“Esse Bando de Cabeludos Não Entra Aqui” — Assim o Brasil Impediu os Beatles de Tocar para Pelé

Um trabalho de negociação que qualquer empresário de espetáculos reconheceria como extraordinário para um lateral de futebol sem experiência no setor. Pep Vilela, José Macia no registro civil, mas todo mundo no Santos chamava de Pepe. Tinha 26 anos em julho de 1964 e era o tipo de jogador que o futebol brasileiro daquela época produzia em abundância.

Tecnicamente competente, fisicamente limitado, compensando as limitações com inteligência e com a capacidade de circular nos ambientes certos. era amigo de todo mundo nos santos, amigo de todo o mundo em São Paulo e tinha o dom específico de aparecer nas conversas certas, no momento certo, sem que ninguém entendesse exatamente como tinha chegado ali.

O contato com o empresário dos Beatles tinha começado num jantar no terraço Itália duas semanas antes, quando Pepa mesa com amigos e reconheceu Norman Sherrat, o britânico responsável pela logística da turnê sul-americana numa mesa ao lado. Chatrat estava no Brasil havia cinco dias e falava português com sotaque que transformava qualquer frase em piada involuntária.

Pepé a mesa, se apresentou em inglês básico, descobriu em 3 minutos quem Sherrat era e em 10 minutos estava propondo a apresentação privada. Sherat tinha ouvido falar de Pelé. Qualquer europeu que chegasse ao Brasil em 1964 ouvia falar de Pelé nos primeiros 30 minutos. E a ideia de organizar um encontro privado entre os Beatles e o jogador mais famoso do mundo tinha um apelo que Sherrat reconheceu de imediato como potencialmente valioso para a imprensa britânica.

Disse que ia consultar os músicos. ligou de volta dois dias depois com a confirmação: “Toparam”. Pepou a semana seguinte negociando os detalhes com uma seriedade que impressionou Sherat o suficiente para que o britânico comentasse com um colega que aquele brasileiro dava bom empresário. O salão do Clube Atlético Santista foi escolhido porque tinha palco, tinha só um instalado, tinha espaço para 40 pessoas sentadas e ficava a 40 minutos do hotel por carro em horário normal.

Pep confirmou com o presidente do clube, confirmou com Sherat, confirmou com o técnico do Santos que os jogadores estariam disponíveis na quinta-feira à noite e foi pessoalmente ao Cadoro na segunda-feira entregar o roteiro impresso do que ia acontecer. Pelé tinha ficado sabendo da história na semana anterior, quando Pep chegou ao treino da manhã e disse com o tom de quem anuncia algo já resolvido.

Na quinta-feira a gente vai ver os Beatles ao vivo. Pelé tinha respondido que estava bem. Coutinho, que estava ao lado, tinha perguntado se era de graça. Pep disse que sim. Coutinho disse que então podia contar com ele. Havia naquela segunda-feira 48 horas até o evento. Na quarta-feira, Cherrat recebeu um telefonema de um contato no governo brasileiro que o alertou de forma vaga que havia uma possível questão administrativa em relação ao evento.

Shehat ligou para Pep. Pep disse que ia verificar. Verificou. Não encontrou nada de concreto e disse a Cherrat que estava tudo certo. Na manhã de quinta-feira, o soldado apareceu no clube. Pelé estava no refeitório do Hotel Santos quando Pep chegou com o ofício na mão e a forma como Pep entrou devagar, com o papel meio escondido atrás da coxa, como quem traz uma notícia ruim que ainda não sabe como entregar.

Já disse tudo antes de qualquer palavra. Era pouco antes das 10 da manhã. O refeitório estava com seis ou sete jogadores terminando o café da manhã. Coutinho estava numa mesa com Zito, os dois a discutir o jogo da tarde seguinte. Pelé estava sozinho numa mesa perto da janela, com uma chávena de café e um jornal aberto que não estava lendo de verdade.

Estava a olhar para as fotos do desporto com a atenção ligeiramente ausente de quem está a pensar noutra coisa. O Pepp aproximou-se, não disse nada colocou imediatamente o papel sobre a mesa do lado do jornal e ficou de pé esperando. Pelé olhou para o papel. olhou para Pep, pegou no documento e leu-o. Leu devagar, parágrafo a parágrafo, com a atenção de quem quer ter a certeza de que compreendeu exatamente o que está leitura antes de reagir.

Quando terminou, colocou o papel de volta sobre a mesa, ficou a olhar para ele por um momento, depois dobrou ao meio com cuidado e devolveu-o ao Pep. Disse uma coisa em voz baixa, que Coutinho, que estava a duas mesas de distância e tinha parado de falar quando Pep entrou, não conseguiu ouvir com clareza.

