Por Que Guadalajara Está Construindo uma Estátua para um Brasileiro que Pisou Ali Uma Única Vez

Sandoval saiu com os documentos não assinados e os assessores atrás. Na porta, virou-se e disse que o comité entraria em contacto com a solução administrativa adequada. Pelé já se tinha levantado e estava à conversa com Paulo Machado de Carvalho em voz baixa, de costas para o porta. A credencial foi emitida três dias depois nas categorias originalmente acordadas.

Sandoval não apareceu para entregá-la pessoalmente. Nesse mesmo dia, Pelé treinou no estádio de Jalisco pela primeira vez. Na manhã do dia 3 de junho de 1970, as ruas em redor do estádio Jalisco já estavam ocupadas desde as 6 horas da manhã. E os vendedores que montavam as suas bancas nas esquinas sabiam, por experiência de dias anteriores, que quando o Brasil jogava a cidade funcionava de forma diferente, mais ruidosa, mais lenta, com os homens a parar nas calçadas para discutir formações com desconhecidos, como se fossem velhos conhecidos.

A seleção brasileira tinha jogado dois jogos anteriores na fase de grupos, tinha ganho os dois, mas a imprensa mexicana escrevia sobre estes jogos com o cuidado de quem está a descrever um ensaio antes da estreia propriamente dita, porque a estreia real para Guadalajara era aquele. O Brasil contra a Checoslováquia no  Jalisco com Pelé no time.

O técnico Zagalo tinha montado uma equipa que a imprensa brasileira chamava de geração de ouro, com razão que o tempo confirmaria. Félix na baliza, Carlos Alberto, Brito, Piaza e Everaldo na defesa, Clodoaldo e Gerson no meio, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino no ataque. Era uma equipa que não precisava de explicação.

Era uma equipa que quando entrava em campo, a questão não era se ia ganhar, mas como. Os adeptos mexicanos chegaram ao estádio Jalisco com bandeiras do Brasil que tinham comprado nas barracas dos ambulantes porque as bandeiras do Brasil vendiam mais que as do México naquela manhã. Um cronista da Rádio Guadalahara descreveu a cena mais tarde num programa de memórias esportivas.

Os homens de Jalisco foram ao estádio torcer por um time que não era o seu, porque precisavam ver aquilo com os próprios olhos, porque não acreditavam que era possível o que diziam que Pelé fazia e queriam poder contar para os filhos que tinham estado lá. Nos corredores do estádio, antes do jogo, Pelé passou pelo setor de acreditação com a credencial nas categorias originalmente acordadas.

Sandoval estava a 15 m de distância, conversando com um representante da FIFA. Não se cruzaram. O árbitro alemão Kurt Changer apitou o início às 12 horas em ponto com o sol de Jalisco já alto e a grama do estádio Jalisco brilhando com a umidade da irrigação matinal. E nos primeiros 20 minutos, o Brasil jogou um futebol que os torcedores mexicanos reconheciam como correto, mas ainda não como extraordinário.

Até o momento em que Pelé recebeu a bola no limite da área, de costas para o gol, girou com um toque seco que deixou o zagueiro Checo olhando para o próprio joelho e bateu de primeira no ângulo com uma violência calma que o goleiro Ivo Victor não tinha como alcançar. A bola entrou embaixo da trave. O locutor da televisão mexicana ficou 4 segundos sem falar.

Não era falha técnica, era o tempo que levou para encontrar palavras em espanhol para descrever o que tinha visto. E quando as encontrou, elas saíram todas de uma vez, sobrepostas, num volume que os engenheiros de som da transmissão precisaram ajustar no intervalo. Pelé não comemorou da forma que os torcedores mexicanos esperavam.

levantou o braço, acenou para Rivelino, que tinha dado o passe, e voltou correndo para o meio-campo. Era o tipo de comemoração de quem marcou um gol que estava no plano e agora precisa continuar executando o resto do plano. O estádio Jalisco ficou de pé. Nos minutos seguintes, a Checoslováquia tentou reagir. Não era um time fraco.

Tinha passado da fase de grupos e tinha jogadores de qualidade reconhecida na Europa, mas jogava contra algo que não tinha manual de como neutralizar. Jairzinho marcou o segundo. Rivelino contribuiu. O Brasil venceu por 4 a 1 e o placar só não foi maior porque o Brasil parou de tentar aumentar quando ficou evidente que a tarde tinha outro propósito além dos gols.

