“1 anos é mais tempo que muitos realizadores.” Sílvio riu-se, fazendo todos à volta sorrirem também. “E como é que se chama?” “Mlene, senhor. Marlene Oliveira”. A Dona Marlene, muito obrigado pelos vossos serviços todos estes anos. São pessoas como você que fazem esta casa funcionar. Aquele breve momento ficaria para sempre na memória da dona Marlene.
O que ela não esperava era que à saída encontraria novamente com o apresentador. Estava distraída, tirando os convites do batizado da mala para entregar aos colegas da limpeza, quando Sílvio passou novamente pelo corredor a caminho da saída. “O que são estes papéis coloridos, dona Marlene?”, perguntou com genuína curiosidade. “São são convites para o batizado do meu neto, senhor”, respondeu ela constrangida.
O Artur, o meu primeiro netinho, vai ser batizado no domingo. Sílvio pegou num dos convites e leu com interesse. Os seus olhos brilharam por um momento antes de devolver o papel à dona Marlene. Que Deus abençoe o seu neto, dona Marlene. A família é o bem mais precioso que temos na vida. Quando ele se afastou-se, um dos assistentes aproximou-se da dona Marlene e pediu um dos convites.
“O patrão gostou de si”, disse piscando um olho. “Nunca se sabe.” Dona Marlene voltou para casa nessa noite com o coração leve. Contou à filha sobre o encontro com Silvio Santos, mas omitiu o pormenor do convite. Não queria criar expectativas. Na sexta-feira, dois dias antes do batizado, a dona Marlene foi chamada à sala da coordenação de recursos humanos.
“Marlene, recebemos um pedido em comum”, disse a coordenadora Dra. Sandra. O senor Abravanel pediu informações sobre o batizado do seu neto. A Dona Marlene sentiu o coração acelerar. Como assim? Ele ficou tocado com a sua dedicação todos estes anos e, principalmente, com a forma como se falou do seu neto.
Ele quer enviar uma lembrança para o batizado. No domingo de manhã, a pequena igreja de Santo António estava decorada com arranjos simples de flores brancas. Juliana, vestida com um fato azul claro, segurava o pequeno Artur nos braços, enquanto Eduardo, orgulhoso, cumprimentava os convidados que chegavam.
A Dona Marlene, usando o seu melhor vestido, um modelo floral que guardava para ocasiões especiais, observava tudo com lágrimas nos olhos. A cerimónia estava prestes a começar quando três luxuosos carros pretos pararam em frente à igreja. Os convidados curiosos observaram quando seguranças abriram a porta do carro do meio.
Para espanto geral, apoiando-se em uma bengala, Silvio Santos desceu do veículo. A igreja inteira ficou em silêncio. A Dona Marlene não conseguia acreditar no que via. O apresentador, acompanhado por uma das suas filhas, caminhou lentamente até à entrada, onde foi recebido pelo padre António, visivelmente impressionado. “Vim abençoar o neto da dona Marlene”, anunciou Sílvio com aquele sorriso que era a sua marca registada.
uma funcionária que representa o valor do trabalho honesto que sempre defendi. A Dona Marlene, paralisada pela emoção, só conseguiu mexer-se quando Silvio se aproximou-se dela. Senor Abravanel, eu não Nunca imaginei, dona Marlene, durante toda a minha vida sempre acreditei que devemos reconhecer as pessoas que fazem a diferença silenciosamente.
A senhora é uma dessas pessoas. A cerimónia de batizado ganhou um brilho especial. Silvio Santos permaneceu sentado na primeira fila ao lado de sua filha, observando tudo com respeito e atenção. Quando o padre convidou os padrinhos a aproximarem-se com os pais e o bebé, Silvio Santos levantou-se e caminhou até ao altar.
Padre, com a autorização dos pais, gostaria de oferecer uma lembrança ao pequeno Artur. Entregou um envelope a Eduardo, que abriu-o com mãos trémulas. Dentro havia um certificado de poupança em nome de Artur, com um valor que garantiria os seus estudos futuros e uma carta manuscrita. “Todo o brasileiro merece a oportunidade de estudar e realizar os seus sonhos”, disse o Sílvio com a voz embargada.
Este é o meu presente para o Artur, mas a minha verdadeira homenagem é para a dona Marlene, que representa milhões de brasileiros que constroem este país com trabalho árduo e honestidade. Não havia um olho seco na igreja. O padre, emocionado, continuou a cerimónia enquanto a dona Marlene tentava processar o que estava a acontecer.
