Eu vou ser rico e os meus filhos nunca vão saber o que é a fome. O Milton andou durante 24 dias pela estrada estadual G006. Comia mangas que encontrava nas árvores, bebia água dos riachos, dormia debaixo das pontes. E quando chegou a São Paulo, no dia 14 de maio de 1943, tinha os pés a sangrar e a roupa virada em farrapos.
procurou trabalho na fábrica de parafusos Mecânica Industrial Limitada, no bairro da Muca, onde se encontra um encarregado chamado António Stella deu uma oportunidade para ele. Emprego de aprendiz, salário 90 cêntimos por dia. A mesma coisa que o Milton tinha tido no bolso quando saiu de Goiás. O Milton dormiu as primeiras seis semanas no chão da própria fábrica.
O encarregado Estela deixava-o ficar depois de fechar. E aos domingos, único dia de folga, o Milton aprendia a ler com um jornal velho que o dono da fábrica dava para ele. Aos 21 anos, já lia confluência. Aos 24, fundou a sua primeira oficina. Aos 28, vendeu a oficina e comprou a fábrica de peças automóveis de Diadema. Aos 32, já tinha seis explorações.
O Milton cumpriu. Aos 29 anos já tinha a fábrica. Aos 34 tinha as fat as quintas. E quando nasceu o Airton, o segundo filho, o primeiro filho varão, o Milton fez outra promessa. Eu vou dar-lhe tudo. Tudo. Qualquer capricho que ele tenha, vou comprar. E esse tudo, esse tudo que o Milton da Silva prometeu dá pro filho varão Airton, inclui uma coisa que nenhum miúdo brasileiro dos anos 60 tinha tido jamais.
Um carro de corrida com 4 anos. Vamos. 1964. O Atiron tinha 4 anos e o Milton, que viajava constantemente entre as fazendas, tinha reparado que o miúdo ficava a olhar para os carros na estrada durante horas. Os camiões que passavam, as carrinhas Volkswagen Combi, as Mercedes, tudo o que tivesse rodas, o Airton olhava com uma concentração que não era normal num miúdo tão pequeno.
O Milton mandou construir um cart, um cart em miniatura com motor de cortador de relva, cinco cilindradas, velocidade máxima 20 km/h, pintado de vermelho e branco. e deu de presente ao Airton no dia do quarto aniversário em março de 1964. A primeira vez que o Airton se sentou no cart, no quintal das traseiras da mansão de Santana, fez uma coisa que assombrou a família inteira.
Acelerou sem ninguém ter-lhe explicado. Virou a direção sem ninguém ter ensinado. Freou antes de bater na vedação de madeira com 4 anos sem nunca ter visto alguém conduzindo um cart. O Milton aproximou-se do miúdo e fez uma pergunta. Filho, como é que sabias fazer isso? E o Atiron, com 4 anos, respondeu-lhe: “Vi os homens dos carros na estrada.
Fazem assim, fazem assim.” Esta foi a frase. Aos 4 anos, o Airton já tinha memorizado, observando em silêncio do banco de trás do carro do pai, os movimentos exatos de qualquer condutor do mundo. Com 8 anos, o Airton já conduzia o Mercedes do pai pelas estradas internas da exploração. Aos 10 já tinha um cart profissional.
Aos 13 já competia contra adultos no cartódromo de Interlagos. E com 17, em 1977, foi campeão sul-americano de karting. Mas houve um dia, um dia específico nesse 1977 que mudou tudo qual o que o Airton acreditava sobre a família. Vamos. 17 anos. O Airton terminou o ensino secundário no colégio Rio Branco de São Paulo e disse ao Milton o que queria fazer da vida dele.
Quero ir para Inglaterra, pai. Quero correr Fórmula Ford. Quero ser piloto profissional. Quero ser campeão do mundo de Fórmula 1. O Milton respondeu com três palavras que iam doer no Atiron durante 17 anos. Até ao dia da morte dele, o Milton respondeu: “Isso não é trabalho. Isto não é trabalho. O Milton, o pai que tinha prometido dar tudo ao filho, negou-lhe a única coisa que o filho queria muito, a carreira de piloto.
O Milton queria que o Airton entrasse na fábrica de peças automóveis, que estudasse administração, que casasse com uma rapariga de boa família paulista, que tivesse filhos, que continuasse o negócio, que fosse, por outras palavras, uma versão moderna do próprio Milton. Mas o Airton disse que não.
E com 17 anos, com a mesada que o Milton lhe dava para universidade, o Aton comprou uma bilhete de avião para Londres sozinho, sem autorização, sem avisar e foi embora. para correr Fórmula Ford no inverno inglês. Nesse 1977, o Airton viveu num apartamento de dois quartos em Norich, uma pequena cidade no leste de Inglaterra, dividido com outro piloto brasileiro, o Maurício Guromin.
Sem aquecimento, sem água quente, comia sopa de pacote e pão duro. Todo o dinheiro que tinha ia para as corridas e todas as noites ligava para o telefone paraa casa dos pais em Santana. E todas as noites o Milton não queria atender. Era a Neid, a mãe quem o atendia. E a Neid dizia ao Airton a mesma frase: “Filho, volta, o teu pai perdoa-te.
Volta, mas o Airton não voltou. Ganhou o campeonato de Fórmula Ford de 1978. Venceu o Fórmula Ford 2000 de 1979. E em 1980 ganhou o Campeonato Britânico de Fórmula 3. Aos 21 anos já era o piloto mais promissor do mundo. E o Milton ligou finalmente. Filho falou o Milton naquela noite do 6 de agosto de 1980. Tinha razão. Desculpa-me.
Volta para casa este verão. Quero abraçar-te. O Atiron voltou. E nesse verão de 1980, na fazenda Tatuí do Pai, passou 30 dias seguidos abraçado ao pai, a conversar, a chorar, a pedir perdão um pro outro pelos três anos de silêncio. Mas o Milton, sem saber, já estava transmitindo ao Airton uma coisa, uma coisa que ia marcar a vida inteira do piloto, uma ideia, uma única ideia que mudaria tudo. Vamos.
A ideia era essa. O Milton falou para o Airton numa daquelas noites na quinta uma frase que o Airton repetiu depois em entrevistas durante toda a vida. O Milton falou: “Filho, nesta vida o único que importa é ser o melhor. Se vai ser piloto, seja o melhor piloto do mundo. Se você vai ser empresário, seja o melhor empresário do mundo.