O propósito era aquele chute. O que aconteceu aos 31 minutos do segundo tempo foi registrado por oito câmeras de televisão de ângulos diferentes, descrito por locutores em pelo menos 12 idiomas, analisado por técnicos, jornalistas e torcedores nas décadas seguintes. E nenhuma dessas descrições conseguiu reproduzir com exatidão o que o estádio Jalisco sentiu nos 2 segundos de silêncio que antecederam a explosão de espanto quando a bola passou a centímetros do poste.

Pelé recebeu a bola no meio do campo depois de uma saída de bola da defesa checa mal executada. Estava a aproximadamente 60 m do gol. O goleiro Ivo Víctor tinha adiantado alguns metros da linha em função de uma bola aérea anterior e ainda não tinha voltado completamente para a posição. Pelé viu isso, viu a posição do goleiro, calculou a distância e bateu.

Não foi um chute desesperado, não foi impulsivo, foi um chute de jogador que viu uma possibilidade que ninguém mais no estádio tinha visto ainda e a executou antes que o pensamento sobre se era razoável tentá-la pudesse interferir na execução. A bola subiu numa trajetória que o locutor mexicano descreveu como uma flecha e que os torcedores nas arquibancadas acompanharam com os olhos em silêncio. 52.

000 pares de olhos seguindo a mesma bola no mesmo instante numa sincronia que os estádios de futebol raramente produzem. Vctor recuou, recuou mais, esticou o braço, a bola passou a centímetros do poste esquerdo, saiu pela linha de fundo e bateu nas redes atrás do gol. 2 segundos de silêncio. Depois, o estádio inteiro gritou: “Não de gol, porque não tinha sido gol, mas de algo que não tem nome preciso no vocabulário do futebol.

O grito de 52.000 pessoas que acabaram de ver algo que sabem que vão lembrar até morrer. O locutor mexicano disse na transmissão ao vivo de Osmo. Não disse mais nada por uns 3 segundos. Depois tentou descrever tecnicamente o que tinha visto e desistiu no meio da frase. Victor ficou parado na linha do gol por um momento, olhando para o poste como se o poste tivesse feito alguma coisa.

Depois voltou para posição com a expressão de um homem que acabou de entender que foi salvo por uma questão de centímetros e que essa margem o perseguirá durante anos  em entrevistas. Pelé já tinha voltado para o meio-campo, não tinha ficado olhando para onde a bola tinha ido, tinha virado e corria de volta para Bael posição, como se o chute fosse mais um elemento de um jogo que continuava.

Na arquibancada, um homem de meia idade de Jalisco ficou de pé com as mãos na cabeça e disse para o amigo ao lado: “Não entrou, mas era o gol mais bonito que eu já vi na minha vida.” O amigo disse: “Não entrou ainda.” Rafael Sandoval Rios estava sentado na quinta fileira da tribuna de autoridades quando a bola saiu do pé de Pelé no meio do campo e começou a curva impossível em direção ao gol.

E o que aconteceu com o seu corpo naquele momento? A rigidez que veio primeiro. Depois o avanço involuntário de 2 cm na cadeira. Depois, a imobilidade completa enquanto a bola desviava do poste, não foi registrado por nenhuma câmera, mas foi visto por pelo menos três pessoas sentadas perto dele, que contaram versões ligeiramente diferentes da mesma história nos anos seguintes.

A versão mais consistente entre as três era esta. Sandoval ficou parado na cadeira por alguns segundos depois que a bola saiu pela linha de fundo, com as mãos apoiadas nos joelhos, olhando para o campo sem expressão visível. O homem sentado ao seu lado, um representante do Comitê Olímpico Mexicano chamado Gerardo Fuentes, que contou isso anos depois numa entrevista de rádio, disse que Sandoval virou para ele naquele momento e disse apenas: “Isso não é esporte, é outra coisa”.

Fuentes disse que não soube o que responder, que a frase tinha saído com um tom que não era admiração convencional. E não era crítica. Era o tom de um homem que acabou de ver algo que redesenha os limites do que ele pensava ser possível e está processando esse redesenho em tempo real. Sandoval ficou até o apito final.

Saiu da tribuna sem falar com ninguém da delegação brasileira. foi direto para o escritório do comitê no subsolo do estádio, onde passou à tarde resolvendo questões logísticas da rodada seguinte. O documento com o nome de Pelé, classificado como atleta participante, estava na gaveta do arquivo do comitê não assinado, onde ficou até o final da Copa.

