MARTINHA aos 79 anos e como VIVE hoje — Esqueceram que a Música Era Dela

MARTINHA aos 79 anos e como VIVE hoje — Esqueceram que a Música Era Dela

para tudo por um segundo. Neste momento, enquanto está aí no sofá, existe uma senhora de 79 anos viva a passear por São Paulo, que pode estar a entrar no mercado enquanto a maior música da vida dela toca na rádio lá dentro, o país inteiro a cantar junto. E ninguém, ninguém naquele corredor sabe que aquela senhora ali ao lado a escolher um pão, foi quem escreveu aquilo.

 Ela escuta a própria alma tocando alto, o mundo cantando e vai-se embora empurrando o carrinho. Invisível. Isto é real e já dura mais de 50 anos. Agora ouve o tamanho do que eu estou te contando. Esta mulher escreveu uma música que foi gravada mais de 4.000 vezes. 4.000. Ela vendeu 3 milhões de discos numa época em que o disco se comprava na loja. Um a um.

 Foi premiada em Nova Iorque. cantou numa temporada na Broadway, a Broadway de verdade. Do outro lado do mundo, produziu o primeiro disco de Rúlio Iglésias que chegou ao Brasil. O Roberto O Carlos gravou música dela. A dupla Chitãozinho e Chororó gravaram música dela. Até uma das maiores estrelas da Itália gravou música dela, uma mineirinha de Belo Horizonte, escrevendo aquilo que o mundo inteiro ia cantar.

 E mesmo com uma vida destas, o Brasil canta a sua maior canção faz 50 anos. e nunca aprendeu o nome desta mulher, nenhuma vez. Conhece essa música? Eu sei que conhece. Deixa-me provar agora aí sofá. Eu daria a minha vida a te esquecer. Pronto, já começou a tocar dentro de si. Não começou. Você sabe cada palavra.

 Cantou no rádio do carro, na cozinha, no casamento de alguém que você ama. Esta canção é sua, é do Brasil inteiro. Só que ela tem uma dona e esta dona viu o país abraçar a sua música e ir esquecendo devagarinho a mão que escreveu. E quero que sinta essa injustiça comigo agora no meio do peito. Imagina criar a coisa mais linda da sua vida.

ver o mundo inteiro cantar, chorar, guardar para sempre e ver o seu nome ir desaparecendo aos poucos, como se a música tivesse caído do céu sozinha, sem dona e sem história. Foi isso que aconteceu com ela. Ano após ano, o Brasil decorou a canção e apagou quem escreveu. Olha só o peso disso.

 Existe um disco de vinil, um daqueles pretos antigos, e na etiqueta dele, mesmo no meio, tem o nome dela impresso, pequenino como autora. Está há mais de 50 anos. A prova preto no branco. A música era dela. Ela gravou esta canção primeiro com a própria voz antes de todos. E mesmo assim o país aprendeu a música por outra voz. Cantou até se cansar e nunca virou o disco para ler quem tinha escrito.

 O nome dela é Martinha, uma mineira de Belo Horizonte que o Roberto Carlos lá atrás apelidou com carinho de queijinho de Minas. Hoje ela tem 79 anos. E a história do que esta mulher perdeu e de como ela vive agora é de arrepiar do princípio ao fim. Então fica comigo, porque nessa noite eu Vou entregar-te três coisas.

 Primeiro, quem é esta mulher de verdade? A pessoa por trás da canção que cantas a vida inteira. Segundo, como ela vive hoje aos 79 anos e não vai acreditar no maneira que uma lenda destas passa os dias. Agora é terceiro. Qual é exatamente esta música que o Meio Brasil cantou sem nunca saber que saiu das mãos dela? Cada uma aviso-te na hora que chegar.

 Você só me faz um favor. Não fecha o olho antes do tempo, porque há um pormenor sobre a voz desta mulher hoje, que ninguém conta em canto nenhum. E é esse pormenor que pega nesta história inteira e aperta-a bem no meio do seu peito. Antes de ser a mulher que o Brasil cantou e esqueceu, a Martinha foi uma menina, uma menina sozinha, filha única, numa casa de Belo Horizonte, onde a música nunca estava quieta.

 E aqui já entra o primeiro pormenor que preciso que guarde com carinho aí no sofá, porque ele vai voltar lá à frente e vai te apertar. Esta menina não aprendeu a adorar música na rádio. Ela aprendeu dentro de casa, ouvindo a própria mãe cantar. E aqui já entra uma dor que chegou cedo demais para esta menina. O pai dela, o senhor Francisco, morreu quando a Martinha tinha apenas 6 anos de idade. Seis aninhos.