A sua vida simples de repente se cruzara com a de uma das maiores personalidades do país, de uma forma que nunca poderia imaginar. Após a cerimónia no modesto salão paroquial, Sílvio Santos permaneceu por mais algum tempo, conversou com os convidados, tirou fotografias e, principalmente, conversou longamente com a dona Marlene.
“Sabe, dona Marlene, Comecei por vender canetas nas ruas do Rio de Janeiro”, contou. “Nunca esqueci de onde vim e dos valores que me trouxeram até aqui. Trabalho, honestidade e respeito pelo próximo. Ver pessoas como a senhora dá-me a certeza de que estes valores continuam vivos no coração do brasileiro. Quando o Sílvio finalmente se despediu, deixou mais do que um presente material.
deixou uma lição sobre humildade e reconhecimento que transformaria para sempre a vida daquela família e de todos os que testemunharam aquele momento. Naquela noite, enquanto Ninava o Neto para dormir, a dona Marlene refletia sobre como a vida podia surpreender. Nos seus 18 anos a limpar os estúdios da SBT, nunca tinha imaginado que um dia Silvio Santos estaria no batizado do seu neto, transformando não só o futuro de Artur, mas ressignificando todo o seu trabalho e dedicação.
“Viu só, meu anjinho?”, sussurrou ela para o neto que dormia tranquilamente. O seu batizado teve a bênção de um homem que começou do zero e conquistou o Brasil com trabalho e alegria. Que cresça com estes mesmos valores no coração lá fora. A chuva que ameaçava cair durante todo o dia finalmente desabou sobre São Paulo. No interior do pequeno apartamento no Capão Redondo, o calor da esperança e da a gratidão aquecia os corações daquela família, para quem um domingo comum havia-se transformado em um dia inesquecível. Na manhã seguinte ao
batizado, a notícia já circulava pelos corredores da SBT. Viram que o Sílvio foi ao batizado do neto da dona Marlene? O burburinho crescia a cada hora. E quando a dona Marlene chegou ao trabalho, foi recebida com aplausos pelos colegas de limpeza e produção. “Marlene, você está famosa”, brincou Aparecida e a supervisora, mostrando no telemóvel uma nota num portal de notícias que mencionava a presença de Silvio Santos no batizado numa igreja da periferia.
Não havia fotos. Os seguranças haviam sido rigorosos quanto a isso, mas a história já ganhava contornos de lenda urbana. Foi um milagre, Sida, respondeu dona Marlene, ainda emocionada. Nunca imaginei que ele iria mesmo aparecer. Enquanto limpava os escritórios administrativos nessa manhã, a dona A Marlene foi chamada à sala da presidência.
Com o coração acelerado, ela ajeitou o uniforme e seguiu a secretária pelos corredores espelhados do último andar. A Dona Marlene, disse Daniela Beiruti, uma das filhas de Sílvio e alta executiva da estação. Meu pai ficou muito sensibilizado com o batizado de ontem. Ele pediu para lhe entregar isso. Era um cartão manuscrito com a caligrafia inconfundível de Sílvio Santos.
Dona Marlene, obrigado por me lembrar que a grandeza está nas coisas simples e verdadeiras. O seu trabalho silencioso mantém a nossa casa a funcionar há 18 anos. Pessoas como você são o verdadeiro coração do Brasil. Com gratidão, Sílvio Santos. Junto ao cartão, havia um convite para um almoço na semana seguinte em casa da família Abravanel.
Mas não posso aceitar isso, gaguejou a dona Marlene. Eu sou apenas uma empregada de limpeza. A Daniela sorriu com os mesmos olhos meigos do pai. Dona Marlene, se há coisa que aprendi com o meu pai, é que não existe apenas antes de qualquer profissão. O meu pai começou por vender canetas na rua. Ele diz sempre que não é o que fazemos, mas como o fazemos, que determina o nosso valor.
Nessa noite, ao chegar a casa, a dona Marlene encontrou o pequeno apartamento cheio. Juliana tinha convidado alguns amigos e familiares para ver as fotos do batizado e contar sobre a incrível presença de Sílvio Santos. “Mãe, tu não vai acreditar”, disse Juliana excitada. A coordenadora do hospital onde trabalho viu a notícia e chamou-me para conversar hoje.
Ela disse que quer conhecer mais a nossa história. Eduardo, que trabalhava como técnico de informática numa pequena empresa no bairro, mostrava orgulhoso as poucas fotos que conseguiram tirar com o Sílvio Santos. Dona Marlene”, disse o seu Joaquim, “Um vizinho idoso que sempre fora como um pai para ela após a morte do marido.
