E esta moça segurando a sua mão sou eu. Ronaldinho segurou a fotografia com cuidado. Era ele, sem dúvida. rosto redondo, expressão curiosa. Ao lado, uma jovem mulher de cabelos apanhados segurava a sua mão em frente a um portão escolar. Isto é na creche? Exatamente. Eu era a coordenadora da instituição onde a sua mãe deixava-o quando precisava de trabalhar dobrado.
Não se ficava muito tempo lá, mas o suficiente para deixar marcas. Ronaldinho ficou em silêncio. A imagem despertava memórias confusas, como fragmentos de sonhos antigos. Dona Clotilde continuou. Naquela altura, eu Comecei a escrever um diário sobre as crianças, sobre o que via nelas e sobre você. Escrevi bastante, porque algo dizia-me que um dia teria que se lembrar do que esqueceu.
Ela colocou nas mãos dele um pequeno caderno espiralado de capa gasta. Nele existiam páginas escritas com caligrafia delicada datadas entre 1983 e 1985. Excertos descreviam episódios banais da infância, mas também algo mais. “Continue a ler, por favor”, disse ela com os olhos marejados. Ronaldinho folhou até uma página marcada com um clipe enferrujado.
Nela lia-se hoje, O Ronaldo não quis brincar. Disse que a mãe estava triste. Quando perguntei por, sussurrou: “Porque o pai foi-se embora. Depois chorou baixinho no meu colo. A a garganta dele travou. Não se lembrava disso, pelo menos não de forma consciente, mas sentiu algo remexer-se lá dentro, um eco distante.
A Dona Clotilde sentou-se na poltrona ao lado. Eu não quero nada de você, nenhum favor, nenhum dinheiro. Só queria que soubesse que teve alguém que te viu quando mais ninguém via. Ronaldinho passou a mão pelo rosto, tentando processar. A sensação era estranha, como se tivesse reencontrado uma versão de si próprio que nunca soube que existia.
Mas porquê agora, dona Clotilde? Porquê chamar-me depois de tanto tempo? Ela olhou para a janela pensativa, porque estou doente e porque tenho algo que não posso levar comigo, algo que lhe pertence. Ela levantou-se devagar e dirigiu-se para o quarto. Voltou com uma pequena carta selada, envelhecida pelo tempo. Isto aqui a sua mãe deixou comigo um dia à pressa.
Disse que era para si, mas que só devia ser entregue se um dia lhe quisesse saber a verdade. Que verdade? Ela apenas entregou a carta. Eu não li, nunca tive coragem, mas agora é com você. Ronaldinho olhou para o envelope, reconheceu a letra da mãe mesmo décadas depois, mas não teve coragem de abrir ainda não.
Ronaldinho segurava o envelope como quem segura uma bomba prestes a explodir. As bordas estavam amareladas, o papel frágil pelo tempo, mas a caligrafia, a caligrafia era inconfundível. Era da sua mãe, a mesma que escrevia bilhetes colados na frigorífico, que deixava recados em cadernos escolares, que assinava bilhetes de autorização quando ele precisava de faltar aos treinos.
Vê-la ali, tantos anos depois, numa carta que ele nunca soubera existir, era como ouvir a sua voz dentro de um eco. “Posso abrir?”, perguntou quase em sussurro. A Dona Clotilde apenas assentiu. Seus olhos estavam fixos na janela, como se temesse o conteúdo tanto quanto ele. Ronaldinho rompeu cuidadosamente o lacre.
No interior havia uma única folha dobrada. Quando abriu, viu que era um texto curto, mas com palavras que pareciam pesar toneladas. Meu filho, se um dia essa carta estiver nas suas mãos, é porque o tempo fez o que eu não consegui. Contar a verdade. Nem tudo o que disse-te quando pequeno era mentira, mas também não era toda a verdade. Você tinha um irmão, não de sangue, mas de coração.
E eu fiz uma escolha que me persegue até hoje. Desculpe, mamã. As mãos de Ronaldinho tremeram. Um irmão? Como assim? A mente dele girava. Tantas memórias de infância passavam diante dos olhos. os brinquedos, as tardes a brincar bola com Assis, a comida simples na mesa, mas não se lembrava de outro menino.
