MANÉ GARRINCHA: A SOMBRIA VERDADE OCULTA POR 43 ANOS

1953, um olheiro do Botafogo subiu à serra para ver outro jogador. Esqueceu-se na hora do jogador que tinha ido buscar. O o interesse dele passou a ser outro. O miúdo das pernas tortas que estava a humilhar três defesas sozinho. Levou Garrincha para o estádio do Botafogo no dia seguinte.

O miúdo tinha 19 anos, nunca tinha saído do interior, não conhecia o rio, não sabia mexer em telefone, chegou de calças remendadas e sapato emprestado. Os técnicos puseram ele para fazer um teste contra o Newton Santos, lateral titular da equipa que jogava na seleção brasileira. Um dos melhores defesas do mundo, passaram a bola para o Garrincha.

Ele baixou o ombro, avançou e em 5 segundos o Newton Santos estava sentado no relvado, sem compreender o que tinha acontecido. Nilton Santos levantou-se do chão, foi até o técnico e falou: “Contrata  este miúdo agora. E aqui aparece o primeiro pormenor que ninguém costuma contar.

Garrincha assinou aquele contrato com a digital, não com a assinatura, porque aos 19 anos o miúdo que ia ser o melhor jogador do mundo não sabia escrever correctamente o seu próprio nome. Aquela digital, aquela  marquinha de polegar, foi o início de tudo, porque alguém soube tirar proveito. Carrincha estreou-se no Botafogo duas semanas depois, marcou três golos na primeira partida.

Driblou cinco defesas numa jogada só, que até hoje o povo se lembra. Os jornalistas escreveram que tinha chegado um fenómeno, que as pernas tortas não eram defeito, eram bênção, que Deus tinha entortado as pernas dele de propósito para ninguém conseguir marcar. Mas é mentira. As pernas do Garrincha eram o resultado de uma poliomielite maltratada na infância.

Uma doença que qualquer criança de família com dinheiro resolvia com três cirurgias parvas. Garrincha não fez nenhuma porque a família ganhava menos num mês do que custava  uma consulta. O Brasil preferiu contar a versão bonita da história. Doía. Mas enquanto Garrincha começava a encher estádio, alguma coisa já estava a acontecer e ninguém ia contar nada disso durante 40 anos.

Uma coisa  que ele próprio escondeu até ao dia da morte e que só apareceu numa fita cassete encontrada 10 anos depois dele ser enterrado. Existe uma gravação, 47 minutos, foi feita acidentalmente por um jornalista desportivo em 1981, 2 anos antes da morte do Garrincha.  Os dois estavam a beber.

O jornalista tinha comprado um gravador novo e esqueceu-se de desligar. Naquela gravação, Garrincha confessa quatro coisas. Nós vamos chegar às quatro, mas ainda não. A primeira mulher do Garrincha se chamava-se Nair. Casaram em 1952. Tiveram a primeira filha aos 9 meses de casamento, a segunda no ano seguinte, a terceira 18 meses depois.

Quando Garrincha fez 30 anos, já tinha  oito filhas com Anair. E aqui é onde a história oficial começa já se desfazer. Porque enquanto Garrincha e Nair faziam uma filha no rio, lá em Pau Grande estava a crescer um menino que também era filho dele. Um menino que ele tinha feito aos 18 anos antes de casar com uma vizinha mais velha, casada com outro homem.

Este menino viveu os primeiros 30 anos de vida, acreditando que o pai era o marido da mãe. Até que, em 1979, uma vizinha do interior resolveu falar a verdade. O rapaz foi atrás do Garrincha. Garrincha tinha já 45 anos, alcoolizado, quase acabado. Recebeu o filho, olhou para ele e disse sete palavras que o rapaz nunca conseguiu esquecer.