” “Este homem é um exemplo para o Brasil. Comecei a assistir ao programa dele quando ainda era a preto e branco e agora está nas fotos do batizado do seu neto. É de não acreditar.” Enquanto a pequena sala se enchia de vozes animadas, a dona Marlene observava tudo com um sentimento misto de alegria e incredulidade. Como um simples encontro no corredor dos estúdios tinha desencadeado tudo isso.
na quarta-feira seguinte, vestida com o seu único conjunto social, uma saia e blazer bege que usara no casamento de Juliana, a dona Marlene foi levada por um motorista até à mansão dos Abravanel, no Morumbi. A imponência da residência fez o seu coração apertar. “O que estou a fazer aqui?”, pensou enquanto o carro passava pelos portões de segurança.
Foi recebida no jardim por Iris, outra das filhas de Sílvio, que a conduziu até uma mesa na varanda, onde o apresentador já a aguardava. Aos 94 anos, num ambiente mais íntimo, Sílvio parecia ainda mais carismático, com aquele brilho nos olhos que cativara gerações de brasileiros. Dona Marlene, que bom que aceitou o nosso convite”, disse, levantando-se com alguma dificuldade em recebê-la.
“Venha, sente-se aqui. Quero conhecer melhor a história da senhora.” Durante o almoço, servido por funcionários discretos, o Sílvio fez perguntas sobre a vida da dona Marlene, como havia perdido o marido tão jovem, como criara a filha sozinha, como conseguira o emprego no SBT.
Escutava cada resposta com genuíno interesse, por vezes acenando com a cabeça, outras fazendo novas perguntas. “Sabe, dona Marlene”, disse ele após ouvir como trabalhara como doméstica em três casas diferentes para pagar o curso técnico de enfermagem da filha? A sua história lembra-me muito a da minha mãe.
Ela também fez de tudo para dar uma vida melhor para os filhos. São mulheres como a senhora que constroem este país. No final da refeição, o Sílvio pediu que um assistente trouxesse uma caixa antiga de madeira entalhada. Dona Marlene, Quero mostrar algo à senhora. De dentro da caixa, retirou uma caneta esferográfica simples, já sem tinta. Esta foi uma das primeiras canetas que vendi nas ruas do Rio.
Guardo como recordação de onde vim. Cada vez que olho para ela, recordo que a vida é feita de recomeços e que ninguém se deve envergonhar das suas origens. Dona Marlene observava a caneta com reverência, como se fosse uma relíquia sagrada. “Senhor Abravanel, o senhor é um exemplo para todos nós.” Sílvio sorriu com aquela expressão característica que misturava alegria e sabedoria.
Não, dona Marlene, as pessoas como a senhora são o exemplo. Eu apenas Tive mais visibilidade, mas foram os valores que aprendi com pessoas simples e trabalhadora que me guiaram toda a vida. Fez uma pausa tomando um gole de água antes de continuar. Toda vez que alguém me pergunta qual é o segredo do sucesso, digo a mesma coisa: trabalho duro, honestidade e tratar bem as pessoas. Não existe uma fórmula mágica.
A senhora trabalha há 18 anos na mesma função, com dedicação, sem reclamar. Isto vale mais que qualquer diploma pendurado na parede. Antes de se despedirem, Silvio Santos fez um pedido inusitado. Dona Marlene, na próxima semana Vou gravar um programa especial sobre histórias inspiradoras de brasileiros comuns.
Gostaria muito que a senhora participasse. A fachineira sentiu o sangue fugir do rosto. Eu na televisão, mas não tenho nada de especial para mostrar, senhor. Sílvio soltou a sua gargalhada característica. Ah, mas tem, sim. A senhora tem a história mais brasileira que existe, a de alguém que, apesar de todas as dificuldades, nunca desistiu e criou uma filha que se tornou enfermeira.
Isto é o Brasil que dá certo, dona Marlene, e o país precisa conhecer essas histórias. No domingo seguinte, o auditório do programa Silvio Santos estava lotado, como sempre. O apresentador, com o seu microfone característico, comandava a plateia com a mesma energia que o tornara famoso, apesar da idade avançada. Hoje temos um programa especial”, anunciou após o tradicional Quem Quer dinheiro.
Vamos conhecer brasileiros comuns com histórias extraordinárias de superação. Para surpresa geral, o primeiro nome anunciado foi o de Marlene Oliveira. Tremendo da cabeça aos pés, a dona Marlene foi conduzida para o palco, onde Sílvio a recebeu com um abraço caloroso. Esta é A senhora Marlene, que trabalha há 18 anos na limpeza dos nossos estúdios, apresentou ele.
