OS LUXOS DEIXADOS POR ANTÔNIO MARCOS APÓS A SUA MORTE — AUGE E QUEDA DO MAIOR GALÃ DA JOVEM GUARDA

Deixa-me fazer-te uma pergunta. Você lembra-se desta música? Como vai? Eu preciso saber da sua vida. Vai você? Vamos aplaudir. Eu preciso de saber da sua vida. Aquela de domingo  à tarde que tocava no rádio do carro, no gira-discos da sala, no casamento, no fim do namoro. Tô quase certo que ela passou pela vida de muita gente que está aqui comigo agora.

Quem escreveu aquilo foi um rapaz chamado António Marcos. E não parou nessa não. Foi dele também  o homem de Nazaré. Tudo o que ensinou O homem de Nazaré,  aquela que a festa inteira cantava juntos, que gente que nem ia à igreja saía a cantar.  Ei, irmão, vamos seguir com fé. Voz de veludo, cabelo apanhado para trás.

 O tipo de galã que parava a novela e fazia a casa inteira prestar atenção ao ecrã. Um menino que saiu de uma casa pobre em São Miguel Paulista e em poucos anos tornou-se um dos homens mais admirados do Brasil. Mas a vida do António Marcos não foi só palco e aplauso, não. Teve subida vertiginosa, teve  fortuna, teve amor a mais e teve queda daquelas que dóem de ver.

 E no fim dela ficou uma questão que pouca gente parou para responder. O que restava de tudo aquilo, deste homem que teve o mundo na mão, o que de facto ficou para trás quando ele se foi? É essa a história toda que eu quero contar-lhe hoje. Não só o final, toda a vida, de onde veio, como é que ele chegou lá acima, o que é que ele viveu e o que aconteceu a tudo no dia em que as luzes se apagaram.

 E para essa história fazer sentido, precisamos voltar ao  início de tudo. Anos 40, uma casa apertada onde se costurava roupa aos outros para pagar as contas e um menino que ainda nem sonhava com o que o esperava. São Miguel Paulista, 8 de novembro de 1945.  Naquele tempo era um lugar muito pobre na ponta leste de São Paulo, rua de terra batida, casa colada à outra, gente trabalhadora que acordava cedo e dormia cansada.

 E foi ali numa dessas casas que nasceu António Marcos Pensamento da Silva. Repara só no nome do meio, pensamento. Não é à toa, não. A mãe dele  era costureira e escrevia poesia nas horas vagas. O pai era alfaiate. Imagina a cena. O homem da fita métrica ao pescoço cortar tecido pros outros.

 A mulher na máquina de costura com a cabeça cheia de verso e no meio daquilo tudo oito filhos para criar. O António era o segundo. Casa  de pobre dos anos 40 e 50. Sabe como era. Pouco espaço, pouco dinheiro,  muita boca para alimentar. Então o menino começou a trabalhar cedo, como toda a gente da idade dele começava.

Antonio Marcos - 22/09/2017 - Banco de Dados - Fotografia - Folha de S.Paulo

 foi office boy de um banco a correr para a cidade de papel na mão. Depois foi caixeiro numa loja de sapatos, atendendo clientes o dia inteiro, coisa de quem  precisava de ajudar dentro de casa, não de quem tinha o luxo de só estudar.  E bom aluno, não era, vou-lhe dizer, matava a aula que era uma beleza, mas não era para fazer arte por aí.

 Era para fugir para o cinema ou para se sentar na esquina com os amigos e a guitarra inventando poesia, soltando a voz. Custou a terminar os estudos. Só que havia uma coisa naquele rapaz que não passava despercebida.  Sempre que tinha uma formatura na escola, sabe quem chamavam para cantar? Ele todas as vezes.

 A voz era tão bonita que correu  o bairro e logo lhe colaram um apelido que dizia tudo, a voz de ouro de S. Miguel. E foi essa voz, essa mesma que ninguém pagava nada para ouvir na esquina,  que ia tirar o miúdo pobre daquele bairro e jogar mesmo no meio dos grandes. A viragem começou em 1966.

O António juntou três amigos e formou um grupo denominado Os Iguais. E olha que coisa boa do destino. Logo no primeiro disco, emplacaram um sucesso. O miúdo que cantava de graça na esquina estava agora a gravar, a tocar no rádio, ouvindo a própria voz sair daquele aparelho que era o centro da casa de  todo o brasileiro naquela época.