Meu filho, chegaste 40 anos atrasado. 40 anos atrasado. Esta frase ele repetiu para todos durante o resto da vida. Para os 14 filhos reconhecidos, para as cinco mulheres com quem viveu. Você chegou tarde e é aqui que tudo começa a virar. 1958, Mundial de Futebol na Suésia. O Brasil nunca tinha ganho uma. Três finais perdidas.

A pressão em cima daquela equipa ali era brutal. Se regressassem sem o título, melhor não voltarem. Era o que os jornais escreviam e escreviam a sério. Garrincha estava na lista, mas os técnicos não o queriam pôr para jogar. Tinham feito um teste psicológico no miúdo. Um psicólogo da comissão técnica perguntou-lhe o que ele faria se perdesse numa cidade estrangeira.

Garrincha respondeu: “Nunca perdi-me.” Pediram-lhe para desenhar uma figura humana. Ele desenhou uma  pauzinho com duas riscas. O psicólogo escreveu no relatório: “Este jogador tem a capacidade mental de uma criança de 12 anos. Não deveria disputar a Taça e sabe quem decidiu que ele jogasse mesmo assim? Não foi  o técnico, foi o próprio Newton Santos.

entrou na sala do treinador e falou uma frase que mudou a história do futebol mundial. Se o Garrincha não joga, eu também não jogo. O técnico cedeu na hora. Garrinch entrou no terceiro jogo contra a União Soviética, 24 anos, primeira partida num Campeonato do Mundo. E os russos, considerados impossíveis de marcar, nunca perceberam o que tinha passado por cima deles.

O Brasil ganhou aquela Taça. A equipa voltou para o Rio. 40 milhões de brasileiros nas ruas. Uma carreata que demorou 5 horas a chegar no palácio presidencial. Garrincha num descapotável acenando sem entender o que estava a acontecer. Mas a Nair, esposa dele, também estava à espera no aeroporto com a primeira filha de 2 anos no colo.

Chegou de vestido novo, penteada.  Ele não a viu. Tinha gente a mais. Botaram garrincha no descapotável e levaram-no embora. A Nair esteve parada na pista durante duas horas com a menina a chorar no colo, até que um polícia pediu-lhe para ir embora porque estava a atrapalhar. Naquela mesma noite, Garrincha dormiu num hotel de Copacabana com uma bailarina que tinha conhecido no jantar oficial.

Mas entre 1958 e 1962, enquanto Garrincha era considerado intocável, alguém já mexia no dinheiro dele pelas costas, alguém que ele próprio tinha posto dentro da vida sem desconfiar de nada. E nós vamos chegar nesse nome em menos de 5 minutos. 1962, Campeonato do Mundo no Chile. Pelé lesionou-se  no segundo jogo.

O Brasil parecia condenado. Garrincha  meteu a equipa inteira nas costas tortas e carregou aquilo até ao título. Dois golos frente à Japã Inglaterra, dois golos contra o Chile dentro do próprio estádio chileno. Brasil bicampeão. E Garrincha, oficialmente eleito o melhor jogador do planeta.

regressou ao Brasil com 60 milhões de pessoas à espera. O presidente condecorou-o no palácio. Apareceram  contratos milionários, empresa a lutar pela imagem dele. Uma marca de cigarros ofereceu uma fortuna. Garrincha assinou tudo sem ler, com a digital ainda, porque continuava  sem saber escrever corretamente o próprio nome.

Em 1963, O Garrincha ganhava mais do que o  presidente do Brasil. Em 1973, não tinha dinheiro para pagar o hospital onde a mãe dele estava a morrer de pneumonia, 10 anos. Foi o que bastou. E a questão que fica é a única que importa. Para onde foi todo este dinheiro? Eu prometi no início que você ia saber o nome do homem que destruiu o Garrincha, aquele que assinou o documento nas costas dele durante 12 anos, que vendeu o seu nome.

Chegou a hora. O nome era Roberto. O Roberto era o irmão mais velho do Garrincha. O irmão que tinha ficado em pau grande enquanto Garrincha tornava-se famoso. O irmão que falava com o mais novo com carinho e que quando Garrincha chegou ao Botafogo em 1953, ofereceu-se para ajudar com os papéis, porque ele, o Roberto, tinha terminado o primário.