 Uma idade em que a as pessoas mal entendem o que é perder alguém para sempre. E aquela casa cheia de música, de repente tornou-se uma casa de duas mulheres sozinhas, a mãe e a filha. Ah, Rute, viúva, criando a menina no braço e a menina agarrando-se na única coisa que enchia o vazio daquele lugar. A música foi ela que segurou aquelas duas de pé quando o chão faltou.

 Talvez seja por isso que paraa Martinha cantar sempre foi muito mais do que um trabalho. Foi o colo que ela teve quando a vida levou o pai demasiado cedo. A mãe dela chamava-se Rut. E a Rute tinha uma voz de fazer parar o rádio. Uma voz treinada, de verdade, daquelas dos tempos áureos, em que toda a família juntava-se em volta do aparelho só para escutar.

 Nos anos 50, em Belo Horizonte, Hutve o próprio programa numa rádio da cidade a cantar canções internacionais para quem ligava o aparelho em casa. era artista, tinha caminho pela frente. E aí a vida fez com Rute o que fez com tantas mulheres da sua geração. Rute desligou o microfone, guardou a sua própria voz e tornou-se dona de casa, mãe, esposa.MARTINHA at 79: How She Lives Today — They Forgot She Wrote the Song -  YouTube

 O sonho de cantar ela dobrou-se com cuidado e colocou numa gaveta. E olha que pormenor cruel do destino. Daquela voz da Rut, o voz que o mundo quase não escutou, sobrou muito pouca coisa. Sobrou um disquinho antigo, um acetato daqueles de rotação lá das antigas que um colecionador guardou-o com cuidado. E é quase tudo o que restava para alguém ainda ouvir como era o timbre dela.

 A Ruth chegou mesmo a aparecer num filmezinho educativo dos anos 40 destas raridades que quase nunca ninguém viu, uma voz inteira. Uma vida artística que podia ter sido enorme hoje cabe num único disco perdido na estante de um estranho. Guarda essa imagem aí no peito de uma voz gigante que sobra num disco só, porque ela vai voltar mais para frente e vai sentir um arrepio quando entender.

 Só que sonho guardado numa gaveta não morre. Ele espera. E o Rute esperou dentro daquela casa até encontrar uma menina que compunha musiquinha ainda antes de saber ler corretamente. Aos 5 anos, 5 anos de idade, a pequena Martínia já se sentava no piano e tirava dali uma melodia própria, uma cançãozinha inventada por ela própria, que ninguém no mundo tinha ensinado.

 Presta atenção nisso, porque é o coração de toda esta história. Antes de ser a voz, Martinha já era a autora, muito antes de qualquer palco. Ela era a mulher que escrevia música e é precisamente essa palavra autora que o Brasil inteiro ia esquecer lá à frente. Agora, deixa-me dizer-te uma coisa que quase ninguém junta.

 Esta mãe, a dona Ruth, que engoliu o seu próprio sonho para criar a filha, ela ainda ia reaparecer de um forma que conhece e nem imagina. Você que tem uma certa idade. Você já ouviu falar da Candinha? aquela figura coscuvilheira, a dona dos mejericos, que toda a gente comentava no rádio e na televisão. Pois, num certo momento, quem deu vida à Candinha junto da própria filha no programa que ia virar febre no Brasil inteiro? Foi ela, foi a Rute.

 A mãe que tinha calado a própria voz, voltou ao palco, não para brilhar sozinha. Mas para ficar do lado da filha, guarda esta mulher na memória, Rut, porque no final desta história ela ainda te vai fazer chorar e eu vou-te avisar quando chegar a hora. Mas volta comigo para a menina. Belo Horizonte, ano 60, Martinha cresce a tocar piano, depois guitarra, escrevendo verso, cheia de música por dentro.

 E há uma cena que eu queria muito que imaginasses agora, porque ela diz tudo antes de Martinha ser estrela. Ela era fã. Ela era aquela jovem na plateia, no auditório, olhando para o maior ídolo do país, cantar sonhando de longe. O maior nome da juventude brasileira naquele tempo tinha um só nome, Roberto Carlos. E a Martinha era apenas mais uma menina apaixonada pela música dele, achando que aquele mundo era demasiado grande para ela.

Só que esta menina tinha uma coisa que as outras fãs não tinham. Ela tinha canção própria no bolso. Em 1976, guarda este ano, ela consegue chegar à televisão, na TV Record e faz o que quase ninguém tinha coragem para o fazer. Ela não subiu para cantar sucesso dos outros. Ela subiu para cantar uma canção dela, da sua autoria, uma composição que ela própria tinha escrito chamada Eu amo-te mesmo assim. Imagina a cena.