Pep ouviu, acenou devagar e Pelé levantou-se, pegou no jornal, jogou fora na lixeira perto da porta e saiu do refeitório. Pepe ficou parado durante alguns segundos com o ofício na mão. Coutinho veio ter com ele e perguntou-lhe o que tinha acontecido. Pep explicou. Coutinho leu o documento, devolveu sem comentário e voltou a aceitar à mesa com Zito.

Ninguém no refeitório disse mais nada sobre o assunto nos 20 minutos seguintes. O general Amauri Cruel não era um homem que assinava papéis sem pensar. E o ofício sobre os Beatles não foi exceção. Foi o resultado de uma tarde inteira de deliberação num escritório do segundo exército, onde se encontram mapas do estado de S.

Paulo cobriam uma parede inteira e a outra tinha um retrato do marechal Castelo Branco. O general tinha tomado conhecimento do evento na quarta-feira à tarde, através de um relatório de rotina  produzido pelo serviço de informações que monitorizava eventos culturais de grande dimensão em São Paulo.

O relatório era técnico e neutro, descrevia o grupo britânico, mencionava a apresentação privada no clube, listava os jogadores dos Santos que estariam presentes. Não fazia recomendação nenhuma, era informação. Cruel leu o relatório duas vezes, chamou o seu chefe de gabinete, perguntou se havia alguma directiva específica sobre apresentações de artistas estrangeiros em estabelecimentos privados.

O chefe de gabinete disse que havia uma circular genérica sobre eventos culturais de massa, mas que ela se aplicava a concertos públicos, não a reuniões privadas. Cruel disse que ia pensar. passou à tarde a pensar. O que cruel via no relatório não era um concerto de música, era um símbolo, o símbolo de uma cultura estrangeira que chegava ao Brasil, trazendo valores que ele descreveria num memorando interno redigido semanas depois, como dissolução da disciplina social e incentivo à desobediência civil, disfarçada de expressão

artística. Os Beatles não eram só músicos para Cruel, eram o tipo de fenómeno cultural que a geração americana tinha deixado escapar nos anos 1950 com o rock and roll e que agora o Brasil esteve a ponto de repetir com estes quatro ingleses de cabelo comprido que faziam as meninas desmaiarem nos aeroportos. Proibir o espetáculo público teria gerado repercussão que Cruel não queria.

Espetáculo com 1 pessoas e imprensa presente era demasiado político. Mas a apresentação privada no clube dos jogadores, isso era diferente. Era um ambiente controlado, um evento pequeno, uma intervenção que poderia ser feita de forma silenciosa através dos canais administrativos adequados. assinou o ofício antes do jantar, mandou entregar na manhã seguinte.

O que o general não incluiu no cálculo foi a possibilidade de a resposta não viesse dos canais administrativos, que viesse de um táxi na rua Augusta. Às 11 horas, enquanto o secretário do clube ainda tentava decidir como comunicar o cancelamento ao empresário dos Beatles, Pelé saiu do Hotel Santos com uma camisa branca e calças escuras, parou um táxi em frente à portaria e disse o endereço em voz alta, sem hesitar. Hotel Cadoro, rua Augusta.

O táxi demorou 22 minutos. São Paulo de 1964 havia trânsito, mas não havia o trânsito que teria depois. Era ainda uma cidade que se movia lentamente, mas movia-se. Pelé ficou a olhar pela janela durante a maior parte do percurso, com a expressão neutra de quem vai resolver uma coisa prática. O taxista reconheceu-o logo no início da corrida e passou os 22 minutos a tentar decidir se devia fazer conversa ou deixar quieto.

Deixou-o quieto. Na rua Augusta, o táxi parou a meia quadra do hotel porque a passeio em frente estava tomado por fãs. Pelé desceu, pagou a corrida e entrou na multidão sem anunciar quem era. o que era desnecessário, porque em 2 segundos as pessoas em redor reconheceram-no e abriram caminho de forma reflexiva, como acontecia em qualquer lugar do país.

O porteiro do Cadoro o reconheceu na entrada e não pediu identificação. Pelé perguntou em qual andar estava o grupo inglês. O porteiro disse o número do andar. Pelé foi até o elevador. Não havia anúncio, não havia intermediário, não havia Pep, nem Cherat, nem qualquer estrutura organizacional. Havia um jogador de futebol de 23 anos que tinha lido um ofício do exército brasileiro na manhã de quinta-feira e tinha decidido com a simplicidade das pessoas que não complicam as coisas mais do que precisam, que ir até lá de

qualquer jeito. Bateu na porta do quarto, alguém abriu. O que aconteceu nos 2 minutos seguintes? A reação dos Beatles quando entenderam quem estava na porta, o que foi dito, como Pelé foi recebido, é o tipo de detalhe que sobrevive em versões contraditórias e complementares, porque cada pessoa que estava presente lembrou de uma coisa diferente.

