Ronaldinho Gaúcho Visita uma Prisão… E Descobre Que Um Detento Era Seu Melhor Amigo de Infância

O homem não respondeu de imediato. Olhou em redor como que confirmando que não havia saída. Depois, com um meio sorriso triste, disse: “Pensei que nem se ia lembrar.” O nome explodiu na mente de Ronaldinho como uma bola pontapeada contra o peito. O Marcelo, aquele miúdo do campinho de terra da infância, aquele que partilhava o mesmo ténis furado, que fazia de Ronaldinho treinar mesmo quando queria faltar, que dizia: “Vai, miúdo, se brilhares, brilhamos juntos”.

E depois desapareceu anos antes da fama, antes da seleção, antes de mais. Desapareceu. Agora estava ali preso, silencioso, um fantasma do passado, com carne e osso. “O que aconteceu contigo?”, sussurrou Ronaldinho, quase sem fôlego. Marcelo apenas baixou a cabeça. A vida. Mas Ronaldinho sabia que aquela resposta era apenas a porta de entrada de uma história que ainda precisava de ser contada e ele não sairia dali sem escutar.

O refeitório continuava cheio, mas Ronaldinho só via Marcelo. O mundo em redor parecia ter sido engolido por um silêncio denso, quase líquido. O craque sentia o coração pulsar nas têmporas, como se o próprio corpo tentasse dizer. “É preciso entender o que aconteceu.” “Desapareceste, pá”, disse, sem esconder a confusão na voz.

Um dia estavas lá, no outro mais ninguém ouviu falar de ti. Marcelo olhou para o chão, onde os sapatos gastos mal cobriam os dedos. Os seus ombros pareciam carregar mais do que o uniforme laranja da prisão. Eu não desapareci, Dinho. Só saí do caminho. Um desvio atrás do outro. Quando vi, já não havia volta a dar. A forma como pronunciou o Dinho atravessou o Ronaldinho como uma lâmina nostálgica.

Fazia anos que ninguém o chamava assim, nem sequer o irmão. Aquilo ativou algo que não sabia que ainda existia dentro de si. A memória viva daquele miúdo que um dia sonhou ser jogador, não pela fama, mas pela sobrevivência. “Foste o primeiro que acreditou em mim”, disse Ronaldinho, tentando conter a emoção. “Lembra-se quando eu queria parar porque toda a gente se ria do a minha forma de correr? Ficou até mais tarde só para me ensinar a rodar com o corpo.

” Marcelo sorriu, mas era um sorriso com fissuras. Não havia vaidade ali, apenas uma ponta de orgulho enterrada sob anos de lama. E você girava como ninguém. Parecia que flutuava, irmão. Eu sabia que ia dar certo para ti. E para ti, Marcelo, o que correu mal? Esta pergunta pairou no ar durante segundos demais. Marcelo mordeu o lábio inferior, olhou para o tecto, respirou fundo, depois recostou-se na parede fria do corredor e começou a falar.

Depois de o meu pai ter sido preso, a minha mãe passou-se. A casa tornou-se um lugar onde ninguém queria estar. Fui ficando mais na rua, mais com os rapazes errados. A escola já não me chamava e o campinho tornou-se lembrança. Quando começaste a jogar fora do bairro, fiquei contente de verdade, mas também senti que tinha perdido o último pedaço bom de mim.

Ronaldinho ouvia em silêncio, sentindo formar-se um nó na garganta. Nunca soube da prisão do pai de Marcelo. Nunca percebeu porque ele desapareceu. Na altura todos diziam coisas diferentes, que tinha ido para outra cidade, que tinha entrado para o tráfico, que estava morto. Tentei sair disto tudo algumas vezes.

Houve um tempo que arranjei trabalho num armazém e até pensei em escrever-te, mas depois veio um assalto, uma confusão, uma bala perdida, um amigo morto no meu lugar. A partir dali, tornei-me sombra. E agora? perguntou o Ronaldinho. Ainda quer sair dessa sombra? Marcelo não respondeu encostou imediatamente a cabeça na parede, fechou os olhos durante alguns segundos.

Depois abriu-os devagar, todo dia. Mas quando se passa demasiado tempo no escuro, a luz dói e às vezes nós prefere não sentir. Essas palavras colaram-se a Ronaldinho como suor em dia de treino. Ele compreendia o que Marcelo queria dizer. Talvez não da mesma forma, mas a outro nível. Lembrou-se das noites solitárias em hotéis de luxo, rodeado por pessoas que o admiravam, mas não o conheciam.