 Uma mineira miudinha, tímida, cantando a própria criação na frente do Brasil. E adivinhem quem estava ali para ver? Roberto O Carlos viu aquela menina, viu o talento, viu a voz doce, viu que aquela jovem de Minas escrevia as suas próprias canções. E foi ele, com todo o carinho do mundo, que lhe abriu a porta.

 Foi o Roberto Carlos, que apresentou a Martinha ao país, que a trouxe das Minas para o centro de tudo e que lhe deu o apelido que ia colar para sempre. Ele olhou para aquela mineirinha de rosto redondo e chamou-lhe com ternura queijinho de Minas. E o Brasil inteiro adotou o alcunha na mesma hora. Repara bem, porque isso é importante para tudo o que vem depois.

 Quem colocou a Martinha na luz foi o maior amigo que ela podia ter, o maior artista do país, abrindo espaço de coração para uma menina de Minas. E é é isso que torna o que aconteceu no futuro tão silencioso, tão sem culpado e tão triste. E há uma coisa desta fase que quase ninguém sabe e que mostra o tamanho do talento desta menina antes mesmo de rebentar com a canção que conhece de cor.

 A Martinha já era tão boa de composição que os maiores já corriam para gravar o que ela escrevia. Logo no comecinho, ainda nos anos 60, o Erasmo Carlos, o tremendão, um dos gigantes dessa geração, gravou uma música feita por ela. Repara no tamanho disto. Uma jovem rapariga recém-saída de Minas, que ainda menina tinha estudado balaipiano, já tinha a canção dela na voz dos grandes.

Ela chegou àquele mundo pela porta da frente, com a caneta na mão, escrevendo aquilo que os próprios ídolos faziam questão de cantar. Ali no meio dos anos 60, a Martinha era a mais fresca promessa da jovem guarda. A menina que compunha o voz nova, a queridinha mineira que tinha o rei a torcer por ela.

 Tudo estava a começar e tudo era luz. Mas guarda esta palavra que eu plantei lá atrás, autora. Porque em 1968, com pouco mais de 20 anos, esta menina ia sentar-se sozinha, apanhar a própria dor com as duas mãos e escrever uma canção tão grande, tão perfeita, que ela ia crescer mais do que a própria Martinha. Uma música que o Brasil ia abraçar com tanta força que sem querer ia esquecer de quem eram aquelas mãos que a escreveram.

 E é exatamente neste ponto, no auge que a mais bela história começa a tornar-se a história mais injusta da música brasileira. 1968. Martinha tinha pouco mais de 20 anos quando se sentou e escreveu aquela canção. Dava a minha vida para te esquecer. Lembras-te que eu te pedi lá no comecinho para guardar esta canção? Então, chegou a altura de você perceber o tamanho do que esta mineirinha tinha acabado de criar, porque ela não escreveu apenas um sucesso, ela escreveu uma dessas canções que nascem de um em um milhão, daquelas que parecem que sempre existiram, que

parecem que caíram do céu prontas. E ela gravou primeiro. A voz dela foi a primeira voz do mundo a cantar aquilo. O disco dela, aquele vinil preto que eu te pedi para imaginar a rodar, saiu com o nome dela na etiqueta como autora e como intérprete. Estava tudo ali, preto do branco.

 música era dela e o Brasil ia descobrir isso do jeito mais bonito possível. Cantando em conjunto, é como o Brasil cantou. A música explodiu. Virou febre na rádio, tornou-se febre nas casas, tornou-se daquelas canções que tocam num tasco e a mesa inteira para de conversar para cantar. Roberto Carlos, o amigo que lhe tinha aberto a porta, gravou a música também na sua voz e levou aquilo para um patamar ainda maior.

 E aqui, presta muita atenção ao que eu vou dizer, porque é a chave de tudo. Roberto Carlos gravou como quem homenageia, como intérprete, como amigo, como um artista que se apaixonou por uma canção linda. Ele nunca disse que a música era dele, nunca lhe tirou o nome de lugar nenhum. O crédito da autora sempre esteve e está até hoje com a Martinha.

Ninguém lhe roubou nada. Ninguém agiu de má fé. E é precisamente por não existir culpado nesta história que ela dói tanto. Porque o que aconteceu foi mais silencioso e mais difícil de perceber do que qualquer roubo. O que aconteceu foi o seguinte. A canção era tão grande que começou a andar sozinha. Cada cantor que ouvia queria gravar e gravava e vinha outro e gravava outra vez noutra voz, noutro ritmo, noutro país.

 Traduziram para espanhol e virou: “Olá, daria Jolda”. E a América Latina inteira abraçou como se fosse dela e foi somando 10 gravações. 100, 500, aquele vinílio original. O primeiro, o da voz dela, foi ficando lá no fundo da estante, enquanto por cima dele se empilhavam mais de 4.000 gravações diferentes. 4.000. Para você dimensionar o que significa.