O que aconteceu nas 2 horas que Pelé passou no quarto dos Beatles no Hotel Cadoro nunca foi reconstituído com precisão. Os quatro músicos deram versões diferentes em entrevistas ao longo dos anos. Pelé mencionou o encontro de forma lateral em duas autobiografias, sem entrar em detalhes. E os únicos registros concretos são as fotografias tiradas no lobby quando os cinco desceram juntos.

John Lennon numa entrevista a uma rádio britânica em 1966 disse que Pelé tinha chegado sem avisar e que isso tinha sido a melhor coisa. Porque quando alguém aparece sem avisar, não tem tempo de preparar uma versão de si mesmo. Aparece como é. Disse que Pelé falava espanhol e eles falavam inglês e mesmo assim a conversa tinha funcionado, o que atribuiu ao fato de que os grandes atletas e os grandes músicos falam a mesma língua antes de qualquer idioma.

Paul McCartney, numa entrevista a um jornalista brasileiro em 1993, disse que o que mais o impressionou foi a calma de Pelé. disse que estava acostumado a pessoas famosas que enchiam o ambiente com a própria fama, que chegavam num quarto e o quarto ficava menor. Pelé tinha chegado e o quarto tinha ficado do mesmo tamanho, o que Paul disse ser raro e valioso.

George Harrison não deu entrevistas sobre o assunto. Ingu Star. Numa conversa com um baterista brasileiro em 1989, que circulou em versão impressa por alguns anos, disse que Pelé tinha tentado ensinar a ele como fazer embaixadinhas e que tinha sido muito gentil sobre o fato de Ringo não conseguir passar de três. As versões concordam em alguns pontos.

Houve uma guitarra acústica presente no quarto. Houve tentativas de comunicação em idiomas múltiplos que funcionavam melhor do que deveriam. Houve futebol. Uma bola improvisada com meias enroladas, alguns passes no corredor do quarto. O tipo de coisa que acontece quando há jogadores e músicos num mesmo espaço e ninguém tem uma agenda formal para cumprir.

Não houve show. O show estava cancelado do outro lado da cidade por um ofício com carimbo do segundo exército. Mas havia uma reunião e a reunião durou 2 horas porque ninguém quis que terminasse antes. Às 13 horas, Pelé se levantou para ir. Sheat, que tinha sido chamado ao quarto quando soube quem estava lá e tinha chegado meia hora depois, sugeriu que decesscessem todos juntos.

Havia imprensa no lobby. Havia imprensa sempre no Cadoro, desde que os Beatles chegaram. E a presença de Pelé era a história do dia em qualquer jornalismo que existisse em 1964. Pelé concordou. Os quatro músicos concordaram. Sherrat já tinha pensado nos ângulos de câmera enquanto subia no elevador. Havia 11 jornalistas e fotógrafos esperando no lobby do hotel Cadoro.

Quando o elevador abriu e Pelé saiu acompanhado dos quatro Beatles. Não porque alguém tivesse convocado a imprensa, mas porque a imprensa estava ali há dois dias cobrindo a presença dos músicos em São Paulo e simplesmente estava no lugar certo quando a história aconteceu. O elevador abriu às 13:12. Havia um fotógrafo do Estadão posicionado por acaso no ângulo perfeito para capturar a saída.

Havia um repórter da rádio Jovem Pan que tinha chegado 10 minutos antes para verificar se os Beatles iam sair para almoçar. Havia correspondentes de dois jornais ingleses que cobriam a turnê e que, nas palavras de um deles, num relato publicado anos depois, ficaram parados por um segundo sem saber o que fazer, porque não tinham visto nada parecido em nenhuma pauta da viagem.

O que os fotógrafos capturaram naqueles primeiros segundos no lobby foi a imagem que apareceu nos jornais brasileiros na manhã seguinte. e que foi reproduzida por publicações inglesas nos dias seguintes. Cinco homens num lobby de hotel, quatro com cabelos compridos e roupas que a imprensa brasileira de 1964 descreveria com vocabulário que ia de exótico a excêntrico.

Um, o quinto, com camisa branca e calça escura, mais alto do que os outros, sorrindo com a naturalidade de quem está exatamente onde quer estar. Os jornalistas fizeram perguntas em português, em inglês, às vezes nas duas línguas ao mesmo tempo. Pelé respondeu às perguntas em português com a brevidade de quem não quer transformar uma conversa em declaração.