E vou contar-vos porque a considero uma heroína brasileira. Com a sensibilidade que sempre demonstrou ao conduzir entrevistas, Silvio foi orientando dona Marlene a contar a sua história. A perda precoce do marido, as dificuldades para criar a filha sozinha, os três empregos simultâneos para pagar a faculdade da Juliana e agora a alegria de ser avó.
Amplateia ouvia em silêncio, muitos com lágrimas nos olhos. Quando O Sílvio perguntou qual tinha sido o momento mais difícil da sua vida, a dona Marlene hesitou por um instante. Foi quando a minha Juliana adoeceu com pneumonia grave aos 12 anos respondeu ela com a voz embargada. Eu não tinha dinheiro para os medicamentos caros. Limpei três casas extra nessa semana, dormindo apenas 4 horas por noite.
Mesmo assim, faltava dinheiro. Foi quando a proprietária de uma das casas onde eu trabalhava, ao saber da situação, não só comprou os medicamentos, como me apresentou a um médico que tratou a minha filha de graça. Sílvio sentiu-a emocionado. E foi aí que a senhora decidiu que a sua filha seria enfermeira. Sim, senhor.
Naquele dia prometi que a minha filha teria estudo para um dia ajudar outras pessoas, como aquele médico ajudou-nos. No final da entrevista, Silvio fez mais uma das suas surpresas características. convidou a Juliana, o Eduardo e o pequeno Artur para subirem ao palco. A jovem enfermeira, agora a trabalhar na ala pediátrica de um hospital público da zona sul, não conteve as lágrimas ao abraçar a mãe diante das câmaras.
Dona Marlene, disse o Sílvio, a senhora sempre tratou da limpeza dos nossos estúdios com o mesmo carinho que cuidou da sua família. Pessoas como a senhora são o alicerce silencioso que sustenta não apenas o SBT, mas o Brasil. Por isso, Quero anunciar que a partir de hoje a senhora será promovida a supervisora geral de serviços na SBT, com um salário que reflete a sua dedicação e experiência.
A plateia explodiu em aplausos. Dona Marlene, incapaz de falar, apenas abraçou o apresentador que continuou. E tem mais. Em homenagem à sua história de superação, estamos a criar o projeto Marlene, que oferecerá bolsas de estudo completas para filhos de funcionários de serviços gerais da SBT.
Naquele momento, milhões de brasileiros a assistir ao programa em casa puderam testemunhar algo raro. Sílvio Santos, o comunicador que sempre manteve o controlo das suas emoções em décadas de televisão com lágrimas nos olhos. Sabe, Brasil”, disse ele, olhando diretamente para a câmara. “Sempre acreditei que a verdadeira riqueza de um país não está nos seus edifícios ou nas contas bancárias dos mais ricos.
Está nas Marlenes, que acordam cedo todos os dias e fazem o seu trabalho com dignidade, sem esperar reconhecimento ou aplausos. Nos dias que se seguiram, a história da dona Marlene tornou-se viral nas redes sociais. Reportagens foram feitas, entrevistas concedidas. De repente, a fachineira do Capão Redondo tornara-se um símbolo de perseverança e dignidade.
[pigarreia] Mas para a dona Marlene, a maior mudança não estava na súbita fama, nem mesmo na promoção inesperada. Estava na percepção de que a sua vida, que sempre considerara comum e sem grandes feitos, tinha inspirado nada menos do que Sílvio Santos. o homem que inspirara o Brasil inteiro. Numa manhã de domingo, semanas após toda a agitação, a dona Marlene estava em casa com o neto Artur ao colo quando recebeu uma chamada de Daniela Beiruti.
A Dona Marlene, o meu pai Gostaria de falar com a senhora, se possível. Ao atender o telefone, a voz inconfundível de Sílvio soou do outro lado da linha. A Dona Marlene, só queria agradecer novamente. Sabe, às vezes nós que estamos tanto tempo sobolofotes esquecemo-nos das coisas realmente importantes. Conhecer a senhora e o seu a história reconectou-me com os valores que sempre defendi.
