio pai.

Jamais vai esquecer de onde vieste, filho. O pai que nós temos é o pai que nós aprende a ser. Se o pai diz as coisas, o filho repete. Se o pai ameaça, o filho ameaça. Se o pai bate, o filho bate. Se o pai desaparece, o filho desaparece. E se o pai, contra todo o prognóstico, ama de verdade, o filho aprende a amar.

Mas tem um milagre silencioso que a vida concede de vez em quando. Por vezes o filho, mesmo recebendo o amor do pai, não consegue replicar ele. Por vezes o filho, cheio de tudo de bom, falha no mais simples. O Romário, o miúdo do Jacarezinho, recebeu do Edevair o mais raro que existe no mundo. pai que esteve presente, que recitava as sete regras todas as manhãs, que anotava à mão cada golo do filho num caderno amarelo, que quase morreu num cativeiro de queimados, sem abrir a boca, por medo de comprometer o Mundial do Baixinho.

E o miúdo, com todo aquele amor recebido, não conseguiu devolver-lhe pros próprios seis filhos. Negou o filho homem durante 15 anos, rejeitou a filha pequena durante 10 minutos inteiros dentro de um quarto de hospital. E exatamente quando o pai estava a morrer, ficou a 2500 km de distância lançando um DVD sobre os próprios golos.

A pergunta não é porque o Romário não conseguiu ser pai, pá. A questão é quantos homens nesse preciso momento, em cada sala de cada casa, de cada bairro, de cada país, de cada continente do mundo, estão repetindo a mesma história? Estão a sair para o trabalho em vez de olhar para os filhos? Estão a beber em vez de falar com a mulher.

Estão a recusar ligações em vez de visitar o pai. Estão a lançar DVDs sobre si próprios em vez de se despedir-se do próprio pai no hospital. Se o teu pai ainda está vivo, irmão, liga para ele hoje. Não amanhã, hoje, porque quando o telefone do hospital tocar, já não vai ter mais tempo para arrumar nada. E se conhece alguém que repete a história do miúdo do jacarezinho, que nega os filhos, que esquece-se de onde veio, que prefere lançar DVDs em vez de visitar o pai, envia este vídeo para ele nessa mesma noite.

Porque tem sete regras que um pai humilde, vigia nocturno de uma fábrica de bom sucesso, ensinou a um miúdo de bairro de lata há 42 anos. E tem uma sétima regra que nenhum pai do mundo, nenhum pai, devia esquecer nunca. Jamais vai esquecer de onde veio. Se inscreve no canal Estrelas Caídas. Porque a próxima história é ainda mais negra e vai querer estar aqui quando a gente contar ela. Да.

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