Das vezes em que se olhava no espelho e via apenas a camisola 10, não o menino da restinga. “Eu não vim aqui para ser orador de esperança”, disse Ronaldinho firme. “Eu vim porque acho que estava à tua procura mesmo sem saber.” Marcelo levantou o olhar. Pela primeira vez, os seus olhos brilharam, nem que fosse só por um instante. Você quer saber porque nunca mais falei contigo, não é, Ronaldinho? Apenas assentiu.

Marcelo abriu então a mão esquerda e tirou do bolso uma folha dobrada, amassada, velha. Estava escrita a caneta com uma letra tremida. Entregou a Ronaldinho sem dizer uma palavra. Ronaldinho desdobrou lentamente. No topo da folha, lia-se paradinho, se um dia eu não voltar. O ar escapou dos pulmões dele como um pontapé maldado.

A carta era curta, mas cada linha parecia pesar toneladas. Marcelo tinha escrito aquilo anos atrás, quando ainda acreditava que poderia desaparecer sem deixar rasto, mas não sem deixar algo ao amigo que considerava irmão. Se tu estiveres ler isto, é porque ou me encontraram ou eu me achei. Tu não me deves nada, Dinho.

Mas se um dia quiser saber porque Eu desapareci, começa por aqui. Nem todo o mundo nasceu para jogar no estádio. Alguns só tentaram não morrer no primeiro tempo. Ronaldinho sentiu as mãos tremerem. A folha parecia ter vida própria. Era mais do que o papel. Era um pedaço de história dele que faltava. Um capítulo que sempre ficou em branco.

Guardou a carta com cuidado. Olhou o Marcelo nos olhos. Eu ainda tenho jogo, irmão. E você também. Marcelo sorriu, desta vez sem rachaduras. Acha mesmo? A gente só perde quando deixa de correr. Ao longe, alguém chamou. Era o coordenador do evento avisando que o tempo da visita estava no fim. Ronaldinho olhou em redor. Não queria sair. Não, agora não.

Com essa história apenas a começar a ser contada. Eu volto, prometeu firme. Eu sei, respondeu o Marcelo. Desta vez eu acredito. O portão da penitenciária se fechou atrás de Ronaldinho com um estrondo metálico que reverberou mais no peito do que no ouvido. Lá fora, o céu já começava a nublar-se, como se até o clima compreendesse que algo dentro dele havia mudado.

No banco de trás do automóvel, o craque não dizia uma palavra. O assessor olhava pelo retrovisor, aguardando algum comentário, uma pergunta. qualquer coisa. Mas Ronaldinho apenas segurava a carta amassada de Marcelo entre os dedos, como quem transporta uma relíquia sagrada. Naquela noite, de regresso a Porto Alegre, não quis jantar, subiu logo para o quarto e trancou a porta.

Espalhou sobre a cama fotos antigas que ainda guardava numa caixa de sapatos, aquelas poucas imagens da infância antes da fama. Num canto da caixa encontrou uma fotografia amarelada onde ele e Marcelo estavam juntos a rir, cobertos de barro, ambos de chinelo, ambos com o mundo inteiro à sua frente. Ficou a olhar para aquela imagem por minutos que pareceram horas.

Onde foi que tudo se partiu? Pensava, porque ele nunca apareceu, nunca procurou, nunca tentou me encontrar. Mas no fundo sabia que a verdadeira questão era outra. Por que eu nunca o procurei? Era mais fácil dizer que o tempo separou, mais conveniente culpar a vida agitada, os contratos, as viagens. Mas a verdade era que Marcelo tinha sido empurrado para fora da história quando ela começou a dar certo.

E agora a história pedia para ser contada por inteiro. No dia seguinte, Ronaldinho acordou antes do sol. Havia algo dentro dele que pulsava, que pedia movimento. Ligou para a ONG e pediu autorização para visitar Marcelo de forma mais pessoal. Explicou que não queriam evento, nem máquina fotográfica, nem discurso.