A senhora fez-me lembrar de onde vim e por comecei. Depois de desligar o telefone, a dona Marlene ficou em silêncio, contemplando o neto que brincava alegremente no tapete da sala. Como poderia imaginar que a sua vida simples serviria de inspiração para um dos homens mais bem-sucedidos do país? Nessa noite, ao adormecer o Artur, ela sussurrou para o neto: “Sabia que o maior ensinamento que recebi na vida do senhor Abravanel? Ele mostrou-me que não importa o que faz, mas como o faz, e que cada história, por mais simples que pareça, tem valor. Nunca se esqueça que,
meu pequeno. Lá fora, a mesma São Paulo agitada continuava o seu ritmo frenético, indiferente às pequenas histórias que se desenrolavam em cada casa, em cada família. Mas dentro do coração da dona Marlene havia agora a certeza de que mesmo as vidas aparentemente comuns podem tocar outras vidas de formas extraordinárias.
Afinal, como sempre dizia Silvio Santos nos domingos brasileiros, quem quer dinheiro? Mas o que a dona Marlene descobriu é que para além do dinheiro, o que as pessoas realmente querem é reconhecimento, dignidade e a hipótese de inspirar os outros com a sua própria história. Seis meses se passaram desde o batizado que mudara a vida da família oliveira.
O pequeno Artur, agora com um ano e meio, dava os primeiros passos firmes pelo apartamento, que, graças à promoção da dona Marlene, tinha agora um quarto só para ele, decorado com motivos coloridos e educativos. A Juliana havia sido promovida a enfermeira chefe da ala pediátrica, muito pelo reconhecimento de seu trabalho, mas também pela visibilidade que a história da sua família ganhara após a aparição no programa Silvio Santos.

Eduardo, seu marido, conseguira uma vaga como técnico de TI no próprio SBT, depois de a dona Marlene mencionara as suas capacidades durante uma reunião de departamento. Era uma manhã de novembro, quando a dona Marlene, agora supervisora de serviços gerais, foi chamada com urgência à sala da presidência.
O seu coração acelerou instantaneamente. Não era comum receber tais convocatórias, mesmo com a sua nova posição. Dona Marlene, disse Daniela Beirut com os olhos vermelhos. O meu pai não está bem. Os médicos estão com ele em casa, mas ele pediu para a ver. O mundo pareceu rodopiar sob os pés da dona Marlene. Nos últimos meses, tinha desenvolvido uma relação especial com Silvio Santos.
O apresentador convidava-a regularmente para tomar café no seu camarim antes das gravações, interessado em saber como andava o projeto Marlene e, principalmente, como crescia o pequeno Artur. Ele está, ele vai. Dona Marlene não conseguia formular a questão. Os os médicos estão a fazer o possível, respondeu a Daniela com a voz embargada.
Mas o meu pai insistiu em vê-la. disse que tem algo importante para conversar. Uma hora depois, a dona Marlene entrava na mansão do Zabravanel, onde o clima era de apreensão contida. foi conduzida ao quarto onde repousava Silvio Santos, rodeado por equipamentos médicos e por algumas das suas filhas.
Ao vê-la, o rosto cansado do apresentador se iluminou com aquele sorriso característico, embora mais fraco. “Dona Marlene, que bom que veio”, disse com a voz rouca, mas ainda transportando aquela cadência inconfundível. Venha, sente-se aqui perto. As filhas se afastaram-se discretamente, deixando os dois a sós.
Senor Bravanel, o senhor vai ficar bom depressa, disse a dona Marlene, segurando a mão do apresentador, tentando conter as lágrimas. Sílvio sorriu com aquela sabedoria tranquila de quem viveu intensamente cada dia dos seus 94 anos. Dona Marlene, todos nós temos o nosso tempo e tive o privilégio de viver cada segundo do meu, mas não a chamei aqui para falarmos sobre isso.
Com algum esforço, pediu-lhe que abrisse a gaveta da mesa de cabeceira. Dentro havia um envelope com o timbre da SBT. Quero que a senhora entregue isto ao seu neto Artur quando este completar 18 anos disse o Sílvio. É uma carta que escrevi para ele, contando como a história da a sua família mudou a minha perspetiva nos os meus últimos anos de vida.
Dona Marlene pegou no envelope com mãos trémulas. Mas porquê dar-me isso agora, senhor? O senhor mesmo poderá entregar quando Artur crescer. Silvio Santos soltou uma riso fraco, mas genuíno. Dona Marlene, Sou otimista, mas também sou realista e quero ter a certeza de que esta mensagem chegará até ele.
Fez uma pausa para recuperar o fôlego antes de continuar. Sabe, passei a vida inteira a entreter as pessoas, fazendo-as sorrir aos domingos. Construí um império do entretenimento. Mas nos últimos meses, graças à senhora, redescobriu o valor das coisas simples, das histórias verdadeiras. do trabalho honesto feito com amor.