 Pensa numa música que foi regravada mais vezes do que quase qualquer outra na história da música brasileira. É essa. E cada nova voz que cantava sem querer colocava mais uma camada de tinta por cima do nome que estava na etiqueta original, o nome dela. Mas não pensa que a Martinha ficou para trás naquele momento. Longe disso.

Enquanto a sua música conquistava o mundo, ela conquistava juntamente. É aqui que a sua vizinha que pensa que conhece a A Martinha engana-se feio porque esta mineira, esta rapariga tímida de Belo Horizonte, teve uma carreira que a maioria dos artistas brasileiros só sonha. Ao longo dos anos 70, Martinha rodou festival internacional em país atrás de país. Foi paraa Nova Iorque.

Imagina uma menina de Minas em Nova Iorque e de lá regressou premiada como melhor intérprete, saudada pela imprensa como a grande revelação feminina da canção latina. Cantava em cinco línguas: português, espanhol, inglês, francês e italiano. E chegou a fazer uma época num teatro da Broadway. A Broadway [ressonando] Janette, a mesma Broadway do cinema, dos musicais, do mundo inteiro.

Uma mineirinha de rosto redondo, apelidada de queijinho de Minas, pisando naquele palco. Pois, ainda há mais, porque quando pensa que já ouviu tudo, vem o pormenor que faz cair o queixo. A Martinha foi viver para Espanha, contratada por uma das maiores gravadoras de lá. E lá, sabe quem passou pelas mãos dela? Um moço espanhol que ia tornar-se um dos maiores cantores românticos do planeta, Rúlio Iglésias.

 Martinha produziu o primeiro disco de Júlio Iglésias lançado para o Brasil. E foi ela quem fez as versões das músicas para pensa um segundo nisso aí no sofá. A mulher que o Brasil esqueceu foi a mesma que ajudou a apresentar Rúlio Iglésias para o Brasil. Se tiver um disco do Rúlio guardado em casa, de repente tem a mão da Martinha ali dentro e nunca se soube.

 E não vá pensar que a vida dela era só palco e avião. No meio de toda a esta correria, em 1970, a Martinha viveu um dos casamentos mais comentados do Brasil desse tempo. casou com um advogado, o Paulo Sérgio Espósito, e adivinha quem foram os padrinhos do casal? O próprio Roberto Carlos e a sua mulher, Anice, o rei em pessoa ao lado da menina que tinha apadrinhado na música, agora apadrinhando-a também no altar.

 Isso mostra o tamanho do carinho que existia ali de quem torce verdadeiramente pelo outro. Só que o destino, esse que ia cobrar tão caro dela mais paraa frente, já deu o primeiro aviso logo na lua de mel. Mal os dois chegaram a Buenos Aires. Um motorista de táxi desapareceu com todas as malas da cantora.

 Levou tudo, deixou a Martinha apenas com a roupa do corpo numa cidade estranha, no que devia ser o dia mais feliz da vida dela. mulher que ia entregar tudo o que tinha à música, roubada logo no início, ficando só com o que vestia, como se a vida já estivesse a sussurrar-lhe ao ouvido o tipo de conta que ela ainda ia ter de pagar.

 E como se ser cantora premiada no exterior não bastasse, ela nunca largou aquilo que fazia desde os 5 anos de idade. Compor, a Martinha continuou escrever música a vida inteira e não para qualquer pessoa. As canções que saíam da caneta dela foram parar à voz de gigantes. Ângela Maria gravou Martinha, Wanderley Cardoso, Honivon, Fafá de Belém.

 E há pelos anos 80, quando o sertanejo começou a dominar o país, uma dupla que conhece bem gravou duas canções dela, Titanzinho e Chororó. Aquele romantismo que fez o Brasil chorar em festa de casamento, uma boa parte saiu da cabeça desta mulher. E não foi só o Brasil que cantou o que esta mulher escrevia.

 As músicas dela atravessaram o oceano, foram parar à voz de gente grande lá fora, como a italiana Ornela Vanoni, um dos maiores nomes da música da Itália. E ganharam versão também na França, no México, na Colômbia. Uma mineirinha de Belo Horizonte, com a obra sendo cantada em italiano, em francês, por estrelas de outros países.

 E no meio disso há uma coisa bonita que mostra como era a relação dela com o rei. Lembram-se que o Roberto Carlos gravou uma música da Martinha, pois esta retribuiu, emplacou um dos maiores êxitos da A sua carreira como cantora, precisamente interpretando uma canção sua, a última canção, um dando voz paraa obra do outro, indo e voltando, sem disputa nenhuma.