Disse que havia passado a manhã com os Beatles porque queria conhecê-los. disse que eram pessoas interessantes. Quando um repórter perguntou sobre o evento que tinha sido cancelado no clube, Pelé disse que não sabia de nenhum cancelamento, que ele não tinha ido ao clube, tinha ido ao hotel, que o hotel estava aberto.

A frase foi publicada em dois jornais na manhã seguinte, sem que nenhum editor entendesse completamente o peso dela. Quem entendia era o general. O general cruel tomou o conhecimento das fotografias na manhã de sexta-feira, quando um assessor colocou três jornais diferentes sobre a mesa do escritório do segundo exército, abertos na mesma página.

E o que ele disse naquele momento nunca foi registrado por ninguém que estivesse na sala. Apenas o silêncio que veio depois ficou na memória de quem estava presente. O assessor era um major chamado Hélio Fernandes Mota, que serviu sob o comando de Cruel por 3 anos e que descreveu o episódio numa conversa privada com um historiador em 1987, numa versão que o historiador registrou em notas, mas nunca publicou, porque considerou impossível verificar com outras fontes.

Segundo Mota, Cruel ficou olhando para os três jornais abertos na mesa por um tempo que pareceu longo. Não fez nenhum gesto. Não disse nada imediatamente. Depois perguntou ao assessor como a imprensa tinha chegado ao hotel. Mota disse que não havia sido convocada. Estava lá de qualquer forma, cobrindo a turnê dos músicos.

Cruel acenou com a cabeça, pediu que deixassem os jornais na mesa e saíssem. Ficou sozinho no escritório por tempo suficiente para que Mota, do lado de fora, ouvisse nada. Nenhum sinal de que algo estava sendo dito ou feito lá dentro. Apenas silêncio. Quando Cruel saiu, 40 minutos depois, não mencionou o assunto, não emitiu nenhum comunicado sobre o episódio, não tentou confiscar as fotografias, o que seria impossível, dado que já tinham sido publicadas, mas que o aparato militar de 1964 havia feito em situações similares com

material jornalístico. não convocou o empresário dos Beatles, não chamou o presidente do clube, fez nada, que era exatamente o que faz um homem que entende ao ver três jornais abertos na mesma página, que qualquer coisa que faça agora vai piorar o problema em vez de resolvê-lo. O ofício continuou arquivado nos registros do segundo exército.

Ninguém o citou publicamente durante décadas, quando pesquisadores de história cultural brasileira começaram a catalogar os arquivos militares abertos na década de 1990, o documento foi encontrado numa pasta com o título genérico: Eventos Culturais, controle administrativo, 1964. Estava, entre outros ofícios, sobre autorização de apresentações  teatrais e regulamentação de transmissões de rádio, sem destaque, sem nota explicativa.

A fotografia do lobby do Cadoro continuou circulando, foi reproduzida em livros sobre os Beatles, em documentários sobre o futebol brasileiro, em retrospectivas da Copa de 1964. e em qualquer publicação que precisasse de uma imagem para ilustrar o encontro entre o esporte e a música popular no século XX, apareceu em exposições, apareceu em coleções privadas, apareceu na parede de pelo menos dois museus em países diferentes, com legendas que mencionavam a data e os nomes, mas raramente mencionavam o ofício, porque a

fotografia não precisava do ofício para ser o que era, era suficiente por si mesma. Pelé continuou jogando. Jogou no Santos por mais 11 anos depois de julho de 1964. ganhou mais títulos, marcou mais gols, continuou sendo o que era antes daquela quinta-feira e depois dela, o melhor jogador do mundo num país que às vezes tratava isso como dado e às vezes como privilégio a ser administrado por quem achava que tinha autoridade para administrar.

O general cruel continuou no comando do segundo exército até 1966. Depois ocupou outros cargos, participou de outros momentos da história militar brasileira. Foi parte de eventos maiores e menores que o episódio do Cadoro em todas as escalas de importância que a história usa para medir essas coisas. Mas quando o nome de Amauri Cruel aparece hoje numa busca, numa enciclopédia, numa nota de rodapé de um livro sobre a ditadura militar brasileira, há uma chance razoável de que a próxima linha mencione um ofício de julho de 1964.

Um ofício que proibiu algo que aconteceu a si mesmo. Uma ordem que chegou com carimbo e protocolo e a força do aparato militar de um país inteiro por trás e que não conseguiu impedir uma quinta-feira à tarde um elevador descendo e cinco homens num lobby de hotel em São Paulo sorrindo para uma câmara. O ofício ficou arquivado.

A fotografia ficou em tudo o resto.

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