Os seus olhos, ainda brilhantes, apesar da idade e da doença, fixaram-se nos da dona Marlene. A senhora fez-me lembrar porque comecei não foi pelo dinheiro ou pela fama, foi pelo desejo de criar algo que fizesse a diferença na vida das pessoas, que levasse alegria aos lares brasileiros. A Dona Marlene já não conseguia conter as lágrimas que escorriam livremente por o seu rosto.
O senhor fez muito mais do que isso. O senhor inspirou gerações de brasileiros a acreditar que é possível vencer na vida com o trabalho e honestidade. Sílvio apertou suavemente a mão da dona Marlene e é por isso que quero que o seu neto receba esta carta quando for jovem, para que ele saiba que a sua avó, uma mulher que começou por limpar estúdios, inspirou um velho apresentador a regressar às suas raízes e lembrar-se do que realmente importa na vida.
Dois dias depois, na madrugada de um domingo, dia que para sempre estaria associado à sua imagem, Silvio Santos faleceu tranquilamente, rodeado pela família. A notícia correu o país como um vendaval, provocando como nacional. Figuras públicas, artistas, políticos e milhões de brasileiros anónimos manifestaram o seu pesar pela perda de um dos maiores comunicadores da história do país.
O velório, realizado no teatro imprensa do SBT, recebeu uma multidão. Filas quilométricas formaram-se ao redor do complexo de estúdios em Osasco. Pessoas de todas as idades, classes sociais e regiões do país vieram prestar a sua última homenagem ao homem que tinha entrado nas suas casas durante décadas, trazendo alegria aos domingos brasileiros.
A Dona Marlene, vestida formalmente de preto, foi recebida pela família Abravanel com o carinho de quem já fazia parte do círculo íntimo. Posicionada junto ao caixão durante parte da cerimónia, ao lado das filhas do apresentador, recebia olhares curiosos de quem se perguntava quem seria aquela senhora simples em posição tão destacada.
Ele gostava muito da senhora”, sussurrou Patrícia Abravael, uma das filhas mais conhecidas de Sílvio, enquanto se seguravam as mãos em um momento de particular emoção. Nos últimos meses, falava da senhora e do pequeno Artur quase todos os dias. A cobertura mediática foi massiva. Em todas as as emissoras, mesmo nas concorrentes, a notícia ocupava quase toda a programação.
Reportagens especiais recordavam a trajetória do menino pobre que vendia canetas nas ruas do Rio de Janeiro e se transformara num dos maiores empresários e comunicadores do Brasil. Numa dessas reportagens exibida em rede nacional, a história do batizado do neto da empregada de limpeza foi destacou-se como um dos últimos grandes gestos públicos de Silvio Santos.
Imagens do apresentador na pequena igreja de Santo António, captadas discretamente por telemóveis dos presentes, ganharam o Brasil. E para surpresa da dona Marlene, vários Os veículos de comunicação tentavam entrevistá-la. “Não entendo porque querem falar comigo”, disse ela a Juliana durante um raro momento de descanso em casa, dois dias após o funeral.
Eu não era ninguém importante na vida dele. Juliana, a embalar o Artur no colo, sorriu para a mãe com ternura. Mãe, a senhora não percebe? O Brasil inteiro está a comentar como nos últimos meses de vida Silvio Santos resgatou as suas origens humildes através da sua história. Como a senhora o voltou a ligar com os valores que sempre defendeu na TV? Eduardo, que entrava na sala com um tabuleiro de café, acrescentou: “Dona Marlene, estão a chamar a senhora de A última grande inspiração de Silvio Santos.
Dizem que foi através do batizado do Artur e da sua história de vida que encontrou paz nos últimos meses. Uma semana após o falecimento, quando o país ainda processava a perda, A dona Marlene foi convidada para uma reunião com toda a direção da SBT. Nervosa, preparou-se com o seu melhor conjunto, o mesmo que utilizara para o almoço na mansão dos abravanel meses antes.
No imponente salão de reuniões, com vista para todo o complexo de estúdios, estiveram presentes as filhas de Silvio, executivos de alto nível e até mesmo alguns apresentadores famosos da casa. A Dona Marlene, começou Daniela Beiruti, agora oficialmente à frente da emissora. Gostaríamos de partilhar algo com a senhora antes de anunciarmos publicamente.
Ela abriu uma pasta e retirou um documento com o timbre oficial do grupo Silvio Santos. Este é o último projeto que o meu pai aprovou pessoalmente três dias antes de nos deixar. Pediu que fosse mantido em segredo até hoje. Era um documento detalhando a criação da Fundação Silvio Santos para a Educação e Trabalho Digno, uma instituição sem fins lucrativos que ofereceria formação profissional e bolsas de estudo para famílias de baixo renda.
