Estava a chegar a um ponto crítico financeiramente. O dinheiro que tinha investido estava a acabar rápido com rendas, fornecedores, salários. E se as coisas não mudassem, logo, ia ter que fechar antes de completar seis meses de funcionamento. Naquela noite, especificamente, o André tinha-se trancado na sua sala para rever as contas e tentar encontrar alguma solução, enquanto Eline ficava sozinha no salão vazio, arrumando mesas que ninguém ia usar.
Eline trabalhava ali desde o primeiro dia de funcionamento. Tinha sido a primeira funcionária que André contratou, porque ela tinha experiência em restaurantes e passava confiança. Nos primeiros meses, ela acreditou que o movimento ia melhorar, que era só questão de tempo até o passa-palavra espalhar e os clientes começarem a aparecer.
Mas à medida que as semanas passavam e o restaurante continuava vazio, começou a preocupar-se com o próprio emprego. Foi nessa altura que decidiu ter aulas de piano, pensando que se perdesse aquele trabalho, talvez podiam tocar em bares ou eventos para ganhar dinheiro. Sempre olhava para o piano do restaurante com vontade de tocar, mas nunca tinha tido coragem de perguntar para o André se podia, porque achava que ele ia achar falta de profissionalismo ou que ela estava a perder tempo ao invés de trabalhar.
Aquela noite, vendo o restaurante vazio mais uma vez e o André fechado na sala, provavelmente sofrendo com as contas, decidiu que ia tocar, nem que fosse apenas uma vez. Eline começou a tocarme de motivo, com cuidado, tentando não fazer muito barulho, mas à medida que ganhava confiança, os dedos fluíam melhor pelas teclas e o som ficava mais cheio.
Estava tão concentrada na música que não se apercebeu quando a porta da frente do restaurante abriu-se e um homem gordo de óculos escuros e camisa florida entrou lentamente. Tim Maia tinha passado em frente ao tempero em companhia várias vezes nas últimas semanas porque vivia perto dali.
achava sempre curioso como aquele lugar estava vazio, sendo que tinha boa aparência, e estava numa localização excelente. Naquela noite estava a caminhar pela rua quando ouviu o som de um piano a tocar a sua própria música e a curiosidade foi maior do que qualquer outra coisa. Entrou no restaurante, viu aquela empregada de uniforme sentada ao piano tocando com dedicação e ficou parado perto da porta apenas ouvindo e observando a técnica dela.
O Tin ficou parado perto da entrada, observando tocar durante quase um minuto inteiro, impressionado com a técnica que ela tinha desenvolvido e com a escolha de tocar precisamente aquela música dele. O restaurante tinha uma iluminação suave e acolhedora que deixava o piano em destaque. E Tin notou que, apesar do lugar estar vazio, tudo estava impecavelmente arrumado e limpo.
Quando Helene terminou a primeira execução completa e recomeçou do início, Timhou lentamente até ao piano, tirando os óculos escuros e colocando-os no bolso da camisa. Heleine estava tão concentrada nas teclas que só se apercebeu da presença dele quando Tim parou ao lado do piano e disse tranquilamente: “Tocas muito bem para alguém tão nova menina.
Há quanto tempo tocas piano?” Helene levou um susto, deixou de tocar na altura e quando olhou para cima e viu quem era, sentiu o coração disparar completamente. Era o Tim Maia, o próprio compositor da música que ela estava a tocar ali parado do lado dela no restaurante vazio. Conseguiu apenas gaguejar nervosa.
Eu, desculpa, não sabia que estava aqui alguém. Eu só estava Tim sorriu e fez um gesto com a mão pedindo calma. Relaxa, não se não fez nada de errado. Ouvi da rua e entrei para ver quem estava a tocar a minha música num piano a sério. Helene se levantou-se rapidamente do banquinho, nervosa, tentando explicar que trabalhava ali como empregada de mesa, que fazia aulas de piano há alguns meses, que nunca tinha tocado aquele piano antes porque não tinha autorização do dono.
ouviu tudo pacientemente sem interromper e quando ela acabou de falar perguntou: “E se eu te pedir para tocares outra vez, mas desta vez canto junto, topas?” E Leine arregalou os olhos sem acreditar no que estava a ouvir. “Queres cantar aqui agora comigo a tocar?” confirmou Tin sorrindo. Quero. Há tempo que não canto.