 Mas o melhor estava ainda por vir. Dois anos depois, deixou o grupo e decidiu seguir sozinho. O primeiro compacto, youou  honesto, não foi lá essas coisas. Passou meio batido. Aí pode pensar: “Pronto, acabou antes de começar”. Só que não. No disco seguinte, gravou uma canção chamada Tenho um amor melhor que o seu.

 E depois, meu amigo, a coisa explodiu. O disco vendeu mais de 300.000 cópias. Para terem ideia do tamanho disso, numa época sem internet,  sem streaming, sem nada, vender 300.000 1 cópias era encher camião de disco e despachar para o Brasil inteiro. Era sucesso de quem veio para ficar. E ele não era só voz, não. Era figura.

 Bonito, alto, cabelo atirado para trás. Aquele tipo que a câmara adorava. Não demorou a televisão perceber. Ele começou a  aparecer ao lado de outros galãs da época num programa chamado Os Galãs Cantam e Dançam. E adivinha quem apresentava? Sílvio Santos. Aquele mesmo, António Marcos cantando e a dançar no palco do Silvio com o país inteiro a assistir.

 Em 1969 veio o Carimbo definitivo. Ele subiu no festival de MPB da TV Record, que naquele tempo era a coisa mais importante que tinha na música brasileira, o lugar onde se  decidia quem era realmente grande e arrecadou o prémio de melhor intérprete. Pronto. Dali para a frente não teve mais quem segurasse.

 Veio a novela, veio cinema, veio o teatro. O menino da loja de sapatos era agora a galã de televisão. Fazia uma mulher desmaiar. Tinha o nome estampado em cartaz. Em muito poucos anos, saiu da esquina de São Miguel e chegou ao topo de tudo. E quando  o dinheiro começou a entrar, depois meu amigo, começou outra história.

Porque dinheiro o António Marcos passou a ganhar de uma maneira que ninguém da rua dele tinha visto na vida. O dinheiro entrava em mala. Isto não é força de expressão, não. Gente que conviveu com conta que era mesmo assim, mala de dinheiro depois dos concertos. E o que um rapaz pobre de São Miguel, que um dia trabalhou de Office Boy, faz e quando de repente o dinheiro entra desta maneira, ele gasta e gasta grande.

  Começou pelos automóveis. O primeiro carro novo dele foi um Ford Corcel de luxo, que naquele tempo já era sinal de gente que tinha vencido na vida. Mas o Corcel era só  o início. Numa viagem pro exterior, o homem trouxe um Ferrari. Isso mesmo que ouviu, um Ferrari importada numa época em que o brasileiro comum poupava anos para comprar um Carocha Zero.

  E aqui vem a parte que é de abanar a cabeça sem acreditar. Conta-se que bateu essa Ferrari. Perda total. O carro virou ferro retorcido. Ia pensar que era o fim, que ia demorar anos para ele se recuperar de um prejuízo daquele, pois em 15 dias o homem já conduzia outra igualzinha, 15 dias. O brasileiro comum levava a vida inteira a sonhar com um carro.

 Ele trocava Ferrari batido como quem muda de camisa. Para a casa foi do mesmo tamanho.  Quando viveram com a atriz Débora Duarte, eles foram para uma mansão no Morumbi que saiu até em revista. E que mansão? Tinha piscina, tinha campo de futebol, society dentro do terreno, sofá de veludo na sala, bar feito de aço escovado.

 Imagina um miúdo que cresceu numa casa apertada de alfaiate, agora a bater bola no campo do próprio quintal, da casa colada à do vizinho para a mansão com campo de futebol. Era esse o tamanho do salto e tinha a vaidade. O António O Marcos era caprichado que só ele, o O closet dele era um negócio de impressionar, terno  de todo o tom que imaginar.

 Bota fina, enfileirada. E tinha uma mania curiosa. Quando gostava de uma roupa, não comprava uma, comprava  cinco, seis, a mesma peça, em cores diferentes. Foi mesmo um dos primeiros homens a usar macacão masculino no Brasil. Numa época em que isso era ousadia pura. Olha só o tamanho disto para você guardar.

 Um homem que bateu um Ferrari, perdeu o  carro inteiro e em 15 dias comprou outra igual, enquanto o brasileiro lá fora apanhava autocarros lotados para ir trabalhar. Este era o padrão de vida do António Marcos no auge. Vida de milionário, sem poupar um cêntimo, gastando como se aquilo nunca mais ia acabar. Só que tem uma coisa nisto tudo que talvez seja o lado mais bonito da história, porque todo este dinheiro que ele torrava, boa parte nem era para ele, era para os outros.