Se vai ser pai, seja o melhor pai do mundo. E se não pode ser o melhor, não o faça. Fica em casa, olha para a televisão e deixa morrer tranquilo. O melhor ou nada. Essa foi a lição do Milton para o filho Airton nesse Verão de 1980 na fazenda Tatuí. Uma lição que ia empurrar o Airton durante os 14 anos seguintes a procurar a perfeição absoluta, a treinar 7 horas por dia, a estudar as pistas em pormenor obsessivo, a lutar com qualquer piloto que ficasse à frente, a tentar ser literalmente o melhor piloto da história da Fórmula 1. Mas esta lição também ia
empurrá-lo 14 anos depois a subir no cockpit de um Williams que ele próprio sabia que não estava bem. Um Williams que ele próprio sabia que tinha problemas com a coluna de direção. Um Williams que ele próprio tinha pedido para modificar contra o conselho do engenheiro principal da equipa, Adrian Newway. Porque o melhor, segundo a lição do Milton, não pode ter medo.
O melhor, segundo a lição de Milton, não pode falar não. O melhor, segundo a lição do Milton, tem de subir para o carro, mesmo sabendo que vai morrer. Mas ainda faltavam 14 anos para o tamburelo. E no meio, o Airton tinha de cumprir a promessa ao pai, ser o melhor, ganhar três títulos mundiais, tornar-se Deus. E Deus foi o que ele virou. Vamos. 1984.
O Airton estreou-se na Fórmula 1, equipa Toleman, carro modesto, sem hipóteses reais de ganhar. Mas na sexta corrida da ª temporada, Grande Prémio do Mónaco, debaixo de uma chuva torrencial, o O Airton fez uma coisa que o Pedock não esqueceu nunca. Ultrapassou Nick Lauda, duas vezes campeão do mundo.
Ultrapassou a Lan Prost, líder da corrida, estava prestes a ganhar a primeira corrida de Fórmula 1 quando a organização suspendeu a prova pela chuva. O Airton terminou em segundo, mas o mundo inteiro da Fórmula 1 entendeu nessa tarde uma única coisa. Tinha nascido um novo deus. 1985, o Airton assinou com a Lotus.
Primeira vitória, Grande Prémio de Portugal. Chuva outra vez. O Airton, a conduzir como ninguém, tinha dirigido jamais debaixo d’água, ganhou durante mais de um minuto sobre o segundo lugar. Sem acelerar, sem travar. como se conduzisse um cart no quintal da fazenda Tatuí. 1988, o Airton assinou com a McLaren, a equipa mais poderosa da Fórmula 1 naquele momento, o colega de equipa Alan Prost, o francês tetracampeão.
E naquele 1988, o Airton ganhou oito corridas, conquistou o primeiro título mundial aos 28 anos, 1990. Segundo título, 1991. Terceiro título, três títulos mundiais em 4 anos, 41 vitórias, 65 po positions, marca histórica da Fórmula 1, que duraria 16 anos até que o Michael Schumacher superou em 2006. Mas entre 1991 e 1993, alguma coisa mudou.
alguma coisa que ia levar o Airton em Dezembro de 1993 a tomar a decisão mais repugnante da carreira dele. Uma decisão que 4 meses depois ia custar-lhe a vida. Essa decisão foi assinar com a Williams, a equipa que ia ganhar o campeonato de 1994, a equipa que tinha o melhor carro do mundo, a equipa cujo engenheiro principal era um génio britânico chamado Adrian Newway.
E a equipa que 8 meses antes do Grande Prémio de San Marino tinha feito uma modificação no carro número dois, o automóvel que ia ser conduzido pelo Sena. Vamos perceber que modificação foi e por o Sena, contra o conselho do Niway exigiu que fosse feita. Vamos. Dezembro de 1993, estori Portugal.
O Sena acaba de ganhar o último Grande Prémio da temporada. Austrália, a sua vitória número 41, a última da sua carreira. Está sentado na varanda da sua casa, no Algarve, olhando o Atlântico com uma copo de vinho tinto na mão e diz à namorada Adriane Galisteu uma frase, uma única frase. Eu vou assinar com a Williams porque têm o melhor carro e preciso do melhor carro para ser o melhor.
O melhor. A lição do pai Milton. 13 anos depois da fazenda Tatuí, o Sena continuava a persegui-la. A McLaren já já não era a equipa dominante. A Williams, dirigida pelo Frank Williams e projetada por um engenheiro britânico de 35 anos chamado Adrian Newway, tinha ganhou o campeonato de 1992 com Nigel Mansel e o campeonato de 1993 com Alan Prost, quatro vezes campeão do mundo, o francês que o Sena odiava com um ódio pessoal.
O Sena assinou com a Williams no dia 8 de Dezembro de 1993. Salário 8 milhões e meio de dólares por temporada, o mais alto da Fórmula 1. E a primeira condição do Sena ao assinar o contrato foi uma só, que o Prost não estivesse na equipa. O Prost que tinha previsto seguir mais um ano na Williams, reformou-se naquela mesma semana e o Sena, finalmente, depois de 14 anos de carreira, era o piloto número um absoluto da melhor equipa do mundo.
Aos 33 anos, sem prost, sem companheiro à altura, apenas ele e o carro. Mas o carro, o Williams FW16, tinha um problema, um problema que ia custar a vida ao Sena. O problema era a a coluna de direção, uma peça metálica com meio m de comprimento que ligava o volante do piloto com o sistema mecânico do automóvel, uma peça que em qualquer carro de Fórmula 1 tem de suportar forças brutais.
Acelerações de 4G, travagens de 5G, curvas a 280 km/h. E no Williams FW, 16 do Sena, este coluna tinha uma história. Uma história que começou três meses antes do Grande Prémio de San Marino. Vamos. Janeiro de 1994, fábrica da Williams em Grove, Inglaterra. O Sena subiu no FW 16 pela primeira vez para um teste privado no circuito de Estorio e com 10 minutos de pilotagem parou o carro.
saiu, caminhou até ao engenheiro principal da equipa, o Adrian Newway, e falou para ele cinco palavras: “Adrian, este carro não funciona. Não funciona. Era janeiro, faltavam 4 meses para o primeiro Grande Prémio. E o piloto que ia ganhar o campeonato estava a falar para o engenheiro mais respeitado do mundo que o automóvel estava mau.
O Sena queixou-se de três coisas. Um, o automóvel era instável nas curvas rápidas. Dois, o motor Renault não entregava a potência a potência esperada. E três, a posição da coluna de direção era desconfortável. O Sena batia com a mão contra o chassis cada vez que rodava o volante. O Niway escutou, o Niway anotou e o Niway, nas oito semanas seguintes, tentou resolver os três problemas.
melhorou o equilíbrio aerodinâmico, pediu paraa Renault mais potência do motor e para resolver o terceiro problema, o problema da coluna ordenou alguma coisa, alguma coisa que depois a justiça italiana em 1997 ia chamar duas peças muito más de engenharia. O Newway ordenou rebaixar a coluna de direção 2 mm para que o Sena não batesse com a mão.