 Era isso que existia entre os dois. Respeito de artista para artista. 23 discos gravados na carreira. 3 milhões de cópias vendidas numa época em que vender discos era vender a sério, de sair de casa, ir à loja e comprar o bolachão. E para que possa medir o tamanho da fama desta mulher no auge, tem um pormenor quase demasiado simbólico.

 Para ser verdade, a Martinha era tão conhecida que fabricaram até uma boneca com o nome dela, uma boneca Martinha nas lojas pras meninas do Brasil inteiro binquerem. Só que usaram o nome dela sem pedir e a cantora teve de ir parar à justiça por causa disso. E aí já vivia uma ironia que rondava a vida dela naquele tempo.

 O nome Martinha estampado numa boneca de brinquedo espalhado por todo o canto do país. No mesmo período, este mesmo nome já começando bem devagarinho a escorregar para fora do único lugar onde ele mais importava. Então, para tudo e olha para esta mulher agora da maneira que ela estava no auge, uma compositora que criava clássicos, uma cantora premiada em Nova Iorque, aplaudida na Broadway, a produtora do primeiro Júlio Iglesias brasileiro, a proprietária de uma das maiores canções de amor que este país já cantou. Ela estava no topo do

mundo, tinha tudo, talento, reconhecimento, o carinho do rei da música brasileira, o público na palma da mão. Como é que uma mulher assim, com uma vida destas, com uma obra destas, desaparecem do lugar de destaque que ela merecia? Como é que o país que cantou a música dela mais de 4.000 vezes deixa de lembrar-se do nome que está na etiqueta? Guarda essa pergunta porque é ela que vai orientar a parte mais difícil desta noite.

 E é agora que a luz toda que a gente acabou de acender começa devagarzinho a apagar-se. Então deixa-me responder-te aquela pergunta que ficou no ar. Como é que uma mulher com uma vida destas, com uma obra destas sai do lugar de destaque que ela merecia? E a resposta é a parte mais difícil de engolir, porque não tem drama nenhum nela.

 A vida dela não teve queda espectacular, nem escândalo, nem tragédia de novela para contar. O que aconteceu foi bem mais calmo do que isso. Um silêncio que foi crescendo por baixo lentamente, ano após ano, até cobrir o nome dela por inteiro. A música dela ficou tão grande, mas tão grande, que num certo momento ela deixou de precisar da Martinha para existir.

 O país que cantava aquela canção todo o santo dia, foi pouquinho a pouquinho esquecendo-se de perguntar de quem era. E eu quero que sinta o tamanho daquilo aí no sofá, porque é uma dor que quase não tem nome. Imagina tu criares uma coisa linda, a coisa mais linda que fizeste na vida e ver essa coisa tornar-se imortal, tocar em todo o lado, atravessar 50 anos, fazer chorar pessoas em casamento, fazer casal se reconciliar, embalar uma vida inteira de gente que nunca vai conhecer.

 E imagina ao mesmo tempo ficar invisível ao lado dela, estar viva, a andar na rua, entrando no mercado e ouvir a sua própria música a sair da rádio de uma padaria. a sua, aquela que saiu de dentro de si e ver toda a gente cantando juntos, felizes, sem fazerem a mínima ideia de que a mulher que escreveu aquilo acabou de passar ao lado, empurrando um carrinho de compras.

 Esta é a solidão da Martinha, ser eterna e ser invisível na mesma canção. Este agora, ouvindo isto, lembrou-se que também já cantou essa música sem saber de quem era? Para o vídeo aqui um segundo e escreve-me nos comentários. Escreve o momento em que percebeu. Escreve. Se você, como o Brasil inteiro, também achava que aquela música tinha nascido noutra voz.

 Eu leio todos e esta noite quero muito saber de si, porque este vídeo é sobre isso, trata-se de devolver um nome a uma mulher que passou meio século a ser cantada e não sendo recordada. E aqui eu preciso ser muito claro consigo, porque é grave e é justo. Isto que aconteceu não foi maldade de ninguém. Não teve vilão nesta história.

 O nome da Martinha nunca foi apagado dos créditos. Está lá registado, documentado, oficial. Até hoje quem escreveu daria a minha vida foi Marta Vieira Figueiredo Cunha, a Martinha e nenhum artista, nunca nenhum tirou-lhe isso. Roberto Carlos, que cantou esta música e ajudou-a a voar mais alto. Sempre tratou a Martinha como amiga, como autora que é.

