A história da música é frequentemente escrita a letras de ouro, celebrando o glamour cintilante, as digressões mundiais milionárias e as lendas que tocam o coração de milhões de fãs com a sua arte. No entanto, por trás das pesadas cortinas de veludo e dos holofotes cegantes, escondem-se frequentemente pesadelos de uma crueldade avassaladora. O conto de fadas sombrio de Tina Turner, a inquestionável e eterna Rainha do Rock and Roll, é, sem dúvida, o exemplo mais brutal e inspirador de sobrevivência que a indústria do entretenimento alguma vez presenciou. Conhecida mundialmente pela sua voz vulcânica, pelas coreografias arrebatadoras e por ter a impressionante capacidade de esgotar estádios monumentais — ultrapassando em larga escala os recordes de audiência de ícones modernos da música pop —, Tina escondeu, durante uma dolorosa parte da sua vida, um sofrimento inenarrável que manchava de sangue o sucesso que tão arduamente havia conquistado.
A parceria musical formada por Ike e Tina Turner, que explodiu de forma vertiginosa e gloriosa nos anos sessenta, era amplamente considerada pela crítica e pelo público como a mais perfeita simbiose de energia e talento em palco. Ele era o mestre produtor, o génio tático e musical que comandava a banda e a estrutura do espetáculo; ela era a força pura e hipnótica da natureza, a tempestade selvagem que capturava de forma irremediável o olhar de quem a via dançar. No entanto, este autêntico espetáculo de pura sensualidade e controlo natural era apenas uma cortina de fumo grotesca. Longe das câmaras de televisão, Tina era prisioneira de uma masmorra invisível, gerida de forma sádica e controladora pelo próprio marido. O relacionamento, que na sua fase embrionária havia começado de forma genuína com carinho e proteção fraternal, transformou-se progressivamente num filme de terror grotesco à medida que o poder e as inseguranças avassaladoras de Ike aumentavam sem qualquer tipo de travão ético ou moral.

A escalada da violência doméstica foi implacável e assustadora. Tina relata com uma frieza que ainda arrepia os ossos os momentos de absoluto desespero, detalhando os instantes em que Ike, impossibilitado de lhe bater com a guitarra que empunhava para não a danificar, utilizava os mais variados e cruéis objetos que lhe apareciam à frente para a agredir no rosto e no corpo. De tacões de sapatos afiados a resistentes cabides de madeira, o músico não encontrava limites para a sua fúria e ressentimento doentios. Uma das confissões mais perturbadoras e desoladoras aponta para o facto de o seu marido chegar ao ponto de lhe aplicar e apagar um cigarro aceso na boca antes das atuações, obrigando-a depois, num ato de humilhação extrema, a subir ao palco ferida, a engolir as próprias lágrimas ensanguentadas e a cantar como se fosse uma mulher radiante de felicidade.
O que é verdadeiramente desolador em toda esta espiral de violência contínua não é apenas a bestialidade das atitudes e a insanidade incontrolável de Ike Turner, mas, principalmente, a imperdoável conivência tácita e covarde de todos aqueles que rodeavam frequentemente o casal artístico. O rosto constantemente triste e prostrado de Tina, os hematomas perfeitamente visíveis sob camadas espessas de maquilhagem e o sangue disfarçado nas gengivas eram provas claras, irrefutáveis e gritantes de que ocorria um crime continuado. Contudo, a imensa máquina do entretenimento e os falsos amigos preferiam desviar o olhar para não prejudicarem a galinha dos ovos de ouro. O imperativo de não intrometer nos assuntos alheios falava mais alto e o medo de confrontar a figura irada e poderosa de Ike condenava fatalmente a cantora ao doloroso e humilhante isolamento social. Confinada entre os estúdios de gravação sombrios e uma casa onde servia praticamente de escrava para as tarefas domésticas e para a criação dos filhos, Tina foi despojada de dinheiro próprio, de amigos sinceros e, essencialmente, do direito inalienável e natural à sua própria liberdade individual e humana.