Garrincha  aceitou, deu-lhe uma autorização para assinar um contrato em nome dele, deu acesso à conta no banco e o Roberto, durante 12 anos, fez o que nenhum irmão direito teria feito. Cobrou comissão de 20% em cima de cada  contrato, às vezes 30, às vezes 50. Vendeu a imagem do Garrincha para a marca que pagou fortuna enquanto Garrincha recebia migalha.

comprou duas casas em pau grande no próprio nome. Comprou carro, comprou terra, tudo com dinheiro que não era dele. Garrincha assinava o que o irmão punha à frente porque confiava. A dada altura, alguém começou a falsificar também a assinatura por extenso. Estas assinaturas falsificadas eram do próprio Roberto. Em 1973, quando Garrincha já estava reformado, sem dinheiro, a viver num apartamento alugado, o irmão Roberto desapareceu.

Foi viver lá para o sul do país com uma nova família, sem avisar, sem deixar morada, sem devolver nada. O Roberto tinha levado até ao último cêntimo e Garrincha, o homem que tinha sido eleito o melhor do planeta 11 anos antes, terminou a pedir 200 cruzeiros emprestados a um velho companheiro do Botafogo para pagar o aluguer daquele mês.

A família nunca falou abertamente sobre isso. A Nair sabia, as filhas sabiam, mas nenhum jornalista brasileiro contou esta história até que um livro académico referiu em 2012, quase 30 anos depois da morte do Garrincha. E aquele livro vendeu 1000 exemplares. 1000? Porque para o Brasil continuava sendo mais conveniente a versão oficial, a da cachaça, a do Garrincha, que se autodestruiu.

Mas a traição do irmão foi só e da primeira camada, porque enquanto o Roberto tirava o dinheiro, alguém mais estava a tirar uma coisa ainda mais valiosa. E é aqui que tudo muda. Existe um papel dobrado em quatro. A enfermeira encontrou debaixo da almofada do Garrincha, 3 horas depois da sua morte, na madrugada de 20 de janeiro de 1983.

Ela abriu o papel, leu e chorou durante 10 minutos seguidos. Quando ligou para o chefe do hospital, ele mandou-a guardar, disse-lhe para não mostrar para ninguém, mandou-a não entregar nem para a família. Aquele papel existe. Está hoje numa caixa no Rio de Janeiro com o filho da enfermeira. O que aquele papel diz muda toda esta história oficial e vai saber agora.

Mas antes de chegar ao papel, é necessário perceber o que aconteceu depois do Mundial de 1962, porque ali alguma coisa já estava a acontecer na vida dele, que ia destruir tudo em menos de 6 anos. 1962. Garrincha conheceu Elsa Soares num evento solidário no Maracanã. A Elsa era a cantora mais famosa do Brasil.

Tinha 30 anos, já tinha sido viúva, já tinha enterrado um filho. Era uma mulher marcada pela tragédia. apaixonou-se pelo Garrincha em 15 minutos e Garrincha se apaixonou-se por ela na mesma noite. O problema é que Garrincha era casado, já tinha oito filhas com Anair. A relação clandestina durou 3 anos. Em 1965 tornou-se pública.

Em 1966, Garrincha pediu o divórcio a Conair. A igreja condenou, os jornalistas detonavam, o povo xingava-o na rua, mas Garrincha não voltou atrás. O Brasil escolheu a Elsa como culpada. A Elsa destruiu o Garrincha. A Elsa arrastou ele para a cachaça. Mentira. A Elsa foi a única pessoa durante 15 anos que tentou salvar aquele homem.