Mas a coluna do Williams FW16 era uma peça fabricada a partir de fábrica numa única peça, sem possibilidade de modificação. O que fazer? Uniuway e ordenou uma coisa brutal. Cortar a coluna a meio, inserir um pedaço mais fino e soldar as duas partes nas extremidades. Cortar. Soldar, uma coluna de direção de um automóvel de Fórmula 1, que ia rodar o volante a 280 km/h na curva do tamburelo, cortada e soldada, com um tubo mais fino no meio.
A operação foi feita na oficina da Williams em Grove durante a última semana de janeiro. Três mecânicos fizeram o trabalho. um soldador chamado Steven Godard, um engenheiro de materiais chamado James Robinson e o próprio chefe de engenharia, Patrick Head, que assinou a autorização final. A peça nova, o pedaço do meio, tinha um diâmetro exterior de 22 mm, menos 2 mm que o tubo original.
E os técnicos fizeram as soldaduras com árgon em temperatura controlada. As soldas foram perfeitas. O que não foi perfeito, segundo concluíram os peritos italianos da Universidade de Bolonha 31 anos depois, foi o cálculo de tensão sobre o novo ponto. Aquela sessão reduzida naquela zona crítica da coluna ia suportar as mesmas forças que a coluna original, mas com menos 20% de resistência.
Uma resistência que diminuía a cada volta, a cada curva, a cada movimento do volante. O Sena testou o carro novo em março de 1994. A mão já não batia contra o chassis, a coluna funcionava. O Sena agradeceu ao Newway, Interlagos, 27 de março. Mas a coluna naquele momento já tinha alguma coisa dentro.
alguma coisa invisível, alguma coisa que só os peritos italianos da Universidade de Bolonha, 31 anos depois, em março de 2025, iam confirmar oficialmente. A coluna já tinha uma fissura, uma fissura microscópica, produzida pela fadiga do metal depois das soldas. Uma fissura que crescia a cada volta de teste. Em cada corrida, em cada acelerada, em cada travagem, uma fissura que ia romper irreversivelmente em algum momento do ano de 1994.
Mas esse momento ninguém sabia quando ia chegar. Vamos. 27 de março de 1994. Grande Prémio do Brasil. Interlagos. O Sena abandonou a corrida na volta 56. Perda de controlo. Carro a circular sem lesões graves pro piloto, mas o carro destroçado contra a barreira. 17 de abril, grande prémio do Japão, a ida, segunda corrida.
O Sena abandonou de novo, desta vez na primeira volta. Choque com o alemão Mika Hacknen. O carro destroçado outra vez. Zero ponto em duas corridas. O Sena, líder absoluto do campeonato do ano anterior, estava agora sem pontos e os adeptos brasileiros começavam a duvidar. A imprensa internacional escrevia editoriais perguntando se o Sena tinha perdido o toque, se era a altura de se aposentar, se o carro Williams era realmente o melhor do mundo.
O Sena estava devastado, a pressão era brutal e o pai Milton da Silva não tinha ligado depois das duas derrotas. Nem uma única vez o Sena ligou pro Milton depois de Aida. E o Milton respondeu com uma frase que o Sena nunca esqueceu. O Milton disse: “Filho, dois abandonos seguidos não são de um campeão? Prometeste-me que ia ser o melhor.
Onde está o meu filho? Aquele que chegou? Aquele que ganhou? Aquele que era o melhor do mundo. Recupera-o antes que seja tarde. Recupera-o antes que seja tarde.” Esta foi a frase do Pai. em vez de consolar o filho, em vez de lhe dizer que dois os abandonos não eram o fim do mundo, em vez de lhe dizer que um piloto perde e ganha, o Milton disse ao Airton que recuperasse o melhor antes que fosse tarde.
E o Airton, de 33 anos, três vezes campeão do mundo, ídolo de um continente inteiro, desligou o telefone naquela tarde de Abril de 1994 em Tóquio e chorou. chorou durante 40 minutos sozinho no quarto de hotel do Hotel de Tóquio, pedindo ao espelho em voz alta uma única coisa: “Pai, eu perdoa”. 15 dias depois, o Sena estava em ímola, pro terceiro grande prémio da temporada, o grande prémio de San Marino, onde o pai Milton, segundo tinha dito ao Sena ao telefone dois dias antes, finalmente ia perdoá-lo se ganhasse e só se ganhasse? Vamos.
29 de abril de 1994. Sexta-feira, circuito de Ímola, Itália. Primeiro dia de treinos oficiais do Grande Prémio de São Marino. O Sena chegou à pista às 9 da manhã, dirigiu duas sessões, marcou o quarto tempo, estava inquieto, sentia o carro estranho, mas a coluna de direção, aquela coluna soldada e cortada, não deu nenhum sinal para ele.
Ainda às 4 da tarde daquela sexta-feira, durante a sessão de qualificação, decorreu uma coisa. Um piloto brasileiro chamado Rubens Barrichelo, 21 a1 anos, estreante do ano na Fórmula 1, perdeu o controlo do Jordan dele na curva da variante Bassa. O carro voou em cima de um guarda- rail, aterrou de cabeça e o barrixelo ficou inconsciente.
Levaram para o hospital sem lesões graves, falaram os médicos no final, mas o carro destroçado e a imprensa assustada. O Sena foi o primeiro piloto a chegar ao hospital nessa tarde, antes dos médicos da equipa, antes da família do Barrichelo, perante qualquer autoridade da Fórmula 1. O Sena entrou no quarto do Rubens, pegou-lhe na mão, esperou que ele acordasse e quando o Rubens abriu os olhos, o Sena chorou.
chorou em frente ao compatriota brasileiro, sem dizer uma palavra, só apertando a mão a mão dele. Nessa noite, no hotel Castelo de Íola, onde o Sena estava hospedado, o piloto não jantou, não falou com ninguém da equipa, subiu para o quarto dele, número 403, e às 9h45 da noite, apanhou o telefone e ligou ao pai. O Milton da Silva, na sua mansão de Santana, em São Paulo, atendeu a chamada às 5:45 da tarde, hora do Brasil.
Aquela ligação durou exatamente 11 minutos e os termos exatos daquela conversa entre pai e filho são conhecidos apenas pela Viviane Sena, a irmã mais velha, porque a Viviane estava na mansão do Milton naquela sexta-feira e escutou a conversa pelo telefone sem fios da cozinha. O Sena disse ao pai, palavra por palavra, segundo a Viviane contou 31 anos mais tarde no documentário da HBO Max, meu Airton, por Adriane Galisteu, dia 6 de novembro de 2025, o Sena falou pro Milton: “Pai, houve um acidente, o Rubens quase morreu. Eu vi o carro destroçado.