O peso paralisante do trauma infantil enraizado foi um dos principais motivos pelos quais ela suportou esta prisão doméstica e profissional durante tantos e penosos anos. Criada e socializada num lar tóxico e profundamente instável, onde presenciou de perto a agressão constante e diária do próprio pai à sua bela mãe, até ao dia em que esta, consumida pelo medo, fugiu sem deixar qualquer rasto quando Tina era ainda muito jovem, a cantora havia interiorizado fatalmente o violento abandono como norma existencial. Para Tina, Ike representava paradoxalmente, não apenas a ponte material para a concretização absoluta do seu imenso talento musical na alta indústria do entretenimento, mas também a única falsa representação funcional de estrutura de apoio e familiar que ela julgava conhecer até então. O sentimento tóxico e enganador da culpa em deixá-lo entregue aos seus problemas, associado ao medo genuíno e biológico do desconhecido, e suportado pelas duras agressões sexuais e psicológicas que sofria e engolia calada em casa, colocaram-na efetivamente e de forma sombria na perigosa corda bamba da existência.
A pressão avassaladora culminou numa tragédia que por muito pouco não lhe roubou literalmente a vida terrena. Consumida pelo pânico doente de existir e sufocada num vazio existencial sem fim à vista após mais um violento episódio de abusos cruéis por parte do seu marido — que numa outra ocasião lhe havia inclusivamente atirado de forma premeditada e sádica uma caneca de café escaldante ao rosto à frente dos próprios filhos pequenos, desesperados do outro lado da porta —, Tina engoliu compulsivamente e de forma cega um frasco inteiro de pesados comprimidos sedativos que lhe tinham sido receitados. Felizmente, numa verdadeira providência do destino e intervenção divina, os eficientes médicos do hospital para onde foi transportada com urgência conseguiram realizar a tempo as indispensáveis manobras de desintoxicação necessárias e vitais para evitar de vez a sua morte trágica no auge do sofrimento calado da indústria. Todavia, a frieza aterrorizante de Ike e os seus avisos sádicos e macabros e manipulações mentais aquando do despertar ainda zonzo da cantora na cama do hospital deixaram perfeitamente e terrivelmente claro que a impiedosa e letal prisão de que era vítima há tantos anos teimaria teimosamente em mantê-la refém incondicional se não tomasse as rédeas imediatas.
O memorável e glorioso ato final desta assustadora peça e verdadeira saga negra desenrolou-se e materializou-se corajosamente durante uma longa e tensa viagem de automóvel no preciso trajeto a caminho de mais um duro e cansativo aeroporto americano. Ike, enfurecido de forma absurda e doentia por um simples bombom de chocolate ligeiramente derretido no calor das mãos, atacou-a sem pudores e esbofeteou a cantora duramente mais uma vez no seu habitual estilo bestial. Contudo, em vez de recorrer à sua habitual e dócil submissão em forma de mecanismo traumático de defesa, algo quebrou-se definitivamente e libertou a fera na mente bloqueada de Tina Turner. Pela exata primeira vez em décadas seguidas, e dotada de uma inédita fúria justa, ela não escondeu o rosto nem fugiu; ela defendeu-se e retribuiu com força extrema e inesperada, gritando contra o monstro opressor num momento que determinaria o fim irreversível e necessário da perigosa parceria fatal e matrimonial.