Garrincha não bebia por causa da Elsa. Já bebia antes. Bebia desde os 15 anos. Bebia depois de cada partida, bebia nos hotéis de concentração. Bebia no avião da seleção. O que mudou em 1966 foi só uma coisa. Ninguém mais estava escondendo. Anair tinha-te escondido durante oito anos. Levantava o corpo dele do chão, aquecia a sopa, mentia para os jornalistas.

Quando a Nair ficou sozinha, as mentiras acabaram e a Elsa, em vez de continuar a esconder, fez o contrário. Internou-o três vezes em 1967, quatro vezes em 1968, uma vez por mês em 1969. Madrugada de 17 de Abril de 1969. Estrada Rio Petrópolis estava a chover. O Mercedes do Garrincha a 200 km/h, bêbado.

E ele não estava com a Elsa, estava com outra mulher, uma bailarina de uma discoteca de 22 anos. E atrás, a dormir no banco de trás, ia a mãe do Garrincha, Maria Carolina, a mulher que tinha levava-o ao colo quando os médicos disseram que ele nunca ia andar. O Mercedes embateu num camião de carga, capotou três vezes, encravou numa árvore.

Garrincha foi cuspido pelo pára-brisas e caiu numa vala a 15 m. Quebrou três costelas. A bailarina foi arremessada pela porta do pendura. resgataram-na com vida, mas a mãe do Garrincha,  que ia a dormir no banco de trás sem cinto, morreu no local. 71 anos. Morreu com a cabeça apoiada no encosto do banco, enquanto o filho embriagado corria com uma mulher que não era a sua mulher numa estrada molhada que ele conhecia de cor.

Imagina carregar isto por  dentro. Imagina carregar a morte da própria mãe, sabendo que foi por sua culpa até ao último dia da sua vida. Garrincha carregou durante 14 anos e a A cachaça depois daquela madrugada deixou de ser vício. Tornou-se um jeito de não lembrar. O que nunca foi publicado é que a bailarina não era uma desconhecida.

Era prima em segundo grau do Garrincha, sangue da mesma família, e estava grávida três meses do Garrincha. Quando os polícias chegaram, ela, semiconsciente, pediu ao oficial para não ligar para a família dela. Falou: “Pelo amor de Deus, o meu pai mata-me. Ela perdeu o bebé no hospital nessa mesma madrugada, mas há uma coisa ainda mais sombria daquela madrugada.

A polícia revistou de Mercedes e no porta-luvas encontrou um envelope com dinheiro, 50.000 escudos. Uma fortuna em 1969. O envelope tinha um bilhete. O nome no bilhete não era do Garrincha. O nome era do irmão, do Roberto. Garrincha estava a levar o envelope para entregar para o irmão em pau grande, sem que a Elsa soubesse.

Quando a polícia chegou, o envelope desapareceu. Foi roubado por um dos oficiais antes da chegada da imprensa. E Garrincha não teve coragem de denunciar, porque denunciar significava admitir que o próprio irmão estava a roubar-lhe há anos. Nessa noite, na sala de espera do hospital, enquanto dois médicos confirmavam que a mãe tinha morrido, Garrincha ligou a Elsa, disse quatro palavras e a Elsa, de 30 anos depois repetiu estas palavras numa entrevista.

As quatro palavras foram: “Já não sou ninguém”. E daquela noite em diante, Garrincha deixou de o ser. A carreira terminou em menos de se meses. O O Botafogo dispensou-o. A marca de cigarro cancelou o contrato. As empresas que o tinham caçado em 1962 fingiam que não conheciam. Garrincha passou por equipas cada vez mais pequenas. Corinthians, Flamengo, Olaria.

No Olaria dispensaram-no porque chegou bêbado num jogo oficial. Tinha 39 anos, estávamos em 1972. Sabe quantas pessoas estiveram na partida de despedida do Garrincha? Zero. Não houve partida de despedida,  não houve homenagem, não houve faixa nas arquibancadas. Um dia, simplesmente ele não apareceu mais nos treinos e ninguém ligou a perguntar.