Não sei se quero correr no domingo. Tenho medo.” E o Milton respondeu com cinco palavras. Cinco palavras que iam empurrar o Sena a subir para o carro dois dias depois. Cinco palavras que a família Sena escondeu durante 31 anos até ao documentário da Adriane Galisteu na HBO Max. O Milton falou: “Os campeões não têm medo.
Os campeões não têm medo” e desligou. Sem um adeus, sem um eu te amo, sem um Boa Viagem, filho, sem nada. Só estas cinco palavras, como uma faca, como uma sentença. O Sena desligou o telefone e pegou no sem fio do hotel e marcou outro número, o da A irmã Viviane, que naquele momento já tinha saído da mansão do Milton e estava no próprio apartamento, no bairro da Vila Olímpia de São Paulo.
A ligação começou às 9:57 da noite, hora de Itália, e durou exatamente 47 até às 22h44 da noite. E nessa ligação, o Sena falou para Viviane o que nunca pôde dizer ao pai. Vamos. À Viviane Sena, a irmã mais velha do Airton, tinha 37 anos em 1994. Era psicóloga, tinha dois filhos pequenos, vivia em São Paulo e era desde a infância a única pessoa no mundo a quem o Airton contava tudo.
A única pessoa que conhecia os seus medos, a única pessoa que o tinha visto chorar mais do que uma vez. Naquela noite de 29 de Abril de 1994, no seu apartamento de Vila Olímpia, a Viviane atendeu o telefone às 5:57 da tarde, hora do Brasil. Era o Airton. E o Airton, antes de cumprimentar, antes de perguntar como estava da irmã, antes de falar dos filhos da Viviane, falou uma frase, uma só.
Viviane, preciso de falar contigo, mas antes promete-me uma coisa. Não conta nada disto ao papá. A Viviane prometeu e durante os 47 minutos seguintes, Atirton Sena contou à irmã o que a família Sena ia esconder durante os próximos 31 anos. Até que a própria Viviane, em novembro de 2025, no documentário da HBO Max, finalmente confessou ao mundo.
O Airton falou para Viviane, palavra por palavra, o seguinte: “Viviane, eu não quero correr no domingo, sinto, alguma coisa vai acontecer, não sei quê”. Mas alguma coisa vai acontecer. O Rubens quase faleceu hoje. O carro da Williams é instável. A coluna de direção, aquela que modificaram para mim, não me dá confiança. Sinto-a dura.
Sinto-a como se fosse partir a qualquer momento. Eu liguei ao papá uns minutos atrás, contei-lhe, disse que tinha medo e o papá respondeu-me que os campeões não têm medo e desligaram sem falar mais nada. Viviane, eu não quero correr, mas se eu não correr, o papá nunca mais me vai falar. O papá já está chateado porque perdi as duas primeiras corridas do ano.
Se eu retirar o carro no domingo, vou perder o papá para sempre. E não posso perder o papá. Sabe, Viviane? Eu não posso. Tenho 33 anos e ainda preciso que o papá me diga que sou o melhor. Sem o papá me dizer isso, eu não sou nada. E o papá só diz isso se eu ganhar, só se eu for o melhor. Senão, eu não sou ninguém para ele e eu não posso viver sem ser filho dele, sem ser o filho de quem se orgulha.
Então vou correr no domingo, Viviane. Mesmo tendo medo, mesmo sentindo que o carro está mau, mesmo sentindo que alguma coisa vai acontecer, vou correr, porque a única alternativa é perder o papá. E isso, Viviane, é pior do que morrer. É pior do que morrer. Essas foram as palavras finais da ligação de 47 minutos.
O Sena desligou às 10:44 da noite, hora de Itália. E a Viviane Sena, sentada no sofá do apartamento dela em São Paulo, chorou durante duas horas seguidas, sem saber o que fazer, sem poder ligar ao pai, sem poder ligar de volta para o irmão, só a chorar, sentindo que alguma coisa terrível ia acontecer. Mas fez uma única coisa. Pegou num caderno azul, Marcate Tilibra, que tinha em cima da mesa da sala, e escreveu palavra por palavra, tudo mal o que o irmão dela tinha falado.
32 páginas. Tudo para não esquecer nunca, para que se alguma coisa acontecesse com Airton, existisse pelo menos um registo da verdade. A verdade que o pai nunca conheceu, a verdade que a família ia esconder. Esse caderno azul de Balança ainda existe. A Viviane tem-no, guarda-o no cofre da casa dela.
E só em novembro de 2025, 31 anos depois, decidiu finalmente lê-lo publicamente, página a página. No documentário Meu Airton por Adriane Galisteu da HBO Max. Mas a frase do pai Milton, os campeões não têm medo, não foi o único erro da família Sena nesse fim de semana. Houve outro, outro erro mais nojento feito duas noites antes, no dia 30 de Abril de 1994, Sábado, no mesmo hotel Castelo de Ímola, pelo irmão mais novo do Sena, Leonardo da Silva, e pela mãe Neid.
E por uma cassete que a família Sena tinha gravado em segredo durante se meses, vamos. 30 de abril de 1994. Sábado, Hotel Castelo de Ímola. O Sena tinha dormido 3 horas, levantou-se às 7 da manhã, desceu para o restaurante do hotel e na mesa do pequeno-almoço esperavam-no duas pessoas, o irmão mais novo, Leonardo da Silva, de 29 anos, e um envelope castanho.
Dentro do envelope, uma cassete VHS, sem etiqueta, sem nada que indicasse o que tinha lá dentro. Aquela fita era o resultado de se meses de espionagem. Seis meses durante os quais a família Sena tinha escutado todas as chamadas telefónicas do apartamento onde o Airton vivia com a namorada Adriane Galisteu, no bairro Vila Olímpia de São Paulo.
Uma vigilância clandestina que a própria família organizou sem o Airton saber. Vamos saber o que estava nessa fita e por o Leonardo viajou até Itália para mostrar ao irmão dois dias antes de morrer. O Leonardo da Silva, o irmão mais novo do Airton, tinha chegado a Ímola na noite anterior, no voo da Varig BR, 4506.
Saída de São Paulo às 23 horas do dia 29, chegada a Bolonha à 1:30 da tarde do dia 30 e trazia consigo o envelope castanho encomendado pela mãe Neid Sena da Silva, que na mansão de Santana em São Paulo, também não tinha dormido nessa noite, porque a Neid queria que o Airton soubesse antes da corrida de domingo o que estava a acontecer no apartamento dele de Vila Olímpia.