Queria falar de verdade, conseguiram. Na segunda visita, Marcelo esperava-o na sala de leitura da penitenciária. Havia uma mesa de madeira com marcas de cigarros e uma estante com livros gastos. Ao vê-lo, Ronaldinho estendeu a mão, mas Marcelo abraçou-o. Não forte, não longo, mas o suficiente para dizer: “Estou aqui há mais coisa que tu precisas de saber, Dinho”, disse Marcelo, sentando-se devagar.

Coisa que eu escondi até de mim próprio por muito tempo. Ronaldinho apenas assentiu. Lembra-se do Robson? O nome caiu como pedra na água. Robson, o terceiro do trio indissociável do campinho. O mais velho, o mais rápido, o mais inconsequente. Lembro-me. Ele desapareceu antes de ti. Diziam que tinha entrado paraa facção e entrou, mas não sozinho. Eu fui com ele.

O o silêncio espalhou-se como fumo entre os dois. Ronaldinho sentiu a boca secar. Eu queria sair daquilo a sério, mas quando estás lá dentro, as portas não tm maçaneta do lado de dentro, percebe? E o que que aconteceu? Marcelo passou a mão pelo rosto, respirou fundo. A gente foi fazer um corre. Roubo de carga.

Era para ser rápido, sem violência, mas deu errado, muito errado. O motorista reagiu. O Robson disparou e eu fiquei. Tu foi preso por isso? Marcelo negou com a cabeça. O Robson desapareceu e eu assumi tudo. Disseram que se eu falasse a minha mãe ia pagar. Tinha 17. Fui direto para fundação, depois para a cadeia de adultos.

Ninguém esperou por mim, ninguém me defendeu. Ronaldinho fechou os olhos. Aquela história parecia coisa de filme, mas estava ali diante dele com voz, com cheiro, com dor. E depois, depois sobreviver tornou-se o meu trabalho. Fiquei anos calado. Até que um dia recebi uma carta era do Robson do outro lado do país.

Dizia que estava arrependido, que via os teus jogos e pensava em nós, mas que não podia voltar, que o nome dele estava marcado e que se eu conseguisse sair para viver por nós dois. Ainda tem essa carta? Queimei. No mesmo dia, Ronaldinho sentiu um misto de raiva e tristeza. queria culpar alguém, o Robson, a polícia, o sistema, mas tudo soava pequeno perto daquilo.

O que mais o incomodava era pensar em quantos Marcelos tinha deixado para trás. Por que me contou isso agora? Porque veio? Porque olhou-me nos olhos? E porque, pela primeira vez, pensei que talvez, talvez eu pudesse ser mais do que um número numa cela. Ronaldinho passou a mão no rosto. Lágrimas silenciosas escorriam, mas ele não as limpou.

Você já é sempre foi. Marcelo baixou a cabeça. Por um instante pareceu novamente o miúdo do campinho, tímido, sujo, mas cheio de sonho nos olhos. Posso pedir-te uma coisa? Claro. Leva-me lá no campinho só uma vez antes que me transfiram. Ronaldinho sorriu. Dessa vez sem dor. Sem dúvida. Vou fazer melhor. Vou tirar-te daqui.

Nem que tenha de mover o mundo. E nesse instante, ambos sabiam. O jogo estava longe de terminar. Nessa noite, Ronaldinho não dormiu. Ficou a olhar para o teto do quarto escuro, escutando os sons da rua, um carro ao longe, o ladrar de um cão, um vizinho a fechar a janela. Mas dentro da cabeça dele só havia uma coisa, Marcelo.

Não o homem preso, magro, com os olhos apagados, mas o menino de olhar vivo, que dizia: “Vai, Dinho” com a alma, o miúdo que partilhava pão com guaraná no intervalo dos treinos, que se ria com os olhos, que sonhava alto, mesmo com os pés descalços. Agora estava ali esquecido, escondido, e Ronaldinho não podia mais fingir que aquilo não o tocava.

Na manhã seguinte, levantou cedo, ligou para o advogado, para contactos da Secretaria de Justiça, para jornalistas amigos. Queria perceber como poderia ajudar o Marcelo, se houvesse alguma hipótese de revisão penal, de liberdade condicional, de reintegração. “Já cumpriu mais de 2/3 da pena?”, perguntou o advogado. Sim, e tem bom comportamento.