Não havia espaço para um irmão de coração. “Irmão?”, murmurou. Ela nunca falou sobre isso. Dona Clotilde respirou fundo porque achava que era a melhor forma de te proteger. Esse menino, ele ficou convosco por um tempo, ainda bebé. Veio do bairro. A mãe era toxicodependente. A sua mãe o acolheu-o como se fosse seu e depois, depois adoeceu muito e a mãe biológica apareceu a querer levá-lo de volta. Houve briga, polícia, ameaça.
E depois, um dia, simplesmente desapareceu. A sua mãe nunca mais falou no assunto. Ronaldinho tentava procurar qualquer fragmento dessa história na memória, mas nada, nenhuma imagem, nenhuma lembrança. Era como se alguém tivesse apagado um pedaço da sua vida. Você sabe o nome dele?”, perguntou. Na carta que a sua mãe entregou-me? Não.
Mas havia algo mais na caixa, algo que talvez possa ajudar. Ela voltou ao quarto e regressou com um envelope de papel pardo maior. No interior havia uma fotografia antiga, bastante desbotada. Nela, Ronaldinho, ainda pequeno, sentado num passeio, sorrindo. Ao seu lado, um menino de pele claro, cabelo encaracolado, com uma expressão tímida e curiosa.
Esse era ele disse a dona Clotilde. Vocês brincavam juntos todos os dias. A vizinhança dizia que pareciam gémeos. Qual era o nome dele? Ela abanou a cabeça. Chamavam-me da tia Clô, mas nunca fui da família. Ouvi a sua mãe chamar-lhe Leléu. Pode ter sido alcunha, mas era sempre com carinho.
Ronaldinho encarava a foto como se ela pudesse de repente ganhar vida e falar com ele. E nunca ninguém procurou por ele, nenhuma pista. Que eu saiba não. Depois da confusão, a sua mãe ficou muito abalada. enterrou tudo isto no silêncio. Ronaldinho guardou a foto e a carta no envelope novamente. Se havia um irmão esquecido no tempo, precisava descobrir quem era.
E mais ainda, precisava de saber porque a sua mãe nunca contou nada, nem mesmo nos últimos anos de vida, quando já não havia mais nada a esconder. Nessa noite, Ronaldinho mal conseguiu dormir, releu a carta cinco vezes, examinou a foto com uma lupa, queria pistas, um apelido, uma placa ao fundo, uma roupa, qualquer pormenor que o levasse a algum lado.
No dia seguinte, ligou a Assis. Mano, tu recorda um menino que viveu com a pessoas quando éramos pequenos? Um tal de Leléu? Assis ficou em silêncio durante alguns segundos. Leléu? Ena, já há muitos anos que não ouço este nome. De onde é que tirou isso? Encontrei uma carta da mãe e uma fotografia. Ela fala de um irmão de coração, alguém que ela acolheu durante algum tempo.
Pá, isso é pesado. Lembro-me vagamente, era um miúdo que apareceu lá em casa quando tinha uns 8 anos, brincava com a gente no pátio. Mas um dia desapareceu. Disseram que a mãe veio buscar, só que ninguém quis dar muitos pormenores e depois esquecemo-nos, ou melhor, nos fizeram esquecer e nunca mais ouvimos falar dele. Não, nunca mais.
Ronaldinho passou o dia a reunir o pouco que sabia, a alcunha, a foto, a possível época. Com isso em mãos, decidiu visitar um antigo conhecido da sua mãe, o Seu Ademar, um antigo funcionário do clube e vizinho da família nos anos 80. O Sr. Ademar o recebeu com os olhos marejados de emoção. Menino, tu cresceste e ainda te lembras dos velhos? Lembro-me sim, senhor Ademar, e preciso da sua memória também.
O senhor recorda um menino chamado Leléu, que vivia connosco ou ficava muito lá em casa? O velho franziu o senho o pensativo. Leléu, Leléu? Ah, lembro-me sim. Aquele miúdo vivia colado a ti. Pareciam mesmo irmãos. A mãe dele era bastante problemática, coitada. O senhor sabe o que lhe aconteceu? Só sei que um dia desapareceram.
Disseram que ela se foi embora da cidade, mas isso foi em 1986, acho eu. Muita confusão na altura. O senhor lembra-se do nome completo dele? Penso que era Manuel Leonardo, alguma coisa assim. Manuel Leonardo de Sousa, talvez. Mas não tenho a certeza. Aquela era a primeira pista real, um nome. Nessa noite, Ronaldinho ficou até tarde tentando encontrar registos, fez pesquisas em sites públicos, ligou para contactos antigos, pediu ajuda a Assis para vasculhar arquivos.