Quando o árbitro Tchener apitou o fim do jogo e o Brasil havia vencido por 4 a 1, ruas ao redor do estádio Jalisco ficaram cheias de torcedores mexicanos, comemorando uma vitória que não era a deles. E esse detalhe, que em qualquer outro contexto seria estranho, naquela tarde parecia absolutamente natural, como se Guadala tivesse decidido, sem votação e sem deliberação, que o Brasil tinha jogado bem o suficiente para merecer a torcida de todos.

As barracas dos ambulantes esgotaram as bandeiras do Brasil antes do intervalo. Depois do apito final, os homens que saíam do estádio não falavam do placar, falavam do chute. Em cada esquina, em cada bar, em cada calçada onde grupos se formavam espontaneamente na tarde quente de Jalisco, a conversa era sobre aquele momento específico.

A bola saindo do meio do campo, a trajetória impossível, o goleiro recuando, o poste. Um rádio ligado numa banca de jornal na Avenida Alcalude transmitia o comentário pós- jogo do locutor, que tinha ficado em silêncio por 3 segundos durante o chute. Ele dizia: “Não entrou”. Mas ficou. Ficou aqui, nesse estádio, nessa cidade, não vai embora.

tinha razão de uma forma que não sabia ainda. A delegação brasileira deixou o hotel Camino Real dois dias depois, seguindo para a próxima fase do torneio em outra cidade. Pelé saiu pela entrada de serviço do hotel às 6 da manhã, com a mala pequena de mão que usava para as viagens curtas e havia um grupo de umas 30 pessoas esperando na calçada.

Não imprensa, não credenciados, apenas pessoas de Guadalajara que tinham ficado sabendo do horário de saída por alguma cadeia de informação informal que as cidades constróem quando querem algo com suficiente intensidade. É parou, apertou mãos, assinou algumas coisas que lhe estenderam, tirou o chapéu que usava e colocou na cabeça de um menino de uns 8 anos que estava na frente do grupo com o pai.

O menino ficou olhando para o chapéu com os olhos arregalados. O pai tirou uma fotografia com uma câmera portátil que não era boa o suficiente para capturar a luz daquela manhã. Mas era o que tinha. Pelé entrou no ônibus. O ônibus partiu. As 30 pessoas ficaram na calçada, olhando até o veículo dobrar a esquina.

Nenhuma dessas 30 pessoas voltaria a ver Pelé pessoalmente. Pelé jogou uma única vez em Guadalahara, aquela tarde de 3 de junho de 1970 92 minutos contando os acréscimos. E depois disso, o Santos nunca voltou para uma turnê. A seleção brasileira não voltou para um amistoso. Nenhuma outra circunstância trouxe aquele corpo e aquele futebol de volta ao estádio Jalisco, de forma que tudo o que Guadalajara tem é aquela tarde, aquele sol, aquela grama molhada, aquele chute que passou pelo poste e que a cidade ainda discute como se tivesse acontecido

ontem. O menino do chapéu se chama Miguel Angel Torres, tem 62 anos hoje e trabalha como engenheiro civil em Guadalajara. O chapéu estava numa caixa de acrílico na sala de casa quando um jornalista local o entrevistou em 2020, no quº aniversário da Copa do Mundo de 1970. Torres disse que não lembrava do jogo porque era muito jovem para ter ido ao estádio, mas lembrava daquela manhã, da calçada, do chapéu, da forma como o homem que lhe colocou na cabeça tinha parado e olhado para ele um segundo antes de fazer isso, como se quisesse

ter certeza de que era o menino certo para receber aquilo. A memória de Guadalajara funciona assim, em camadas de gente que esteve lá e gente que ouviu de quem esteve lá e gente que nasceu depois, mas cresceu dentro da história, como se tivesse estado lá também. Em 1970, o locutor da rádio disse que o chute tinha ficado na cidade.