Dê-me motivo ao vivo assim de improviso. E quando ouvi tu a tocar da rua, senti vontade de cantar de novo. O Nanerine olhou para o redor para o restaurante vazio. Pensou no André fechado na sala a rever contas e decidiu que aquela era uma oportunidade única que não se ia repetir nunca mais na vida. Pode cantar, eu toco.
Eline sentou-se de novo no banquinho, as mãos a tremerem ligeiramente de nervosismo e começou a tocar a introdução da música, tentando manter a calma. Tin ficou de pé do lado do piano numa posição relaxada. Esperou pela hora certa de entrar e começou a cantar com aquela voz potente e cheia de sou que todo o mundo conhecia das rádios.
A primeira coisa que Helene notou foi como a voz dele transformava completamente a música. dava peso e emoção que ela nunca tinha conseguido imaginar só ouvindo as gravações em disco. O Tin cantava com os olhos fechados, completamente entregue à interpretação. Ela teve de se concentrar muito para não errar as notas, porque estava impressionada demais com o que ali se passava.
O som do piano e da voz de Timenchiam todo o salão vazio do restaurante, escapavam pela porta aberta que dava para rua e chegavam até à movimentada calçada lá fora, onde as pessoas caminhavam sem pressa. As primeiras pessoas que passavam na calçada abrandaram o passo, ao inconfundível vindo de dentro do restaurante.
Um casal que estava caminhando parou à porta, espreitou para lá dentro com curiosidade e viu Tim Maia cantando ao lado de um piano enquanto uma empregada tocava. Entraram devagar, sem fazer barulho, sentaram-se numa mesa próxima da entrada e ficaram ali a ouvir em completo silêncio. Outras pessoas que passavam na rua foram parando também, atraídas pela voz e pelo piano, curiosas para saber de onde vinha aquela música ao vivo.
E quando viam que era o Tim Maia de verdade, a cantar num restaurante praticamente vazio, entravam sem pensar duas vezes. Numa questão de 5 minutos, já estavam umas 10 pessoas sentadas nas mesas, todas em silêncio absoluto, prestando atenção à apresentação improvisada. Mas gente continuava chegando, algumas ficando de pé perto da porta, porque as mesas já estavam começando a ocupar.
O André estava na sala dele, olhando para as contas no papel, quando ouviu vozes e movimento no salão, algo que não acontecia há semanas inteiras. Levantou-se da cadeira confuso, achando que estava a imaginar coisas. abriu a porta devagar e quando viu o restaurante com várias pessoas sentadas nas mesas e Tim Maia a cantar ao lado do piano enquanto Eline tocava, ficou completamente paralisado, sem conseguir processar o que estava a acontecer.
Mas gente continuava a entrar pela porta. O salão que estava vazio há 10 minutos agora tinha quase todas as mesas ocupadas e toda a gente prestava atenção naquela apresentação ao vivo, como se tivessem pago bilhete para ali estar. O André ficou parado à porta da sala observando a cena surreal, vendo o seu restaurante finalmente cheio de clientes pela primeira vez desde que tinha aberto e percebendo que aquilo estava a acontecer por causa daquela combinação improvável entre a sua empregada de mesa tocando piano e Tim Maia, que tinha aparecido do
nada. O Tin terminou de cantar a música completa. O restaurante explodiu em aplausos entusiásticos e ele agradeceu sorrindo e fazendo uma ligeira vénia antes de olhar para Helene e dizer: “Vamos tocar mais uma? Este pessoal merece.” Tin e Eline tocaram mais dois músicas nessa noite. O restaurante continuou a encher até não caber mais ninguém e o André teve de improvisar cadeiras extra para acomodar todo mundo que queria entrar.
As pessoas que estavam ali não só ouviam a música, como começaram também a pedir comida e bebida. E pela primeira vez desde que tinha aberto, o André viu as mesas cheias de clientes a comer os pratos que ele preparava com tanto cuidado. Quando o Tin finalmente terminou a última música e agradeceu os aplausos, aproximou-se do O André, que ainda estava meio em choque observando tudo, e disse: “A comida aqui é boa, porque eu tenho fome e queria experimentar.