 Há uma coisa que toda a gente que conheceu o António Marcos fala e fala com a voz embargada. Aquele homem não tinha apego a dinheiro nenhum, ganhava como milionário, mas não segurava nada na mão. O que entrava saía e muitas vezes saía para o bolso dos outros. Conta a história que se um amigo chegasse para ele a dizer que estava duro, sem  um tstão, o António não pensava duas vezes.

 Metia a mão no bolso, tirava todo o o dinheiro que tinha na carteira ali na hora e entregava tudo. Não era uma nota para ajudar, era o que tivesse, sem contar, sem perguntar, quando ia receber de volta. e não se ficava pelos amigos, não. Havia gente que ele nem conhecia direito. Comprava comida boa, daquelas de restaurante caro e saía a distribuir para quem estava na rua, para quem não tinha o que comer.

 Imaginem o galã de novela, o homem da Ferrari, parando para dar o seu almoço a um sujeito qualquer na calçada.  Mas o caso mais impressionante é o do taxista. Olha só essa. O António estava num bar e tinha um taxista ali ao lado a queixar-se da vida, lamentando que as coisas estivessem difíceis, que mal dava para sustentar a casa.

 Sabe o que fez o António Marcos? Deu o seu próprio carro de presente ao homem. O carro dele de presente para um taxista que tinha acabado de conhecer num balcão de bar. E aqui dá para parar um segundo e pensar, há quem olhe para ele e veja um santo, um coração do tamanho do mundo, um homem que não se esqueceu de onde veio e que sentia na pele a dor de quem não tinha nada, porque ele já tinha sido aquele que não tinha nada.

 Mas há também quem olhe e veja um homem que não sabia cuidar de si mesmo, que dava  tudo aos outros e não guardava nada para a hora que a maré virasse. E olhe, a maré ia virar. As duas leituras  cabem e vou deixá-lo decidir qual delas é a sua. Porque esse mesmo modo de não se prender a nada,  de viver como se a festa nunca mais ia acabar, estava prestes a cobrar uma  conta e ela ia chegar da forma mais cruel possível.

 Os anos 80 chegaram e com eles veio aquela coisa que ninguém no auge quer acreditar que um dia acontece. O telefone começou a tocar menos, os hits deixaram de vir. Os convites paraa novela, para o cinema, foram rareando até quase desaparecer. O mundo é assim, vai atrás do que é novo. E o António, que tinha sido o queridinho de todos, foi devagarinho saindo dos holofotes.

 E não tem queda mais dura  do que a de quem já lá esteve no alto. E aqui a história torna-se triste de contar, porque nestas alturas, quando a fama arrefece, é que se descobre quem tava do o seu lado de verdade.  E muita gente que rodeava o António não estava ali pelo melhor.

 Conta-se que, em vez de mão amiga, o que lhe apareceu muito foi bebida e droga.  Pessoas oferecendo, empurrando e ele fragilizado, sem o chão firme que a fama dava, foi afundando. O álcool virou o dono dele. E não foi pouco, não. Foi uma briga feia daquelas que a pessoa trava e perde várias vezes. Ele  internou, tentou parar, saía, voltava a beber, internava de novo.

 O corpo foi cobrando. Três enfartes ao longo daqueles anos. Três. E o homem ainda continuava na luta contra aquilo que não largava dele. Chegou a um ponto de cortar o coração. O António Marcos, que enchia uma mala de dinheiro, que dava Ferrari e carro de presente, chegou num ponto em que mal tinha para comer, aquele mesmo.

  A bebida tomou conta a tal ponto que começou a faltar nos próprios espetáculos. Simplesmente não tinha condições para subir ao palco. E aí entra um pormenor desta história que talvez seja a coisa mais bonita e mais  triste ao mesmo tempo. Lembra da Vanusa, a cantora com quem foi casado? Pois, mesmo já separada dele havia anos quando o António não conseguia cantar, sabe quem subia para o palco para cobrir a ausência dele? Ela, a Vanusa, a ex-mulher, a segurar a barra do homem, que  já tinha sido o grande amor dela, para o público não ficar

sem espectáculo, para ele não ficar sem o cachê. Há amor que não acaba mesmo quando o casamento acaba, mas o corpo tem limite. E o do António Marcos estava chegando ao dele, porque em Abril de 1992 ia chegar a notícia de que o Brasil não queria receber. E com ela a pergunta que deu origem a este vídeo. Morre em São Paulo o cantor e compositor António Marcos.