E deixou instruções muito específicas”, continuou Daniela com a voz embargada pela emoção. Ele queria que a senhora dona Marlene Oliveira fosse a primeira presidente do conselho consultivo desta fundação. A Dona Marlene sentiu o chão desaparecer sob os seus pés. Eu, mas, mas eu não tenho formação. Não sei nada sobre gerir uma fundação.
Patrícia Abravanel, sentada ao lado da irmã, interveio com amabilidade. Dona Marlene, o meu pai escreveu especificamente que queria alguém que compreendesse, por experiência própria, o valor do trabalho honesto e da educação como ferramentas de transformação. Alguém que viveu na pele as dificuldades que a fundação pretende combater.
Além disso, acrescentou Daniela, a senhora não estará sozinha, terá todo o apoio necessário de profissionais experientes. O meu pai queria que a senhora fosse a voz e o coração do projeto. Naquela noite, de regresso ao seu apartamento no Capão Redondo, que agora planeava trocar por um mais espaçoso, porém ainda no mesmo bairro onde vivera toda a sua vida.
Dona Marlene sentou-se na pequena varanda, observando as luzes da periferia paulistana. Como a sua vida tinha mudado tanto em tão pouco tempo. “Mãe”, chamou Juliana, juntando-se a ela com uma chávena de chá. Em que está a pensar? Em como a vida dá voltas, filha. Há um ano eu era apenas a empregada de limpeza do estúdio 3, preocupada se conseguiria pagar a festa do batizado do Artur.
Agora estão a pedir-me para presidir ao conselho de uma fundação criada por Silvio Santos. Juliana sorriu pegando nas mãos da mãe entre as suas. E a senhora merece cada oportunidade, mãe. A senhora trabalhou arduamente toda a vida, criou uma filha sozinha, nunca perdeu a dignidade, mesmo nos momentos mais difíceis.
Se há alguém que entende o que significa superar obstáculos com trabalho e honestidade, esse alguém é a senhora. Três meses depois, num evento transmitido em direto pela TV, a Fundação Silvio Santos para a Educação e Trabalho Digno foi oficialmente lançada para o palco principal do teatro imprensa, totalmente remodelado para a ocasião, a senhora Marlene, vestida com uma elegância simples, preparava-se para fazer o seu primeiro discurso público, olhando para a plateia, onde estavam celebridades, empresários, políticos ep principalmente
os primeiros 500 beneficiários selecionados para o programa de bolsas, muitos deles funcionários de serviços gerais de várias empresas e dos seus filhos. A Dona Marlene sentiu um frio na barriga. Na primeira fila, Juliana segurava Artur ao colo enquanto Eduardo a filmava com o telemóvel.
Ao lado deles, as filhas de Silvio Santos aguardavam com expressões de genuíno apoio. “Boa noite”, começou a dona Marlene com a voz trémula que se foi firmando aos poucos. “O meu nome é Marlene Oliveira. Até há pouco tempo atrás, eu era conhecida apenas como a empregada de limpeza do SBT, cujo neto recebeu a visita de Silvio Santos no batizado.
“Hoje estou diante de vós para dar início a um projeto que tenho certeza seria o orgulho do senhor”. Abravanel. Respirando fundo, ela continuou. Conheci o Silvio Santos quando já estava nos seus últimos meses de vida. Mas, mesmo nesse momento, o que mais me impressionou foi como ele nunca esqueceu as suas origens humildes, como ele fazia questão de lembrar que começou vendendo canetas nas ruas, que conheceu a pobreza e a dificuldade, e os seus olhos percorreram a plateia antes de prosseguir.
Esta fundação nasce para honrar este legado, para lembrar que o O Brasil é feito de milhões de pessoas que, como eu, acordam cedo todos os dias para trabalhar com dignidade. Pessoas que muitas vezes não têm oportunidades de estudo ou de crescimento profissional, mas que nunca perdem a esperança de dias melhores para os seus filhos.
A plateia ouvia em silêncio respeitoso. Na primeira fila, Patrícia Abravanel discretamente enxugava uma lágrima. O Senhor Abravanel ensinou-me nos nossos poucos, mas profundos encontros que não importa o que faz, mas como faz, que a dignidade está em realizar qualquer função com amor e dedicação. E é isso que queremos incentivar nesta fundação, a valorização do trabalho honesto, seja ele qual for, e o acesso à educação como ferramenta de transformação.