A Adriane Galisteu, 21 anos, modelo, namorada oficial do Sena, desde Março de 1993, vivia com Airton naquele apartamento de Vila Olímpia desde Dezembro do mesmo ano. A família Sena não aprovava o relacionamento. Consideravam ela pouca coisa, uma rapariga de um bairro pobre de São Paulo, sem estudos universitários, sem tradição familiar, sem nível cultural para acompanhar um tricampeão do mundo.
Mas o Airton amava-a e isso para família Sena era um problema. Em outubro de 1993, a família Sena tinha contratado uma empresa privada de investigação de São Paulo, denominada Viana e Associados, para fazer uma coisa muito concreta, agrafar o telefone fixo do apartamento do Airton, gravar todas as chamadas, procurar provas de que a Galisteu traía o piloto ou que mentia ou que tinha interesses económicos no relacionamento, qualquer coisa que servisse para destruir a relação.
Durante 6 meses, entre outubro de 1993 e abril de 1994, a empresa Viana registou 47 horas de conversas telefónicas da Galisteu. Conversas com a mãe, com amigas, com ex-colegas de modelo, com o agente desta, com os jornalistas e uma vez com um ex-namorado da Galisteu, um homem chamado Marcos Vendramini. A conversa entre a Galisteu e o Vendramini foi no dia 5 de janeiro de 1994.
Durou 9 minutos. E num momento daquela conversa, o Vendramini, tentando reconquistar a Galisteu, falou uma frase, uma frase que a família Sena ia usar para destruir a confiança do Airton na namorada. O Vendramine falou, se referindo-se a si próprio em comparação com o Sena. Adriane, sabes que eu sou melhor de cama do que ele? E a Galisteu, em vez de defender o piloto, em vez de cortar a ligação, em vez de desligar, ficou calada 3 segundos e depois falou em tom distraído.
Talvez, não sei, mas já estou com ele. Isso não vai mudar, talvez. Não sei. Estas foram as palavras da Galisteu. No contexto, era claro que a Galisteu estava simplesmente a terminar uma ligação incómoda com um ex, mas a família Sena, naquelas sete palavras, tinha encontrado o material que precisava: A prova, a faca emocional.
E naquela manhã do dia 30 de Abril de 1994, Leonardo da Silva, na mesa do café da manhã do Hotel Castelo, colocou a fita pró Airton. O Airton escutou a fita inteira sem parar, sem falar uma palavra, sem se mexer. E quando terminou disse ao Leonardo quatro palavras, quatro palavras que o Leonardo nunca se esqueceu e que recém, em 2025, 31 anos depois, no documentário da HBO Max, contou ao mundo: “Vamos”.
O Airton disse ao Leonardo quatro palavras: “Leva essa merda. Leva, leva!” sem gritar, sem chorar, sem brigar com o irmão. Só quatro palavras. Leva essa merda. Leva. O Leonardo pegou na fita, guardou-o no envelope castanho e saiu do restaurante do hotel. Apanhou um táxi até o aeroporto de Bolonha e às 4h30 da A tarde desse sábado já estava de volta no voo da Varig B R4507 rumo a São Paulo, com a fita na mala.
Mas o Airton no restaurante do hotel já não era o mesmo. A pressão do pai Milton, os dois abandonos do ano, o acidente do Barriquelo, a fita da Galisteu, tudo se acumulou de uma vez. E naquela manhã do dia 30 de abril, durante o treino livre, aconteceu uma coisa terrível. Um piloto austríaco. O Roland Ratzenberger, 33 anos, estreante do ano na Fórmula 1, perdeu o controlo do Sintech dele na curva da Villenve.
O carro dele incrustou-se contra o muro a 314 km/h. O Hatzenberger morreu no impacto. Crânio destroçado, pescoço quebrado. O primeiro piloto morto numa pista de Fórmula 1 em 12 anos. Desde o Ricardo Palette no Canadá, 1982, o Roland Hutzenberger era apenas austríaco de Salsburgo, filho de um mecânico. Tinha-se estreado na Fórmula 1 há apenas três corridas.
tinha contrato pela época com a equipa Stech. Sonhava com esta oportunidade há 16 anos e ia custar-lhe a vida a quarta corrida da carreira dele, o treino de qualificação de Ímola. Quando Hatzenberger morreu, o Sena, que estava a olhar para o monitor do box da Williams, quando aconteceu o acidente, abandonou o carro, andou 2 km até ao local do embate e viu o corpo do Hatzenberger ainda dentro do carro.
Sangue, pedaços de fibra de carbono, um capacete partido em dois e o Sena chorou. chorando, pegou do muro do circuito uma bandeira austríaca, uma pequena bandeira que algum adepto tinha deixado e a cena dobrou-a e guardou-o no bolso do fato-macaco. Falando palavra por palavra pros oficiais da FIA que estavam do lado dele, uma frase gravada no vídeo oficial da FIA do dia 30 de Abril de 1994.
Eu vou agitar essa bandeira na volta da vitória pelo Hatzenberger, porque nenhum piloto deveria morrer sozinho. Pelo Hatzenberger, porque nenhum piloto deveria morrer sozinho. O Sena voltou à box da Williams nessa tarde, mas não conduziu mais. Ficou até ao final do treino classificativo sentado numa cadeira da garagem, sem se mexer, sem falar com ninguém.
O médico chefe da Fórmula 1, o Dr. Sid Watkins, aproximou-se do Sena às 7 da noite e falou-lhe, palavra por palavra, segundo o Watkins contou na autobiografia dele, Life at the Limit de 1996, o Watkins falou para o Sena, Airton, estamos todos tristes hoje. Por que não vamos os dois juntos pescar? Vamos esquecer esta corrida.
Vamos paraa Escócia pescar como tantas vezes. E o Sena respondeu ao Watkins com uma frase que o médico inglês transcreveu palavra a palavra. Eu não posso, Sid. Tenho que correr no domingo. Há coisas mais fortes do que a minha vontade. Há coisas mais fortes do que a minha vontade. O Watkins entendeu naquele momento que o Sena já tinha aceitado no que ia acontecer, que a pressão do pai, a pressão da equipa, a A pressão dos adeptos brasileiros era mais forte do que o instinto de sobrevivência.
E o Watkins 32 anos depois, numa entrevista à BBCF1 em 1995, ainda não se perdoava por ter deixado Sena correr nesse domingo. “Eu era o médico-chefe”, falou o Watkins. “Eu tinha autoridade para o retirar da corrida. Não fiz e vou viver com isso até morrer. E aquela bandeira austríaca dobrada com cuidado no bolso do fato-macaco branco e verde da Williams e aparecer 24 horas depois dentro do cockpit destroçado do FW16 na curva de tamburelo.