A gravação dos 47 minutos foi feita numa dessas noites, 1981. Garrincha tinha 47 anos, mas parecia ter 70. Estava em casa de um jornalista desportivo chamado Wilson Souza. Os dois bebiam há 3 horas. Wilson tinha comprado um gravador novo,  deixou-o ligado em cima da mesa. Garrincha não se apercebeu e começou a falar de coisas  que não tinha contado a ninguém daqui a 20 anos.

Garrincha conta o que aconteceu na noite em que o pai morreu. 1957. Amaro estava na cama a agonizar com cirose, pediu ao filho uma  última cachaça. Garrincha disse que não. Disse ao pai que ele ia morrer de qualquer maneira, mas que ele, o filho, não ia ser quem desse o último copo. Saiu do quarto, fechou a porta e foi para o boteco de pau grande o levar mesmo várias cachaças.

Quando voltou, duas horas depois,  o pai já tinha morrido. Na gravação, Garrincha chora, chora com a voz entrecortada e solta uma frase que o gravador apanhou quase inteira. Ele diz assim: “Eu deixei o velho morrer com a sede que ele próprio tinha-me ensinado a ter. E dessa noite em diante, já não consegui ficar um dia sem beber.

Cada cachaça tomo por ele, pela aguardente que neguei. Existe um caderno de couro preto. Foi encontrado na gaveta da mesa de cabeceira do quarto, onde Garrincha passou os últimos seis meses numa  modesta pensão do bairro do Bom Sucesso. O caderno tem 42 páginas escritas com a letra grande de um homem que mal aprendeu a escrever.

Na primeira página, o título: Ass pessoas a quem tenho de pedir perdão. Nas páginas seguintes,  14 nomes. 12 dos 14 já estavam mortos quando Garrincha escreveu: “O primeiro nome é Amaro dos Santos, o pai. Do lado do nome, uma só linha. Eu deixei-te morrer sozinho. Eu vou morrer sozinho tal como tu.

O segundo nome é Maria Carolina, a mãe. Do lado, levei-te para a morte sem que soubesse. O terceiro nome, surpreendentemente, não é a Nair, não é a Elsa. O terceiro nome é Roberto, o irmão. E do lado do nome, Garrincha escreveu três palavras que viram do avesso tudo isto que a gente sabia. As três palavras são: “Perdoo-te igual.

Eu perdoo-te igual”. Três palavras. o irmão que tinha roubado tudo,  o que tinha desaparecido em 1973, o que tinha levado até ao último cêntimo. E Garrincha, no leito da morte, pedia perdão para ele e não o contrário. Por quê? Porque há uma coisa que a família escondeu durante 40 anos. Roberto, o irmão, não tinha roubado o dinheiro por avareza pessoal.

Tinha roubado para sustentar uma outra família. Uma família que Garrincha não conhecia. O Roberto  tinha dois filhos não reconhecidos em Pau Grande, filhos de uma mulher do campo que Roberto  tinha abandonado por pressão do próprio pai, do Amaro, em 1949. E durante 20 anos, Roberto vinha enviando dinheiro escondido para essa mulher.

Dinheiro que ele tirava da conta do Garrincha, não para ele, para aqueles duas crianças. Quando Garrincha descobriu  em 1972, foi porque um dos meninos, já um rapaz de 22 anos, foi atrás dele para lhe pedir desculpa. Disse que o dinheiro vinha dele, que a mãe lhe tinha contado tudo. Garrincha, nessa tarde, sentado numa mesa com o sobrinho que estava a ver pela primeira vez na vida, falou duas frases.

A primeira foi: “Não me não deve nada”. A segunda foi: “Quem errou foi o seu pai e não por ter roubado, por não me ter contado”.  E daquele dia em diante, Garrinch não foi mais atrás do Roberto. Deixou-o viver,  não denunciou, não pediu para devolver nada. É isso que a família escondeu durante 40 anos.