 O o esquecimento veio de todos nós, veio do público que se apaixonou tanto pela canção e por uma voz famosa que acabou esquecendo-se de virar o disco e ler o nome pequenino da compositora. E talvez seja por isso que dói tanto, porque não dá para apontar o dedo a ninguém. Dá só para sentir a injustiça no peito e não ter em quem descontar.

E se ainda restava alguma dúvida sobre essa amizade? O tempo tratou de responder. Lá em 2010, muitos anos depois de tudo, o Roberto Carlos chamou a Martinha para cantar ao lado dele num especial televisivo do próprio rei. Os dois no mesmo palco outra vez. Ele e a menina a que deu o nome de Quijinho de Minas.

 décadas depois cantando lado a lado como quem nunca se soltou. Dois amigos de longa data na frente do Brasil inteiro, mostrando que o que unia aqueles dois era mais forte do que qualquer holofote e mais forte do que o esquecimento que a rondava por fora. E é aqui que mora o destino cruel de quem compõe. Porque quem canta ganha o rosto, ganha o palco, ganha o aplauso, ganha a recordação da plateia.

 E quem escreve ganha uma linha de crédito que ninguém lê numa canção normal. Tudo bem, isto passa despercebido. Mas quando a voz que gravou a sua música é a maior estrela que o país já teve, a autora vira uma sombra atrás de um gigante. E o gigante nem precisou de querer isso. Ele era demasiado grande. A luz dele era demasiado forte e ninguém conseguia ver quem tava atrás.

 A Martinha ficou nesta sombra a vida inteira e aguentou com uma elegância que pouca gente teria. Porque enquanto o nome dela desaparecia da boca do povo, ela não parou. Ela continuou a compor. Continuou a entregar música paraa voz dos outros brilharem. continuou a trabalhar calada. Mas os anos foram passando, o mundo foi mudando, chegaram novas gerações que nunca ouviram o nome Martinha na vida.

 E estas gerações cantaram: “Eu daria a a minha vida da mesma forma, com a mesma emoção, sem a mínima ideia de que uma mineira de Belo Horizonte tinha sentado há mais de meio século e escrito aquilo com as suas próprias mãos. Faz uns 20 anos que ela não lança um disco novo. 20 anos de um silêncio que o mundo nem percebeu, porque a sua música nunca deixou de tocar.

 É esse o paradoxo mais triste de todos. A obra dela ficou mais viva do que a memória do nome dela. Mais de 4.000 gravações. Cinco décadas a tocar sem parar. E o nome que ali estava desde o primeiro disco escondido na etiqueta, foi ficando cada vez mais baixinho na cabeça do país. A música era dela e durante 50 anos quase ninguém parou para perguntar de quem era. Ninguém o fez por mal.

 O país só se habituou a cantar a canção sem se lembrar quem tinha escrito da maneira mais tonto e mais humano possível, porque ela era demasiado boa para caber num nome só. Mas se acha que esta é a parte mais dura da história, respira fundo, porque não é. O que a Martinha perdeu de fama, de holofote, de reconhecimento, ela sempre soube carregar com dignidade.

A verdadeira conta deste esquecimento, o preço mais pesado não chegou aos palcos, chegou ao interior de casa, chegou nos últimos anos da sua vida, de dois maneiras que ninguém viu chegar. E um deles tem a ver com aquela voz, a voz que deu ao Brasil a canção mais cantada da vida dele.

 É sobre o que aconteceu com essa voz e com uma mulher chamada Rut, que preciso de te contar agora. E é aqui que vais perceber por que é que eu te pedi lá no início para não fechar o olho antes do fim. Chegou a hora de eu contar-te o que aconteceu com aquela voz. A mesma voz que lá em 1968 foi a primeira do mundo a cantar Eu Daria a minha vida.

 Presta atenção, porque é aqui que esta história deixa de ser sobre a fama e passa a ser sobre uma mulher. Há alguns anos, a voz de A Martinha começou a falhar, e o que estava por trás era mais silencioso e mais cruel do que o simples cansaço da idade. Um problema nas cordas vocais, um líquido que se foi acumulando ali na garganta dela lentamente e foi roubando a força daquela voz pouquinho a pouquinho.

mesma garganta que deu ao Brasil. A canção de amor mais cantada da sua vida começou a não obedecer mais. Imagina o peso disso. A mulher que escreveu e cantou primeiro aquela canção. Ter que sentir a própria voz a escapar das mãos feito areia. E o mais duro foi o que esta descoberta mexeu por dentro dela. Quando os médicos falaram em talvez necessitar de operar a garganta, o que mais apavorou ​​a Martinha foi imaginar o palco longe dela.