Nada ainda, mas o nome estava lá e agora sabia por por onde começar. O que ele ainda não sabia é que ao encontrar Manuel Leonardo, se ainda estivesse vivo, também encontraria algo que a sua mãe passou toda a vida tentando proteger e que talvez fosse tarde demais. Na manhã seguinte, Ronaldinho acordou com um propósito, descobrir onde estava Manuel Leonardo ou como era conhecido na infância, Leléu tinha um nome, uma foto e uma dúvida que não o deixava em paz.
Afinal, por que a sua mãe teria guardado esse segredo por tanto tempo? Que verdade ela achava que precisava de esconder mesmo no fim da vida? Assis, como sempre, foi direto ao assunto. Dinho, temos que procurar onde há registos. Hospital, escola, abrigos, cartórios. Esse nome não pode ter simplesmente desaparecido.
E se ele mudou de nome? Aí complica, mas começa pelo básico. Vai até onde tudo começou. E foi o que Ronaldinho fez. Conduziu até ao antigo bairro onde cresceu, na zona norte de Porto Alegre. Embora muitos edifícios tivessem mudado, havia ainda pontos que pareciam congelados no tempo. A padaria de esquina, o campinho de terra batida, o muro descascado, onde ele e Assis treinavam remates com bolas de meia.
Era estranho estar ali, não como um craque famoso, mas como homem em busca de respostas. Passou pela antiga creche do bairro, ainda existia. Conversou com a coordenadora, uma senhora chamada Edna, que estava lá desde os anos 80. Dona Edna, sei que é difícil lembrar um nome entre tantos, mas a senhora já ouviu falar do Manuel Leonardo de Souza ou um menino chamado Leléo.
Ela arregalou os olhos com surpresa. Leléu? Claro que me lembro. tímido, calado, mas tinha um brilho nos olhos. Era muito próximo de vocês os dois. A sua mãe, a dona Miguelina, tratava-o como filho. A senhora sabe o que aconteceu com ele? Ele deixou de vir de repente. Falaram que a mãe biológica o levou, mas houve rumores de que foi internado num abrigo.
Só que naquela altura ninguém falava muito destas coisas, era tudo abafado. Ronaldinho agradeceu e seguiu para o abrigo mais próximo da região, o Instituto Esperança. Um edifício simples, fachada azul claro, com crianças a correr pelo pátio. Ao identificar-se, foi recebido com entusiasmo, mas pediu descrição. Explicou o que procurava.
Nós temos alguns arquivos da década de 80″, disse a diretora. “Mas aviso que muitos foram perdidos no incêndio em 1995. Mesmo assim, vou procurar”. Enquanto ela vasculhava caixas e pastas envelhecidas, Ronaldinho andava pelo corredor observando fotos antigas nas paredes, crianças em festas, campeonatos, apresentações, até que parou diante de uma imagem a preto e branco. Reconheceu o local.
Era o pátio onde estava, mas o que chamou a atenção foi um menino no canto da imagem, sentado sozinho, a olhar para o chão. Estava com uma camisa aos quadrados e segurava um caderno. A legenda dizia: Almoço coletivo, 1987. Era ele. Este aqui disse apontando. Esse é o Leléu? A diretora aproximou-se, examinando a foto.
Esse era o Manuel Leonardo. Sim, ficou pouco tempo aqui. Depois foi transferido para outra instituição. Mas houve um problema. Que tipo de problema? Dizem que sofreu maus tratos no novo abrigo. Sumiu depois disso. Ninguém nunca mais ouviu falar. Ronaldinho fechou os olhos. Sentia como se cada passo em direção à verdade revelasse uma nova ferida.
Onde era esse novo abrigo? Bairro Menino Deus. mas já foi encerrado. Ficou conhecido por uma grave denúncia nos anos 90, um escândalo abafado. No caminho de regresso a casa, Ronaldinho ligou à Sis e contou-lhe tudo. Se esse local foi fechado por maus tratos e ele desapareceu logo a seguir, pode ter acontecido qualquer coisa.
E se ele estiver vivo? Disse Assis. E se ele estiver à espera que alguém o encontre? A frase ecuou como um chamamento. Naquela noite, Ronaldinho voltou a abrir o envelope da mãe, observou a caligrafia, o tom da carta e reparou num pormenor que antes passara despercebido. No verso do papel, em letras pequenas, havia uma linha escrita com outra caneta.