” André respondeu ainda processando a situação. É sim, a comida é excelente, pode pedir o que quiser, é por minha conta. Tim abanou a cabeça recusando. Nada disso, eu pago. Mas me explica uma coisa. Por que razão um restaurante deste nível fica vazio toda a a noite? André suspirou e admitiu que não compreendia, que tinha investido tudo que havia naquele local, mas os clientes simplesmente não apareciam antes daquela noite.
Tin sentou-se numa mesa, pediu um prato que o André recomendou e, enquanto comia, conversou com o dono sobre o restaurante. explicou que tinha passado várias vezes à frente e achou sempre estranho o lugar estar vazio, sendo que tinha boa localização e aparência, mas que nunca tinha entrado, porque restaurante vazio significa geralmente que tem algo de errado.
“O problema não é a comida, nem o ambiente”, disse Tim entre garfadas, “É que as pessoas têm medo de ser as primeiras. Todo o mundo quer ir onde já tem movimento. Ninguém quer arriscar entrar num lugar vazio. Sugeriu que o André colocasse música ao vivo algumas noites por semana. Nem precisava ser gente famosa, só alguém a tocar piano ou guitarra para criar atmosfera e atrair gente da rua.
Olhou para Helene, que estava do outro lado do salão, servindo as mesas cheias, e disse: “Essa sua empregada de mesa toca bem. Se você deixá-la tocar todos os dias, aposto que o movimento melhora.” O André ouviu tudo atentamente, agradeceu os conselhos e quando Tim se foi embora duas horas depois, ficou a pensar em tudo o que tinha ouvido.
Na semana seguinte, o André conversou com a Helene e propôs-lhe que tocasse piano no restaurante toda a noite das 7 às 9, recebendo um adicional no salário. Hen aceitou de imediato, entusiasmada com a oportunidade de tocar profissionalmente. Nas primeiras noites, o movimento não foi tão grande como tinha sido com Tim Maia ali, mas aos poucos as pessoas começaram a aparecer atraídas pelo som do piano, entravam para jantar, gostavam da comida e regressavam trazendo amigos.
Em dois meses, o tempero em companhia tinha tornou-se um dos restaurantes mais procurados daquela zona de Copacabana, conhecido pela excelente comida e pela pianista ao vivo que tocava todas as noites. O André conseguiu pagar todas as dívidas que tinha acumulado, devolveu o dinheiro que os pais tinham emprestado e finalmente começou a lucrar com o negócio que tanto tinha sonhado.
Eline tornou-se uma atração fixa do restaurante, parou de trabalhar como empregada de mesa e passou a ser apenas pianista. e anos mais tarde abriu uma escola de música própria a ensinar piano para crianças e adultos. Essa história ensina-nos que deixa oportunidades passarem todos os dias porque têm medo do que os outros vão pensar ou porque acha que não é o momento certo.
A Eline podia ter ficado só a limpar aquele piano pro resto da vida, sem nunca tocar de verdade, esperando a perfeita permissão que talvez nunca viesse, mas tomou coragem num momento de restaurante vazio e mudou completamente a sua vida e a do André. Também tem habilidades que nunca usa porque não tem o cenário ideal.
O público garantido, a aprovação de todos antes de começar. Fica esperando o momento perfeito para mostrar o que sabe fazer. E enquanto isso, o tempo passa e você continua guardando o talento dentro de uma gaveta. Mas a verdade é que a oportunidade não bate na porta anunciada com antecedência. Ela parece disfarçada de risco, de improviso, de fazer algo que não tem a certeza se vai resultar.
E muitas vezes quem beneficia da sua coragem não é só você, é toda a gente à volta que depende do seu talento para prosperar também. Como o André, que quase fechou o restaurante porque não tinha percebido que a solução estava na funcionária que limpava o piano todos os dias. Então, para de esperar pela situação perfeita para fazer o que sabe fazer.
Deixa de pedir permissão para usar o talento que já tem e compreende que às vezes tudo o que precisa é de 3 minutos de coragem para mudar toda a sua vida e a vida de quem está ao seu redor. Toma a decisão, senta-se no banquinho e toca a música, mesmo que o lugar esteja vazio, porque nunca se sabe quem vai passar na rua e entrar para ouvir.
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