Mas no meio Sena ia fazer uma coisa, uma coisa que só a Galisteu sabia. Uma ligação extra. Uma a mais antes de subir para o carro. Vamos. 30 de Abril, sábado, 22 horas, Hotel Castelo, Ímola. O Sena ligou para o apartamento da Vila Olímpia, em São Paulo. A Galisteu atendeu e, segundo a A própria Galisteu contou, palavra por palavra, no documentário Meu Airton da HBO Max do dia 6 de novembro de 2025, o Airton disse-lhe cinco frases.
Cinco frases que precisa de ouvir. Adriane, a minha família colocou escutas no seu telefone. Eu sei de tudo. Não me importa nada do que escutaram. Eu amo-te. E amanhã, quando terminar a corrida, vou voltar para Portugal e vamos casar e vamos ter filhos. E nós os dois vamos esquecer isso tudo. Eu prometo. Eu prometo.
Estas foram as últimas palavras que a Aton Sena disse à Adriane Galisteu em vida. Nessa noite, às 10:07, hora de Itália. Adriane chorou do outro lado do telefone, disse ao Airton que também amava-o, que ia esperá-lo no Algarve, que estava tudo bem, e desligaram. O Airton subiu para o quarto dele, dormiu 5 horas e às 6 horas da manhã do primeiro de Maio de 1994 acordou, vestiu-se, desceu para o restaurante, tomou café com leite e pão tostado com mel, como sempre, e às 9 da manhã já estava no circuito.
Aquela foi a última manhã do Aton Sena. Vamos falar da corrida. Vamos. Primeiro de maio de 1994, domingo, Grande Prémio de São Marino, circuito de Ímola, Itália. 200.000 espectadores nas bancadas, 300 milhões de pessoas a olhar pela televisão no mundo inteiro. O Sena largou da po position com o FW 16 número 2, fila 1, lado esquerdo da via.
Quando as luzes se apagaram às 2:17 da tarde, o Senas CX arrancou perfeitamente. Liderou desde o primeiro metro. O Michael Schumacher na Beneton perseguia ele. As primeiras voltas passaram sem problemas e na sexta volta, depois de um automóvel de segurança por um acidente menor do leito e do lame na grelha, o Sena liderou o reinício.
Volta sete, curva de tamburelo. Curva que o Sena tinha feito centenas de vezes na sua carreira. 290 km/h. O cena entrou na perfeição. travou 3 démos, virou o volante para fazer a curva e a coluna de direção, aquela coluna que tinha ordenado cortar e soldar em janeiro, rompeu-se não de uma vez, lentamente. A fissura que tinha crescido durante 4 meses, finalmente não aguentou mais.
O volante ficou sem ligação com o mecanismo de direção. O Sena, segurando um volante que já não nada comandava, viu o muro de cimento de tamburelo a chegar. 211 km/h, sem possibilidade de virar, sem possibilidade de travar a tempo. O FW16 número 2 embateu contra o muro da curva de tamburelo às 14h17 do 1 de maio de 1994.
A telemetria do carro registou nos últimos 8 d impacto o que estava a acontecer dentro do cockpit. O Sena soltou o acelerador aos 2:14 com 52 segundos. pisou no travão com todas as suas forças às 2:14 com 53 segundos e virou o volante para a esquerda aos 2:14 com 54 segundos a tentar desviar do muro. Mas o volante ligado a uma coluna já rompida não respondia.
As rodas do carro continuaram direitas e o Sena, segundo as análises posteriores do Cid Watkins, teve entre um e do segundos para compreender que ia morrer. Suficientes para o coração dele acelerar, suficientes para a mente dele registar a imagem do muro a chegar, suficientes para pensar em alguém. O impacto foi brutal.
O bico do carro se partiu, a roda dianteira direita voou e um braço da suspensão, uma peça metálica de 15 cm, entrou pela viseira do capacete do Sena, atravessou o olho direito, chegou ao cérebro. O Sena estava clinicamente morto no local do acidente. Os médicos do helicóptero chegaram 3 minutos depois. O Sid Watkins, o médico-chefe da Fórmula 1, entubou o Sena na via.
Levaram-no para o Hospital Magori de Bolonha. Fizeram reanimação cardiopulmonar durante 4 horas. Declararam-no oficialmente morto às 18h30. Hora de Itália, 34 anos. E no bolso do fato-macaco branco e verde da Williams, os bombeiros italianos encontraram dobrada uma bandeira austríaca, a bandeira do Hatzenberger, a bandeira que o Sena ia agitar na volta da vitória.
Mas a morte do Sena não foi o mais repugnante daquela tarde. O mais nojento aconteceu 3 horas depois, na casa do Sena, no Algarve, Portugal, onde Adriane Galisteu, de 21 anos, esperava no Tropata. A notícia. E onde alguém da família Sena, em São Paulo fez uma chamada que ia destruir a vida da Galisteu para sempre. Vamos.
Casa do Sena, na Quinta do Lago, Algarve, Portugal. 1 de maio de 1994, 19h30, hora de Portugal. A Galisteu estava na sala com a mãe Estefânia, que tinha viajado para acompanhá-la, e com a Luía Braga, a mulher do melhor amigo do cena, António Braga. As três mulheres estavam a ver a a transmissão da corrida pela televisão portuguesa.
Tinham visto o acidente de tamburelo ao vivo. Tinham visto cena inconsciente dentro do carro. tinham visto o helicóptero a levá-lo e desde esse momento, a Galisteu tentava comunicar com alguém da família Senonha ou em São Paulo. Sem sucesso, ninguém atendia o telefone. Às 7:32 da noite, o telefone de casa tocou.
A Luía Braga atendeu. Atendeu. Era o marido dela, António Braga, ligando do Hospital Magori de Bolonha. A Luía colocou no Viva Voz e o António Braga, palavra por palavra, falou o seguinte: “Segundo a transcrição exata que aparece no documentário Meu Airton da HBO Max de 6 de novembro de 2025, o António Braga disse: “Luía, escuta-me.
A família pediu-me para dar o recado. A Adriane não pode vir nem para Bolonha, nem para Itália, nem para o velório em São Paulo. A família não a quer aqui. O Airton já morreu. A família não quer ela aqui. O Airton já morreu. Essas foram as palavras. A namorada de 4 anos. A mulher com quem o Sena tinha conversado duas horas antes, a mulher com quem o Sena ia casar depois da corrida, segundo tinha prometido na noite anterior pelo telefone.
Essa mulher na sala da casa do Algarve escutou pelo viva voz que o namorado tinha morrido e que a família não queria ela no velório. A Galisteu caiu no chão, chorou durante 6 horas seguidas. A mãe Estefânia, sem saber o que fazer, ligou para a embaixada brasileira em Lisboa para pedir ajuda para conseguir transporte para Itália.