Se um dia quiser compreender, procure irmãos da ponte. Irmãos da ponte, ele digitou a expressão no telemóvel. Nada de concreto, mas num fórum antigo encontrou um comentário. Os irmãos da ponte eram conhecidos nos anos 90 em Porto Alegre. Eram dois jovens que ajudavam os moradores de rua, principalmente na região do gasómetro.
Depois de 2001, desapareceram. Era o segundo sinal ligado à ponte. Primeiro no bilhete deixado pela mãe. Agora essa pista. Ronaldinho decidiu ir até lá pessoalmente. Ao chegar, o local estava quase vazio. A neblina cobria o Guaíba, como sempre. Apenas dois senhores jogavam damas sob uma marquise improvisada.
Ele aproximou-se com respeito. “Com licença, algum de vós já ouviu falar nos irmãos da ponte?” Um deles olhou desconfiado. “E por que quer saber? Procuro alguém, um amigo que pode ter feito parte deste grupo.” O outro senhor de Boina cinzento franziu o sobrolho. “Tu és o Ronaldinho, certo?” “Sim, mas isso não interessa agora.
O que importa é encontrar Manoel Leonardo ou Leléu. O Leléu? O velho repetiu: “Faz anos que não ouço esse nome, mas há um rapaz que vive ali perto da antiga estação, fala pouco, escreve muito, dorme com um caderno ao peito. Se não for ele, pode levar-te até”. Ronaldinho agradeceu e nesse instante uma sensação tomou conta dele, a de que estava finalmente a aproximar-se do reencontro, da verdade, de um pedaço da própria história que sempre ali esteve escondido atrás de silêncios e ausências. Mas ainda não sabia que o
que Leléu escrevera naquele caderno não era apenas a recordação de um irmão, era uma revelação e ela mudaria tudo. O vento soprava firme na orla do Guaíba quando Ronaldinho chegou à antiga estação abandonada. O local, hoje tomado por grafittis e silêncio, tinha algo de melancólico. Passou por pilares corroídos e bancos partidos, procurando com os olhos alguém que parecesse viver ali. E então viu-o.
Um homem magro, de barba grisalha e olhar atento estava sentado sobre um cobertor dobrado, escrevendo num caderno velho de capa dura. Usava um blusão gasto e ao lado havia um saco com roupas dobradas com cuidado invulgar para alguém em situação de rua. Ronaldinho hesitou, aproximou-se lentamente, respeitando o espaço do desconhecido.
Com licença, o homem levantou o rosto. Os seus olhos demoraram a focar, mas assim que reconheceram Ronaldinho, não mostraram surpresa nem entusiasmo, apenas um cansaço calmo, como de quem esperava aquele momento há muito tempo. “Achei que os meus cadernos iam ver-te antes de mim”, disse simplesmente. Ronaldinho sentou-se no chão à sua frente.
observa cada pormenor, procurando traços de um menino que se tinha esquecido. Um menino chamado Lelé. Manuel Leonardo. O homem assentiu. Leléu. O silêncio alongou-se por alguns segundos. Reconheci-te na hora que parei de fugir de mim próprio? Perguntou Ronaldinho. Eu nunca te esqueci. Era uma frase simples, mas dita com uma intensidade que fez Ronaldinho desviar os olhos.
Respirou fundo, engolindo a culpa que se acumulava no peito. Eu encontrei uma carta da minha mãe. Ela disse que eu tinha um irmão, um irmão que ela tentou proteger, mas que acabou perdido. Leléu olhou para o horizonte, o olhar molhado, mas firme. Ela tentou sim, à maneira dela. Porque nunca me procurou? Porque eras luz demais e estava mergulhado na sombra.
Pensei em escrever-te muitas vezes, mas eu não sabia se ainda se lembrava de mim. Eu não se lembrava, admitiu Ronaldinho com dor. E quando percebi isso, doeu como se te tivesse perdido duas vezes. Leléu não respondeu, apenas abriu o caderno no seu colo e arrancou uma página cuidadosamente dobrada. Estendeu para Ronaldinho.
Lê que era uma carta escrita à mão, dirigida a Dinho. Eu me Chamo Manuel Leonardo de Souza. Mas por muito tempo quis chamar-me Ronaldinho, não porque queria ser você, mas porque queria estar onde estava, sentar-se ao seu lado, partilhar aquele pão com margarina e rir das mesmas parvoíces. Fomos irmãos mais tempo do que tu imagina.