Portanto, é possível, mas precisa de alguém que assuma responsabilidade por ele. Um endereço fixo, uma ocupação. Ronaldinho respirou fundo. Eu assino. Ronaldo. Você sabe o que significa? Significa que chegou a minha hora de retribuir. Ele deu-me o primeiro passe. Agora é a minha vez. A notícia espalhou-se rápido. Os portais de internet noticiaram.

Ronaldinho Gaúcho quer reintegrar ex-colega de infância ao convívio social. Mas mais do que manchetes, o que começou a movimentar era algo muito mais profundo, uma rede de apoio. Antigos jogadores do bairro, professores da escola onde estudaram, até mesmo um técnico reformado que os treinou aos domingos. Todos se lembravam de Marcelo.

Todos se perguntavam: “Ele ainda está vivo?” Sim, estava, mas por pouco tempo. Na visita seguinte à penitenciária, Ronaldinho chegou com os papéis na mão, esperança no peito e uma ideia na cabeça. Fazer o reencontro no campinho acontecer. Ainda não sabia como, mas sabia que não podia esperar. Encontrou o Marcelo mais abatido.

Que foi? Vão-me transferir na próxima semana. Como assim? Reestruturação. Estão a fechar alas. vão mandar-me para o interior. Prisão com mais segurança. Ronaldinho sentiu um frio na espinha. Não, isso não pode acontecer. Já estou com os documentos. Já falei com o juiz. Mas vai dar tempo? O silêncio respondeu por ele.

À saída da prisão, Ronaldinho não foi para casa, foi direto pro campinho. O campo ainda existia, rodeado por edifícios mais altos, com as traves tortas e o mato a tomar conta das linhas. Mas estava lá na mesma, o mesmo cheiro a barro, o mesmo poste enferrujado, a mesma vedação com um buraco no canto.

Andou até ao meio do campo, ficou parado, olhou em redor e, por um segundo, teve uma visão. Três garotos correndo, dividindo a bola. rindo ele, Marcelo e Robson. O tempo não voltava atrás, mas a memória era insistente. Ligou para a câmara municipal, pediu permissão para um evento pequeno, um treino simbólico. Prometeu não chamar imprensa, só queria pisar ali com o irmão.

Só isso, conseguiu. Mas agora restava a parte mais difícil, ganhar tempo. Voltou a falar com o advogado, que conseguiu agendar uma audiência de emergência com o juiz de execuções. Aconteceria em dois dias. Ronaldinho escreveu uma carta pessoal ao magistrado. Disse que não estava a pedir favor, mas justiça, que conhecia o Marcelo, que confiava nele, que se responsabilizaria, que já tinha lugar, oportunidade, abrigo, que não era uma celebridade a tentar armar-se em herói, era apenas um rapaz de favela a tentar resgatar outro. A carta foi entregue.

Enquanto aguardava pela resposta, Ronaldinho voltou a dormir mal, mas não de culpa. Agora era a ansiedade, uma urgência que conhecia bem como antes de um jogo importante. Só que agora o golo não era dele, era a liberdade de alguém que o inspirou a pontapear a primeira bola. No dia da audiência, Ronaldinho foi pessoalmente.

Entrou na sala de fatos simples, sem câmaras, sem sorrisos, apenas com os olhos firmes. Marcelo não estava presente, apenas o seu advogado e o promotor. O juiz leu os documentos, leu a carta e depois falou: “Sabe, Sr. Ronaldo? O que mais me chamou a atenção aqui não foi o seu nome, foi a frase final da carta.

Algumas pessoas não são salvas pela justiça, são salvas pelo reconhecimento. Isto é raro e importante. Fez uma pausa. Vamos adiar a transferência e avaliar a progressão. O senhor terá responsabilidades, mas acredito que esteja disposto. Ronaldinho apenas assentiu com os olhos húmidos. Ao sair da sala, ligou imediatamente para Marcelo.

Você ainda quer pisar o campinho? Do outro lado da linha, só silêncio, depois uma respiração pesada. Mais do que tudo, então prepara-se, porque o próximo passe é teu. O portão da penitenciária abriu-se lentamente pela terceira vez, mas agora algo era diferente. Marcelo não saía como prisioneiro em trânsito, nem como réu sendo transferido.

Ele saía como alguém que estava a regressar. Mesmo que fosse por apenas algumas horas, mesmo que fosse com escolta discreta, mesmo que ainda fosse monitorizado, pisava fora da cela pela primeira vez em anos. Ronaldinho esperava-o do lado de fora, encostado a um carro simples, camisa branca e boné virado para trás. Quando viu o Marcelo surgir, abriu um sorriso de miúdo, como se nada do que o separasse tivesse mais força do que aquela que ainda os unia.