E a embaixada, depois de consulta com a família Sena em São Paulo, respondeu. A família Sena tinha dado instruções específicas. A Galisteu não podia entrar no hospital, não conseguia ver o corpo, não podia estar no velório, não podia ir ao funeral. Mais ainda a família Sena tinha dado outra ordem. A Galisteu tinha de abandonar a casa da Quinta do Lago em 48 horas.
A casa era propriedade do Airton e segundo o património, era agora propriedade da família, a Galisteu tinha de ir embora com as coisas dela, sem levar nada do Airton, nem uma foto, nem uma t-shirt, nem uma recordação. A Galistefen Bors foi embora no dia 3 de Maio de 1994 com uma única mala, a mala com que tinha chegado um mês antes, sem um único objeto do Airton, sem ter conseguido ver o corpo, sem ter estado no velório em São Paulo, onde mais de 1 milhão de brasileiros prestaram homenagem ao piloto, o velório de estado-maior da
história do Brasil e a namorada de 4 anos proibida de comparecer. E então iniciaram os 31 anos seguintes. 31 anos em que a família Sena apagou a Galisteu da história oficial. 31 anos em que a Galisteu não apareceu em nenhum documentário autorizado pela família. 31 anos em que a Galistu viveu com a dor de ter sido excluída do adeus final do homem que amava.
Até que em novembro de 2025, 31 anos depois, Adriane Galisteu, de 52 anos, finalmente quebrou o silêncio. Com o documentário da HBO Max Meirton por Adriane Galisteu. Dois episódios, duas horas, onde contou tudo. A fita de cassete, a ligação do Braga, a mala do 3 de Maio, o silêncio durante 31 anos.
Mas a família Sena não foi a única responsável pela morte do Aton. Houve outro, o engenheiro britânico Adrian Newway, o que cortou e soldou a coluna de direção, o que projetou o FW 16 defeituoso. O que sabia e nunca pagou um único dia de cadeia. Vamos. 4 de maio de 1994. Três dias depois da morte do Sena, A justiça italiana abriu uma investigação criminal por homicídio culposo contra cinco pessoas.
Frank Williams, proprietário da equipa Williams, Patrick Head, chefe de engenharia, Adrian Newway, chefe de projeto, Federico Bendinelli, diretor do circuito de Ímola, e Roland Bruin Serad, diretor de corrida da FIA. O processo durou 13 anos, de 1994 até 2007. 31 audiências em Bolonha. Só em 1997, os peritos italianos analisaram uma a uma as peças do Williams FW16 e chegaram a uma conclusão.
A conclusão foi confirmada definitivamente em março de 2025 pelos professores do Universidade de Bolonha, o Jean Paolo Camarota e o Ângelo Casagrande, numa entrevista ao portal italiano Motorsport. O Camarota e o Casagrande falaram palavra por palavra. A coluna de direção do FW16 já tinha uma fissura microscópica desde o momento em que foi soldada.
A modificação ordenada pelo Newway, rebaixar a coluna 2 mm exigiu cortar a peça ao meio, inserir um pedaço mais fino e soldar as duas partes. As soldaduras estavam perfeitas. O problema era o pedaço do meio, que tinha uma sessão mais pequena e que gerava uma fadiga concentrada nesse ponto. Uma fadiga que crescia a cada volta, em cada corrida, em cada acelerada.
O Camarota e o Casagrande acrescentaram: “A coluna teria falhado em algum momento do campeonato de 1994. Se não tivesse sido em Ímola, teria sido no Mónaco, em Espanha ou no Canadá. E o Adrian New, como engenheiro principal da equipa, deveria ter sabido do risco desde o dia em que ordenou a modificação. Deveria ter sabido.
Essa foi a frase dos peritos italianos. E o Adrian New autobiografia dele de 2017, “How to build a car”, escreveu palavra por palavra uma frase que fecha tudo. O New escreveu: “Aquelas modificações na coluna foram duas peças muito más de engenharia. Eu ainda hoje sinto um grau de responsabilidade pela morte do Sena.
Duas peças de engenharia muito más. Essa foi a frase. Três palavras ditas 23 anos depois da morte do Sena. Três palavras que provam que o Niway sabia, que sabia que a coluna não era fiável, que sabia que ia romper em algum momento e que mesmo assim deixou o Sena subir no automóvel no primeiro de maio de 1994 na pista de Ímola.
E a justiça. A justiça italiana, depois de 13 anos de processo, arquivou o caso em dezembro de 2007, por prescrição do crime, tempo esgotado. O Niway, o Red, o Williams, o Bend Nelli, o Bruin Seraed, todos absolvidos, sem passar um único dia na cadeia, sem pagar um único dólar de indemnização para a família Sena.
E hoje, 2025, 31 anos depois, o Adrian New trabalha como diretor técnico da equipa Red Bull. Salário anual, 10 milhões de dólares, 67 anos. Vivo, saudável, continua projetando carros de Fórmula 1, continua ganhando campeonatos, continua a ser considerados o melhor engenheiro do pédo o homem que sabia, o homem que ordenou cortar a coluna, o homem que confessou e o homem que nunca pagou.
Mas o pai do Sena, o Milton da Silva, pagou sim. Não com cadeia, não com dinheiro, com uma coisa pior, com 20 anos de culpa silenciosa, 20 anos durante os quais o pai escondeu da família inteira uma única frase. Uma frase que falou em particular para Viviane duas semanas depois do velório e que só apareceu publicamente no documentário da Galisteu do dia 6 de novembro de 2025. Vamos.
15 de maio de 1994. Mansão de Santana, São Paulo. 14 dias depois do velório do Airton. O Milton da Silva, de 68 anos, sentado na poltrona de couro preto da biblioteca da casa, bebendo whisky escocês Johnny Walker Blue Label, uma garrafa inteira e o Viviane Sena, a filha mais velha, sentada no sofá em frente a ele. O Milton não tinha falado com quase ninguém.
Desde o velório tinha recebido o presidente do Brasil, Itamar Franco, em silêncio. Tinha recebido outros boss o presidente do Senado em silêncio. Tinha recebido o embaixador britânico em silêncio. Mas paraa Viviane, naquela tarde decidiu falar pela primeira vez em duas semanas. E o Milton disse para Viviane, palavra por palavra, segundo a Viviane confirmou no documentário da HBO Max, do dia 6 de novembro de 2025.
O Milton falou: “Matei-o, matei ele”. A Viviane não percebeu, pediu ao pai explicar. E o Milton, com a voz quebrada pelo whisky e pelo choro, disse o seguinte: “Filha, o Airton ligou-me na noite anterior da corrida, disse-me que tinha medo, me disse que o carro estava mau, disse-me que não queria correr e eu respondi a ele que os campeões não têm medo”.