A fuga furtiva e planeada desenrolou-se como num tenso e veloz guião de um arrepiante filme policial da vida real de Hollywood. Enquanto o seu perigoso abusador ressonava num hotel de luxo da cidade, a cantora, com a face totalmente desfigurada e ensanguentada por agressões anteriores e envergando apenas um disfarce básico improvisado na forma de um chapéu discreto devido à impossibilidade e dor absurda de assentar no couro cabeludo as suas características perucas, fugiu freneticamente pé ante pé para a liberdade sem rumo pelas portas das traseiras do complexo. Com apenas o equivalente material a meros 36 cêntimos resgatados escondidos e um reles cartão de uma gasolineira americana, Tina realizou uma maratona humilhante de pura sobrevivência escondendo-se nos perigosos contentores de lixo circundantes para ludibriar o escrutínio e contornar a vigilância opressora da equipa de seguranças. Conseguiu posteriormente encetar uma assustadora e perigosa corrida furtiva pelas tenebrosas rodovias rápidas e cortadas a meio da escura noite fechada, abrigando-se, por mero golpe de sorte e favor do assustado gerente de receção de outro modesto hotel, a troco da sua perigosa e infame carta e nome identificador do registo do estado. Nesse histórico e patriótico alvorecer de quatro de julho coincidente dos calendários ocidentais — uma ironia deliciosamente poética das estrelas celestes sobre as libertações humanas modernas — ela conquistara e declarara também a sua verdadeira carta magna de independência.
O infame e muito badalado divórcio jurídico e oficial custou-lhe de imediato tudo aquilo que possuía. O opressor sistema exigente obrigou-a à severa cedência patrimonial dos imensos montantes das propriedades de luxo, avultadas frotas de automóveis topos de gama americanos, jóias, fundos milionários das vendas da própria gravadora e direitos musicais das suas interpretações a solo e a dueto em favor de Ike. Mas, com enorme espanto, Tina ergueu sabiamente e ferozmente a cabeça durante a secção jurídica pedindo exclusivamente que o magistrado determinasse apenas uma coisa sagrada na sentença final vinculativa do longo processo contencioso: o direito fundamental, legítimo e legal sobre a marca de palco do próprio nome, “Tina Turner”, perante o chocado oponente jurídico.

Da estaca zero inicial das finanças pessoais, trabalhando arduamente todas as noites enclausurada e mal paga nos abafados e modestos cabarés de beira de estrada da velha América puritana e resistindo arduamente ao peso impiedoso do deserto midiático de anos e dívidas enormes de sobrevivência aos promotores cancelados que tinha às costas em litígio processual e bancário, ela ascendeu sozinha contra todo e qualquer veredicto desfavorável da dita época cruel da sociedade de classes machista dos críticos arrogantes e elitistas na qual os quarenta e cinquenta de faixa etária biológica pareciam efetivamente simbolizar e cravar a morte comercial em praça pública de artistas do género no império musical moderno. A reinvenção estrondosa, esmagadora e absolutamente inigualável explodiu planetariamente sem pedir absolutamente qualquer compaixão choramingada da indústria ou patrocínios ocultos por parte do seu sujo passado negro e silenciado; transformando-se incontornavelmente num icónico triunfo que pavimentou, revolucionou e rasgou ferozmente o estandarte inspirador da genuína dignidade pura para uma inédita rebelião do rock and roll mundial dos ícones clássicos, que até cantoras como as jovens e modernas super estrelas da geração MTV vieram orgulhosamente aplaudir. A colossal e impressionante multidão pagante gigante e estrondosa que arrombou estatísticas do conhecido recorde e feito da monumental apresentação no Maracanã carioca com estonteantes audiências arrepiantes dos seus cento e oitenta e seis mil vozes cantantes a uma só alma e suor no Rio brasileiro de multidões não foi de modo algum unicamente uma enorme glória pessoal financeira de sucesso estratosférico musical global nas fileiras da música; constituiu, de forma efetiva e inquestionável na esfera dos palcos do nosso século de glórias imortais da humanidade de excelência inegável e notável de talentos divinos supremos da terra inteira, o inegável e verdadeiro esmagamento estrondoso contra o medo mortal silenciado através da implacável, eterna e poderosa rainha indomável dos felinos que fez questão na vida terrena árdua provar, perante os infernos enfrentados outrora na ignorância humilhante da humanidade insensível, que permanecer convictamente no tortuoso trilho seguro ao buscar de alma e sangue incansáveis até ao último suspiro derradeiro da existência, o inegável e glorioso sucesso puro dos corações batalhadores limpos que sempre e incontestavelmente nos guiam.