E aí, parceiro? Preparado para voltar ao campo? Marcelo hesitou por um instante, depois assentiu e, pela primeira vez em anos, sorriu sem medo. O percurso até ao bairro onde cresceram foi silencioso, mas cheio de significados. Os dois observavam as ruas, as esquinas, os bares que mudaram de nome, mas ainda guardavam a mesma alma.

Ao passar em frente à padaria da esquina, onde comprava um pão dormido para fazer misto na frigideira, Marcelo soltou uma gargalhada baixa. Ainda vem de fiado? Só se mostrar o golo de placa no telemóvel, respondeu Ronaldinho, rindo também. Quando chegaram ao campinho, o tempo pareceu recuar. Nada ali estava perfeito.

O mato alto, a trave torta, a rede rasgada. Mas era ali. Aquele era o lugar onde tudo começou, onde nasciam sonhos, mesmo sem futuro garantido, onde as chuteiras eram emprestadas e os golos eram gritados como final da Taça. Marcelo saiu do carro devagar, como quem pisa num santuário. Os seus olhos varreram o espaço com cuidado, como se confirmasse que aquilo não era ilusão. “Está igual”, murmurou.

Ou nós é que nunca saímos daqui”, respondeu Ronaldinho. No centro do campo havia uma bola nova, branca, limpa, um presente de Ronaldinho, mas sem laço, sem cartão, apenas a bola, como um oferta silenciosa de recomeço. “Vamos!”, Marcelo tirou o chinelo, sentiu o barro debaixo, fechou os olhos e respirou fundo. Depois chutou a bola levemente e ela voltou.

Ronaldinho parou, dominou com o peito, rodou o corpo e riu. Ainda lembra-se? Isso nunca se esquece. Ficaram ali a jogar por alguns minutos, sem plateia, sem redes sociais, sem câmaras. Apenas dois miúdos envelhecidos pela vida, resgatando a única coisa que nunca perderam, o instinto de jogar. Sabe, Dinho? Pensei que nunca mais fosse ver isso, que o mundo lá fora tinha esquecido de mim, que o meu nome só ia estar em papel de processo.

Ronaldinho olhou-o nos olhos. Sério? Você nunca foi apenas um nome. Foste o início da a minha história. E toda a história merece ser contada por inteiro. Marcelo baixou o olhar. A emoção subia como maré, mas não queria chorar ali, não ali, onde tudo era tão puro. No banco de betão ao lado do campo, Ronaldinho abriu uma mochila e tirou uma camisa.

Era azul clara, com o nome Em Santos nas costas e o número sete. Para quando sair de vez? Marcelo pegou na camisola como se fosse um troféu, passou os dedos pelas letras. Isto é sério? Mais do que final da Libertadores. E o que é que eu faço agora? Primeiro volta, cumpre o que falta, depois começa.

Marcelo assentiu, mas antes de se levantar tirou do bolso algo embrulhado em plástico. Entregou a Ronaldinho com as mãos trémulas. Lembra disso? Era uma pequena medalha de alumínio com o número 10 riscado com canivete. Era o troféu que usavam quando marcavam o golo mais bonito da tarde. Quem ganhava guardava até ao próximo jogo.

Pensei que tinha perdido isso disse Ronaldinho, surpreendido. Nunca perdi. Só estava à espera do dia certo para devolver. Ronaldinho segurou a medalhinha com força. Era leve, quase insignificante, mas pesava como uma vida inteira. Assim, acho que é a tua vez de segurar de novo. O Marcelo sorriu. Dessa vez sem qualquer dor no fundo dos olhos.

Obrigado por não me esqueceres. Eu me esqueci-me, mas agora já não me esqueço. O céu começava a escurecer. Era a hora de ir. Mas antes, os dois ficaram mais alguns minutos em silêncio, olhando para o campo, como quem olha para um espelho antigo. À saída, Marcelo virou-se uma última vez.