No final do seu discurso, que durou pouco mais de 10 minutos, a dona Marlene foi aplaudida de pé, mas o momento mais emocionante ainda estava por vir. Patrícia Abravanel subiu ao palco com um objeto coberto por um tecido aveludado. Dona Marlene, o meu pai deixou instruções específicas para que este objeto fosse entregue hoje na inauguração da fundação.

Ao remover o tecido, revelou-se um quadro emoldurado, protegido por vidro. Dentro dele estava uma simples esferográfica, a mesma que Silvio tinha mostrado à dona Marlene durante aquele almoço na mansão. Esta é uma das primeiras canetas que o meu pai vendeu nas ruas do Rio de Janeiro”, explicou Patrícia emocionada. Era seu bem mais precioso, o seu talismã pessoal.
E deixou escrito que deveria ficar permanentemente exposta na sede da fundação, como símbolo de que todos os começos são humildes, mas que com trabalho e honestidade é possível construir grandes sonhos. Dona Marlene, incapaz de conter as lágrimas, apenas abraçou Patrícia enquanto a plateia aplaudia novamente.
Nos anos que se seguiram, a Fundação Silvio Santos prosperou sob a orientação da dona Marlene. Milhares de jovens de famílias de baixo rendimento receberam bolsas de estudo integral desde o ensino fundamental até à universidade. Programas de formação profissional foram criados em parceria com grandes empresas e seguindo a filosofia do fundador, todos os beneficiários eram incentivados a um dia retribuírem à sociedade de alguma forma.
O pequeno Artur cresceu acompanhando a trajetória da avó, que se tornara uma figura respeitada no terceiro setor. Aos 10 anos de idade, já compreendia o valor da história que ligava a sua família ao lendário comunicador. Numa tarde de domingo, exatamente 10 anos após o falecimento de Silvio Santos, dona Marlene, agora com o cabelo completamente brancos, mas ainda enérgica, levou Artur para visitar o Memorial Silvio Santos, instalado no antigo teatro da imprensa.
Diante da estátua em tamanho real do apresentador, com o seu icónico microfone na mão e o sorriso característico, a dona Marlene contou novamente ao neto a história que mudara as suas vidas. Avó”, perguntou o Artur, “Agora, um miúdo de 11 anos, estudioso e observador. A senhora acha que ele sabia que ia mudar tanto a a nossa vida quando decidiu ir ao meu batizado?” A Dona Marlene sorriu acariciando os cabelos do neto.
Acho que ele não foi a pensar em mudar as nossas vidas, Artur. Foi porque algo na nossa história tocou-lhe o coração. E isso é o mais importante que aprendi com o Sílvio Santos, que devemos estar abertos a ser tocados pelas histórias das pessoas à nossa volta, principalmente aquelas que normalmente passariam despercebidas.
Caminhando pelo memorial, chegaram a uma ala dedicada aos últimos anos de vida do apresentador. Aí, para surpresa e emoção da dona Marlene, havia uma grande foto do batizado de Artur com Sílvio Santos sorridentes ao lado da família Oliveira, na pequena igreja de Santo António. Baixo da foto, uma placa explicava um dos últimos atos públicos de Silvio Santos, o batizado do neto de uma funcionária de limpeza da SBT que inspirou a criação da Fundação Silvio Santos para a educação e trabalho digno.
“Avó”, disse Artur, lendo atentamente a placa. Quando for grande, quero trabalhar na fundação e ajudar os outros pessoas, como o senhor Abravanel ajudou a gente. A Dona Marlene abraçou o Neto com o coração transbordante de gratidão e esperança. É isso que ele gostaria de escuta, meu anjo.
Que o seu gesto de generosidade continue a inspirar novas gerações. Ao saírem do memorial, o céu de São Paulo exibia um pôr-do-sol espetacular, pintando o horizonte de laranja e cor-de-rosa. A Dona Marlene olhou para o céu e sorriu como se agradecesse silenciosamente ao homem, que com um simples gesto de humanidade havia transformado não só a vida do seu família, mas de milhares de outras pessoas através do legado que deixara.
Obrigada, senor Bravanel, sussurrou ela para o vento. O senhor ensinou-nos que a verdadeira riqueza está na forma como tratamos as pessoas que nos rodeiam, especialmente aquelas que parecem invisíveis aos olhos da sociedade. naquele momento, em algum lugar do universo, talvez Silvio Santos estivesse a sorrir com aquela expressão característica, satisfeito por saber que a sua caneta esferográfica, símbolo de um começo humilde, continuava a escrever histórias de esperança e transformação no coração do Brasil. M.