Não foi para proteger Garrincha, foi para proteger Roberto, que ainda é vivo, que tem hoje 94 anos e em toda a sua vida nunca deu uma entrevista, 94 anos e continua calado. A única pessoa viva que sabe o que aconteceu de verdade com o dinheiro, com os contratos, com as assinaturas falsificadas, ainda vive numa casa de pau  grande e ninguém teve coragem até hoje de lhe bater à porta.

Mas esta ainda não é a parte mais escura. A parte mais escura vem agora. Na noite de 18 de janeiro de 1983, dois dias antes de morrer, Garrincha pediu à dona Rita, a dona da pensão, uma folha de papel. Uma só, a dona Rita levou. Garrincha fechou a porta do quarto. A Dona Rita passou pelo corredor duas vezes durante a noite e ouviu-o escrevendo devagar, uma palavra por minuto, como um homem que não estava habituado a descrever.

Na noite de 19, Garrincha caiu no chão do quarto. Dona A Rita chamou ambulância. Quando os paramédicos meteram-no na maca, Garrincha agarrou a mão da dona Rita e falou seis palavras. Diz a Elsa que eu perdoo. Desceram  ele pela escada, meteram-no na ambulância e enquanto levavam o homem, a dona A Rita lembrou-se da folha, subiu a correr, encontrou debaixo da almofada, botou no bolso do avental.

Quando Garrincha faleceu, às 4h20 da madrugada de 20 de janeiro, no hospital estatal de Bom Sucesso, a enfermeira Cristina ligou para a pensão, pediu paraa dona Rita levar para o hospital qualquer objeto pessoal que o homem tivesse. Dona Rita pegou na mochila velha, pegou no caderno e pegou na folha dobrada em quatro.

Quando a dona Rita entregou ao balcão, a enfermeira Cristina abriu a folha na frente dela, leu e começou a chorar. A Dona Rita perguntou o que estava escrito. A Cristina não  respondeu, dobrou de novo a folha, guardou-o no bolso do uniforme e subiu apressando-se a falar com o chefe do hospital. O responsável do hospital, Dr.

Pereira, leu a folha na sua sala. Releu, chamou a enfermeira. falou para ela que a folha ia ficar no hospital, que ela não entregasse à família. A Cristina perguntou porquê. O Dr. Pereira respondeu a duas frases. A primeira foi: “O que diz esta folha? Se vier a público, vai destruir mais coisa do que já está destruída.

A segunda foi, aquele homem já sofreu o suficiente. Vamos deixá-lo em paz.” Cristina obedeceu, mas nessa mesma noite, antes de sair do hospital, fez uma cópia manuscrita, palavra por palavra, e levou para casa. guardou numa caixa de sapatos. 27 anos depois, em 2009, quando Cristina estava a morrer de cancro, pediu para o filho único abrir a caixa.

Dentro estava a cópia e uma folha com instruções. As instruções diziam: “Não publica enquanto o Roberto estiver vivo”. E quando publicar, faz pelo Garrincha, por mais ninguém. A Folha tinha três parágrafos. O primeiro era para a Elsa. Garrincha pedia perdão por ter deixado de procurar ela.

Dizia que sabia que ela tinha pago durante 8 anos a pensão do filho não reconhecido de pau grande, sem que ele soubesse com o próprio dinheiro dela. Pedi uma coisa só, que quando ela soubesse da sua morte, não fosse no enterro, que ficasse em casa, que cantasse-lhe uma canção sozinha, que ele ia ouvir. O segundo parágrafo era para o Roberto.

Dizia que ele sabia de tudo. do dinheiro dos filhos não reconhecidos, que ele Garrincha perdoava, que o dinheiro era papel, que filho era sangue  e que sangue valia mais do que papel. E o terceiro parágrafo, o mais curto, uma linha  só. Esta linha cordeira marcha a que o Dr. Pereira leu e foi por causa dela que ele lhe mandou que a folha não saísse do hospital.