 Estava internado no Hospital Osvaldo Cruz e teve uma crise aguda do fígado. 5 de abril de 1992, António Marcos morre em São Paulo, internado no hospital Osvaldo Cruz. O fígado não aguentou. Anos e anos de bebida cobraram a conta final.  Tinha só 46 anos. 46.Um homem que podia ainda ter pela frente outras tantas décadas de vida e de música.

 foi embora cedo demais. Nessa tarde, às 3 horas, saiu o cortejo até ao cemitério na zona sul da cidade  e apareceu gente. Centenas de fãs foram despedir-se daquelas pessoas que cresceram a ouvir a voz dele,  que namoraram ao som das músicas dele, que ali choraram como se tivessem perdido alguém de casa.

 O galã se foi e o Brasil parou um instante para sentir. Mas é exatamente aqui que a gente chega àquela pergunta que ficou no ar lá no início. E eu quero que tu pensa comigo agora  com calma. Esse homem teve um Ferrari. Trocou outro Ferrari acidentado em 15 dias. Morou numa mansão no Morumbi com  piscina e campo de futebol.

 Teve closet de fazer inveja. Encheu mala de dinheiro a vida inteira. Depois, quando ele fechou os olhos naquele hospital,  a questão que vem é inevitável. Onde está tudo aquilo? Para onde foi a Ferrari? Quem ficou com a mansão? O que aconteceu com toda aquela fortuna?  E aqui eu preciso ser muito honesto consigo, porque esta história não tem aquela resposta redondinha de novela.

 A verdade é que ninguém sabe ao certo. Não existe um documento público, um inventário aberto, uma lista de bens que diga: “Olha, ficou isso? foi para fulano, foi para cicrano. Os automóveis de luxo, as mansões, tudo aquilo que brilhava nos anos 70, quando morreu em 1992, simplesmente não aparece em lugar nenhum, desapareceu no caminho.

 Aquele homem que viveu como milionário partiu sem deixar registo de fortuna nenhuma. Pensa no tamanho disto. O gajo teve o mundo na mão e no fim todo o luxo tinha evaporado, gasto, dado, perdido  pelo caminho da vida que levou. Parece que a história acaba aqui num vazio triste, não é? Um homem que teve tudo e terminou sem nada para deixar.

Antonio Marcos | WE LOVE THE BEATLES FOREVER

 Só que não acaba porque há uma coisa que o António Marcos deixou para trás que não cabia em nenhuma garagem, em nenhum cofre, em nenhuma mansão. E é precisamente esta coisa que até hoje vale mais do que todos os Ferraris que teve. O que sobraram foram as músicas. E aqui, o meu amigo, está a viragem bonita desta história toda.

 Porque os carros enferrujaram ou foram para a mão dos outros. A mansão ficou para trás, o dinheiro escorreu pelos dedos. Mas as canções que aquele  rapaz de São Miguel escreveu não morreram com ele. Pelo contrário, continuaram a tocar,  continuaram a vender, continuaram entrando na casa das pessoas todos os santos dia, muito depois  de ele ter partido.

 E para que veja o tamanho do que este homem criou, só como vai você vendeu mais de 700.000  exemplares. 700.000 Numa época sem internet, sem streaming, sem nada, era encher camião e camião de disco e despachar para todo o Brasil. E não foi um sucessozinho de uma época, não foi música que se colou ao país e não mais saiu.

 destas que passam de geração em geração, que o avô trauteia e o neto aprende sem sequer saber de onde veio. E repara que coisa, o talento de compositor era tão forte que as suas músicas faziam sucesso até na voz dos outros. Como está você mesmo? Muita  gente conhece na gravação de outro cantor e nem imagina que quem escreveu aquilo foi o António Marcos.

 O nome dele às vezes ficava na sombra, mas a obra estava ali viva, rendendo, emocionando. E o mais bonito é o que estas músicas viraram depois de ele se foi. Porque cada vez que Como vai você toca, cada vez que o Homem de Nazaré é cantada em algum lugar, esta gera direito de autor. E esse dinheiro, esse sim, continuou a existir.

 É dividido entre os cinco filhos do António e os parceiros que ajudaram a compor as  obras. Repara na ironia da vida. O que sustentou a sua família não foi a Ferrari, não foi a mansão, foi a voz, foi o talento. Foi aquela mesma coisa que ninguém pagava nada para ouvir na  esquina de São Miguel. E olha que pormenor que remata tudo.