Em 2020, Torres confirmou sem saber que estava confirmando. O chapéu estava na caixa de acrílico. O chute ainda era o assunto nas mesas de bar e Guadalajara ainda não tinha encontrado uma forma adequada de dizer o que queria dizer sobre aquela tarde. A estátua seria essa forma. A proposta de construir uma estátua de 9 m de Pelé no entorno do estádio Jalisco foi apresentada pela primeira vez ao governo municipal de Guadalajara em 2016, aprovada em 2019 depois de debate que durou 3 anos, financiada por uma combinação de verba pública e

contribuição de empresários locais. E quando o projeto foi anunciado oficialmente, o vereador que leu a justificativa no plenário da Câmara Municipal citou como razão central não o gol que Pelé marcou naquela tarde, mas o gol que ele não marcou. A justificativa dizia no trecho que o vereador leu em voz alta, há coisas no esporte que ficam não pelo que aconteceu, mas pelo que quase aconteceu, não pelo resultado, mas pela tentativa, não pelo que entrou, mas pelo que passou a centímetros do poste e deixou 52.000

pessoas de pé, sem saber se deviam gritar ou chorar. Guadalahara foi testemunha de uma dessas coisas. A estátua é para que a cidade nunca esqueça que esteve lá. A proposta tinha a resistência de alguns vereadores que argumentavam que Guadalajara tinha seus próprios heróis esportivos que mereciam monumentos antes de um atleta estrangeiro que havia estado na cidade por menos de uma semana.

O debate durou três sessões. No final da terceira, o vereador opositor mais vocal, um homem chamado Ramir Angolo, que tinha nascido em 1975 e nunca vira Pelé jogar, disse que ia a favor da proposta porque tinha falado com o avô, que estivera no estádio Jalisco naquela tarde de 1970. E o avô dissera que nenhuma discussão política sobre quem merecia ou não merecia um monumento era mais importante do que o dever de uma cidade de reconhecer quando foi testemunha de algo que não se repete.

O avô tinha 87 anos, tinha visto o chute ao vivo. disse ao neto que quando a bola passou pelo poste, o homem sentado à sua direita, um desconhecido, tinha posto a mão no seu braço sem perceber o gesto reflexivo de alguém que precisa segurar em alguma coisa quando vê algo que ultrapassa o sistema nervoso. Tinham ficado assim por alguns segundos, dois desconhecidos com a mão do um no braço do outro.

Olhando para o poste onde a bola tinha passado. Depois soltaram sem se olhar e voltaram a ser desconhecidos. A estátua tem 9 m de altura e representa Pelé no momento do chute. O corpo em extensão máxima, o pé direito em contato com a bola, o olhar na direção do gol que ficava 60 m à frente. O escultor, um artista de jalisco chamado Héctor Morales, disse numa entrevista que o maior desafio técnico havia sido capturar o que estava nos olhos.

A concentração específica de um homem que vê uma possibilidade impossível e decide em fração de segundo que vai tentar a si mesmo. A estátua fica na entrada principal do estádio Jalisco. Quem entra para ver um jogo do Chivas ou do Atlas passa por ela. As crianças de Guadalajara que nunca viram Pelé jogar passam por ela.

Os turistas que vêm ao estádio por outras razões, param diante dela e perguntam quem é. E quando alguém explica, a resposta padrão de quem ouve pela primeira vez é sempre a mesma. Mas ele só jogou aqui uma vez? A resposta é sim, uma vez. E Guadala entendeu antes de qualquer outra cidade do mundo, que às vezes uma vez é o suficiente, que há momentos em que uma tarde inteira, aquele sol, aquela grama, aquele chute a 60 m entra na memória de uma cidade e passa a fazer parte da sua identidade com a mesma força que as

coisas que aconteceram durante anos. Rafael Sandoval Ros morreu em 1989 em Guadalajara. Tinha 71 anos. A sua carreira na burocracia desportiva mexicana foi longa e reconhecida. Organizou eventos, geriu protocolos, deixou arquivos bem ordenados. O documento com o nome de Pelé, classificado como atleta participante não assinado, foi encontrado num ficheiro do comité, anos depois por um investigador que escrevia sobre a Taça de 70.

O investigador publicou uma nota a respeito numa revista académica de história do desporto. A nota teve pouca circulação. Sandoval não está em nenhum monumento. A estátua tem 9 m. representa o pontapé, representa a tarde, representa o que acontece quando um cidade tem a sorte de estar no lugar certo no momento em que alguém faz algo que não se repete.

que tem a sabedoria, 50 anos depois, de admitir que precisa de pedra e metal para conseguir guardar o que a memória humana por si só não é capaz de conter completamente. jogou uma vez em Guadalajara, foi o suficiente.

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