A linha tinha sete palavras. E vai saber agora. As sete palavras eram: “Deixei-me morrer por vós. Eu Deixei-me morrer por vós. Pela Elsa que pagou pensão que não era sua. Pelo Roberto que sustentou família com dinheiro que não era dele. Pela Nair, que aguentou 8 anos calada. pelas 14 filhas, pela mãe que faleceu no acidente, pelo pai que este negou a última aguardente, pelo Brasil que o tinha transformado em símbolo e depois soltou-o no meio do nada.

Garrincha tinha-se deixado morrer, escreveu, assinou com a sua dor e um médico num hospital público decidiu que aquela frase era demasiado pesada para o país aguentar. A questão que fica é: Quem destruiu verdadeiramente o Garrincha? Não foi o Roberto. O Roberto só tirou o dinheiro, mas Garrincha decidira perdoar. Não foi a Elsa.

A Elsa pagou pensão que não era dela. Não foi a Nair. A Nair aguentou 8 anos sem se queixar. Não foi o Amaro, o pai alcoólico. Não foi a Maria Carolina, a mãe que faleceu no banco de trás do Mercedes. Quem destruiu o Garrincha foi uma ideia. A ideia de que um homem pobre do interior do O Brasil, com as pernas tortas podia salvar um país inteiro do complexo de inferioridade.

A ideia de que um único corpo, uma única vida, podia carregar o orgulho de 60 milhões de pessoas durante 15 anos sem se quebrar. Esta ideia foi mantida pelos jornalistas, pelos técnicos, pelos presidentes de clube que espremeram-no até à última gota, pelos adeptos que iam para o estádio ver ele driblar. como se o corpo dele não envelhecesse por todo o Brasil durante 15 anos, até que o corpo não aguentou mais.

Roberto só levou o dinheiro. O Brasil levou a vida. Em 21 de janeiro de 1983, 150 mil pessoas passaram pelo Maracanã para se despedir do Garrincha. Homens de 50 anos a chorar como uma criança. Depois o cortejo atravessou a serra em direcção a pau grande. Enterraram-no  no cemitério da cidade numa campa simples com uma placa com duas palavras apenas: alegria do povo.

As flores frescas duraram seis meses, as visitas um ano. Hoje, quando um turista chega em pau grande, levam-no para a estátua de bronze. Ninguém o leva para a cova. Há uma frase que a Elsa Soares disse numa entrevista no ano de 2015, 7 anos antes de morrer. Perguntaram-lhe se Garrincha tinha sido feliz alguma vez nos 15 anos em que viveram  juntos.

A Elsa ficou calada durante um tempão e depois respondeu: “Garrincha foi feliz 90 minutos de quatro em quatro dias quando jogava. O resto do tempo era um homem fazendo o papel de garrincha. Tem milhões de homens assim neste preciso momento. Homens que aprenderam igual o Garrincha que o valor dos mesmos depende daquilo que fazem e não  daquilo que são.

Homens que sorriem no trabalho e quebram-se sozinhos dentro do banheiro. Homens que tm sete filhos, mas não tem para quem ligar às 3 da manhã. Garrincha nunca aprendeu a parar, nunca aprendeu a dizer não. Nunca aprendeu que um homem vale por aquilo que é e não por aquilo que ele produz. e morreu sem aprender. Igual morrem milhões de homens comuns que ninguém chora num estádio, mas que morrem da mesma forma sozinhos, em quartos arrendados, com 13 cêntimos no bolso, sem ninguém na sala de espera.

Se conhece algum, não o deixa sozinho esta noite. Liga-lhe, mesmo que ele responda mal, mesmo que ele diz que não precisa de nada, liga a si mesmo. Se esta história o fez pensar em alguém, telefona hoje, não amanhã, hoje. E se quer continuar conhecendo as histórias dos ídolos que tiveram tudo e terminaram igual ao Garrincha, subscreve o canal, porque a próxima é ainda mais sombria. Ja.

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