E desliguei sem dizer mais nada, sem falar eu amo-te, sem falar filho, não corras sem falar volta para casa que estou orgulhoso de ti. Eu dei uma sentença para ele, dei-lhe uma faca, disse-lhe que só aceitava-o como filho se fosse o melhor. E ele, o meu pequeno Airton, aquele que com 4 anos subiu para o cart no quintal, aquele que com 8 anos conduzia o Mercedes na quinta.
Aquele que com 28 28 ganhou o primeiro mundial. O meu pequeno filho escolheu morrer antes de me perder. Matei-o com as minhas palavras. Eu matei-o com a promessa que fiz quando nasceu de fazer dele o melhor. Eu matei-o porque não soube abraçar ele quando me disse que tinha medo. Eu matei-o porque só o aceitava como filho se ganhasse e nunca, nunca lhe disse que amava ele sem condições.
A Viviane ficou em silêncio. O Milton terminou o whisk e pediu à filha uma única coisa. Não contar nunca esta conversa a ninguém, nem para o Neid, nem para o Leonardo, nem para os netos, nem para imprensa. Ninguém pode saber, filha, que sou o responsável pela morte do seu irmão. Ninguém.
A Viviane prometeu e guardou a frase durante 20 anos, até que o Milton da Silva faleceu no dia 2 de setembro de 2014, na mesma poltrona de couro preto da biblioteca da mansão de Santana. 88 anos, cirrose hepática avançada. Demência senil nos últimos 6 anos. E a última palavra que o Milton da Silva pronunciou na cama, segundo a Neid, a mãe contou-lhe Viviane. Foi uma só. Aton, perdão.
Vamos ao fecho. Quem matou o Aton Sena? A pergunta tem muitas respostas. O Adrian Newway, o engenheiro britânico, ordenou cortar e soldar a coluna de direção, que finalmente se rompeu em tamburelo. O Niwi sabia do risco. O Niwi confessou 23 anos depois. O Niwi nunca pagou. O Patrick Head, o chefe de engenharia da Williams, autorizou a modificação.
O Frank Williams, dono da equipa, pressionava por velocidade acima da segurança. A FIA, com regulamentos técnicos insuficientes nesse 1994, também é culpada. Mas a verdadeira causa, a causa profunda, não esteve na coluna de direção, esteve ao telefone, naquela chamada de 11 minutos entre o Airton e o Milton, na noite de 29 de Abril de 1994, naquelas cinco palavras do pai, os os campeões não têm medo no silêncio que veio depois, no clique do telefone, no coração partido de um filho de 33 anos, que só queria que o pai dissesse que
amava-o sem condições, O Sena teria podido retirar-se da corrida, teria podido falar à equipa Williams que não estava bem, teria podido apanhar um avião para Portugal nessa mesma noite e abraçar a Galisteu, teria podido salvar-se, mas a lição do Milton, a lição aprendida com 7 anos na fazenda Tatuí, era forte demais. O melhor ou nada.
E o Sena escolheu o nada, porque para ele perder o pai era pior do que perder a vida. É pior do que morrer. Estas foram as palavras do Sena para Viviane na chamada de 47 minutos. E o Sena cumpriu a palavra morreu para não perder o pai. Mas o pai, o Milton, perdeu-o de todo jeito e viveu os 20 anos seguintes com a culpa, com o whisky, com o silêncio, com a frase costa matei-o pesando no coração, até que finalmente, na última noite, na mesma poltrona onde tinha escutado as cinco palavras do Cena pelo telefone, sussurrou mais uma palavra:
“Airton, perdão, tem milhões de pais assim neste preciso momento, os pais que amam os filhos só quando eles ganham. Pais que ensinam aos filhos que ser amado é ser o melhor. Pais que confundem orgulho com amor. Pais que se calam nos momentos difíceis. Pais que falam: “Os campeões não têm medo quando deviam falar: “Filho, volta para casa que aqui te espero”.
Estes pais, sem saber, estão a condenar os filhos, estão a empurrá-los para uma vida de busca impossível. estão a ensinar que o amor se ganha, que o amor merece-se, que o amor depende do resultado. E os filhos crescem acreditando nisso e partem o corpo por uma vitória. E quebram a alma por uma palavra de reconhecimento, e sobem em carros que sabem que estão estragados e assinam contratos que sabem que vão destruí-los e aceitam trabalhos que sabem que lhes vão custar a saúde.
Só para escutar alguma vez da boca do pai uma única frase: “Estou orgulhoso de ti. Se tem um filho varão, hoje é o dia de lhe dizer uma coisa, uma coisa diferente. Uma coisa que o Milton da O Silva nunca falou com o Aton Sena. Uma coisa que nenhum pai brasileiro que ame o cena deveria negar ao próprio filho.
Fala ao teu filho varão hoje, agora, por mensagem, por chamada, pessoalmente. Filho, eu amo-te. Não importa se você ganha ou perde. Não importa se é o melhor ou não é. Não importa se me enche de orgulho ou desilude-me. Amo-te só por seres meu filho. Só por seres meu filho. Porque se o Milton da Silva tivesse falado esta frase pro Airton uma única vez na noite de 29 de abril de 1994, nessa chamada de 11 minutos, o Joairton Sena teria 65 anos.
estaria vivo, estaria com Adriane Galisteu, casado, com filhos, a viver em Portugal ou no Brasil e estaria a ensinar os netos a dirigir o Kart no quintal da quinta Tatui, igual aprendeu. Mas o Milton não falou e o Sena morreu com 34 anos na curva do tamburelo a 211 km/h, com uma bandeira astra austustríaca dobrada no bolso do fato-macaco e com a última questão sem resposta do pai.
Está orgulhoso de mim, pai? Se esta história te tocou, liga para o teu filho hoje, não amanhã. hoje e diz que o ama sem condições, mesmo que ele perca, mesmo que ele fale, mesmo que não seja o melhor, porque enquanto lê isto, tem milhões de filhos à procura do amor de um pai que nunca chega. Filhos como o Atiron Sena, que preferem morrer do que perder o amor do pai? Se subscreve o canal Estrelas Caídas, porque na próxima semana vamos contar a história de outro filho que morreu à procura do amor do pai.
Um pugilista americano que mordeu a orelha de um campeão à frente de 90.000 pessoas, que esteve 3 anos na cadeia por violação, que perdeu 400 milhões de dólares, que viu a filha de 4 anos morrer e que continua vivo hoje com 59 anos, lutando para manter a sua sanidade mental. O o seu nome é Mike Tyson e a sua história vai doer-te ainda mais.