A diferença é que eu sabia disso. Ronaldinho respirou fundo e continuou a leitura. Quando fui tirado da casa da dona Miguelina, não me entendi. Pensei que tinha feito algo errado. Pensei que me tinha esquecido. Fui parar a um abrigo frio, onde ninguém dizia o meu nome. Ali virei número, fiz silêncio, mas guardei cada lembrança consigo, como se fosse ouro.
A forma como te rias quando eu errava o chute. A primeira vez que me chamou Lelé, o dia em que a tua mãe me deu um casaco, dizendo: “Agora és da família”. A voz de Ronaldinho falhou. A página tremia-lhe nas mãos, mas Leléu ainda não tinha terminado. “Há mais”, disse, entregando um pequeno envelope e amassado.
No interior uma foto, os dois crianças em frente ao portão de casa. Leléu mais baixo a segurar um brinquedo e Ronaldinho com o braço sobre os ombros dele no verso escrito a caneta azul. “Lembra-me se um dia me esquecer.” “Eu não me lembrava”, sussurrou Ronaldinho. “Me perdoa”. Lelé olhou-o nos olhos pela primeira vez desde que se reencontraram.
Não tem de me pedir perdão. Quem some do mundo é que precisa de se lembrar de si mesmo. E só me lembrei de mim quando comecei a escrever. Vive aqui, aqui e ali. Já tive teto, já perdi. Hoje não me assusto mais com a ausência das paredes. Mas há uma coisa que eu nunca perdi, as palavras. Ronaldinho observou o caderno nas mãos de Leléu.
As páginas estavam preenchidas com histórias, poesia, reflexões, umas riscadas, outras esbatidas, mas todas vivas. Vem comigo. Eu tenho um lugar, um espaço só seu, com mesa, cama, luz e silêncio para escrever. Leléu hesitou. Eu não quero esmolas. Não é esmola, é convite. É reencontro, é casa. Os olhos de Leléu marejaram. E se eu aceitar, o que acontece depois? Depois Ronaldinho sorriu.
Depois a gente escreve uma nova história. Naquela noite os dois deixaram a estação juntos. Um passo de cada vez, sem pressas. Um com a história nas mãos, o outro com o passado no coração. Mas no fundo da mochila de Leléu havia algo que ainda não tinha sido revelado, um envelope selado dirigido à dona Miguelina.
E datado de 2001. Ronaldinho ainda não sabia, mas aquela carta escondia o motivo real de tudo ter acontecido como aconteceu e ela só seria aberta no capítulo seguinte. Era de madrugada quando Ronaldinho e Leléu chegaram à casa simples nos arredores de Porto Alegre, a mesma que Ronaldinho tinha comprado anos antes para ser um refúgio, longe dos holofotes e das pressões, um local com cheiro a madeira nova, luz baixa e silêncio confortável.
Leléu entrou devagar, como quem invade algo sagrado. Observava cada detalhe. Os livros na estante, as fotos antigas na parede, o candeeiro aceso sobre a mesa da sala. “Pode ficar o tempo que quiser”, disse Ronaldinho, deixando a mochila sobre o sofá. “Aqui ninguém pergunta de onde vens, só para onde queres ir.
” Leléu sorriu. Um sorriso contido, mas genuíno. Já é mais do que tive em décadas. Ronaldinho abriu o frigorífico, preparou um lanche simples, pão com queijo e sumo de caju, e os dois comeram em silêncio. Não precisavam de preencher o tempo com palavras, já tinham dito o que era necessário ou quase tudo.
Mais tarde, quando Leléu já estava deitado no quarto de hóspedes, Ronaldinho sentou-se à varanda. O céu estava limpo, a cidade dormia e ele ainda sentia a cabeça girando com tudo o que tinha vivido nas últimas 48 horas. Foi então que Leléu apareceu à porta com o envelope na mão. Isto estava na minha mochila.
É da sua mãe. Ronaldinho olhou-o confuso. Da a minha mãe? Sim. Ela deu-me isso em 2001. Pediu-me que nunca entregasse, a não ser que algum dia me voltasses a encontrar. Disse que se isso acontecesse, significava que estava pronto para saber. Ronaldinho pegou no envelope como quem segura um pedaço da sua própria alma.