Posso pedir uma coisa? Manda. Quando eu sair, será que dá para gente vir aqui outra vez? Ronaldinho sorriu. A gente vem, mas desta vez com os miúdos assistindo. Passaram 22 dias desde o reencontro no campinho. 22 dias de ansiedade, papelada, silêncio tenso. Ronaldinho acompanhava cada movimento do processo de Marcelo com a mesma intensidade com que um jogador acompanha o tempo extra em final de campeonato.

Só que agora não era um jogo, era a vida real, era a liberdade. Na tarde da decisão, Ronaldinho estava em casa sentado no sofá, televisão desligada, telemóvel nas mãos. Cada segundo era uma eternidade. Então, finalmente, o telefone vibrou. era o advogado. Foi concedido. Ele sai amanhã oficialmente. Ronaldinho não respondeu de imediato, apenas fechou os olhos, deixou o corpo afundar-se no sofá e sorriu silenciosamente.

No dia seguinte, o céu amanheceu claro. Marcelo saiu da penitenciária sem algemas, sem escolta, apenas com um saco de plástico nas mãos e a camisola azul clara que Ronaldinho lhe dera dobrada sobre o ombro. Lá fora, o craque esperava-o, encostado no mesmo carro simples de antes. E aí, livre? Marcelo olhou para o céu, respirou fundo e respondeu: “Pela primeira vez, o trajeto foi curto.

Ronaldinho levou-o até uma casa térrea, simples, mas arrumada, um pequeno quarto nas traseiras, espaço para uma cama, uma mesa e um estante. Era provisório, mas era começo. Nos dias seguintes, Marcelo começou a trabalhar como assistente num projeto social com adolescentes em situação de risco. passava as tardes a ajudar os miúdos a treinar, mas principalmente a conversar.

Era respeitado não por ser famoso, mas por ser real, por conhecer a dor sem livro, a queda sem rede. Ronaldinho observava-o de longe, às vezes participando nos treinos, outras vezes apenas ouvindo as histórias. Marcelo contava com humor os tempos em que corria mais da polícia do que da bola. Os meninos riam e ouviam. Um dia, durante um desses treinos, um miúdo magro de voz rouca, perguntou: “Tio Marcelo, já foste mesmo preso?” Silêncio.

Marcelo respirou fundo e respondeu: “Já, mas ser preso não é o pior. O pior é esquecer quem eras antes disso e deixar de acreditar no que podes virar depois.” O miúdo ficou em silêncio, depois sorriu. Naquela noite, Ronaldinho e Marcelo sentaram-se na varanda da casa. O céu estava limpo, cheio de estrelas. Tinham acabado de jantar arroz, feijão e salsicha frita, como nos velhos tempos.

“Tu já pensaste em escrever isto tudo?”, perguntou Ronaldinho. Escrever é contar a tua história, registar. Marcelo riu-se. E quem ia querer ler a vida de um quase? Ronaldinho olhou para ele. Sério? Você não é um quase. Você é um ainda e ainda tem muito para viver. Silêncio. Depois, Marcelo tirou do bolso uma folha dobrada.

Comecei ontem, mas ainda estou no primeiro parágrafo. Ronaldinho pegou na folha, leu, estava escrito: “Chamam-me do Marcelo, mas durante muito tempo me chamaram de erro. Hoje talvez seja início.” Ele sorriu. Isto é golo de placa, irmão. Dias depois, os dois regressaram ao campinho, mas desta vez havia algo de diferente. Um grupo de miúdos os esperava.

A bola já estava no meio do campo. Quando Ronaldinho e Marcelo chegaram, todos gritaram: “Professor, professor!” Marcelo ficou paralisado por um segundo. Ronaldinho apenas lhe deu uma palmada leve nas costas. “Vai lá, eles são teus agora.” Marcelo caminhou até ao centro do campo. Os meninos organizaram-se em duas equipas. A bola rolada.

Ronaldinho ficou no canto, observando. O solha lentamente, tingindo o céu de laranja. E ali, naquele chão de terra batida, ele compreendeu algo que nenhuma taça, nenhum título, nenhuma fama lhe tinha mostrado. Nem todo o passe decisivo acontece em campo. Alguns são dados no silêncio, na escuta, no ato de voltar e dizer: “Não foste esquecido”. Marcelo marcou um golo.

Os meninos correram na sua direção. Ele sorriu, levantou os braços e, por um instante, era só alegria. Ronaldinho fechou os olhos e respirou fundo. A última trava da chuteira, finalmente, estava no lugar. M.

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