 Foi a ideia de que uma cirurgia mal feita pudesse afastá-la dos concertos para sempre, calar a voz dela de vez. Para quem passou a vida inteira em cima de um palco, é esse o medo que gela o sangue. A mulher que deu ao país a canção mais cantada da sua vida, um pavor de que lhe arrancassem justamente o direito de cantar.

 E agora quero que imagine uma cena de verdade, porque ela aconteceu e ela é uma das coisas mais belas e mais duras desta história toda. Há alguns anos atrás, montaram um grande espectáculo em homenagem à obra da Martinha. Um teatro cheio, bilhetes esgotados, artistas conhecidos subindo ao palco para cantar as músicas que ela escreveu.

 E houve um momento em que a Wanderleia, a eterna ternurinha da Jovem Guarda, subiu e cantou precisamente eu daria a a minha vida. a música dela na voz de outra pessoa outra vez. Só que desta vez a A Martinha estava ali na mesma noite, no mesmo teatro. E sabem o que a Martinha fez naquele concerto em homenagem a ela mesma? Ela não cantou.

 Ela não conseguia mais cantar como antes da garganta. Então ela subiu só no finalzinho e no lugar de cantar ela declamou um poema, um poema para a mãe, para a dona Rut, que estava ali na plateia, já muito velhinha, olhando para a filha para um segundo e senti isso. A mulher que passou a vida sendo cantada por toda a gente, na noite em que homenageavam à obra dela, foi a única que não pôde cantar.

 E em vez de chorar por si própria, ela usou aquele instante para homenagear a mãe, a mesma mãe que lá atrás tinha calado a própria voz de cantora para criar aquela menina, as duas ali. A voz que se calou por amor na plateia e a voz que se calava agora no palco, uma olhando paraa outra. E o tempo que já tinha levado tanta coisa ainda cobrou o preço mais elevado.

 Em23, dona Hut partiu. A mãe que colocou a música dentro daquela casa, que sonhou pela filha, que ficou ao seu lado até nos palcos, tornando-se a famosa Candinha, se foi já muito velhinha, perto dos 100 anos de idade. E a Martinha ficou sem a primeira pessoa que acreditou nela, sem a mulher que trocou o seu próprio sonho pelo dela.

 Aquela gaveta onde Rute guardou a própria voz se lembra dela. Pois foi Rute quem entregou à filha tudo o que não pôde ser. E agora Rute também tinha ido embora. E aqui está o pormenor que resume toda esta vida e que é a própria Martinha quem confirma. Ela própria já disse, com toda a serenidade do mundo, que o compositor está sempre em segundo lugar, que primeiro vem o intérprete, o cantor, a voz famosa e só depois lá atrás, se sobrar espaço, vem quem escreveu. Ela sabe, ela sempre soube.

Ela viveu-o na pele durante mais de 50 anos. E mesmo sabendo, mesmo tendo pago este preço a vida toda, acha que ela amargurou-se, que ela ficou a reclamar pelos cantos, cheia de mábua do país que se esqueceu dela? Não. E é precisamente aí que esta mulher fica gigante, porque quando a voz falhou, ela mesma disse que não ia deixar que aquilo terminar com a sua vida de cantora.

 e não deixou. Hoje, aos 79 anos, a Martinha ainda está de pé, ainda compõe, ainda faz espetáculo quando a garganta o permite. E tem um pormenor sobre hoje dela que talvez seja a coisa mais bonita e mais desconcertante dessa noite toda. Uma lenda deste tamanho. mulher que foi premiada em Nova York, que pisou a Broadway, que produziu Rulho Iglesias, que escreveu uma música cantada mais de 4.000 vezes.

Hoje ela própria deixa na sua página na internet um número de contacto para quem quiser contratar, sem empresária de luxo, sem toda aquela pompa de estrela grande, uma lenda viva marcando os próprios espectáculos de igual para igual com o público. Mas não vai imaginar que ela enfrenta tudo isto sozinha.

 Quem ajuda a cuidar da carreira da Martinha é hoje um dos seus filhos, o Luciano. É ele que fica do lado da mãe, organizando as coisas, cuidando para que a lenda continue de pé e continue a cantar. E olha, depois de tanto tempo à sombra, começou a chegar um pouco de justiça para ela.

 Kelly lindo espectáculo em homenagem à sua obra o mesmo em que ela recitou o poema paraa dona Rut. Não se perdeu no ar. Virou disco, tornou-se especial de televisão. De repente, grandes artistas fazendo fila para cantar as canções da Martinha. E sendo o país lembrado de que todas aquelas canções tinham uma dona com nome e apelido: Tigou Tard.