O papel estava amarelado, mas intacto. Havia um pequeno selo com a letra M. Abriu com cuidado. Dentro de uma carta manuscrita. Reconheceu a caligrafia da mãe de imediato. Mas desta vez havia mais firmeza nas palavras. Meu filho, se está a ler isto, é porque reencontrou Leléu. E reencontrou-se, é porque decidiu olhar para trás com o coração aberto.
Agora posso dizer-te o que nunca tive coragem de dizer em voz alta. Ronaldinho engoliu em seco e continuou. O Leléu veio a nossa casa quando tinha 4 anos. A mãe dele era uma jovem do bairro, utilizadora de drogas, em situação de risco. Um dia, ela entregou-me o menino nos braços, dizendo: “Ele vai morrer se ficar comigo”. Não consegui dizer que não.
A a partir desse dia, ele passou a ser o meu filho também. A voz de Ronaldinho falhou, mas continuou a leitura. Você e ele se tornaram inseparáveis. Dormiam no mesmo colchão, partilhavam brinquedos, alimento, afeto. Mas o mundo, o mundo não entende laços que não vêm do sangue. E depois, um dia, a mãe biológica voltou com um advogado e ameaças.
Disseram que se não entregasse o menino, perderia você também. Eles tinham poder e eu não não tinha nada além do amor. Ronaldinho sentiu os olhos arderem. Eu ajoelhei-me, Ronaldo. Supliquei, chorei, mas levei -o até ao portão e vi-o partir sem entender. Ele chorava, tu choravas e eu morri um pouco nesse dia. A carta terminava com uma única frase escrita em letras tremidas.
Se se lembrar dele, então fiz algo certo. Ronaldinho ficou em silêncio durante vários minutos. Quando levantou os olhos, Leléu ainda estava ali parado, respeitando o tempo do irmão. “Ela nunca se esqueceu de ti”, disse Ronaldinho com a voz embargada. Nem por um segundo. Leléu assentiu. E eu também nunca me esqueci dela.
No dia seguinte, Ronaldinho levou Leléu ao cemitério. Pararam diante do túmulo de dona Miguelina. Levaram flores, ficaram em silêncio. Leléu baixou-se, encostou a mão na lápide e sussurrou: “Obrigado por terme amado mesmo quando ninguém mais quis. No regresso, Ronaldinho tinha uma ideia.
pegou em todos os cadernos de Leléu e levou-os até uma pequena gráfica de um amigo de infância. Pediu que fossem digitados, corrigidos, organizados. Queria publicar, não em grande escala, mas para deixar registado. Alguns meses depois, o livro estava pronto. Título: O menino que ninguém viu. Autor: Manuel Leonardo de Sousa.
Na dedicatória a Miguelina, que me viu quando o mundo me apagou. Ronaldinho entregou o primeiro exemplar nas mãos do irmão e disse: “Agora ninguém se vai esquecer que tu exististe livro circulou discretamente nas escolas, ONG, bibliotecas comunitárias. Não foi capa de revista, mas mudou vidas. Os professores usavam trechos em salas de aula.
As crianças pediam para conhecer o autor e Leléu, sempre tímido, aprendeu a sorrir em público. Alguns anos depois, foi homenageado num evento social promovido por Ronaldinho. Subiu ao palco com o mesmo caderno nas mãos, aplaudido de pé. Não sou escritor nem herói”, disse. “Só sou alguém que por um tempo foi esquecido, mas que um dia, graças à um reencontro improvável, voltou a existir.
Ronaldinho, sentado na primeira fila, chorava sem esconder. Naquela noite, de volta à varanda de casa, os dois sentaram-se lado a lado, como nos tempos de infância. Partilharam um pão com margarina e riram-se das mesmas disparates. E então Lelé disse: “Sabe qual é a maior ironia, Dinho? Qual? Que o mundo inteiro te conhece como um génio com a bola nos pés.
Há coisa que não se joga pr os outros verem, se joga para lembrar quem somos. E dizem que às vezes ainda se vê um homem de caderno na mão a andar pelo gasómetro. Não para lembrar, mas para garantir que ninguém mais esqueça. E sabe porquê? Por quê? Porque este golo foi feito com o coração. O silêncio acomodou-se entre -os como um velho amigo.
E naquela noite, sob o céu de Porto Alegre, dois irmãos, de sangue ou não, celebraram o que a vida tentou apagar, mas a verdade insistiu em trazer de volta. M.