 Uma das suas filhas, a Areta, chegou a contar que vive precisamente dos direitos das canções do pai. Quer dizer, o homem que dava o seu próprio carro a um taxista que não guardava um tstustão para si, no fim de contas,  deixou sim uma herança. Só que não era a herança que a gente esperava.

 Não era de cofre, era de melodia. e daquelas que não acaba no fim do mês e o tempo só o fez provar. Depois de ele morrer, foram saindo colectâneas, discos de tributo, gente reunindo o que ele gravou para a nova geração conhecer. Em 2008, saiu uma coletânea juntando os grandes êxitos dele. E em 2015, no ano em que faria 70 anos, lançaram até uma caixa com quatro CDs, garimpando gravação rara, coisa que pouca gente tinha ouvido.

 23 anos depois de morto, e ainda tinha pessoas a correr atrás de preservar a obra daquele homem. Isto não acontece com qualquer um. Isto só acontece com quem deixou marca de verdade. E tem um momento que é talvez o mais emocionante de todos. Em 2005, quando saiu o filme Dois filhos de Francisco, o do Zezé de Camargo e Luciano, que encheu o cinema no Brasil inteiro, sabe qual a música que entrou na banda sonora? Como vai? Mais de 30 anos depois de escrita, a canção de António Marcos estava lá de novo no grande ecrã,

fazendo gente nova emocionar-se. Gente que nem sequer tinha  nascido quando morreu. É, ou não é o luxo que não acaba? No final, o tipo perdeu tudo o que se compra, mas o que criou, o que saiu de dentro dele, isso ninguém conseguiu tirar. Está vivo até hoje e vai continuar  vivo muito depois de nós também.

 E depois, no fim de tudo, fica aquela pergunta a rondar a cabeça da gente. O que é o verdadeiro luxo? Pensa comigo, o António Marcos teve o luxo que toda a gente sonha em ter um dia. Teve a Ferrari importado num tempo em que o brasileiro apanhava autocarro lotado para trabalhar.  Tinha a mansão no Morumbi com piscina e campo de futebol no quintal. Houve um closet de fazer inveja.

Houve mala de dinheiro a entrar depois dos espectáculos. O gajo teve o mundo na palma da mão e perdeu. Tudo aquilo escorreu pelos dedos, desapareceu, virou pó pelo caminho da vida que escolheu levar.  Mas repara que coisa, a voz dele não desapareceu. Aquela mesma voz que começou gratuitamente numa esquina de São Miguel Paulista com um velho violão e uns amigos ao lado, essa continua aí.

Entra em casa das pessoas, toca na rádio do carro num domingo à tarde, emociona um casal que se está a conhecer agora, gente que nem sabe bem quem foi o homem que cantou aquilo. O corpo desapareceu em 92. A voz não, a voz ficou. E talvez seja essa a lição que este menino de S. O Miguel deixou sem sequer querer ensinar.

que aquilo que nós juntamos com tanto esforço, o carro na garagem, a casa, o dinheiro guardado no banco, um dia fica para trás, vai tudo. Não tem cofre que segure,  não há mansão que dure para sempre, mas aquilo que fazemos com o coração, aquilo que nós entregamos de verdade para o mundo, isso a vida não consegue levar.

 Olha o homem que dava o seu próprio carro a um taxista que ele mal conhecia, que tirava o dinheiro todo da carteira a um amigo duro, que comprava comida e distribuía na rua. Talvez ele soubesse de uma coisa que a as pessoas às vezes esquecem-se, que o dinheiro é para passar pelas mãos, não para colar nelas. Errou muito, viveu demais, se perdeu no caminho, isso ninguém vai negar.

 Mas mesquinho nunca foi e generoso, foi até ao último cêntimo.  E há uma imagem dessa história que para mim diz tudo. Lembra-se da Vanusa subindo ao palco para se cobrir já separados, mesmo depois de tudo?  Pois é, o António Marcos foi deste tipo de pessoas que deixa marca na vida dos outros, que mesmo errando,  mesmo caindo, fez com que as pessoas gostassem dele de uma forma que não acaba.

 E gente assim não morre por inteiro nunca. Fica um pedaço na música, na memória, no carinho de quem conviveu. No fim das contas, ele partiu cedo,  com 46 anos, deixando uma porção de saudade e  uma pergunta sobre os luxos que desapareceram, mas deixou beleza, deixou voz, deixou música que vai tocar muito depois de todos nós.

 E a beleza, meu amigo, é o único luxo que não enferruja,  que ninguém rouba, que o tempo não leva. Este o António Marcos deixou de sobra.

 

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