 Esse reconhecimento chegou tarde demais para muita coisa, mas chegou e a Martinha recebeu da mesma forma que recebeu a vida inteira, de cabeça erguida, sem cobrar a ninguém a demora. E tem um gesto dela, já mais velha, que resume essa dignidade toda. Depois de 25 anos sem cantar na cidade onde tudo começou, a Martinha voltou a subir a um palco em Belo Horizonte, a mesma Belo Horizonte da menina que tocava piano aos 5 anos, da mãe que cantava na rádio, da casa que ficou só de mulheres quando o pai se foi. 25 anos depois, ela voltou

para cantar ali mesmo, onde a história dela tinha nascido. Imagina o peso e a beleza disso. A vida inteira a dar uma enorme volta, só para a trazer de novo para o comecinho de tudo, para cantar de novo para a própria terra que a viu nascer. É essa a Martinha de hoje e é sobre o que revela esta forma de viver que eu preciso de te dizer para fechar esta história.

 Repara numa coisa que talvez não tenha percebido esta noite inteira. A canção que ela escreveu chama Eu daria a minha vida. Eu daria a minha vida. Tinha pouco mais de 20 anos quando escreveu estas palavras. falando de um amor perdido. E olha o que a vida fez com esta frase, porque no fim das cultas foi exatamente isso que a A Martinha fez.

 Ela deu a sua vida, deu a vida inteira para a música. Entregou a juventude, a voz, à saúde da garganta, o nome, tudo para uma canção que o Brasil abraçou e guardou para sempre. A música ganhou a imortalidade e ela em troca ganhou o esquecimento. Ela deu a sua vida sem saber, aos 20 anos ela já tinha escrito a sua própria história inteira numa só frase.

 E agora volta comigo para aquele vinil, aquele disco preto a rodar na sala em silêncio, que eu te pedi para imaginares lá no comecinho. Aquele disco existe de verdade. Ele está aí em alguma coleção, em algum cebo, no fundo de alguma estante, empoeirada. E naquela etiqueta amarelecida pelo tempo, o seu nome continua impresso, pequenino, do jeitinho que sempre esteve.

 Marta Vieira Figueiredo Cunha. Martinha, 50 e tal anos se passaram, mais de 4000 vozes cantaram por cima. O país inteiro esqueceu e mesmo assim aquele nome nunca saiu dali. Ninguém pagou porque não é possível pagar a verdade. A música sempre foi dela, mesmo quando se esqueceram. Sempre foi. E há uma última coisa que guardei para agora, porque ela fecha tudo.

 Aquela música que começou na voz caladinha da mãe, a dona Rut, e passou para a Martinha. Ela não se ficou pela Martinha. Um dos seus filhos tornou-se músico, baterista. E é precisamente este Luciano, o filho que hoje trata da sua carreira, que segura a baqueta. Quer dizer, aquela música que Ruth guardou numa gaveta que floresceu na filha ainda está a bater, ainda está viva, correndo no sangue da família numa terceira geração, três gerações.

 Uma linha de música que o tempo não conseguiu cortar. Rut calou-se para a Martinha cantar. A Martinha ficou na sombra para a música dela se tornar eterna. E a música continua teimosa, viva, passando de mão em mão. E é por isso que esta história não tem final, não tem como ter, porque enquanto eu falo contigo agora, algures no Brasil, um rádio está ligado e daqui a pouco, numa cozinha, num carro, numa festa, alguém vai começar a cantar.

 Eu daria a minha vida para te esquecer. E essa pessoa vai cantar feliz, de olhos fechados, sem fazer a mínima ideia de que aquilo saiu das mãos de uma mineira de 79 anos, que continuou de pé, compondo, marcando os próprios espectáculos, dando a vida pela música até hoje. Mas você não, sabe agora, nunca mais vai ouvir esta música do mesmo jeito.

 E talvez seja esse o pequeno pedaço de justiça que a gente consegue devolver-lhe nessa noite. Antes de ires, faz uma coisa por mim e por ela. contam aqui em baixo nos comentários se também cantou esta música toda a vida sem saber de quem era e qual foi o momento desta história que mais apertou o seu peito. Eu fiz este vídeo a pensar em si, que chegou até aqui já tarde, cansada e mesmo assim ficou até ao fim.

 E se conhece alguém que adora esta canção, manda este vídeo para essa pessoa. Manda para quem cantou eu dar a minha vida sem nunca saber que se chama Martinha. Faz o nome dela chegar a um lugar novo esta noite. E se essa mulher te tocou, fica comigo no canal, porque a Jovem Guarda está cheia destas histórias caladas.

 Na próxima vou contar-te o que sobrou de outra voz que embalou toda uma geração e que a vida cobrou caro. Mas isso é história para outra noite. Por enquanto, quando aquela música voltar a tocar, você vai-se lembrar, a música sempre foi dela.

 

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